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Live more, laugh more, eat more, talk more: Um ano de Gilmore Girls – A Year in the Life

A Year in the Life

Em “Those Are Strings, Pinocchio”, Rory (Alexis Bledel) abre seu discurso de oradora da turma dando as boas-vindas a todos os presentes e descrevendo como foi esperar o dia de sua formatura: “Jamais pensamos que esse dia chegaria. Rezamos pela sua rápida chegada, riscamos os dias dos nossos calendários, contamos horas, minutos e segundos”. Da mesma forma podemos descrever como foi a nossa expectativa para o revival de Gilmore Girls; evento com o qual sonhamos brandamente desde o final da série clássica em 2007 e ardentemente desde que foi confirmado em meados de 2015.

Que todas nós amamos Gilmore Girls não é novidade alguma. O revival, que completa seu primeiro ano amanhã, nos fez (re)viver a experiência de acompanhar notícias inéditas, fazer especulações, interpretar trailers e fotografias, porque o que Gilmore Girls tinha a nos revelar do presente havia se tornado um assunto muito pessoal. Ainda que muitas de nós não tenham acompanhado a série desde os seus primórdios, a história de Lorelai (Lauren Graham) e Rory Gilmore nos marcou de modo muito particular. Não é uma surpresa que a série tenha escalado o topo de séries originais da Netflix, tornando-se a mais maratonada em menos de 24 horas segundo dados do serviço de streaming; fomos sedentas ao pote, em busca da velha sensação de conforto e encanto que tanto amamos e tanto havíamos esperado.

Mas o que ficou desse sentimento um ano depois? Quais foram os erros e acertos de Amy Sherman e Daniel Palladino que enxergamos depois do deslumbre? Nós realmente matamos a saudade com apenas um revival? Provavelmente não. Isso porque Gilmore Girls é uma série simples, que fala de pessoas normais, gente como a gente, que está tentando viver um dia de cada vez, se atrapalha, tenta de novo e no fim do dia só quer comer uma comidinha gostosa em boa companhia. Em meio a tantas séries com histórias mágicas, fantásticas, repletas de efeitos especiais que nos enchem os olhos (nada contra, inclusive amamos também!), às vezes sentimos falta de um sentimento de lar. Isso Gilmore Girls certamente tem de sobra – e é por isso sempre voltamos a ela.

“Haven’t done that for a while”
“Felt good”

Atenção: esse texto, obviamente, contém MUITOS spoilers!

YUU: Então, que tal começarmos do fim? O que vocês acharam das quatro últimas palavras?

FERNANDA: Acho que o que eu mais gosto sobre as últimas palavras é que é impossível saber exatamente como eu me sinto sobre isso. Não é um final feliz, tampouco é um final triste, mas quanto mais penso nelas, mais tenho certeza de que ele combina muito com tudo o que a série fez até hoje – não no sentido de as histórias se repetirem, porque não acho que seja isso, mas no sentido de que a vida surpreende muito e a gente tem que aprender a seguir com ela a partir desses desvios.

MIA: Eu fiquei realmente surpresa. Não esperava aquilo. Depois de ficar encarando a parede meio catatônica, achei coerente com a trama. “It’s a mother-daughter thing”, fez sentido! E também tem a questão de não vermos a Rory como uma mulher perfeita, que foi trabalhada durante todo o revival. Ela é uma pessoa normal, que fora da esfera privilegiada onde vivia, se ferrou bastante e não atingiu todos os seus sonhos – mas conseguiu muita coisa, mesmo assim. E no momento ela estava em crise porque parece que tudo estava dando errado. Não acho que a maternidade seja uma salvação pra mulher (longe disso, na verdade), mas acho que essa narrativa da Rory como mãe não apenas combina com a história que ela já viveu, mas no papel de filha, como também tem a questão do “eu sou uma adulta com uma criança agora”. Como quando a Lorelai fala que deixou de ser criança no minuto em que descobriu que estava grávida. Então acho que seria muito legal ver a Rory como mãe, enfrentando essa gravidez sendo solteira (isso eu achei bem bacana mesmo porque é algo muito real, bebês acontecem, mesmo que relacionamentos não permaneçam) e parando de ter roupas espalhadas em cada canto, porque ela vai precisar se focar mais e talvez seja isso que tava faltando pra Rory – tanto na carreira quanto na vida.

ANA LUÍZA: Não sei se tenho uma opinião 100% formada sobre as palavras finais. Elas me pegaram completamente de surpresa e não necessariamente de um jeito bom, mas passado o susto, acho que existe algum sentido ali. Não é algo que esperava que acontecesse com a Rory, mas o que é o revival senão uma desconstrução de todas as nossas certezas sobre a menina dos olhos de Stars Hollow? Também não acho que seja uma forma de repetir a história, até porque o momento que vive a Rory é completamente diferente do que vivia a Lorelai quando ficou grávida, mas uma forma, como a Fer bem falou, de mostrar que a vida nos surpreende e que precisamos aprender a seguir em frente apesar dos desvios.

YUU: Faz sentido o que você disse, Mia. Lembro de ter ficado de queixo caído quando o episódio – e o revival num todo – terminou. Eu havia pensado em várias possibilidades, muitas envolvendo Luke (Scott Patterson) e Lorelai e o relacionamento forever pendente deles, mas esse nó foi amarrado minutos antes, e a foco acabou se voltando pra Rory e a história dela daqui pra frente. Demorei um pouco, mas acabei aceitando bem aquele final. O texto da Fer sobre o paralelo entre Livre e o revival me ajudou a digerir tudo o que tinha ficado meio confuso.

FERNANDA: Obviamente pra mim também foi 100% inesperado, e na hora odiei, mas conforme fui pensando depois – até chegar naquele texto – percebi que era um final com o qual eu podia viver (e a gente nem mesmo tem como saber com certeza se a Rory não optaria por interromper a gravidez, né? Embora eu ache que tudo indique que esse não seria o caminho que ela escolheria).

MIA: Inclusive, falando de Livre e da Lorelai, o revival também foi um momento de parada pra ambas, de certa forma. A Lorelai precisou largar tudo – mesmo por pouco tempo – pra “go wild” e eu acho isso a coisa mais linda que tem, sinceramente. Todo mundo tem uma época em que precisa largar tudo e ir caminhar, ir nadar numa praia, ficar sozinha e pensar na vida. É por isso que Gilmore Girls é tão relacionável: são coisas de gente como a gente.

ANA LUÍZA: Concordo quando a Mia diz que seria muito interessante ver a Rory desempenhar esse outro papel; talvez pela primeira vez na vida, ela vai ter que pensar em outra pessoas além de si mesma e isso é imenso. É bem verdade que ela cresceu, se tornou independente e dona da própria vida, mas ter uma criança que depende de você muda absolutamente tudo. Ao mesmo tempo, fico curiosa pra ver como seria a reação da Lorelai, porque o revival não dá espaço pra isso. No início dos episódios, ela deseja ser mãe novamente e sai em busca disso, sem sucesso. Como seria, então, a descoberta da gravidez da filha?

FERNANDA: Fico curiosa com a reação da Lorelai também, porque ela sempre teve uma postura de alguém que queria que a Rory não cometesse os mesmos “erros” que ela (quer dizer, embora a Rory seja obviamente a coisa mais importante na vida dela, não foi planejado e muito menos fácil, né?). É interessante que, como a Mia colocou, ela precisou passar por um momento próprio e solitário pra voltar a estar em paz, então é como se os Palladino estivessem levando ela até um estado de espírito em que ela estaria pronta pra ser o suporte da Rory.

YUU: “Talvez pela primeira vez na vida, ela vai ter que pensar em outra pessoas além de si mesma e isso é imenso” concordo! Aquela cena da discussão com a Lorelai no cemitério deixou muito evidente como a Rory prioriza os próprios objetivos mais do que os sentimentos da própria mãe em relação a algo que envolve as duas. Também acho que a Lorelai estaria pronta para dar suporte à Rory. E a Emily (Kelly Bishop)! Acho que em tempos de Richard (Edward Herrmann), a Emily surtaria, porque o Richard provavelmente surtaria, e eles tentariam induzir a Rory a “fazer a coisa certa” daquele jeito aristocrático all over again. Dessa vez, não sinto que a gravidez vai se tornar um drama familiar.

MIA: Acho que a Lorelai seria uma ótima avó, mas antes disso ela precisaria aceitar que a Rory vai ser mãe solteira e penso que talvez isso traria umas vibes de sentimentos dela e talvez ela ficasse até um pouco ressentida com a Rory. Mas nesse ponto todo mundo amadureceu um pouquinho. A Emily perdeu aquela rigidez toda após o abalo da morte do Richard, a Lorelai também está aprendendo a se permitir de verdade viver experiências completas de mudança e que a mudança não é necessariamente ruim. Apesar de ela ter sido muito corajosa saindo de casa com uma criança pequena e se virando sozinha, ela é orgulhosa justamente por isso e um pouco fixa. Sim, ela é a Mãe Legal e Amiga, mas elas têm sua própria rotina. Agora a Sookie (Melissa McCarthy) foi embora, a Rory voltou e… gravidez inesperada! Mas realmente acho que ela tem maturidade pra conseguir ajudar a Rory nesse momento e não julgaria tanto assim quanto julgou quando, por exemplo, ela teve sua primeira vez.

FERNANDA: Também acho, Yuu. O que mostra que não seria o caso de uma história que se repete, mas de uma criança que nasceria num ambiente muito menos hostil e com amor vindo de muitos lados.

MIA: Sim, Fer, ela seria bem amada realmente. E acho que não ia rolar aquela obsessão por conseguir uma “boa educação” a qualquer custo e ser extremamente bem sucedida porque a Rory aprendeu que nem sempre um diploma vai resolver tudo e que o mundo é muito mais do que a faculdade a que você foi ou o fato de ter tirado só dez. Esse peso não teria. (Eu realmente gostaria de ver essa criança crescendo aaaaah).

FERNANDA: Sim! Acho que a Emily estaria pronta pra ver uma criação mais livre, a Lorelai pra não precisar de uma Criança Perfeita pra Provar um Ponto e a Rory não estaria muito pronta pra nada, mas seria obrigada a amadurecer de formas muitos próprias e novas – não só porque é ela, mas porque acho que ter um filho faz isso com qualquer um, né? (E eu queria demais (!!!) ver essa criança crescendo, mesmo que a possibilidade de um revival-do-revival me assuste muito).

ANA LUÍZA: Não acho que a reação da Lorelai seria das melhores – talvez ela precisasse de algum tempo para absorver a notícia, mas concordo que ela seria uma ótima avó. Não era isso que ela esperava, tampouco queria pra vida da filha, mas, de novo, a vida acontece e ela sabe disso melhor do que ninguém. Agora a Emily certamente lidaria com isso muito melhor agora. O arco dela pós-morte do Richard mudou muito toda a vida dela e essa nova versão parece muito mais leve e em paz consigo mesma, e também com os outros. Sem dúvida seria um momento muito novo pra todo mundo.

YUU: A Lorelai foi uma ótima mãe, mas vemos durante a série clássica que ela tinha muitos problemas em ser filha, e por ora, adulta também. Ela superprotegia a Rory e arranjava brigas infundadas, mas que na visão dela, ela tinha o direito de comprar. Vide as brigas com o Jess (Milo Ventimiglia) – e o Luke, por causa do Jess – e do diretor Charleston (Dakin Matthews). Demorou, mas ela evoluiu, porque eventualmente Rory foi para Yale, e ela precisou respeitar alguns limites. E embora eu tenha muitos receios em relação à família lidar com a gravidez da Rory, me preocupa a situação do relacionamento dela. Será que contaria para o Logan (Matt Czuchry) que está grávida dele? Se contasse, ele seria um Christopher (David Sutcliffe) 2.0? Sinto que teria várias ameaças no meio, principalmente pelo nome Huntzberger estar em jogo.

ANA LUÍZA: Gosto muito quando a Rory vai pra Yale justamente por isso. Acho que as duas têm a oportunidade de amadurecer um bocado, tanto porque estão mais distantes fisicamente, quanto porque a Lorelai talvez já não tenha também todas as respostas e não possa ajudar a Rory em tudo. Ela aconselhava, era uma boa mãe, entendia questões que diziam respeito à escola, Stars Hollow, namorados e a família, mas não a faculdade, talvez nem o trabalho, já que as duas seguiram caminhos diferentes. Ela continua apoiando a filha, mas já não tem muito mais o que fazer – Rory é uma mulher, afinal, e dona do próprio nariz. É meio o que acontece no revival também: elas conversam, mas a Lorelai já não se mete na vida da filha como antes.

MIA: Acho que ela acabaria contando, mas demoraria pra fazer isso. Só que o Logan está 100% nem aí e duvido que fizesse a figura de pai que deveria fazer. No caso, acho que a figura paterna que a criança teria seria o Luke e o Jess (aquele olhar do Jess no final, aquilo é plot pra romance).

FERNANDA: Acho que uma das belezas de Gilmore Girls é que ela é essencialmente sobre os conflitos nas relações humanas de basicamente qualquer natureza (afinal, que trama tem GG para além dos personagens?), e que eles são praticamente inevitáveis, mas que é possível contorná-los quando as pessoas são importantes para nós e estamos dispostas a fazer um esforço. Então a gravidez e maternidade da Rory com certeza trariam muitos conflitos. Mas eu acho de verdade que ia ficar tudo bem.

ANA LUÍZA: Não sei se ela contaria. Chega até a ser irônico que eles tenham se despedido e surge uma criança para uni-los novamente (ou quase), mas existem muitos problemas, é claro, a começar pelo casamento do Logan e, como a Yuu bem lembrou, o fato da criança ser um Huntzberger. Acho que, eventualmente, ela contaria sim, mas talvez não fique exatamente feliz por isso ou tente esconder por tempo demais antes, não sei. É realmente uma questão. Mesmo assim, também acho que as coisas ficariam bem no final. Não sei se o Logan seria um Christopher 2.0 nem um pai tão ausente quanto o Chris fora por muito tempo, mas não seria o cenário ideal também.

FERNANDA: Acho que a Rory não se sentiria no direito de não contar pro Logan, mas acho que ele seria presente no nível Christopher mesmo – não consigo ver nesse Logan do revival alguém que faz mais do que isso, embora talvez por ser mais velho ele talvez tivesse mais… noção.

ANA LUÍZA: Eu tenho fé que ele seria um pai mais presente, na medida do possível.

MIA: Amiga, desculpa, mas eu realmente não consigo ter fé alguma no Logan. Pra mim, ele sempre foi um embuste e só virou um embuste maior ainda com o passar dos anos.

YUU: O que eu acho complicado no relacionamento dos dois é que o Logan sempre tenta resolver os problemas da Rory com coisas. Ela termina com ele por telefone? Ele arranja uma despedida teatral com a Brigada (que já deveria estar aposentada, btw). Ela precisa de um lugar pra escrever? Ele oferece uma casa da família dele como retiro. Não acho que ele ofereceria qualquer apoio emocional como pai, só tentaria dar conforto, enquanto Mitchum Huntzberger (Gregg Henry) surtaria por ter um neto bastardo na família quando o Logan está prestes a fazer um casamento “à altura”.

FERNANDA: Acho que consigo enxergar mais o Jess e o Luke como as figuras paternas dessa criança, como a Mia falou. Se a Rory quisesse o Jess na vida dela, acho. Não tem nada que comprove, mas o final dá a impressão de que ele estaria disposto, talvez? Não consigo ver um Logan presente, mas consigo ver um Logan que tenta dar “tudo que a criança precisa” em termos materiais.

YUU: Nesse ponto, eu realmente concordo que o Jess seria um parceiro melhor pra ela. Foi ele, afinal, quem apontou o caminho do livro que ela deveria escrever. Mas odeio que a Rory fique limitada só aos ex-pretendentes (porque os novos ela trata como lixo).

ANA LUÍZA: Eu gosto bastante do Logan. Acho que foi o relacionamento mais estável e pé no chão que a Rory teve durante a série clássica. Odeio o fato deles terem mantido um relacionamento no revival, no entanto, principalmente porque existiam outras pessoas e eles não foram honestos em momento algum – nem ele, tampouco ela –, mas com um filho no meio acho que mudaria algo não só pra Rory, mas pro Logan também. É bem verdade que, socialmente, muito menos seria esperado dele e não acho que ele deixaria sua esposa “à altura” pela Rory e uma vida ao lado dela, mas consigo imaginá-lo mais presente que o Chris e dando mais apoio pra Rory e pra criança. Como isso aconteceria eu realmente não faço ideia, mas não consigo imaginá-lo como um Péssimo Pai™. Não acho que o Jess seria a solução, tampouco.

MIA: Realmente acho que o Jess cresceu bastante como pessoa madura e mostrou responsabilidade e feelings, coisa que antes não tinha. Okay, posso estar sendo influenciada por ser team Jess, mas ele realmente se mostra presente e preocupado, mas sem querer mandar nela ou comprá-la nem nada do tipo. Ele é um cara que a respeita e eu shippo os dois demais. “Mas odeio que a Rory fique limitada só aos ex-pretendentes (porque os novos ela trata como lixo)” SIIIIIM, ela é muito apegada ao passado! O que ela faz com o namorado dela é algo simplesmente HORRÍVEL

FERNANDA: Só me pareceu tudo unilateral demais pra shippar, mas que ele cresceu demais não resta dúvida pra ninguém. Porém todavia contudo é REAL esse incômodo com a limitação dos arcos da Rory aos ex-namorados. “Parem de falar sobre os ex da Rory!!!”, diz Amy Sherman-Palladino. “Mas aqui vai ela interagindo com todos os seus ex e o atual é uma piada” kkkk difícil

YUU: Pior que o musical, só o plot do Paul. 🙂 – um slogan para o revival. Muito difícil. Parece que a Amy escreveu o revival querendo dar continuidade ao que a série era em 2007, mas, oi, nove anos se passaram e a gente esperava mais mudanças do que aquelas que ela foi obrigada a fazer.

FERNANDA: De fato. O que me leva à pergunta: um ano depois, que erros do revival vocês ainda não conseguem superar? Tenho alguns.

YUU: O descaso com a Lane (Keiko Agena) é um erro que eu JAMAIS vou superar.

MIA: Olha, vamos ver. O primeiro que preciso citar é esse apego ao Logan, mesmo ele estando PRA CASAR. Gente, a Rory não precisa ser perfeita, mas descaradamente trair o namorado com o noivo de outra (que é ex dele e um embuste total) foi algo que achei um erro bem forte. Sim, eu entendo por que está ali, mas não consigo engolir. E LANE MERECIA MAIS!!!!

YUU: A gente não sabe exatamente o que ela faz agora, ou o Zach (Todd Lowe), e tampouco conhecemos os filhos dela. Eles só… existem. E de personagem secundária com uma história própria, Lane virou só o ombro pra Rory desabafar quando briga com a Lorelai ou está em crise com o Logan.

FERNANDA: Quanto a Rory e Logan nas condições que aconteceu (dupla traição sem nenhuma consequência porque Paul e a Odette nem personagens, etc), acho de uma desnecessidade sem tamanho. Rory já faz esse papel e já foi traída pelo Logan também, sabe. De novo? Sério? Quanto à Lane, totalmente. A gente pode até ficar chateada com algumas coisas no desenvolvimento da Paris (Liza Weil), por exemplo – mas ela TEM um desenvolvimento, ela tem destaque, ela existe para além da Rory.

MIA: Ela deveria ter sido desenvolvida, assim como a Paris foi. Okay, ficou um pouco (muito) demais o que fizeram com a Paris, mas ela teve destaque e uma explicação pra toda aquela intensidade. A Lane não. Mas acho que o erro começou quando, na série clássica, ela ficou grávida na primeira transa. DE GÊMEOS. Ela recém ia começar a viver e parece que foi “punida” por não ser o que a mãe dela esperava.

FERNANDA: É, Lane deserved better nem é questão do revival, é desde a série clássica. Os Palladino ficaram sem saber o que fazer com ela, mas ao mesmo tempo não queriam tirá-la da série (porque sinceramente? Ela podia ter batido as asas, seguido a vida e como consequência não faria mais sentido naquela narrativa a não ser como personagem convidada, e nesse caso acho que seria uma coisa… boa?)

YUU: Acho que o desenvolvimento da Paris no revival foi coerente. Ela sempre se esforçou pra ser bem sucedida academicamente e o casamento com o Doyle (Danny Strong) foi algo que ela conseguiu construir graças ao esforço que ela fazia pra se desenvolver emocionalmente também. E não me surpreende que apesar de estar com a vida no lugar, ela ainda tenha seus problemas de insegurança. Faz parte dela. (Só achei um absurdo a insegurança com o TRISTIN. QUEM LIGA PRO TRISTIN?) Lane podia ter batido asas e ninguém teria sentido falta da narrativa dela, mas ironicamente, foi exatamente isso que aconteceu com a Sookie e eu achei estranhíssimo. Vocês não?

FERNANDA: Acho que já comentei isso na outra mesa, mas Tristin foi tão desnecessário. Era um revival e talvez eles tenham sentido a necessidade de se autorreferenciar, mas acabou sendo demais em certos momentos, aí deu nisso.

ANA LUÍZA: Lane realmente merecia mais. Estou assistindo as temporadas clássicas de novo e fiquei muito chateada – e triste também – quando vejo a empolgação dela com o início da banda, a dificuldade pra fazer com que tudo dê certo, para driblar a mãe, ou quando a Lorelai diz que ela precisa ficar famosa para apresentá-la ao Bono. É decepcionante chegar no revival e perceber que tudo foi meio em vão, mas odeio principalmente que a maternidade seja tratada como impedimento. As coisas ficam mais difíceis, hell yeah, mas ao fim de Gilmore Girls o Zach estava tocando para outras bandas e eles pareciam ter algum futuro na música ainda. Quando as coisas mudaram tanto? O que aconteceu? Ninguém realmente parece preocupado em dar essas respostas, o que é ainda mais frustrante. E DE QUEM FOI A IDEIA DE DESENTERRAR O TRISTIN? PELO AMOR DE DEUS.

YUU: Nossa, o excesso de referências à série clássica me irritou. Foi muito forçado.

FERNANDA: Sabe que eu não estranhei tanto, Yuu? Gosto demais da Sookie e gostaria que ela de fato estivesse mais presente, mas ao mesmo tempo fez sentido pra mim.

MIA: O SUMIÇO DA SOOKIE!!!! Mas achei legal ela ter uma vida própria longe da Lorelai. Mas senti falta dela.

ANA LUÍZA: Acho que faz sentido, em algum nível, que a Paris surte quando ele aparece, não porque ela ainda nutre sentimentos por ele ou não superou a paixão adolescente, mas porque ela está vivendo um momento difícil – a relação com os filhos é conturbada, o casamento vive um momento igualmente conturbado – então tudo isso acaba trazendo de volta questões que nem seriam consideradas em outros momento. Mas gosto de como ela continua sendo uma mulher com inseguranças e tão incrível e bem-sucedida ao mesmo tempo. Não é como se uma coisa invalidasse a outra.

FERNANDA: Outra coisa que me irritou muito foi (acho que até já falamos disso na outra mesa) o erro na hora de acertar o tom cômico da série, que às vezes parecia uma paródia. Stars Hollow sempre foi uma cidade absurda, mas o revival parecia estar tirando sarro desse absurdo, de fora, e não entrando nele, como sempre aconteceu.

MIA: O musical, por exemplo.

YUU: Sim! O revival teve a sensação de uma receita de família que foi perdida e estava sendo improvisada com os ingredientes que lembravam de cabeça.

ANA LUÍZA: Senti muita falta da Sookie. Acho que quando assistimos a série clássica ficamos com a sensação de que a Sookie serve à narrativa da Lorelai e não o contrário, mas eu realmente senti falta da presença da Sookie no revival. Me dava o tempo inteiro a sensação de que faltava alguém e eu queria saber como ela estava, como estavam as crianças, o casamento, o que ela estava fazendo, o que tinha acontecido nesse tempo todo. É realmente bem triste que ela não tenha aparecido mais.

FERNANDA: E de certa forma acho que esse momento da Paris e do pseudo-Tristin (nem era o Chad Michael Murray kkkk pra que isso, Deus) é um reflexo desse erro no tom, embora essa perspectiva que a Ana trouxe seja bem interessante.

YUU: O musical foi uma tentativa de upgrade da encenação da “batalha histórica” de Stars Hollow que deu muito errado. Se tivessem colocado os pobres homens tremendo na neve de novo teria dado mais certo. (Apesar de eu ter adorado ver a Sutton Foster no revival. Só podiam ter dado um papel melhor pra ela.)

FERNANDA: Acho que se a Sookie não tivesse aparecido tão pouco por causa do tempo de Melissa [McCarthy] que eles tiveram (rs), e sim por escolha narrativa, teria funcionado melhor. Por exemplo: ela podia visitar uma vez, falar ao telefone com a Lorelai em outras, contar mais sobre a vida dela nessas conversas… Toda uma vida própria (yay!), mas de um jeito que fizesse mais sentido. Acho que tudo isso (tipo o musical e a famigerada cena da Brigada) também é reflexo de o revival ter sido tratado como um Evento, se não me engano até na divulgação. Só que não foi bem amarrado, eu acho, e tudo me pareceu fora do tom.

ANA LUÍZA: Nossa, completamente. A segunda vez que assisti ao revival foi logo depois de um rewatch da série clássica e a diferença era gritante. Definitivamente, parecia demais uma receita de família que ficou perdida no tempo e foi improvisada com aquilo que todo mundo meio que lembrava.

MIA: Eu nem quero falar na Brigada porque o tanto que eu revirei os olhos naquelas cenas… aaaaaaaah. Um bando de homens adultos que nunca amadureceram porque são RYCOS é uma coisa que me incomoda num nível que nem consigo expressar. (Desculpem o ódio, mas o momento revolta já passou, risos).

YUU: Acho que a Sookie é uma parte importante da vida da Lorelai, mas não serve só pra narrativa dela. Ela teve uns momentos marcantes na série clássica que não estavam ligados à Lorelai, mas Lorelai fazia parte como melhor amiga. Tipo o nascimento do Davey, que é um momento que eu adoro, porque é um parto feito em casa à moda antiga, justo no episódio do Festival de Arte Viva. E eu não suporto os amigos do Logan. Mas vamos fingir que sim, porque o ator que faz o Finn (Tanc Sade) segue a gente no Twitter. kkkk

ANA LUÍZA: É o que faz o Finn? HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

YUU: Não sei, qual é o australiano?

FERNANDA: Também não vejo a Sookie tão como apêndice da Lorelai, e inclusive acho que esse é um dos pontos positivos da série. Seria legal ver mais dela justamente por isso, mas não me incomodou porque ela estava vivendo sua verdade como sempre e isso é bom. Acho.

ANA LUÍZA: Amiga, não faço a menor ideia. Mas deve ser ele mesmo.

FERNANDA: Essa cena da Brigada é mais uma que faria mais sentido se todos eles tivessem 23 anos, não é mesmo? Mas tudo bem. (Obrigada por nos seguir, …Finn…)

YUU: Ah, sim. Ela fez falta para a série, mas ela ter tomado um caminho próprio foi ótimo pra personagem. O Michel (Yanic Truesdale), inclusive, estava prestes a fazer a mesma coisa e isso soou muito natural.

FERNANDA: Concordo, Yuu. São pequenas coisas, mas que são pontos positivos. Falamos muito de questões negativas, mas o que fica de positivo pra vocês, pensando hoje?

MIA: Eu realmente gostei do desenvolvimento da Emily. Estava mais do que na hora de ela se libertar de todas aquelas convenções sociais e ser quem ela quisesse ser. Infelizmente, isso se deu com a morte do Richard, mas foi um plot muito bonito.

YUU: Acho que o desenvolvimento da Emily é uma unanimidade.

ANA LUÍZA: Com certeza!

FERNANDA: Com certeza! -2

YUU: E eu gostei bastante do casamento da Lorelai e Luke também. Demorou, e muito, mas acho que quando eles trocaram as alianças, eles finalmente estavam na mesma página.

FERNANDA: Triste pela morte do Richard, mas que bom que os Palladino conseguiram transformar isso numa coisa bonita, tocante, sabe? Não tem homenagem melhor. Também gostei muito [do casamento]. Claro que é meio surreal que todas essas questões deles tenham ficado quietas por tantos anos, mas a gente faz um esforcinho pra ignorar essa parte e de resto foi muito bonito (e a trilha de fundo, que coisa mais linda!)

ANA LUÍZA: Me incomoda um pouco que Luke e Lorelai tenham chegado nesse ponto, principalmente a falta de diálogo entre os dois, o lance dos filhos, etc etc, mas acho que a forma como desenvolveram esse conflito foi muito apropriada. Eles realmente pareciam estar na mesma página quando trocaram alianças e acho que isso é o que importa, no final das contas.

YUU: Foi desnecessário a barriga de aluguel tardia, e as mentiras sobre a Lorelai fazer terapia e o Luke sair com a Emily para procurar potenciais lugares de franquia, mas de resto, Luke evoluiu ao ponto de discutir a relação e saber o que quer pros dois, e a Lorelai conseguiu encontrar um equilíbrio em si mesma pra querer a mesma coisa.

ANA LUÍZA: Exatamente!

FERNANDA: Acho que o desenvolvimento da Lorelai até chegar lá foi uma das coisas que mais amei. No começo me incomodou, mas depois aceitei com bom humor as referências e piadinhas com o fenômeno que Livre inspirou, e aquela cena nas montanhas, no telefone com a Emily, foi de chorar mesmo. Lindíssima.

ANA LUÍZA: Aquela cena é maravilhosa! Acho que foi um dos meus momentos favoritos do revival.

YUU: Uma coisa aleatória totalmente cretina foi a cidade ter interferido e feito o Kirk (Sean Gunn) adotar uma porca pra não ter um filho com a Lulu (Rini Bell). Coitado. 2016 e o bullying continua. (Desculpa, voltei a criticar o revival.) Chorei demais com aquela cena [na montanha]. Algumas coisas o revival conseguiu casar bem com a série clássica.

FERNANDA: Outro momento que eu achei maravilhoso foi a Rory caminhando pela casa dos avós. São momentos assim que provam que nossa Gilmore Girls tá viva, sim. (Às vezes tá viva pro mal, né, tipo fazer piadinhas gordofóbicas sem noção em pleno ano de 2016) (Desculpa, voltei a criticar o revival -2)

ANA LUÍZA: Juro que com essa história da porca só fiquei pensando na Lulu, coitada. Pelo menos Petal (é Petal?) virou atriz nos filmes do Kirk (filmes by kirk, amo).

MIA: Acho que os desenvolvimentos pessoais foram os mais importantes no revival (os que existiram, NÉ LANE). Já falei aqui, mas gostei bastante do que fizeram com o Jess. Ele passou de adolescente revoltadão pra um cara responsável e que realmente está ali pelas pessoas. A Paris também conseguiram fazer um desenvolvimento bacana. Meio caricato, mas a Paris sempre foi meio caricata com aquela intensidade toda e a obsessão por ser sempre a melhor. Mas fiquei feliz por ela e a Rory continuarem amigas.

ANA LUÍZA: Eu tenho muitos problemas com o Jess, então prefiro não argumentar sobre ele no revival. Mas redimiu um pouco a imagem que a série clássica deixou na minha cabeça.

YUU: Reza a lenda que existe a possibilidade de continuarem o revival, então espero que esses momentos sustentem GG. Se não for pra ser assim, não precisa, obrigada.

FERNANDA: Já falei isso antes, mas na minha cabeça não existe dúvida de que a Amy quer que a gente torça pelo Jess, e o arco dele demonstra bem isso, então né, eu gosto muito do desenvolvimento dele, pra mim é um dos maiores crescimentos da série, agora ao lado da ❤ Emily ❤

YUU: (Piadinhas gordofóbicas e descaso com a comunidade LGBT né. “Não tem gays o suficiente em Stars Hollow, quem sabe Woodbury pode emprestar alguns” AAAARGH.) Eu não queria torcer pro Jess, mas se for o caso….. Vamo, vai.

MIA: Eu gostaria muito que continuassem. Ainda mais pra ver o amadurecimento da Rory. Agora ela parou. Não mostra muito, mas dá pra perceber que ela não teve muito tempo pra parar durante esses anos. Vida de jornalista é uma coisa corrida mesmo, ainda mais porque agora a gente tem que ser gerente da própria carreira, se empreender (odeio demais isso), já que os empregos tradicionais estão cada vez mais escassos. Então, nessa correria toda, a vida dela embolou. Queria ver ela desembolando tudo isso e lidando com todas as novas questões. E daria pra matar a saudade também.

ANA LUÍZA: Às vezes acho que seria pior se tivesse uma continuação. Claro que seria divertido assistir e adoraria poder acompanhar um pouco mais da vida das garotas Gilmore, mas os Palladino escorregaram tão feio em alguns momentos que tenho até medo do que vem por aí.

FERNANDA: Outra coisa que curti foi que trouxeram muitas pessoas da série clássica de volta (já que era um Evento hehe), mas a maioria apareceu na medida certa, tipo os amigos do Logan, ou o Christopher. Acho que encontraram um equilíbrio bacana nesse sentido. Hoje eu acho que [a série] poderia continuar sim, principalmente porque eles não voltariam com essa ideia de que é um Grande Momento e sendo mais pé no chão seria mais Gilmore Girls de raiz, sabe? Mas os Palladino de fato erraram bastante nesse revival e seria um voto de confiança que eles talvez nem mereçam.

YUU: Curti muito a aparição do Chris também! Achei que foi straight to the point e na hora e no lugar certos. Só que até hoje não sei o que pensar dele. Gosto ou não gosto? Estou reassistindo a quinta temporada agora, naquele período insuportável do Chris, mas não acho que ele seja um cara péssimo. Não sei.

FERNANDA: Acho que essa é a mágica, na verdade. De modo geral os personagens de destaque (alguns servem como complemento, e tudo bem) são pessoas complexas e muito humanas, que erram muito e acertam também, e no fim é interessante acompanhar a cada um deles por isso (e por isso dá aquela tristeza quando destratam a Lane como personagem, por exemplo).

ANA LUÍZA: Concordo totalmente, Fer! Eu até gosto do Chris, acho que é uma pessoa bem intencionada e tudo, mas é como diz o ditado: de boas intenções o inferno está cheio. Ele é um cara bastante problemático, mas fora um ou dois momentos que me deixam realmente possessa – como o episódio da renovação de votos do Richard e da Emily –, acho que gosto dele, sim.

MIA: Eu não consigo gostar dele, mas também não acho a Lorelai a melhor das pessoas dali. Ambos tiveram seus erros e ele não é um grande vilão, apenas um cara que errou muito, mas depois teve um desenvolvimento que o transformou em adulto de verdade. Só que isso demorou demais e esse é o problema. Porém: a vida não é perfeita e Gilmore Girls também não (por isso mesmo que é tão boa).

YUU: Amém!

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