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A vez das mulheres de Game of Thrones?

É uma verdade universalmente conhecida que Game of Thrones é a série mais popular do momento. Entre mortes infinitas, tramas complexas, dragões, exército de mortos-vivos e teorias de deixar qualquer um de cabelo em pé, o jogo dos tronos conquistou inúmeros fãs ao redor do mundo e se firmou como uma das séries mais aclamadas de público e crítica, embora também seja uma das mais problemáticas. 

Aviso: Esse texto pode conter spoilers de todas as temporadas de Game of Thrones!

Comumente lembrado como o pior ano da série, a quinta temporada de Game of Thrones escancarou vários desses problemas – elementos utilizados desde o início de forma compulsória e, muitas vezes, injustificável, com a única intenção de chocar o público – e mostrou que, muito além da violência (física, verbal e também sexual) intrínseca da história, existe sim um motivo real para se questionar. Não existem argumentos que justifiquem os estupros de Sansa Stark (Sophie Turner), Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) ou Cersei Lannister (Lena Headey), da mesma forma que não existem argumentos que justifiquem todas as mulheres que, ao longo dos anos, foram hipersexualizadas, violentadas e mortas de formas extremamente cruéis, tratadas como meras peças de um jogo que podiam ser descartadas tão logo tivessem cumprido seu papel e que tiveram seus conflitos e dramas individuais relativizados em tempo integral.

Na urgência de provar sua capacidade em contar uma história tão cheia de nuances, os produtores (e também roteiristas) da série, Dan Weiss e David Benioff, esbarram na própria incapacidade de representar suas mulheres de forma adequada – coisa que George R. R. Martin, autor dos livros que inspiraram a série, sempre soube fazer tão bem –, apostando numa representação simplista que reforça estereótipos que não são exatamente uma novidade na mídia, mas que nem por isso são menos problemáticos. Não por acaso, a quinta temporada teve quedas significativas de audiência e muita gente desistiu de acompanhar a série pelo simples fato de que, após anos assistindo suas personagens serem tratadas de forma tão cruel e suas histórias tomarem rumos cada vez mais ridículos, ficou insuportável continuar compactuando com o horror que era apresentado ano após ano.

É por isso que, embora não tenha abandonado a série, eu consigo entender perfeitamente todas as pessoas que preferiram seguir por esse caminho. Ainda que Game of Thrones seja uma adaptação, que esteja sujeita à reinterpretações e mudanças conforme necessário, e que eu não seja contra essas mudanças e reinterpretações, muito pelo contrário, é impossível ficar alheio a escolhas tão equivocadas, especialmente quando essas escolhas são mascaradas com desculpas tortas que no fundo (ou talvez, nem tão fundo assim) não convencem ninguém. Aliás, uma coisa que me irrita profundamente é justamente esse consenso ridículo de que a série precisa seguir algum tipo de fidelidade histórica, e que o fato de representar tão mal suas mulheres ao longo dos anos é nada mais, nada menos, do que uma consequência “já que naquela época era assim que as coisas aconteciam”, quando, na realidade, ela se passa em um universo fantástico que, embora remeta à Idade Média, não é uma representação real da época, muito menos um relato histórico, mas utiliza de elementos medievais para construir algo totalmente novo em cima de definições pré-existentes, que podem ser modificadas (!) e reinterpretadas (!) conforme necessário. Como disse a Clarice França, num texto totalmente excelente sobre o assunto:

Estamos falando de universos ficcionais, onde podemos colocar magos, elfos e dragões e fazer sentido, ficar plausível e divertido para quem lê/assiste/joga. Por que na cabeça de alguns fãs é mais fácil acreditar em dragões que falam do que num mundo em que uma mulher não seja maltratada a todo momento? Já que não estamos fazendo um relato histórico, podemos criar qualquer coisa, inclusive um mundo que seja mais igualitário.

Isso não significa que, só porque estamos falando de ficção, é preciso criar um mundo perfeito e livre de problemas, mas mostra, acima de tudo, que existe uma tendência a objetificação da mulher e existe, sim, um duplo padrão – um padrão que, não por acaso, reflete problemas decorrentes da sociedade machista em que ainda vivemos, uma sociedade que acha mais fácil crer em um universo com dragões e outros seres fantásticos do que em um que não tenha a necessidade doentia de mostrar suas mulheres sendo brutalizadas em tempo integral. Além disso, é importante lembrar que, ainda que seja um universo ficcional e que não exista uma maneira 100% eficaz de controlar a forma como o outro interpreta o que é mostrado na tela, a indústria do entretenimento é responsável por aquilo que cria e precisa ter consciência da mensagem que quer e/ou pode estar transmitindo para o público. Isso não quer dizer que ninguém mais pode ter liberdade criativa, muito pelo contrário, mas, ao mesmo tempo, não dá pra achar que é ok usar questões complexas (como o estupro, por exemplo, que é um problema real e muito, muito grave) de forma tão leviana, ao ponto de transformá-las em algo comum ou aceitável, como é o caso aqui, e supor que vai ficar tudo bem, porque não vai – e aí é um alívio perceber que existe uma parcela considerável do público verdadeiramente preocupada com essas questões.

Daenerys

Coincidentemente ou não, a sexta temporada apresentou mudanças consideráveis nesse sentido – mudanças que, embora ainda não sejam suficientes, representam um passo importante para uma série em que a objetificação feminina sempre foi a regra, nunca a exceção. Pela primeira vez, assistimos mulheres assumirem papéis determinantes dentro da trama, traçarem caminhos interessantes e conquistar posições de poder, o que é importante o suficiente para ser celebrado. No entanto, não deixa de ser curioso observar que essas mudanças tenham acontecido logo agora, quando a série vinha recebendo críticas, em especial após os eventos da quinta temporada, e quando a representatividade e empoderamento feminino são assuntos recorrentes na mídia (o que é importante, claro, mas que muitas vezes acaba sendo abordado de forma vazia em produções que não estão realmente interessadas em se alinhar com o discurso feminista, buscando na luta apenas um meio de ganhar dinheiro), o que, basicamente, nos leva à duas questões: seriam essas mudanças uma consequência da maior liberdade criativa dos showrunners ou uma resposta às críticas feitas durante as cinco temporadas anteriores da série?

Embora ainda não tenhamos uma resposta definitiva pra isso (será que algum dia teremos?), não consigo evitar um certo cinismo quando penso que, mesmo inseridas num universo predominantemente machista e inegavelmente cruel, George R. R. Martin sempre conseguiu escrever mulheres completas & complexas, coisa que a série nunca pareceu muito preocupada em entregar. Então por que só agora essas mulheres puderam assumir o papel que sempre foi delas – e, mesmo assim, de uma forma às vezes questionável?

A própria Sansa Stark, talvez, seja o exemplo mais claro disso: embora seja uma das personagens que mais cresceu ao longo da trama e que sua trajetória seja, também, uma das mais ricas e interessantes, não dá pra negar que tudo fica um pouco mais amargo quando pensamos que ela poderia muito bem ter chegado onde chegou sem sofrer o trauma de um estupro – um estupro que, aliás, foi utilizado muito mais para desenvolver o arco de Theon Greyjoy (Alfie Allen) do que da própria Sansa, o que por si só já é uma alternativa bastante problemática. Deus me livre ser obrigada a ver algo mais do que a cara do Theon naquela cena, mas percebem o equívoco? O erro que é usar o sofrimento de uma mulher como gatilho para que outro personagem se desenvolva? O Norte, definitivamente, se lembra.

Sansa Stark 2

Além disso, ainda que ela finalmente tenha assumido as rédeas da própria vida nessa temporada – o que mostra certo nível de empoderamento na trajetória da personagem –, e que tenha sido uma presença decisiva para o retorno dos Stark em Winterfell, ver Jon Snow (Kit Harington) ser coroado em seu lugar foi muito menos significativo do que poderia ter sido no passado. Embora concorde que também é bom vê-lo governar e que, no fundo, eu acredite que Sansa não estivesse realmente interessada em se tornar Rainha do Norte, não deixa de ser decepcionante não vê-la chegar lá, especialmente se formos considerar que, tecnicamente, ela tem muito mais direito ao posto do que o próprio Jon, mesmo com a confirmação de R+L=J (coisa que praticamente ninguém sabe ainda, é verdade, mas que eventualmente virá à tona). É verdade que homens sempre terão mais força ao reivindicar posições de poder (pelo menos enquanto estiverem inseridos numa sociedade machista e patriarcal), mas seria uma perda enorme não ter a oportunidade de assistir Sansa ganhar espaço suficiente na trama para expor todo o potencial que, com certeza, ainda tem para mostrar.

Sobre a morte de Ramsay (Iwan Rheon), possivelmente uma das mais aguardadas da série (segundo eu mesma), foi realmente incrível ver a personagem assistir o sofrimento daquele que tanto a machucou no passado, mas confesso que criei uma expectativa bem maravilhosa de vê-la cortando cabeças – algo que, aliás, alguns spoilers sugeriram que fosse ocorrer – e não poder ver isso acontecer quebrou um pouco do encanto pra mim. Fora que, se pararmos pra pensar, mesmo que tenha sido uma alternativa válida e cruel o suficiente para compensar o que Ramsay fez ao longo da história, não deixa de ser uma saída meio manjada essa de fazê-lo provar do próprio veneno – o que não quer dizer que eu não tenha vibrado horrores com a cena, mas fica a sensação de que ela poderia ser muito mais significativa e cheia de simbolismos do que realmente foi.

Serpentes de Areia

Outro ponto que me incomodou bastante em temporadas anteriores e continuou a ser um incômodo nessa, foi o núcleo de Dorne. Acho que a essa altura essa já é quase uma unanimidade, o que faz com que qualquer coisa que eu diga seja absolutamente irrelevante, mas não posso deixar de ficar triste que um dos núcleos mais ricos dos livros tenha se tornado quase uma caricatura de si mesmo na série. As próprias Serpentes de Areia, que poderiam ir muito além da vingança vazia que as têm motivado temporada após temporada (sério, qual o sentido de vingar sua família matando… sua família?), não serviram pra nada além de gritar frases de efeito. Se ao ouvir que “Dorne não pode ser governada por homens fracos” a sensação imediata foi a de que elas, finalmente, assumiriam um papel verdadeiramente relevante dentro da trama, por outro, essa foi apenas mais uma frase vazia dentre tantas outras, uma tentativa frustrada de incorporar o discurso girl power que, no fundo, não convenceu ninguém. A sétima temporada talvez possa trazer novos ares para essas mulheres que, ao lado de Daenerys e com aliança firmada com Olenna Tyrell (Diana Rigg), podem assumir papéis que estejam de acordo com o próprio potencial que elas têm, mas não deixa de ser uma esperança mínima considerando que elas realmente nunca tiveram a chance de ir além daquilo que era esperado (às vezes, nem isso).

Num extremo oposto temos Yara Greyjoy (Gemma Whelan), que após uma temporada inteira sem dar as caras, volta colocando o pé na mesa e desafia as tradições dos papéis de gênero nas Ilhas de Ferro. Ainda que apareça bem menos do que deveria, já vimos muito do que Yara é capaz, e finalmente tê-la na disputa pelo governo das Ilhas de Ferro só eleva a importância da personagem na história, além de enriquecer em vários níveis sua trajetória. Ao contrário do que aconteceu no Norte, aqui é Yara quem reivindica o trono que é seu por direito e assume uma posição de liderança, enquanto Theon ajuda como pode para que ela alcance seu objetivo. Viram? Mesmo num universo machista, é possível, sim, que mulheres assumam posições de poder. Sua presença se torna ainda mais significativa quando pensamos que Yara, além de tudo, é uma mulher lésbica que não segue a cartilha da lésbica unidimensional que a mídia frequentemente insiste em representar. Yara é uma mulher complexa, firme, às vezes agressiva, mas também dinâmica, engraçada, e que exerce sua sexualidade com uma naturalidade que não é vista com frequência na televisão (ou na mídia, de um modo geral), o que é extremamente positivo e torna a personagem ainda mais importante dentro da trama. Seria uma representação perfeita, não fosse o fato de que, embora sejam duas mulheres em cena, a interação de Yara com a prostituta no bordel é essencialmente machista, o que reforça, mais uma vez, a cultura nociva de objetificação da mulher que, não por acaso, é também um dos maiores problemas da série. Pois é.

Yara e Dany

Ainda nesse sentido, a recente aliança firmada com Daenerys abre portas para um possível relacionamento entre Yara e a Rainha dos Dragões – e aí é maravilhoso pensar que, embora não tenhamos garantia de nada, muita gente realmente comprou essa ideia. Além de ser extremamente positivo ver duas mulheres se unindo para alcançarem seus objetivos, um relacionamento entre elas poderia ser uma alternativa interessante e pouco óbvia para duas mulheres tão únicas, que nasceram para governar e serem donas da própria história, que acreditam, acima de tudo, que a força realmente está nas mulheres, e que, depois de seus esforços, não merecem se casar com um homem qualquer só para cumprir o protocolo – em especial, no caso de Dany. Rumo à Westeros, num dos momentos mais aguardados de toda a série, as duas certamente protagonizarão cenas intensas de estratégia e batalha, mas fica aí o desejo para que essa história possa ir além em termos de empoderamento e representatividade nas próximas temporadas.

Brienne

Duas personagens com participação bastante reduzida na sexta temporada, mas que desempenharam papéis fundamentais em momentos decisivos foram Brienne (Gwendoline Christie) e Melisandre (Carice Van Houten). Particularmente, a trajetória de Brienne não me incomodou tanto (inclusive seu juramento à Sansa se tornou uma das minhas cenas favoritas da série, que valeu por toda a temporada), mas não deixa de ser uma perda enorme pensar no potencial que foi desperdiçado aqui. Além disso, por mais que eu não tenha levado a sério o interesse de Tormund (Kristofer Hivju) pela personagem (já que, ao que parece, aquilo foi mais um alívio cômico do que qualquer outra coisa), não consigo comprar a ideia ao ponto de torcer para que algo mais saia daí, especialmente porque a jornada de Brienne nunca pareceu ter espaço para um romance – o que talvez seja o grande diferencial da personagem. Como disse a Rebeca Puig num texto bem ótimo sobre o assunto:

Há algo de inovador e incrivelmente feminista em levar uma personagem como Brienne até o final sem que ela precise estar atrelada romanticamente a um homem.

Mais uma vez, é isso.

Melisandre

Em contrapartida, o desenvolvimento de Melisandre foi uma das grandes decepções da temporada. Se, por um lado, o primeiro episódio nos deu a impressão de que a série passaria a focar mais nos conflitos e questões da personagem, por outro, sua jornada reforçou a ideia de que sua presença só era importante enquanto fosse responsável pelo retorno de Jon Snow, colocando sua trama de novo em movimento. Sendo uma das personagens mais complexas da história e passando por um momento tão singular em sua trajetória (a perda da fé, seus questionamentos sobre o deus que sempre acreditou, etc etc), era de se esperar que ela finalmente pudesse receber mais espaço para contar sua versão dos fatos, e é realmente uma pena que isso não tenha acontecido. Agora, expulsa de Winterfell e longe da sombra dos homens que seguiu até então, a personagem tem sua chance de explorar novos caminhos – caminhos esses que, inclusive, podem reservar um reencontro com Arya Stark (Maise Williams), embora o que possa surgir daí ainda seja uma questão. Resta saber se, dessa vez, no entanto, os produtores serão capazes de entregar o arco que ela realmente merece.

Outro bom exemplo, aliás, de que personagens femininas podem ser bem desenvolvidas sem que seja necessário apelar para estupros, nudez aleatória e a objetificação feminina geral, é a própria Arya Stark, que mesmo com um arco que aborda a rivalidade entre duas mulheres, faz isso de uma forma bastante honesta e pouco problemática. Ao colocar duas personagens tão fortes em lados opostos, a série reforça a ideia de que mulheres são muito mais fortes juntas, e que uma vez colocadas em lados opostos, nenhuma das duas sai vencendo realmente – um discurso que conversa diretamente com problemas muito atuais e tão presentes na sociedade patriarcal que, infelizmente, ainda vivemos.

Arya Stark

Fora que, num universo que já provou várias vezes o quanto pode ser cruel com um Stark, é bonito pra caramba ver Arya decidir não abrir mão de ser quem ela verdadeiramente é. Ao rejeitar seu futuro como assassina e serva do Deus de Muitas Faces, ela nos oferece um dos momentos mais fortes de toda a temporada. Arya teve a chance de se tornar ninguém e construir uma persona completamente nova e, ainda assim, a garota preferiu continuar sendo Arya Stark e somente Arya Stark, com todas as implicâncias que pudessem vir no pacote. No fundo, ela nunca esqueceu quem era, nunca esqueceu sua lista e nunca esqueceu a vingança que jurou àqueles que a prejudicaram direta ou indiretamente, e agora pode finalmente colocar seus planos em ação.

O que mais me preocupa nessa história toda, no entanto, é que, embora suas razões sejam plausíveis, Arya parece feliz demais ao matar Walder Frey (David Bradley) (“quem pode julgá-la?”, vocês perguntam), não uma felicidade de quem busca por vingança quando finalmente encontra o que quer, mas de quem mata outra pessoa sem a menor hesitação. Realmente não sei até que ponto isso reflete uma nova postura da personagem ou se foi apenas uma impressão particular, mas não deixa de ser preocupante pensar que ela possa ter deixado alguns de seus princípios para trás. Braavos sem dúvida foi um divisor de águas em sua vida e é verdade que a nova Arya é uma mulher muito mais forte e dona de si, mas ao mesmo tempo me incomoda pensar que ela pode ter perdido muito da sua essência no caminho. Game of Thrones já provou que em seu universo não há espaço para qualquer fiapo de fraqueza e, nesse sentido, essa mudança de comportamento transforma Arya em uma implacável sobrevivente. Mas até que ponto essa mudança foi para melhor?

Arya Stark 2

Além disso, por mais que eu goste bastante do arco dela como um todo, não dá pra negar que muitas das críticas negativas que foram feitas ao longo da temporada são, sim, muito plausíveis. Tipo o ritmo zoado da narrativa. Ou todo o lance da facada que de cara já não fazia o menor sentido (sério, quem em sã consciência mexe com assassinos profissionais e fica passeando numa boa como se nada tivesse acontecido?) e ficou ainda pior depois de ser resolvido do jeito mais fácil (e sem noção) possível – o que chega a ser frustrante, especialmente se compararmos com algumas teorias que surgiram, muitas das quais eram infinitamente mais interessantes do que o que de fato aconteceu. Ou então aquela perseguição ridícula que não convenceu ninguém. Por mais que pareçam falhas pontuais, a gente sabe que é esse cuidado ao construir um universo crível que faz surgir o que, na ficção, chamamos de suspensão de descrença, ou seja, quando o espectador realmente é levado a acreditar naquilo que está sendo apresentado, por mais impossível que pareça ser – e é justamente por isso que Game of Thrones precisa tomar tanto cuidado. Num universo fantástico como é o caso aqui, é fundamental que, pra começo de conversa, as pessoas acreditem naquilo que está sendo mostrado na tela. Do contrário, tudo só vai parecer muito ridículo mesmo.

De todas as surpresas, no entanto, a maior (e minha favorita!) foi de longe o desfecho do núcleo de Porto Real – um núcleo que foi construído primordialmente em torno de sua personagem mais complexa, Cersei Lannister, e, não por acaso, se tornou uma das tramas mais interessantes até agora. Vê-la finalmente sentar no Trono de Ferro, ocupando o lugar que sempre acreditou ser seu, foi, ao mesmo tempo, assustador e maravilhoso: assustador porque, afinal de contas, estamos falando daquela que talvez seja uma das maiores vilãs desse universo (se é que dá pra colocar alguém sob essa definição); e maravilhoso porque, embora Cersei seja uma personagem controversa, que cometeu erros grotescos ao longo da história – e, ao que tudo indica, vai continuar seguindo pelo mesmo caminho até o fim dos tempos –, é a primeira vez que temos a chance de realmente ver uma mulher como rainha de Westeros, e a importância de tudo isso é imensurável. Cersei nunca esteve tão vulnerável quanto ao final da quinta temporada, de modo que vê-la dar a volta por cima é, de certa forma, empoderador. Sua ascensão, aliás, reforça a teoria de que ela se tornará a Rainha Louca, e que a profecia de Maggy, a Rã (Jodhi May), continuará a determinar seu destino.

Cersei Lannister

Cersei sempre foi uma mulher inteligente e ambiciosa, que nunca aceitou as restrições que lhe eram impostas pelo simples fato de ser mulher, e foi essa mesma mulher que foi capaz de eliminar todos os seus inimigos numa única e genial jogada, alcançando seu objetivo final, sendo, acima de tudo, a prova de que a força, de fato, está nas mulheres – e aí é incrível perceber como ela consegue assumir facetas tão distintas entre si: da mãe feroz para a vilã maquiavélica e de frieza ímpar que anseia por poder, passando pela mulher atormentada por fantasmas e fechando como Rainha de Westeros. Muito, aliás, se falou sobre sua reação (ou falta de) diante da morte de Tommen (Dean-Charles Chapman), seu último filho sobrevivente, que se suicida após a morte da esposa Margaery (Natalie Dormer), que estava no Grande Septo de Baelor e explodiu junto com todos os outros inimigos de Cersei. Embora concorde que sua reação seja muito diferente da que ela teve diante da morte de seus outros dois filhos, não é muito difícil imaginar seus motivos. Acho, inclusive, que muito disso tem a ver com os rumos que a relação dos dois tomou após Tommen passar a apoiar publicamente o Alto Pardal (Jonathan Pryce), virando as costas para a própria mãe que, consequentemente, deixou de enxergá-lo como filho. Fora que, a essa altura do campeonato, era apenas uma questão de tempo até que o caçula morresse e ela, mais do que ninguém, sabia disso. Cersei nunca foi uma boa mãe, mas isso não quer dizer que ela não tenha tentado com afinco ser, muito menos que não tenha amado seus filhos. No final das contas, minha impressão é a de que ela abraçou verdadeiramente o seu destino e que, uma vez sem os filhos, se tornou livre para ser a mulher que sempre foi, mas que frequentemente se escondia por trás dos papéis que precisava desempenhar (a mãe, a esposa, a sogra, etc). É como a própria Cersei disse em determinado momento da segunda temporada: quanto mais pessoas você ama, mais fraco você se torna.

Como nem tudo são flores, a cena da tortura da septã Unella (Hannah Waddingham) me incomodou profundamente. É verdade que a personagem nunca foi querida por ninguém (e como seria, afinal de contas?) e não faria muito sentido que ela saísse impune das atrocidades que cometeu junto ao Alto Pardal sob o guarda-chuva da religião. No entanto, não deixa de ser contraditório que Cersei, uma mulher que sempre sofreu traumas imensos nas mãos de outros homens, reserve sua tortura mais cruel justamente para outra mulher. Não vou entrar no mérito sobre qual foi o tipo de violência utilizada aqui (física? sexual? são questões), mas não deixa de ser uma alternativa bastante problemática, independente do que de fato tenha acontecido (num spoiler que li antes do episódio, era dito que o Montanha Zumbi quebraria as pernas da septã e depois a mataria, mas realmente não dá mesmo pra saber o que aconteceu).

De modo geral, a sexta temporada de Game of Thrones foi uma das mais consistentes até agora, que supriu muita das expectativas dos fãs e conseguiu, talvez pela primeira vez, desenvolver praticamente todos os núcleos de forma satisfatória, além de construir personagens femininas completas & complexas, exatamente como devem ser. No entanto, nada disso anula as barbaridades que assistimos nos últimos anos, muito menos os deslizes que foram cometidos aqui, o que prova que a série ainda tem muito o que crescer nesse sentido. Além do mais, é importante lembrar que, em seis temporadas, existem apenas quatro episódios escritos por mulheres e outros quatro dirigidos por outras mulheres – um número assustador que, não por acaso, diz muito sobre como mulheres são representadas dentro desse universo. Ainda é muito cedo para afirmar que Game of Thrones é uma série feminista e que essa mudança de paradigmas não é algo pontual, mas esse foi o primeiro passo e agora, a esperança que fica é a de que, cada vez mais, a série prove que a força definitivamente está em suas mulheres.

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