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Victoria: conto de fadas na corte

A primeira temporada de um seriado leva um tempo considerável de episódios para situar o telespectador a respeito da história que pretende contar: quem são seus personagens principais, o que os motiva, qual é o espaço que ocupam no universo em que a história se passa, o que esperar da trama que nos propusemos a acompanhar. Se muito da primeira temporada de Victoria, exibida em 2016 pela iTV, foi dedicada a explicar todos esses pormenores, a segunda temporada, encerrada recentemente, se vê livre de tais amarras e cresce muito mais enquanto entretenimento quando não precisa ser tão específica com relação àqueles pontos, contando a história de sua protagonista com muito mais leveza do que na vez anterior.

Atenção: este texto contém spoilers!

E não é que eu não tenha gostado da primeira temporada – muito pelo contrário, senão não voltaria para os episódios subsequentes –, mas é sempre muito mais agradável retornar para o conforto do conhecido do que embarcar em águas não percorridas anteriormente. O segundo ano de Victoria tem início exatamente de onde seu primeiro ano parou: a Rainha Victoria (Jenna Coleman) recém deu a luz a sua primogênita, Princesa Victoria, e precisa lidar com todos ao seu redor pedindo que ela se resguarde devido a sua nova “condição” de mãe. A Rainha, por outro lado, não aguenta mais se manter quieta em seus aposentos e nem ser carregada para cima e para baixo em uma cadeira de rodas, e decide retomar seu ofício muito antes do que o esperado. É assim que a monarca descobre que seu marido, Príncipe Albert (Tom Hughes), e o Primeiro Ministro, Sir Robert Peel (Nigel Lindsay), andaram escondendo dela informações vitais sobre a condição do exército britânico que lutava no Afeganistão.

Com o intuito de proteger Victoria em seu período de recuperação após o parto, nem Albert e nem Sir Robert comunicaram a Rainha sobre acontecimentos importantes de seu reino, deixando-a mortificada ao retornar às suas funções somente para descobrir os problemas pelos quais seu exército tem passado em terras estrangeiras. Com seu retorno um mês após dar à luz – com todos ao seu redor dizendo-a para ficar mais alguns meses quieta, para se restabelecer – Victoria precisa aprender a conciliar suas obrigações enquanto monarca e mãe, algo que sua corte não parece conseguir separar com clareza. Boa parte daqueles que orbitam ao redor de Victoria parecem vê-la, após o parto, apenas como mãe e não Rainha, o que a deixa visivelmente incomodada – incômodo esse que só cresce à medida que Albert tenta poupá-la do trabalho com o reino, o que deixa Victoria ainda mais ansiosa e irritada.

Tal ansiedade pode ser vista muitas vezes quando a Rainha é deixada a sós com seu bebê: olhando para o rostinho de sua recém-nascida, Victoria se pergunta como saberá amar a filha, o que pode levantar até mesmo uma discussão a respeito da depressão pós-parto – um tópico bastante moderno – e como mães precisam lidar com a pressão de serem perfeitas e exemplares, agindo da maneira que se espera e não da maneira como desejam. O assunto da maternidade retorna algumas vezes durante a segunda temporada de Victoria, principalmente quando a Rainha descobre estar novamente grávida e em um período tão curto de tempo entre uma gestação e outra. Enquanto Albert não cabe em si de contentamento por ser pai novamente – dessa vez de Eduardo, Príncipe de Gales, que viria a ser o Rei Eduardo VII – tudo o que Victoria sente é apatia. O pensamento geral a respeito do nascimento do príncipe herdeiro é que a Rainha ficaria contente por assegurar a continuidade de sua casa real, mas não é o que vemos e Victoria se sente cada vez mais deprimida e sozinha. Embora a série não se aprofunde muito na trama ou fale sobre a depressão pós-parto em si – somente em 1987 foi estabelecido um instrumento científico que especificasse a depressão pós-parto – Victoria já deixa o assunto em voga, principalmente quando, por meio da figura da Duquesa de Buccleuch (Diana Rigg), demonstra que o sentimento de inadequação e não pertencimento é muito comum após o parto, mesmo que não se fale a respeito.

Albert: Ele já aprendeu a sorrir?
Victoria: Eu não saberia dizer.
Albert: O que quer dizer?
Victoria: Ele nunca sorri para mim.
Albert: Não entendo.
Victoria: Não entende como é olhar para seu filho e sentir que não tem nada para oferecer. Me senti tão imprestável.
Albert: Por que não me falou?
Victoria: Não deveria me sentir assim. Às vezes sinto… como se estivesse fingindo ser mãe e rainha. E que, na verdade, sou uma impostora. Sou apenas uma garotinha usando a coroa.”

Mesmo para uma rainha, criar filhos é uma das tarefas mais difíceis, e poucas mães mencionam a crise que as acompanha após o nascimento de um deles, o que pode trazer à tona “sentimentos enterrados há muito tempo a respeito da própria mãe, a mistura de poder e impotência”, a imensa responsabilidade em prover o sustento dos filhos, ensinar-lhes e vê-los crescer de maneira saudável. Victoria precisa dar tempo ao tempo para voltar a ser sua própria pessoa, e a série não entra em muitos pormenores a respeito disso, mas o princípio da discussão ainda é válido. Mesmo que tudo se resolva facilmente após a Duquesa de Buccleuch presentear Victoria com um filhote de cachorro, sabemos que, ainda que fofos e engraçadinhos, eles não são o remédio mais recomendado na cura de uma depressão – embora, claro, seu auxílio no tratamento da doença seja comprovado pela ciência moderna.

O segundo ano de Victoria também traz uma trama dramática para Albert que descobre a possibilidade de ser filho de seu tio Leopold (Alex Jennings), e não do Rei Ernest I. Se tal possibilidade for descoberta como verdadeira, Albert seria um bastardo, o que colocaria em risco toda a sucessão real na Inglaterra, além do casamento com Victoria, visto que a Rainha teria se casado com um bastardo, e não com um legítimo representante da Casa de Coburgo. Apesar de uma teoria real, historiadores não puderam confirmar se o Príncipe Albert era, de fato, um bastardo, mas a série decidiu usar o boato para tecer uma história própria para Albert – mesmo que tal trama seja logo resolvida quando, angustiado, o príncipe confessa à esposa e coloca às claras tudo o que seu tio contou durante sua última visita à Coburgo para a ocasião do funeral do Rei Ernest I. Essa trama soa apenas como uma tentativa de dar alguma emoção e carisma à Albert – sempre tão sisudo e sério – mas não há um desenrolar maior a partir disso, fazendo com que Leopold apareça vez ou outra, flanando ao redor do casal real para trazer agonia à Albert, e nada mais.

Outra trama que corre em paralelo, mas conquistou muito mais simpatia do que o plot maior a respeito da verdadeira paternidade de Albert, é o flerte entre Edward Drummond (Leo Suter), secretário do Primeiro Ministro, e Lord Alfred Paget (Jordan Waller). Embora a criadora da série, Daisy Goodwin, tenha usado de certa liberdade para escrever o romance entre os dois personagens – inspirados em pessoas reais –, foi interessante acompanhar a lenta construção do relacionamento entre eles, algo que tomou grande parte da segunda temporada de Victoria. Em alguns momentos, a sombra do queerbaiting até mesmo pairou sobre os dois: até onde uma série como Victoria se aventuraria a ir para mostrar um casal homossexual vivendo o seu feliz para sempre? Recebemos a pior resposta possível no season finale e o que poderia ter sido queerbaiting se tornou tão ruim quanto: após Durmmond e Alfred terem finalmente correspondido os sentimentos um do outro, uma morte trágica os separa para sempre. Isso soa familiar?

A morte de um personagem homossexual após finalmente ter um desenlace em seu relacionamento amoroso aconteceu também em The 100 e foi alvo da raiva dos fãs. No caso do seriado da The CW, Lexa (Alycia Debnam-Carey) e Clarke (Eliza Taylor) haviam ficado juntas, confessando seus sentimentos uma para a outra apenas para, no momento seguinte, Lexa ser vítima de um tiro e morrer, algo que também aconteceu com Edward Drummond em Victoria. Drummond estava a caminho de encontrar-se com Alfred quando foi morto, protegendo Sir Robert Peel de um atirador enfurecido ao sair da Câmara dos Lordes. Esse recurso de roteiro ficou conhecido pelo nome bury your gays (enterre seus gays) e não é coisa nova na cultura pop; o tropo refere-se ao esquecimento e ao apagamento de personagens LGBTQ+ por meio da morte, invisibilizando a comunidade que nunca se vê representada de maneira digna e coerente nas produções que consome. Por esses e tantos outros motivos que episódios como San Junipero, da antologia Black Mirror, fazem tanto sucesso: a representação de personagens homossexuais com histórias completas e um final feliz são tão raras que, quando contadas, nós precisamos parar para ouvir. 

A homossexualidade era considerada crime durante o Período Vitoriano e foi parcialmente descriminalizada, na Inglaterra, apenas em 1967 – portanto se a showrunner de Victoria tivesse decidido por manter o casal vivo, muito poderia ter sido explorado a partir desse viés. Matar Drummond como um recurso narrativo de choque é um desperdício de uma trama que tinha todo o potencial de crescer, visto que ele e Lord Alfred dividiram algumas das cenas mais delicadas e ternas dessa segunda temporada, rivalizando até mesmo com o casal principal representado por Victoria e Albert.

Outros pares e outras tramas também aparecem para preencher o tempo de exibição da segunda temporada de Victoria: voltamos a acompanhar o amor impossível entre o Príncipe Ernest (David Oakes) e Harriet, a Duquesa de Sutherland (Margaret Clunie), além, é claro, de Miss Skerrett (Nell Hudson), a camareira da Rainha, e Mr. Francatelli (Ferdinand Kingsley), chefe da cozinha do Palácio de Buckingham. A série mantém a fórmula de mesclar os acontecimentos dos núcleos “upstairs” e “downstairs”, evocando novamente o que acompanhávamos em Downton Abbey, série também produzida pela iTV, mas, assim como aconteceu no primeiro ano de Victoria, as tramas envolvendo as camareiras, cozinheiros e demais auxiliares do palácio, são desenvolvidas de maneira breve, o que torna difícil a tarefa de criar um vínculo duradouro com tais personagens. Mesmo que já os conheçamos da primeira temporada, não nos é mostrado algo novo: com exceção de Miss Skerrett e Mr. Francatelli, os demais personagens, como Miss Cleary (Tilly Steele), pouco tem a acrescentar na trama maior e atuam apenas como uma muleta de roteiro quando necessário.

Victoria é uma obra de ficção e portanto tem sua liberdade criativa para divergir dos fatos históricos – afinal, ela não tem a pretensão de ser uma The Crown –, mas nem por isso deixa de abordar alguns momentos reais e difíceis da história da Inglaterra e do reinado de sua monarca. A série mostrou rapidamente os efeitos da guerra no Afeganistão em 1839, a Grande Fome da Batata na Irlanda, em 1840, além dos dilemas políticos com que Victoria teve de lidar durante o período retratado na série. Levando em consideração o crescimento da personagem desde a primeira temporada – e a grande passagem de tempo entre os oito episódios da segunda – pode-se dizer que a Rainha se mantém firme e determinada em seu posto, conduzindo seu reinado com pulso firme mesmo que, às vezes, se sinta uma fraude. Victoria é acusada de ser teimosa e voluntariosa em alguns momentos, mas somente ela sabe o peso que é carregar a coroa; ela pode se aconselhar com pessoas de sua confiança mas, ao final do dia, são apenas as suas decisões que importam.

A série continua na trilha deixada por sua primeira temporada e mantém seus cenários deslumbrantes e figurinos impecáveis, sempre aliados a uma fotografia com ares de contos de fadas. Não é raro ver os personagens caminhando por bosques bucólicos, tomando chá à beira do espelho d’água ou simplesmente flanando entre países europeus em viagens oficiais. Victoria não tem a pretensão de ser uma série com acuracidade histórica e se vale disso em diversos momentos para construir sua narrativa – o que não é nenhum problema quando o objetivo é criar um entretenimento simples, mas de encher os olhos. A vida romanceada da Rainha Victoria é sempre boa de acompanhar, e mesmo que a série cometa vários deslizes no caminho (alguns são até fáceis de perdoar outros, nem tanto) o segundo ano da série procura ampliar os horizontes e colocar dilemas verossímeis na vida da monarca. A série de Daisy Goodwin não se aprofunda em nenhum tema por muito tempo, o que é uma falha, mas Victoria permanece um passatempo interessante ainda que resvale por temas difíceis e logo mude a narrativa. A segunda temporada foi finalizada com oito episódios, mas retorna ainda esse ano para um especial de Natal.

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1 Comentário

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    Flávia
    27 de outubro de 2017 at 17:14

    Victoria é sempre muito bom de se assistir, a trama é interessante e esteticamente a série é perfeita, é um deleite aos olhos. Mas o final dessa segunda temporada também me decepcionou, pelo desfecho da belíssima história entre Drummond e Lord Alfred. O romance entre eles foi a melhor parte da segunda temporada. Mesmo com pouquíssimos minutos em cena em cada episódio, a química entre eles era mágica, incrível, e souberam conquistar nossos corações. Chorei muito assistindo o episódio final, e olha que não é tão fácil me fazer chorar por um personagem. Uma pena que a escritora da série tenha se atido à precisão histórica justamente quanto à morte de Drummond, quando eles tinham ainda tanto potencial de desenvolvimento na série.

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