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Z – The Beginning of Everything: uma Zelda Fitzgerald em destaque, mas não tanto assim

Antes de ser Zelda Fitzgerald, adotando o sobrenome de seu marido F. Scott Fitzgerald – hoje considerado um dos autores mais importantes da literatura norte-americana –, Zelda foi Zelda Sayre. O que não é um detalhe irrelevante.

Os Sayre eram uma família proeminente no estado do Alabama, onde ela nasceu e se criou, e seu pai foi juiz na Suprema Corte daquele estado. Zelda foi uma garota bastante notória em Montgomery. Ela era extremamente sociável e não tão infrequentemente assim buscava quebrar algumas convenções sociais, o que terminava, é claro, no falatório alheio. O que a tornou conhecida para além de Montgomery, no entanto, foi Scott. O primeiro livro dele, Este Lado do Paraíso, logo se tornou um best-seller no começo da década de 20, quando o casal Fitzgerald ainda era muito jovem. Os dois foram alçados ao status de celebridade e, vivendo na efervescente Manhattan dos Roaring Twenties, protagonizaram muitas cenas excêntricas e exageradas regadas a (muito) álcool que os tornavam interessantes ao mesmo tempo em que os expulsavam de hotéis e, no âmbito pessoal, geravam brigas sem fim. Conturbado parece ser um bom adjetivo para descrever os vinte anos do casamento dos Fitzgerald. Essa característica também foi responsável por torná-los um dos mais famosos e discutidos casais do meio artístico.

Depois do período da bonança, veio a chuva. Fitzgerald sempre escreveu muito, e muito obsessivamente, mas não tinha grande apreço pelas centenas de contos que publicou ao longo da vida – não é difícil concluir que eles existiam mais pelo dinheiro do que por inclinações artísticas. Enquanto isso, tentava trabalhar em seus romances; nenhum deles realmente alcançou o nível de sucesso de Este Lado do Paraíso. Os Fitzgerald se mudaram uma porção de vezes e, enquanto isso, Zelda buscava desenvolver uma aspiração própria: ela foi bailarina, ela escreveu, ela pintou. Os escritos de Zelda são muito reduzidos: além de seu único romance, Esta Valsa é Minha, há uma dúzia de contos e outra de artigos. Muito do que ela escreveu foi publicado sob o nome de Scott; ele também usava trechos de suas cartas e diários em seus próprios livros, o que era, na verdade, simples plágio. O romance dela foi grande fonte de discórdia entre os dois. Zelda escrevera o seu em poucas semanas, enquanto ele vinha há anos trabalhando no que viria a ser Suave é a Noite. Os dois romances ficcionalizavam em alguma medida o próprio casamento; Scott não gostara que ela usasse aspectos nos quais ele mesmo estava trabalhando. Se o romance veio a ser publicado, com o aval e a ajuda do próprio Scott, isso não aconteceu sem que ele antes trabalhasse em revisões significativas dele.

Esse tipo de controle sobre a arte que a esposa produzia fez com que Scott fosse muito mal visto por muita gente: ele era um marido controlador que impediu que as aspirações artísticas de Zelda se concretizassem. Ao mesmo tempo, não falta quem afirme que foi Zelda, com sua personalidade extravagante e, mais tarde, com suas muitas entradas e saídas de hospitais psiquiátricos, que impediu que Scott realmente pudesse ter sido o escritor genial que prometera ser quando publicou seu debut. Figuras fascinantes porque foram do topo do mundo a finais igualmente trágicos – ambos morreram na casa dos quarenta anos, Scott depois de décadas convivendo com o alcoolismo (suas cartas mostram que ele tentava parar de beber quando faleceu) e com o estresse constante, Zelda em um incêndio quando estava internada –, os Fitzgerald se tornaram figuras tão interessantes quanto sua própria obra, que foi redescoberta (O Grande Gatsby é hoje considerado um dos maiores romances da literatura americana – à época de seu lançamento, vendeu pouco e não foi muito bem recebido).

Os verdadeiros Zelda e Scott Fitzgerald, em 1921.

Hoje, não faltam escritos, biografias e adaptações sobre os dois – nem planos para que eles continuem firmes e fortes no imaginário popular. Foi seguindo essa linha que a americana Therese Anne Fowler lançou, em 2013, Z: A Novel for Zelda FitzgeraldZ transforma os Fitzgerald em personagens, partindo de fatos estabelecidos sobre o casal – e também de alguns rumores não tão facilmente confirmáveis, como o caso de Zelda com um piloto francês – para escrever um romance (e não uma biografia). Fowler dá voz à própria Zelda, que é quem conta toda a história de uma maneira bastante direta e simples, num tom difícil de ser comprado por alguém que tenha tido contato com o jeito muito estilizado que ela utilizava até mesmo  para escrever sua correspondência particular.

Ainda assim, conforme a narrativa avança, os anos passam e o casamento dos Fitzgerald vai se tornando cada vez mais apenas uma sombra do que um dia fora; a voz narrativa ganha mais força, tornando-se mais introspectiva e reflexiva e, por consequência, tornando a leitura – que por vezes chega a parecer uma mera exposição pouco orgânica de uma longa pesquisa – muito mais interessante. Fowler acerta ao dar a Zelda uma voz pouco conformista – algo esperado de alguém que, enquanto flapper, confrontava certas convenções sociais tão ativamente –, mas que, ainda assim, hesita em se considerar feminista – era a década de 1920, afinal. A autora também constrói um casamento difícil, conturbado, exaustivo; um Scott Fitzgerald controlador, egocêntrico e por vezes profundamente egoísta, mas sem demonizá-lo – ele também é assombrado pelos próprios demônios. Não era uma situação boa, fácil ou simples, mas a correspondência trocada pelo próprio casal e organizada por Jackson R. Bryer Cathy W. Barks em Querido Scott, Querida Zelda deixa claro que havia carinho de ambas as partes até o fim. Fowler também consegue trazer toda a complexidade que existiu naquele casamento para dentro de seu romance, que se tornou um best-seller.

Devido ao sucesso do romance, menos de quatro anos após sua publicação, ele foi transformado em série pelo serviço de streaming da Amazon, o Prime, por Dawn Prestwich Nicole Yorkin. Assim como o romance, seu foco é em Zelda, transformando, como raramente acontece, Scott no coadjuvante da história. Como indicado o subtítulo dado à série, The Beginning of Everything, ela não conta apenas a história de Zelda Fitzgerald, mas também a de Zelda Sayre. Só que apenas diretamente antes de Scott aparecer em sua vida. Aliás, até mesmo o nome vem dele, em uma das frases mais romantizadas dentre todas as que Fitzgerald escreveu: “I love her, and that’s the beginning and end of everything” [Eu a amo, e isso é o começo e o fim de tudo]. O começo de tudo, nesse caso, parece ser ele, e é uma oportunidade perdida de explorar um pouco mais da juventude tão movimentada que ela parece ter tido.

A primeira temporada retrata o começo do relacionamento, do flerte inicial nos bailes públicos ao relacionamento por meio das cartas que tanto precisaram trocar ao longo de suas curtas vidas, tendo passado tanto tempo separados, e, enfim, os primeiros tempos de seu casamento. É a parte mais palatável da história, do enorme encantamento e do sucesso, quando ainda parecia aos dois que eles estavam no topo do mundo. Mesmo nessa época, no entanto, havia muito por baixo da superfície dourada que era seu casamento e o sucesso profissional de Scott na esfera pública.

Aviso: este texto contém spoilers!

O primeiro episódio da série começa com o último lampejo de vida de Zelda. Em meio a um cenário destruído por um incêndio, a câmera focaliza em um pequeno sapato cor-de-rosa e um bombeiro o retirando dos escombros. A câmera, então, se afasta e vemos um corpo escondido por um lençol amarelo em meio ao cenário de destruição. Embora os conhecedores da vida de Zelda saibam (e você que leu até aqui sabe também!) que é ela que está ali, sob o lençol, a série não se apressa a chegar nesse ponto da história. A Zelda que conhecemos após esse rápido lampejo de futuro, interpretada por Christina Ricci, é a jovem e esfuziante filha de um juiz em Montgomery, Alabama; uma moça acostumada a quebrar regras e paradigmas e a fazer aquilo que tiver que fazer para se satisfazer e divertir. Logo de início vemos exatamente isso: a jovem Zelda mergulhando, nua, em um lago, espantando suas amigas no processo.

“As coisas perdidas são as mais doces. Eu sei porque uma vez eu quis algo e consegui.
A única coisa que eu quis tanto assim. E quando consegui, virou pó em minhas mãos.”

Todo construído em cima das expectativas do que o grande público já conhece, o relacionamento entre Zelda e Scott, o episódio que dá início a Z: The Beginning of Everything, parece se preocupar muito mais em trabalhar em cima do que está por vir do que em construir a personalidade e história de Zelda antes de Scott Fitzgerald (David Hoflin) aparecer. Embora os episódios sejam curtinhos, e isso talvez justifique o tom acelerado dos acontecimentos, Dawn Prestwich e Nicole Yorkin não perdem muito tempo acimentando a personalidade de Zelda: o que descobrimos logo de cara é que ela é uma jovem que gosta de festas, de flertar com os soldados que estão de passagem por Montgomery e de desafiar os valores familiares tão caros ao seu pai, o juiz Anthony Sayre (David Strathairn). Os grandes sonhos e anseios de Zelda não cabem na pequena e pacata Montgomery, o que causa um sem número de atritos com seu pai e sua mentalidade arcaica – são os anos 1920, afinal de contas, e os ventos estão mudando, mas não necessariamente para todos. Não por acaso, no terceiro episódio da série, Zelda e suas amigas parecem muito entediadas com a vida pacata que Montgomery volta a dar a elas depois do armistício, levando-as a comentar que sentem saudades da guerra. Para elas, a guerra significava agitação e a fuga do marasmo ao trazer um sem fim de soldados para os bailes da cidade. 

E é em uma dessas festas, em que Zelda é o centro das atenções, que ela e Scott se veem pela primeira vez: enquanto a jovem Zelda performa uma dança inspirada, seus olhares se cruzam e o resto é história. O encantamento entre os dois é praticamente instantâneo, e isso exemplifica bem todo o relacionamento que o casal constrói durantes as décadas em que ficaram juntos: não é um romance de contos de fadas e final feliz, mas um relacionamento intenso em que Scott parece muito mais dependente de Zelda do que gostaria de admitir e ambos se encontram presos em um sentimento tóxico e pouco saudável. Sim, Zelda e Scott se amam, e isso fica evidente em diferentes cenas no decorrer da primeira temporada da série, mas nenhum dos dois sabe lidar com todo o sentimento e a pressão que sentem – Scott, que se cobra a escrever um livro que se torne o “grande romance norte-americano”, e Zelda, que não consegue lidar com os períodos de letargia que envolve sua vida, principalmente quando Scott se fecha em seu próprio mundo para escrever e a deixa a deriva. Ao mesmo tempo, num dos momentos mais obsessivos de Scott em relação à carreira que não se desenvolve como ele gostaria, Zelda percebe ter assumido uma responsabilidade pelo homem com quem se casou. Ela passa boa parte da temporada incentivando-o incansavelmente enquanto ele, quase sempre muito alcoolizado, não consegue aproveitar nenhuma das oportunidades que a vida oferece.

O romance entre Zelda e Scott se desenvolve em ritmo acelerado: de partida para guerra, Scott implora que Zelda se case com ele, mas a moça não cai no conto do tenente. Ela quer que Scott, primeiro, consiga publicar seu livro para só então se tornar sua esposa. Embora não tenha aceitado o pedido feito por Fitzgerald, Zelda escreve muitas cartas para Scott – cartas essas que, inclusive, acabam por ser, de alguma maneira, inseridas no romance de estreia do autor, Este Lado do Paraíso. Em um primeiro momento Zelda se sente encantada e lisonjeada com a ideia de Scott inserir trechos de suas cartas e diário nos livros, mas esse sentimento, como poderemos acompanhar nos episódios da série, não dura para sempre. Este Lado do Paraíso, com trechos de Zelda, é o romance de estreia que alça Scott Fitzgerald ao estrelato, resultando no segundo pedido de casamento à Zelda e na mudança da moça para a agitada Manhattan.

Esse momento de transição – a saída da pacata Montgomery para a agitada Manhattan – marca quase um renascimento para Zelda e seu modo de encarar a vida. As diferenças entre as duas cidades ficam muito evidentes nos tons das cores utilizados pelos diretores e nos jogos de luzes dos cenários: a sempre verde, solar e ampla Montgomery agora dá espaço a uma Manhattan quase claustrofóbica em que as festas lotadas regadas a muita bebida alcoólica parece ser tudo o que há no futuro do casal. Essa transição também pode ser vista como uma metáfora para essa nova etapa na vida de Zelda: enquanto em Montgomery ela podia ser sua própria pessoa, mesmo com as críticas do pai ao seu comportamento liberal, em Manhattan Zelda está atada ao destino de Scott e precisa aprender a lidar com as oscilações de humor do marido e seus rompantes enlouquecidos quando abusa da bebida.

Os primeiros anos do casamento entre Zelda e Scott são intensos. Em uma cerimônia quase que feita às pressas, Zelda aceita se casar em uma sacristia e sem a presença de seus pais apenas para cair em uma festa de comemoração em que o foco é Scott e seus amigos: o brinde aos noivos não é a Scott e Zelda, é a Scott e sua “linda noiva”. Recém chegada na cidade e sem conhecer ninguém na festa – a não ser suas irmãs, Tootsie Sayre Smith (Jamie Anne Allman) e Tilde Sayre Palmer (Holly Curran), suas únicas familiares presentes no enlace do novo casal Fitzgerald – Zelda se sente um pouco perdida e sem lugar. Mesmo acostumada a festas e bebidas, nada do que ela vivenciou em Montgomery a prepararia para a intensidade que Manhattan podia dar às coisas. E em um rompante que misturava raiva e ousadia, o jeito que Zelda encontra para dispersar todos aqueles desconhecidos e fazer o dia de seu casamento voltar a ser dela, é tirando a roupa e chamando a atenção para si. É um pouco triste pensar que Zelda teve que recorrer a um estratagema para conseguir fazer de seu dia especial seu, principalmente se levarmos em consideração o egoísmo sem limites de Scott – um ponto de sua personalidade que aparece com cada vez mais ênfase no decorrer dos episódios.

O relacionamento entre Zelda e Scott é sempre regado a muitos momentos impulsivos: Scott é ciumento, egoísta e possessivo e limita os avanços de Zelda. Quando ela começa a engatar em uma carreira de atriz, por exemplo, Scott (cuja própria carreira não deslanchava) a poda; quando seu editor Max Perkins (Jim True-Frost) se entusiasma com os escritos de Zelda e sugere publicá-los, Scott surta diante da ideia de perder o material exclusivo a que tem acesso e recorta para utilizar em seus próprios romances (será que o senhor Fitzgerald não sabia o que era plágio?). Ao mesmo tempo em que diz amar Zelda, a impressão que fica é a de que Scott não consegue conceber a ideia de perdê-la ou ter que abrir mão dela, nem que seja na forma de seus escritos. E é toda essa obsessão e cabo de guerra em que vivem que os fará definhar no futuro.

Nesse cabo de guerra, a série é abertamente #TeamZelda. É uma perspectiva que chega como um sopro de novidade, já que foi Scott o imortalizado: é ele quem é lido por todos os estudantes de ensino médio norte-americanos, é a visão dele e as palavras dele que se tornaram parte do cânone da literatura, confirmando aquele sonho muito pretensioso que ele nunca viu realizado em vida. Entretanto, o roteiro peca ao construir um Scott Fitzgerald unidimensional: tão completamente egoísta, insensível, possessivo e francamente insuportável, sem dar a ele qualquer qualidade redentora, a ponto de ser difícil entender por que essa mesma Zelda afirmaria a ele, depois de todos os tempos mais difíceis que estavam por vir, que, apesar de tudo, juntos foram “felizes para sempre, da melhor maneira que deu”. Mesmo quando a série tenta alguns momentos de redenção, como faz em sua boa season finale, acaba soando falso demais para funcionar, e qualquer reconexão entre os dois – quando como ficam igualmente ultrajados com a mentalidade atrasada de um homem que questiona o uso de calças por parte de uma mulher – parece impossível. O destino que os aguarda parece sempre ser nada mais que um fardo. Ao forçar a mão para nos fazer torcer por Zelda – quando isso provavelmente aconteceria de modo natural – e talvez evitar que esse relacionamento seja mais uma vez romantizado como muitas vezes já foi, Z acaba abrindo mão de toda a complexidade de relacionamento que os Fitzgerald tiveram, escolhendo uma versão com zero nuances e dramaticamente muito menos interessante.

A série também peca ao percebermos que, mesmo se baseando em uma história que tem por protagonista a própria Zelda, a trama só se desenvolve de fato quando Scott Fitzgerald aparece, o que pode ser considerado uma falha, visto que seria incrivelmente interessante construir uma base mais sólida para Zelda, deixando-a ser sua própria pessoa antes de ser a obsessão do escritor. Até porque, no ritmo irregular apresentado por seus dez episódios, são justamente aqueles que se passam no Sul, antes do casamento, os mais cativantes. Embora a série tenha seus problemas, Z: The Beginning of Everything cumpre sua função de entreter pelos pouco mais de 20 minutos de duração de cada episódio. A história de vida dos Fitzgerald – ainda que dramática e regada a excessos – é muito rica e cativante: é fácil torcer por Zelda e seu sucesso no amor e na vida literária, e é uma pena que a construção equivocada de Scott não nos faça ter por ele o mesmo apreço.

Texto escrito em parceria por Fernanda e Thay.

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