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You’re the Worst, e eu também

You’re the Worst é uma série de comédia que mostra que tá todo mundo na merda” foi o comentário que um dia eu deixei no Banco de Séries, também conhecido como meu site favorito. Grande parte disso é verdade, a outra parte diz mais sobre como You’re the Worst é uma série sobre o que é ser humano, e como o ser humano pode ser uma merda.

Jimmy Shive-Overly (Chris Geere) é um escritor inglês que tenta lidar com suas frustrações e escrever um novo livro. Gretchen Cutler (Aya Cash) é uma relações públicas que faz escolhas duvidosas. Edgar Quintero (Desmin Borges) é um ex-veterano da guerra do Iraque, roommate (companheiro de quarto) e amigo de Jimmy. Lindsay Jillian (Kether Donohue) é a melhor amiga de Gretchen, que casou com um nerd por dinheiro. Não é difícil de enxergar o quanto o negócio poderia ser horrível, a premissa não parecia boa, e pra quem vê de fora a série é tudo o que há de mais trash no mundo das comédias clássicas. Pra mim, não poderia ficar melhor. Criada por Stephen Falk, a dramédia da FX (mais tarde FXX) chegou sem pretensão, e conquistou não muitos, mas um punhado muito fiel de fãs. You’re the Worst  gira em torno de duas péssimas pessoas, tóxicas, autodestrutivas, que acabam se apaixonando uma pela outra e decidem investir num relacionamento que tem tudo pra dar errado. Além da principal, a série ainda conta com a trama adjacente, aquela que envolve seus sideckicks (companheiros) pessoais, seus amigos que, hoje, em sua terceira temporada, tem tanta importância quando os personagens principais.

Particularmente, se estivéssemos conversando frente a frente agora, eu diria que fãs de Veep (HBO), It’s Always Sunny in Philadelphia ou Louie tem mais chances de curtir a série porque You’re the Worst, assim como a grande maioria das séries da FX, não chegou para dar lição de moral. Muito pelo contrário, ela nem tenta. Os diálogos são, por vezes, ridículos, assim como certas cenas e situações; e seus personagens, à primeira vista, soam insolentes e repulsivos, e não divertidos como o esperado. Temos já, e acima de tudo, o inegável abismo entre You’re the Worst e a grande maioria das comédias populares: nenhum dos personagens tenta sair como agradável, divertido ou amoroso. A antipatia, os erros, as falas tortuosas, os sentimentos ambíguos ou ruins – tudo isso é abraçado e celebrado. Nada é abafado, nada passa batido em prol de uma melhor imagem para o telespectador. E como não somos acostumados a isso – essa humanidade crua – há quem estranhe e, não temo em dizer, há quem odeie. De qualquer forma, é pertinente relembrar que habitualmente assistimos a personagens de séries como Friends, How I Met Your Mother ou Modern Family sendo explicitamente ruins ou maldosos, mas os ocorridos comumente caem no esquecimento porque algo engraçado aconteceu logo depois, ou porque o personagem conta tudo de forma divertida, ou porque há uma laugh track (risadas) no fundo. Não somos acostumados a lidar com personagens moralmente descompassados porque, sejamos sinceros, muitos escritores simplesmente não sabem como escrever isso. Aí temos um número considerável de Mosbys, Stinsons, Tribbianis ou Gellers na TV, jurando que fizeram por uma boa razão ou que são, no geral, coisa boa, quando seriam mais interessantes se aceitassem que não são. E assim seguimos.

Não há I’ll be there for you (eu estarei lá para você) em You’re the Worst: na música da abertura, a banda Slothrust canta “I’m gonna leave you anyway” (eu vou deixar de você de qualquer forma), ditando o tom do que poderia ser um antiromcom – uma comédia romântica às avessas. Se em comédias normais, ou até mesmo dramas, a história se desenvolve até chegar num relacionamento, até finalmente “dar certo”, aqui temos o inverso. A largada é dada com o relacionamento, o caminho percorrido por eles é a história a ser contada. Mesmo convencidos de que aquilo não vai dar certo, eles tentam, e para não cair no clichê que tanto temem, Gretchen e Jimmy embalam seu relacionamento com muita bebida, drogas, e péssimas escolhas.

Essa opção  — escrever algo que já começou, e não o vai-não-vai clássico — do criador da série é uma lembrança sobre o quanto a televisão peca com a temática. E isso vem de uma pessoa que chora toda vez que assiste Orgulho e Preconceito ou lembra de Little Grey (Chyler Leigh) de Grey’s Anatomy chorando sofrida sobre o quanto ama Mark Sloan (Eric Dane). O antes de um relacionamento pode sim dar uma boa história, mas há uma dificuldade em escrever o depois. Nada dura pra sempre, ninguém é obrigado a investir em algo fadado ao fracasso, mas, pelo amor da deusa, tentem. Escritores, tentem. Esperar temporadas por um casal “acontecer”, para sete episódios depois terminar, demonstra que há uma incapacidade dos escritores em escrever tramas que envolvem casais sendo felizes ou passando perrengue juntos, resolvendo merdas juntos. As coisas acabam com uma carta deixada na mesa, uma traição, uma falta de comunicação que, mesmo antes do relacionamento, nunca esteve lá. Relacionamentos podem fluir se ambos tentarem. E, acreditem, Hollywoodianos, às vezes é mais interessante tentar escrever duas pessoas tentando fazer dar certo do que aquele chove não molha do correndo-atrás-do-mesmo-amor-durante-8-temporadas. (Por sinal, todo mundo já sabe que o que é endgame* é endgame e pronto). Essa maneira de escrita, entre outras escolhas feitas pelo criador, não subestima a inteligência do telespectador.

Contudo, a qualidade da série que merece maior enaltecimento é sua capacidade em nos agraciar com plots naturais de maneiras naturais, criando elos relacionáveis entre o personagem e a gente daqui de fora. Na segunda temporada, em um dos melhores arcos que eu já tive o prazer de assistir, acompanhamos Gretchen Cutler lidando com a sua longa companheira de estrada: a depressão.

Se em um momento Gretchen é a personagem que sente e fala tudo ao mesmo tempo, sempre pronta pra entrar na próxima furada que a vida lhe proporciona, no momento seguinte — mas não mal desenvolvido — Gretchen faz tudo isso enquanto caí em um abismo apático, pouco charmoso e nada romântico que só quem já vislumbrou a doença consegue entender. Enquanto isso Jimmy tenta, frustradamente, recriar tudo aquilo que Gretchen ama, buscando a qualquer custo que ela fique bem. Não dá certo, claro, mas assistir a algo autêntico como todo o plot foi é um suspiro de alívio em meio a tanto plots neuroatípicos mal trabalhados na TV.  A naturalidade com que o assunto é tratado no decorrer de toda uma temporada, e não só em um episódio com carga emocional elevada, me acertou tão precisamente que eu não recordo chorar tanto com qualquer outro arco que eu já assisti em comédias e dramédias e até mesmo dramas no geral.

Seguindo pelo mesmo caminho, na temporada seguinte, a última que foi ao ar, assistimos à difícil jornada de uma pessoa que sofre com estresse pós-traumático (PTSD), aqui apresentada por Edgar Quintero. Após lutar na guerra e voltar para o país, Edgar precisa lidar com tudo o que sua cabeça não o deixa esquecer e o faz na base de muitos medicamentos, que parecem não funcionar no seu caso, além de prejudicar outros aspectos da sua vida. Irritado com a disfunção que os fármacos lhe causam – incluindo um necessário e verdadeiro papo sobre como esses medicamentos podem afetar a libido de alguém –, Edgar decide largar o tratamento por conta própria. Em um episódio totalmente focado no personagem, e fragmentado com aparições de episódios anteriores, conseguimos, mais uma vez, assistir algo difícil e delicado ser retratado na televisão.

Não fosse tudo isso o suficiente, You’re the Worst é recheada com referências da cultura pop. Desde filmes do John Hughes, até a banda The Smiths, passando por Game of Thrones, Lena Dunham e até mesmo Rei Leão. A série é meticulosa e traz para os seus diálogos referências que nós, da vida real, poderíamos usar — e muitas vezes usamos! — o tempo todo.

No mais, em especial nessa terceira temporada, temos na série uma genuína representação do quanto certas atitudes para nós normalizadas podem ser uma experiência nem tão positiva para a pessoa que está do nosso lado. Mesmo que por vezes mascarado com situações grotescas, a série cumpre o seu papel tocando em assuntos pertinentes e sutis: depressão, luto, aborto, relacionamentos que não dão certo, desespero, frustração, egoísmo… Assistir às diversas perspectivas dos personagens de You’re the Worst demonstra que nem tudo é simples, preto no branco, fácil de lidar. E a beleza da vida recai aí. Afinal, nem todo mundo é ruim, muito menos perfeito, às vezes fazemos merda, passamos por merda, lidamos com merda. Precisamos de mais séries que sem delongas aceitem e falem disso.

Assistam You’re the Worst.

* Endgame: casal que fica junto no final da série.

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4 Comentários

  • Responda
    luciana*
    13 de dezembro de 2016 at 10:52

    Eu amei as duas primeiras temporadas de You’re the Worst, mas a terceira temporada foi grotesca parecia que eu estava assistindo a um seriado completamente novo e de mau gosto. Perderam a mão.

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      Ana Vieira
      13 de dezembro de 2016 at 13:03

      Eu não gostei do plot da Lindsay, acho que ela tá pior do que nunca e meio insuportável, apesar do final ter dado um tico de esperança. Também não curti muito o Vernon e o Paul. Mas o plot do Edgar e da Gretch/Chris eu adorei. O final me destruiu. 🙁

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        Thaís Medeiros
        17 de dezembro de 2016 at 18:05

        Compartilho do mesmo sentimento. Amei as duas primeiras temporadas, mas não sei muito bem o que dizer. Achei que alguns momentos pareciam forçados para dizer “olha só como essas pessoas são horríveis”. Não curti nenhum pouco os plots do Vernon e Paul e a Lindsay me divide, porque acho que até tinha uma discussão interessante ali, mas que ficou um pouco perdida pelo exagero. Ainda assim, fico empolgada pelas possibilidades que se abrem pra ela na próxima temporada. E, apesar de todas essas críticas, amei muito tudo o que vimos sobre Gretchen, Jimmy (embora eu queira matá-lo no momento) e especialmente o Edgar, o episódio sobre ele pra mim é de longe o melhor da temporada.
        De todo modo, ainda acho que You’re The Worst é uma série que merece mais destaque e amei o texto, Ana!

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          Ana Vieira
          15 de julho de 2017 at 15:40

          Thaís! Acabei lendo esse comentário só agora! Muito obrigada. ♥ Fico feliz em saber. Mal posso esperar pela próxima temporada pra ver o que vai desenrolar de tudo o que aconteceu ali.

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