LITERATURA

Veronika Decide Morrer: uma jornada para se (re)descobrir

Acredito que desde que me entendo por gente – ou leitora – que ouço falar de Paulo Coelho. Embora ele seja um dos autores brasileiros e de língua portuguesa mais traduzidos no mundo – em uma rápida pesquisa no Google é possível saber que suas obras já receberam mais de mil traduções! – eu, até hoje, nunca havia me interessado por um livro seu, mas finalmente chegou o dia em que escolhi mergulhar em uma de suas tramas e, para isso, elegi Veronika Decide Morrer.

Publicado pela primeira vez em 1998 – e transformado em um filme estrelado por Sarah Michelle Gellar em 2009 -, o livro conta a história de uma jovem eslovena de 24 anos, a Veronika do título, que decide colocar um fim em sua vida. Para ela, não há nada que a motive a continuar existindo, a empilhar um dia após o outro sem que nada realmente a toque e empolgue. Quem a conhece e a vê do “lado de fora”, uma jovem bonita e interessante com todo o futuro pela frente, com muitos pretendentes e praticamente a dona de uma vida perfeita, não imagina o que se passa em seu interior. Cansada da vida sem sentido que leva, a jovem prepara com cuidado a sua partida desse mundo ao alugar um quartinho em um convento e reunir os remédios necessários para seu suicídio. O que Veronika não esperava, no entanto, é que fosse frustrada em sua decisão de morrer ao acordar em uma clínica psiquiátrica após ter sido socorrida pelas freiras que a encontraram inconsciente.

A partir de então, nos entregamos, junto com Veronika, às descobertas e ao dia-a-dia da clínica psiquiátrica, nos inteiramos do tratamento dela e de alguns pacientes e entramos um pouquinho nesse mundo de depressivos, esquizofrênicos e suicidas. Não dá para negar: Veronika Decide Morrer possui uma temática pesada e que pode servir de gatilho para aqueles que já tenham passado por situações similares aos personagens do livro, seja por conta de um tratamento específico ou uma internação. Apesar disso, a narrativa de Paulo Coelho consegue ser delicada e sensível na medida certa, tratando todos os temas intensos com um cuidado e conhecimento de causa ímpar. O autor, inclusive, utiliza-se de sua própria experiência de vida para tecer a trama de Veronika e seus colegas de internação, visto que Paulo esteve internado em clínicas psiquiátricas por algumas vezes durante a juventude. Assim como acontece com um de seus personagens em Veronika Decide Morrer, Paulo foi internado pelos pais com a melhor das intenções, mas o que o autor descobriu é que o erro em tudo isso reside em ser uma pessoa diferente e tentar ser igual o que, para ele, é a verdadeira doença grave.

“– Você não quer saber o seu estado?
– Eu sei qual é – respondeu Veronika – E não é o que você está vendo em meu corpo; é o que está acontecendo em minha alma.”

Enquanto Veronika se recupera da sua tentativa de suicídio, acaba por descobrir, por meio do médico responsável pela clínica, que sua saúde ficou extremamente debilitada pela ingestão de tantos comprimidos fortes e que a ela só resta uma semana de vida. Ao se deparar com essa informação, a moça precisa balancear a espera pela morte eminente e os novos sentimentos que (re)descobre em sua estadia na clínica psiquiátrica de Villette. Em um primeiro momento, Veronika se mantém firme em sua decisão de morrer e procura não desenvolver laços afetivos com os outros internos, mas essa resolução cai por terra quando ela começa a ouvir as histórias de alguns deles, até mesmo aprendendo uma ou duas coisas sobre vida e loucura com pessoas que ela não julgava serem capazes de muita coisa.

Veronika Decide Morrer acaba por desmistificar o ambiente de uma clínica de recuperação e as pessoas que nela vivem – por necessidade ou simples opção. Muitos são os dilemas enfrentados pelos personagens do livro, e muitas são as maneiras que eles escolhem para lidar com tais problemas. Na figura de Mari, por exemplo, encontramos uma mulher que possuía todas as credenciais que a dariam uma vida perfeita: um trabalho no qual era bem sucedida, um marido que a amava, uma vida tranquila. Porém, Mari desenvolve a síndrome do pânico e para ela é impossível viver em sociedade sem que enfrente um medo terrível do que a espera a seguir. Não há um motivo ou um gatilho aparente para as crises de Mari, mas pelo bem de sua saúde ela decide se internar na clínica de Villette. Zedka, enquanto isso, sabe que é uma pessoa diferente e apenas vive sua verdade na clínica, mas entende que para receber alta precisará seguir as regras da sociedade lá fora; seu trunfo, no entanto, é decidir ser quem verdadeiramente é, não se importando com os comentários das outras pessoas. Eduard, filho de pais diplomatas e que já tinha o futuro inteiro planejado por eles, entra em estado catatônico quando é impedido de seguir sua vocação e é a chegada de Veronika que o devolve à realidade.

Cada um dos internos da clínica psiquiátrica é tocada de uma maneira diferente pela tragédia pessoal de Veronika. Eles sentem pena da bela e jovem moça que tem os dias contados, e a experiência dela os faz perceber como estavam encarando de forma errada a própria vida, a própria loucura. Caminhando em direção à morte, Veronika encontra a si mesma e deixa todas as aparências e amarras de lado – se não há um amanhã pelo qual esperar, porque não se despir de todos os pudores, de todas as regras e se encontrar verdadeiramente? É o que Veronika decide fazer, contagiando, sem que perceba, todos ao seu redor. Abraçando sua nova verdade, aceitando seus novos desejos e prazeres, Veronika encontra a intensidade e as cores que sempre procurou, sem sucesso, em sua vida. É assim que a personagem título encara seus últimos dias com uma paixão e intensidades inéditas, abandonado a apatia anterior.

“– Exatamente. Desta vez vou lhe responder sem fábulas: a loucura é a incapacidade de comunicar suas ideias. Como se você estivesse num país estrangeiro, vendo tudo, entendendo o que se passa à sua volta, mas incapaz de se explicar e de ser ajudada, porque não entende a língua que falam ali.
– Todos nós já sentimos isso.
– Todos nós, de um jeito ou de outro, somos loucos.” 

Embora a trama de Veronika Decide Morrer seja, de fato, interessante, e cada pessoa consiga tirar uma mensagem diferente ao concluir a leitura do livro, a sensação que dá é de que Paulo Coelho não se aprofunda tanto quanto poderia nas questões relacionadas diretamente às doenças e ao tratamento da saúde mental em si. O autor procura partir para um plano mais leve e não tão comprometedor ao tratar das doenças de seus personagens de uma forma leve e informal demais – mesmo quando um de seus personagens passa por um tratamento de choque, a narrativa parece não dar a devida importância ao acontecimento, visto que o próprio interno diz que a experiência não causa dor. Parece que o autor se utiliza de toda a situação de Veronika – descrita por ele mesmo como seu ego feminino – como uma alegoria para falar de que a vida vale a pena ser vivida, e que de louco, todos temos um pouco.

A leitura de Veronika Decide Morrer é fácil, mesmo com os temas abordados pelo autor, e a narrativa flui de maneira simples. Os personagens são cativantes, cada um à sua maneira, e é natural se preocupar com o desfecho da jornada de Veronika, sua descobertas e reflexões. Apesar de sentir falta de um desenvolvimento maior de Veronika – ainda que protagonista, a impressão que fica é que não sabemos realmente quem ela foi e quem ela se tornou ao final do livro – Veronika Decide Morrer consegue nos fazer refletir, mesmo que brevemente, a respeito da vida, do universo e tudo o mais. Aquela frase que diz que na vida cada pessoa está enfrentando uma batalha da qual não sabemos absolutamente nada faz todo o sentido se aplicada no contexto desse livro – pessoas com todas as qualificações para serem felizes podem estar travando batalhas contra doenças como depressão e ansiedade e não fazemos a menor ideia. Não é à toa que a frase presente na contracapa da nova edição do livro, preparada pelo Selo Paralela da editora Companhia das Letras, faça tanto sentido:

“Quanto mais felizes as pessoas podem ser, mais infelizes ficam.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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