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Victoria: every inch a Queen

Assistir a dramas históricos é sempre um prazer. Enquanto admiramos as construções antigas, os cenários impecáveis e as tramas inventadas, também é possível aprender uma coisa ou outra a respeito do período retratado (salvo as devidas proporções, claro). Isso é o que acontece, por exemplo, na nova série do canal britânico iTV, Victoria.

Aviso: este texto contém spoilers!

O ano é 1837 e o Rei Guilherme IV faleceu, deixando o trono sem herdeiros legítimos. Sua sobrinha, Alexandrina Victoria, interpretada por Jenna Coleman, é a próxima na linha de sucessão e ascende ao trono com apenas 18 anos de idade. A partir de então, acompanhamos a jovem e inexperiente Rainha aprender a navegar pela politicagem da corte, lidar com os melindres de seus ministros e, ainda, escolher um marido, pois [sarcasmo] onde já seu viu uma mulher reinar sem esposo? Já bastava Elizabeth I, a Rainha Virgem, com essa loucura [fim do sarcasmo, sempre bom avisar].

É basicamente nesse ponto que começamos a caminhar junto com Victoria (que não gosta de seu primeiro nome, Alexandrina, e decide ser apenas Victoria a partir de sua coroação) e a descobrir, ao seu lado, como a corte pode ser difícil para uma mulher mesmo que ela seja Rainha regente. Não é raro vermos homens julgando Victoria por suas escolhas, ou mesmo repreendendo-a por fazer as coisas do jeito que deseja. Utilizando-se da carta da inexperiência, todos aos redor pensam poder manipular Victoria ao seu bel prazer, mas cada um deles descobrirá que a pequena Rainha é feita de um material muito mais resistente do que eles poderiam imaginar.

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Embora boa parte de sua corte tente puxar seu tapete – desde seu tio querendo roubar sua coroa ao conselheiro de sua mãe querendo reinar por meio dela – logo vamos descobrindo que Victoria tem garra e não cederá facilmente aos desejos daqueles ao seu redor. Sorte de Victoria poder se apoiar na figura de Lord Melbourne (Rufus Sewell), Primeiro Ministro à época, que passa a agir quase como um mentor para a Rainha em seus primeiros momentos de reinado. Enquanto todos tentam, de uma maneira ou outra, fazer de Victoria um joguete, é apenas Lord Melbourne que acredita que a jovem Rainha tem o que é necessário para ser uma boa monarca.

— Não abrirei mão de minhas damas. Elas são minhas aliadas. Você foi um soldado, Duque. Gostaria de ir para a guerra sozinho?
— Não estava ciente de que estava lutando em uma guerra, Senhora.
— Porque você não é uma jovem mulher, Duque, e ninguém, eu suspeito, lhe diz o que fazer. Mas eu tenho que provar meu valor todos os dias, e eu não posso fazer isso sozinha.

Nesse aspecto a adaptação da iTV para os diários da real Rainha Victoria começa a pecar: não há muita acuracidade histórica quando os roteiristas decidem incorporar um flerte entre Victoria e Lord Melbourne, mas não há como negar que seus intérpretes, Jenna e Rufus, possuem muita química, fazendo até com que parte da audiência comece a torcer por esse improvável casal, quando todo mundo sabe que o amor da vida da Rainha ainda apareceria na figura do Príncipe Albert da Alemanha (Tom Hughes). Enquanto Albert não chega, no entanto, Lord M. é a pessoa em quem Victoria deposita sua confiança e busca por conselhos, e é com ele que ela aprende a dar os primeiros passos para ser um boa Rainha. Ainda assim, Lord Melbourne precisa sair de cena para que o futuro esposo de Victoria tome seu lugar.

A questão do casamento, inclusive, é algo que atormenta Victoria logo no início do seu reinado. A Rainha é reticente quanto à ideia de precisar se casar tão rapidamente – ela recém assumiu o trono afinal de contas – e chega até mesmo a cogitar a seguir os passos de sua antecessora, Elizabeth I, mas para os ministros conservadores de seu parlamento é imprescindível que Victoria encontre um marido. Por sua pouca idade e relativa inexperiência, todos ao seu redor pensam saber quem é o marido ideal para a Rainha, e conselhos não solicitados aparecem por todos os lados. Victoria, no entanto, não quer dar o braço a torcer e resiste enquanto pode.

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Quando sua mãe, a Duquesa de Kent (Catherine Flemming) sugere o Príncipe Albert como pretendente, encontra mais oposição por parte de Victoria. Como a Duquesa e a Rainha nem sempre estiveram em bons termos no que se refere ao relacionamento de mãe e filha, Victoria receia aceitar quaisquer conselhos que venham de sua mãe e, portanto, não quer sequer pensar na possibilidade de aceitar Albert como possível esposo. Mas toda essa objeção muda quando, sem ser convidado formalmente por Victoria, Albert e seu irmão, Príncipe Ernest (David Oakes), chegam ao Palácio de Buckingham depois que a Duquesa de Kent entra em contato com seu irmão, o Rei Leopoldo da Alemanha (Alex Jennings), e planeja a viagem sem conhecimento da Rainha. 

A primeira interação entre Victoria e Albert é repleta de fanservice, mas nem por isso deixa de ser interessante. A série, inclusive, introduz boas doses de cenas e momentos românticos que certamente farão a audiência suspirar. Não que isso seja ruim visto que, dentro da proposta da série, tudo isso se encaixa muito bem. As faíscas que se espalham quando Victoria e Albert se encontram estão aí para provar. Mesmo que todo mundo saiba que os dois se casarão, não deixa de ser interessante acompanhar o desenrolar desse relacionamento que nem sempre esteve em bons termos. Victoria se incomoda com a aparente apatia de Albert, mas o fato é que o príncipe alemão é apenas um introspectivo.

O desenvolvimento do relacionamento entre Victoria e Albert pode parecer um pouco apressado – afinal a primeira temporada da série tem apenas oito episódios –, mas os momentos entre eles são sempre doces e cheios de significados. No mundo da corte, um lugar em que casamentos são realizados pela simples conveniência, Victoria e Albert puderam construir um amor real que se transformaria no pilar da família que o casal viria a formar.

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Apesar de a temporada ser curta, a passagem do tempo abrange os primeiros anos de Victoria como Rainha da Inglaterra e mostra o quanto ela evoluiu desde a primeira cena em que apareceu até a última. Na ocasião em que ela recebeu a notícia que seu tio havia falecido e ela ascenderia ao trono, Alexandrina Victoria era uma Princesa que vivia sob a proteção da mãe, com seus longos cabelos soltos, a boneca nº 123 e o inseparável spaniel Dash como companhia. A partir de então, ela passou a ser uma figura de autoridade e o respeito com o qual todos a tratavam passou a ser algo imposto.

Victoria era a figura da imaturidade, mas já demonstrava que sua personalidade não era baseada em petulância mais do que determinação. As exigências do cargo, a princípio, iam além de sua imaginação, o que levou toda sua corte a duvidar de sua capacidade de reinar o país e arquitetar todas as jogadas para fazer a Rainha seguir o plano deles. Contudo, ela ter resistido, prova o quanto ela estava ciente entrado em um campo minado onde nem todos – aliás pouquíssimos – estariam ao seu lado. Sua desconfiança se tornou seu melhor mecanismo de defesa, e a recusa em aceitar qualquer sugestão que lhe propunham foi a forma que encontrou para não perder o controle do seu próprio reinado.

Ao final da retratação inicial, Victoria está habituada com seus afazeres e uma de suas maiores preocupações é inserir Albert em seus planos e fazê-lo ser acolhido pelo seu governo, que reluta em aceitar um Príncipe alemão no comando, apesar de todas as demonstrações de fidelidade de Albert à Victoria e à Inglaterra. A Rainha se torna, então, a segurança do seu próprio marido; mesmo quando engravida de sua primeira filha. A condição, vista como um risco na época, levantou várias questões sobre o futuro do país, o qual deixou Victoria ainda mais determinada de assegurar. É nessas circunstâncias que ela prova que não demonstrou nem a metade do seu potencial ainda e é bem mais do que uma jovem impetuosa.

Sabe, meu tio. Houve algumas vezes em que eu duvidei do meu próprio julgamento. Mas de uma coisa estou certa: apesar dos vários erros que cometi, ou talvez ainda vá cometer, eu sei que sou uma monarca melhor do que você jamais poderia ser.

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Paralelo ao drama central, em Victoria também podemos acompanhar a trama do núcleo downstairs”, em uma fórmula similar ao que assistimos em Downton Abbey, notória série da mesma emissora que foi concluída no ano passado. Composto pelos serviçais do Palácio de Buckingham, o enredo das camareiras, cozinheiros e demais auxiliares, é desenvolvido de maneira breve e por consequência superficial, tornando difícil para o público criar um vínculo com as histórias desses personagens.

Contudo, entre todos os funcionários que trabalham nos bastidores da corte, um foco especial é dado à misteriosa Miss Skerrett (Nell Hudson), camareira da Rainha, cujo passado ela prefere deixar às escuras, e aproveitar a oportunidade que encontrou em seu trabalho na corte para viver uma vida melhor. Seu jeito esquivo desperta a atenção de Mr. Francatelli (Ferdinand Kingsley), o chefe de cozinha do palácio, que se aproxima da moça e passa a ajudá-la quando precisa. Ainda assim, não é muito para que condigamos de fato nos conectar com essa trama – as interações do núcleo central parecem muito mais interessantes. Talvez a falta de atrativo se deva ao pouco tempo de tela destinado aos personagens coadjuvantes, embora não faça muito sentido iniciar uma trama se não há intenção de aprofundá-la. A ideia de incluir um elenco secundário de serviçais parece querer apenas ecoar o sucesso atingido pela dinâmica de Downton Abbey porém, em Victoria, esse lado deixa muito a desejar.

De maneira geral, a primeira temporada de Victoria consegue se desenvolver de maneira satisfatória. Se as tramas dos personagens secundários não conseguem envolver tanto os telespectador, a trama principal, da Rainha, consegue sempre nos fazer voltar para mais. Os figurinos são belamente pensados e os cenários internos estão a altura de uma série sobre a monarquia britânica, deixando a desejar somente quando apela para o uso de computação gráfica para realizar tomadas aéreas da Londres de meados de 1800 – talvez não fosse necessário apelar para esse tipo de cena de transição, fica evidente que os cenários mostrado são de faz de conta.

No entanto, o bom trabalho de todos os atores envolvidos nos fazem relevar esses deslizes com tranquilidade: é fácil se deixar envolver pela jovem Victoria de Jenna Coleman que transita pela petulância e inocência requerida muito bem. Seu par romântico, Príncipe Albert de Tom Hughes, parece captar bem o espírito introspectivo do alemão, deixando sua dura carapaça amolecer quando em presença de Victoria. Victoria é um drama histórico que polvilha fatos reais com fantasia, e nem por isso deixar de ser agradável de acompanhar. Ver o crescimento de uma Rainha, seu amadurecimento enquanto mulher e monarca, é sempre inspirador. A boa notícia disso tudo é que poderemos acompanhar mais da vida de fantasia de todos eles pois Victoria retorna, em 2017, para uma nova temporada. 

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Crítica escrita em parceria por Thay e Yuu

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