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Xica ou Chica da Silva: o estereótipo da negra quente e sedutora

Há 21 anos, em setembro de 1996, estreava a primeira telenovela com protagonista negra da história do Brasil. A história de Xica da Silva, interpretada pela maravilhosa Taís Araújo, misturava ficção e realidade para contar a trajetória de Francisca da Silva de Oliveira, mulher que saiu da condição escravizada ao se casar, no século XVIII, com um nobre contratador do interior de Minas Gerais. A produção exibida pela Rede Manchete não foi a primeira a ter Francisca/ Xica/ Chica como foco. Figura mítica por ter conseguido ascender à alta sociedade, a ex-escravizada já havia sido tema de livros e de um filme estrelado por Zezé Motta nos anos 1970.

Na trama da telenovela, Xica é uma jovem muito esperta e sensual que coloca aos seus pés todos os homens à sua volta usando o sexo e a malandragem como moedas de troca. Na pele de Taís Araújo, a personagem é bonita, vingativa e curte a boa e velha ostentação, fazendo com que seu querido contratador compre coisas absurdas e dê ordens abusivas para que sua amada possa se vingar da sociedade branca que a oprimiu. Focada na sedução de Xica, nas barreiras que o casal inter-racial enfrentou e nas vinganças da escravizada que virou rainha, a novela finda seus capítulos no famigerado final feliz, quando a personagem e o contratador João Fernandes (Victor Wagner) ficam definitivamente juntos após escaparem das tramoias de Violante (Drica Moraes).

Em sua exibição televisiva, a história contou com um grande foco no erotismo, inúmeras cenas de nudez, estupro e violência em cenas fortes, principalmente envolvendo corpos negros. Vendendo o estereótipo da negra quente e sedutora, a trajetória forte é considerada um dos maiores êxitos da TV brasileira e já foi exibida em quase 20 países, incluindo Estados Unidos e Rússia, atraindo olhos à cenografia do Brasil e ao trabalho de Taís Araújo.

Transformando Xica – melhor chamada de Chica em adaptações mais atualizadas do mito – em um estereótipo de negra quente e sedutora, a novela seguiu o caminho das histórias que até então eram contadas sobre a escravizada que virou rainha em livros e no imaginário popular. A história sobre ela contada por homens brancos tentou desqualifica-la, transforma-la em prostituta, pinta-la como figura ardilosa e transformar o sexo em seu único atrativo. Mulata sensual – que a definição do português racista aproxima de uma mula, desumanizando filhos de negros e brancos, aproximando-(n)os mais de frutos do cruzamento entre uma égua e um jumento, que de homo sapiens como quaisquer outros -, afinal, por que um integrante da mais alta classe social se apaixonaria por uma mulher desse tipo senão por ter sido enfeitiçado na cama?

O que a história da novela não conta é que Chica, fruto de abuso sexual de um senhor de escravos contra uma escravizada, já nasceu sendo obrigada a demonstrar força além da conta. Apesar disso, teve sim uma história de amor inter-racial – que não era assim tão incomum na época – com o contratador João Fernandes, com quem viveu por 17 anos e teve 13 filhos. O relacionamento, que só se rompeu a partir da morte do nobre, foi muito além das supostas tramas de sedução e vingança e desembolou na constituição de uma família a qual coube a Chica administrar durante as viagens e após o falecimento de seu marido.

A narrativa da telenovela, que para na velha história do final feliz de um casal que enfrenta preconceitos para manter o próprio relacionamento, transforma a inteligência e tino para os negócios de Chica, na malandragem e esperteza – e, claro, crueldade e agressividade – estereotipadas de Xica. Além de ignorar a frutífera administração da ex-escravizada em relação aos bens da família e a destreza de raciocínio utilizada por essa figura histórica ao se inserir em diversas camadas da sociedade – em diálogo com brancos, negros e mestiços.

Para reparar danos históricos à imagem dessa mulher que marcou época, novas iniciativas tentam recontar a trajetória de Chica, não mais de Xica. É o caso do documentário A Rainha das Américas – A Verdadeira História de Chica da Silva, com direção de Zezé Motta, em fase de produção. A partir do olhar de uma mulher também negra, que inclusive foi a primeira a encarnar a personagem nas telas, o filme promete proporcionar uma visão mais real e humanizada do mito da escravizada que virou rainha. A expectativa é que o longa documental seja um martelinho na desconstrução da Xica estereotipada e, em consequência, contribua em certa medida para a quebra da visão sexualizada da negra brasileira (eu não me canso de ter esperança).

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