LITERATURA

Um mundo assombrado pela mágica: Maggie Stiefvater e os Garotos Corvos

Pense em fantasmas, reis adormecidos e corridas de carros. Adolescentes, mistérios e sonhos estranhos. Pense ainda em mulheres videntes, famílias disfuncionais, florestas mágicas e muitos beijos não dados, tudo isso com cheiro de menta e corvos voando ao redor: seja bem-vindo ao universo da Saga dos Corvos, um oferecimento de Maggie Stiefvater para a humanidade.

A série de quatro livros chegou ao final no mês passado, com o lançamento de The Raven King, ainda sem título ou data de publicação no Brasil. Enquanto não coloco as mãos nessa história e descubro tudo aquilo que tem me matado lentamente de desespero e curiosidade desde que comecei a saga (#savegansey), vou falar um pouco sobre o que leva esses livros a serem uma das melhores coisas que já aconteceram na minha vida e que podem acontecer na sua também.

Antes de qualquer coisa, é complicado. É complicado porque é difícil falar sobre algo que você gosta muito, mas também porque a Saga dos Corvos possui uma mitologia rica, com personagens complexos cujas tramas se entrelaçam umas nas outras e também a elementos fantásticos (Mágica! Fantasmas! Visões! Tesouros escondidos!) e humanos (Amor! Amadurecimento! Privilégios! Identidade! Essa grande charada que é viver!). Qualquer tentativa de resumi-los me parece uma redução bastante injusta, mas vou tentar mesmo assim.

O que sabemos? No início de Os Garotos Corvos, primeiro livro da série, somos apresentados a Blue Sargent, uma garota que vem de uma linhagem de videntes, mas, estranhamente, não possui nenhuma clarividência. Isso não significa que ela veio com erro de fabricação, apenas que é um pouco diferente. Embora não consiga ver nada, ela potencializa os fenômenos sobrenaturais, como um gerador de energia muito potente, ajudando os outros a ver melhor. É por isso que na véspera do dia de São Marcos, um santo esquecido pela maioria das pessoas, ela acompanha sua mãe e sua tia até uma igreja em ruínas, um lugar onde elas vão todos os anos para anotar o nome das pessoas da cidade que irão morrer nos próximos doze meses. Naquela noite, fantasmas de pessoas que ainda vão morrer circulam pela igreja. Estimulados pela energia de Blue, um a um eles dizem seus nomes.

Blue nunca viu ninguém, até que ela vê: Gansey.

Outras coisas que sabemos: Blue está destinada a matar seu amor verdadeiro com um beijo; ela se apaixonará este ano; Gansey está em busca de um rei galês adormecido, que o leva a bater na porta da casa de Blue para uma consulta paranormal. Deu pra ver onde quero chegar?

Tudo bem se a resposta for negativa – como eu disse, é complicado. O primeiro volume da série exige um voto de confiança do leitor, já que a história demora um bocado para fazer sentido. Isso não é um defeito, é só o modo como Maggie Stiefvater estrutura o universo da história ao seu próprio ritmo, colocando os elementos no lugar certo até que de repente tudo faz sentido e você consegue a sua recompensa. Respire fundo e aproveite a jornada, ela sabe o que está fazendo.

A partir do momento que a história engrena, assim como Blue Sargent você também vai se perceber cada vez mais envolvido com os Garotos Corvos, alcunha dada aos privilegiados estudantes da Academia Aglionby, escola de Ronan Lynch, Adam Parrish, Noah Czerny e, claro, Richard Gansey III. Gansey é obcecado pela história de Glendower, um rei galês do século XV que ele acredita estar enterrado em algum lugar próximo a Henrietta, pequena cidade no estado de Virginia. Enterrado não, adormecido. Gansey quer encontrar Glendower e acordá-lo, e nessa missão louca de vida ele conta com a ajuda dos seus amigos e também de Blue, que não consegue resistir ao mistério.

Embora essa seja a espinha dorsal da trama, a Saga dos Corvos é muito mais que isso. Os personagens são incríveis, vivos (ok, alguns nem tanto), excêntricos e apaixonantes. Eles são adolescentes e carregam seu quinhão de histórias tristes e difíceis – abuso, lares disfuncionais, solidão, pobreza, violência -, que faz com que eles pareçam mais velhos do que são, como quem já viu muito do mundo e também um pouco além dele. Ao mesmo tempo, eles são jovens, fazem besteiras, agem sem pensar, correm demais em seus carros e pensam muito em beijos. Os personagens secundários são igualmente maravilhosos, principalmente as videntes da casa de Blue: Maura, Calla e Persephone são mulheres fortes, divertidas, diferentes e encantadoras. Elas são amigas, sócias e estão ali uma pela outra, são a maior rede de apoio de Blue, que nunca conheceu o pai e julga os garotos de forma um pouco dura demais – talvez, quem sabe, por ter crescido ouvindo que irá matar aquele que ousar beijar. Todo mundo nessa história é adoravelmente estranho, como se tivessem saído de um sonho, um daqueles em que tudo parece normal, mas você sabe que é um sonho pois algumas coisas estão delicadamente fora do lugar.

Maggie Stiefvater brinca com a fantasia justamente ao tirar algumas coisas do lugar num cenário aparentemente realista. Sua narrativa possui um tom muito particular, às vezes funcionando como um alívio cômico para a trama, pelas observações perspicazes que adiciona e os diálogos absolutamente on point que constrói, do tipo que constantemente me fazem perguntar: como ela consegue? A escrita navega com fluidez entre o suspense, o drama e até o romance, levando o leitor a experimentar o frio na espinha e o frio na barriga no intervalo entre poucas linhas. Outra coisa que gosto bastante é perceber como a personalidade da autora se insere nos pequenos detalhes da história, nesse caso através do destaque que os carros dos personagens recebem nos livros. Maggie é louca por carros e tudo que os envolve, então não estranhe se os motores do Mitsubishi de Kavinsky ou o Camaro de Gansey (que se chama Pig, no gênero feminino) (eu amo tanto o Gansey que tenho vontade de chorar) são descritos em muitos detalhes – a verdade é que Maggie está falando dos seus carros. Ela mantém um Tumblr onde compartilha referências e comentários sobre esses e seus outros livros, além de responder perguntas de leitores e postar seus desenhos. Ah, sim: Maggie também desenha e as ilustrações das capas dos livros são de sua autoria, assim como a arte que ilustra esse texto.

O que mais? Ela é mãe de dois filhos, compõe músicas e é a cara da Jessica Jones; talvez eu seja meio apaixonada por ela — mas eu divago.

Graças a essa construção delicada da mitologia, um morador comum de Henrietta provavelmente não faz ideia do que acontece naquelas montanhas quando a noite cai e nem o que escondem as várias cavernas da cidade, mas a mágica está em todo lugar, caso você preste atenção. É muito fácil acreditar quando ela aparece atada a emoções tão reais como aquelas experimentadas pelos personagens, cada um dentro do seu arco, eles também tentando descobrir o que diabos está acontecendo e, um pouco mais além, quem eles são. É complicado, e coisas complicadas, quando bem escritas, se tornam absolutamente encantadoras.

Os Garotos Corvos, O Ladrão de Sonhos, e Lírio Azul, Azul Lírio já foram publicados no Brasil pela Verus Editora, que também lançará o quarto e último volume da série. Até lá vocês têm bastante tempo para conhecer a história, se apaixonar por todos os personagens e ter suas vidas completamente desgraçadas por eles – agradeçam à Maggie e bem-vindos ao clube.

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12 Comentários

  • Responda
    Aline Tavares
    2 de maio de 2016 at 14:06

    Tenho que ler essa série!!! E acabei de ficar muito feliz, pois tem os três já lançados no Brasil na biblioteca estadual aqui em BH!!! Acho que já achei o terceiro livro que pegarei lá no sábado.

    • Responda
      Anna Vitoria
      3 de maio de 2016 at 11:36

      Que incrível saber que eles estão disponíveis nas bibliotecas. Quanto mais gente tendo acesso, melhor <3

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    Isadora Ferreira
    2 de maio de 2016 at 22:07

    Deusa e o mundo já me disseram pra ler a série e até hoje eu protelei. Agora estou contando as moedinhas pela casa e entrando no buscapé pra ver onde o primeiro livro está mais barato, embora a vontade seja já comprar a coleção toda de uma vez.
    Eu realmente nunca procurei saber muito sobre a história da Saga dos Corvos. Todo mundo me fala bem sobre os livros, mas é tudo em cima de Blue não poder beijar Gansey e eu fiquei meio “hm… não, valeu”, mas agora estou OMG OMG MITOLOGIA REI GALÊS OMG OMG e, bom, fui conquistada.
    Já percebi que vou sofrer lendo a saga mas também notei que provavelmente vai valer a pena.
    Obrigada pelo texto maravilhoso, Anna Vitória e parabéns a todas as meninas envolvidas nesse projeto maravilhoso que é o Valkirias. É uma iniciativa incrível e certeza que vai ser sucesso!

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      Anna Vitoria
      3 de maio de 2016 at 11:38

      Nossa, chega a me doer saber que tem gente que reduz essa história ao fato da Blue não poder beijar o Gansey. A história deles é importante pra trama, mas é TÃO MAIS que isso. A própria Maggie jpa escreveu uma vez que pra ela o coração da série está nas amizades, e não no romance. A maior tragédia seria algum deles não ser mais amigo, a coisa mais importante que eles têm é a amizade um do outro. E as mitologias incríveis, os reis galeses, toda a piração.
      Leia sim e espero que adore.
      Obrigada pelo comentário! <3

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    Ana Júlia
    3 de maio de 2016 at 10:50

    Li o primeiro livro e simplesmente fiquei encantada! Por enquanto, to contando as moedinhas p comprar o segundo, mas já perdi as contas de qts vezes abandonei o carrinho pq money q é good…ao mesmo tempo, não quero ler online. Acho lamentável Maggie ter tão pouco reconhecimento aqui no Brasil ainda, ela é fantástica. Acompanho o insta dela e fico babando as ilustrações e td mais. Espero que eu julho em consiga ler toda a série! Por enquanto, vou relendo the raven boys p matar um pouquinho da minha vontade. Obrigada pela indicação!

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      Anna Vitoria
      3 de maio de 2016 at 11:42

      Também fico muito chateada dela ainda não ter “pegado” por aqui, os livros são incríveis, ela merece, o Brasil merece hahaha obrigada pelo comentário!

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    Mari
    3 de maio de 2016 at 13:00

    Uma das melhores séries que já li na vida, o final, The Raven King foi maravilhoso e fechou com chave de ouro. Essa série é sobre magia e sobre amizade, todo o plot gira em torno do desenvolvimento desses personagens maravilhosos e bem construídos. O final foi um final digno de Maggie Stiefvater, um final cheio de possibilidades, com as respostas todas nas entrelinhas, estão ali para serem refletidas pelo leitor. É uma série que tu pode reler várias vezes e sempre vai ser uma experiência diferente, porque sempre vai achar mais informações escondidas que não tinha reparado antes, sempre vai ver referências “profetizando” os livros seguintes. Acho que em um mundo cheio de leituras onde as respostas estão todas ali explicadas e “desenhadas”, leituras onde os personagens são descritos tão literalmente, muitas pessoas podem não se adaptar com o que a Maggie propõe. Para mim, ou a pessoa ama os livros da Maggie, ou não conseguiu entender sobre o que realmente os livros dela são.
    Terminei TRC faz 1 semana, depois de anos acompanhando e estou bastante deprimida e com saudades de todos esses personagens. Maggie já falou que, para ela como autor é: “Character first, everything else second. Give the reader people to miss.”. Parabéns Maggie, comigo você atingiu o objetivo!
    Parabéns pelo texto, TRC é ~too good for this world~.

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      Anna Vitoria
      7 de maio de 2016 at 12:19

      Nossa, não me aguento mais de ansiedade pra ler The Raven King!!! Mas, ao mesmo tempo, fico postergando porque não quero que acabe, hahaha. Faz sentido? De qualquer forma, concordo muito que é uma série que dá pra reler várias vezes, a gente sempre encontra novos detalhes e possibilidades escondidas. Too good for this world indeed, mas que bom que ele existe <3

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    yasnaya
    4 de maio de 2016 at 08:37

    Como assim nunca ouvi falar dessa série?
    Poxa só me interesso por livros com continuação, ai meu bolso ¬¬
    Fui no skoob e já favoritei.

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    Flávia Santos
    17 de maio de 2016 at 11:45

    Eu AMO essa série! Estou lendo The Raven King agora, e saio recomendando pra todo mundo. Pena que nem todo mundo conhece por aqui (mas quem conhece ama haha).
    Já li ‘As corridas de escorpião’ da Maggie tbm (já leu? é um livro só mas é muito bom) e pretendo ler a outra saga que ela escreveu. É a minha autora preferida do momento ♥
    Parabéns pelo texto, e sempre que quiser falar sobre Raven Cycle aqui no blog, meu coraçãozinho ficará feliz *-*

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      Anna Vitoria
      17 de maio de 2016 at 13:23

      Nunca li As Corridas de Escorpião, mas é definitivamente o próximo da Maggie que quero ler (depois de The Ravan King, claro!) 😉

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