TV

You Me Her: bissexualidade, poliamor e um final feliz

Quando eu ouvi falar de You Me Her pela primeira vez, fiquei empolgada. Dez minutos depois, minha reação mudou para preocupação. Afinal, You Me Her é uma série sobre uma relação poliamorosa com duas protagonistas bissexuais – e eu já me decepcionei vezes demais com a representação de relações não-monogâmicas e de personagens bissexuais em séries e filmes.

Relações que saem do molde monogâmico costumam ser representadas de duas formas, dependendo do contexto: alívio cômico, como no caso de Faking It; ou intensas, dramáticas e muito sexualizadas, como nos filmes Vicky Cristina Barcelona, E Sua Mãe Também, Os Sonhadores ou The Doom Generation, por exemplo. Nas duas situações, costumam ser vistas como danadas ao fracasso, uma tentativa que terá resultados trágicos ou que levará dois personagens a correr de volta para a monogamia.

No que diz respeito à representação de mulheres bissexuais, então, temos uma série de outros problemas: personagens mulheres bissexuais ou lésbicas são frequentemente assassinadas em séries de TV, a ponto de existir uma trope, “Bury your Gays” [“Enterre os Gays”], que se refere especificamente à morte de personagens LGBT em narrativas; o relatório “Where Are We On TV” de 2015-2016 da organização GLAAD apontou que bissexuais costumam ser representados como manipuladores, mentirosos, traidores e autodestrutivos; além disso, muitas personagens femininas que até então eram retratadas como heterossexuais são colocadas em situações sexuais com outras mulheres para causar escândalo do público (fetichizando relacionamentos entre mulheres) e têm sua possível bissexualidade rapidamente descartada e ignorada pelo resto da série.

É, então, justificado que eu tenha dado play na primeira temporada de You Me Her, recentemente disponibilizada na Netflix, com certa apreensão. Afinal, a premissa – um homem e uma mulher casados, se sentindo desestimulados em seu relacionamento, procuram os serviços de uma acompanhante – parecia sustentar muito dos meus medos. Felizmente, no entanto, You Me Her é uma série que supera muito sua premissa ruim (surpresa boa que tive também recentemente com duas outras séries, Lovesick e Crazy Ex-Girlfriend, o que não vem ao caso mas serve de dica caso alguém se interesse). Em vez de ser uma série sobre traição, desconfiança, um relacionamento escandaloso, cheia de cenas gratuitas de sexo, You Me Her é praticamente uma comédia romântica – a primeira temporada (e lá vem spoiler) até termina com Jack (Greg Poehlere Emma (Rachel Blanchard), o casal casado, indo atrás de Izzy (Priscilla Faia), a acompanhante, em um aeroporto, um gesto romântico cinematográfico clássico.

Na verdade, corrijo: além de ser uma série sobre traição, desconfiança, um relacionamento escandaloso, cheia de cenas (não tão) gratuitas de sexo. Porque You Me Her também não sanitiza as realidades do relacionamento, nem opta por funcionar em um universo hiper-liberal, livre de preconceitos. É uma representação romântica, leve e realista de um casal se dando conta de que o molde que eles aprenderam, e que até ali funcionou bem, não estava mais servindo; de três pessoas tateando e encontrando o caminho em uma situação para a qual não têm modelo, que é malvista, julgada e ridicularizada, por seus amigos e família (por exemplo: o irmão de Jack, catalisador dos acontecimentos ao sugerir, no primeiro episódio, que Jack busque os serviços de uma acompanhante sem contar para Emma, deixa claro que, agora que não é uma traição, e sim um relacionamento estabelecido e honesto, ele não quer que Jack e Emma, muito menos Izzy, tenham contato com seus filhos).

Entre tudo isso, o que mais marcou, entretanto, foi a jornada de Emma. Emma e Jack são um casal apaixonado, que se apoia e se entende, que se deseja e que quer estar junto a ponto de buscar soluções e transformações para o que não parece estar dando certo. Mesmo assim, até começar a se envolver com Izzy, Emma nunca tinha contado para Jack que tinha se relacionado com mulheres quando era mais jovem. Não só nunca tinha contado para Jack, como nunca tinha considerado importante para si mesma – pelo que podemos entender ao longo da primeira temporada, Emma tinha acreditado na narrativa dominante de que bissexuais são só indecisos, que os relacionamentos dela com mulheres tinham sido “experimentos”, ou “aventuras”, e que o que contava, o que a determinava como certamente heterossexual, era estar casada com Jack, originalmente de forma monogâmica. Mas, ao se permitir transformar uma relação e, mais ainda, as formas de comunicação necessárias para uma relação não-monogâmica, Emma explora sua bissexualidade muito além do relacionamento com Izzy: não é uma exceção, uma paixão repentina que desmorona tudo que ela acreditava como verdade; é um acontecimento que, mais madura, em uma relação que depende de honestidade e combinados e exploração, permite que ela reveja o passado com novos olhos, que aceite a continuidade entre quem ela foi e quem ela é.

É raro que a televisão deixe personagens bissexuais serem completos, confiáveis e felizes. Raro também que permita que um relacionamento poliamoroso se sustente sem tragédia, sem corações despedaçados. Mas, em sua primeira temporada, You Me Her conquistou minha confiança e se mostrou uma raridade narrativa – que espero que, com o tempo, se torne cada vez menos rara.

Posts Relacionados

Comentários

Deixe um Comentário