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“Se você não gosta do que estão dizendo, mude a conversa”: a trajetória de Peggy Olson

“Em pouco tempo e com sorte você virá morar na cidade. Mas se você tiver sorte mesmo você ficará no subúrbio e não terá que trabalhar”.

Essa é uma das primeiras frases que Peggy Olson, interpretada pela brilhante Elisabeth Moss durante as sete temporadas de Mad Men, ouve ao chegar ao escritório da Sterling Cooper para seu primeiro dia de trabalho como secretária. Quem diz isso a ela é Joan Harris (a também brilhante Christina Hendricks), coordenadora das secretárias da agência, depois de questioná-la sobre o número de trens que precisava pegar para chegar em Manhattan vinda do Brooklyn (apenas um). Naquele momento, uma manhã de algum dia qualquer do ano de 1960, nenhuma das duas tinha como saber que o futuro que as esperava não tinha absolutamente nada a ver com o subúrbio, muito menos que isso não era ruim — muito pelo contrário.

argumentei anteriormente que em Mad Men as personagens femininas são tão importantes quanto os homens que aparecem em título, e que Peggy Olson é tão protagonista quanto Don Draper (Jon Hamm, também excelente – certo, você já entendeu), embora a gente fale muito mais dele. Afinal, tem algo de extremamente fascinante num meio-que-anti-herói, mas não realmente, que, nas palavras de Matthew Weiner, o criador da série, “tem tudo e é extremamente infeliz”. Para o próprio Weiner, no entanto, Peggy é a favorita:

“De todos eles, Peggy é minha preferida. Eu me identifico com os esforços dela. Ela é tão séria e se considera tão virtuosa, e é tão talentosa e inteligente, mas burra em relação às coisas pessoais. Ela acha que está vivendo a vida do “nós”. Mas não está. E toda vez que ela avança uma casa, alguém diz: “Você não é parte de ‘nós’”. “Mas vocês falaram ‘nós’ outro dia.” “Sim, nós queríamos dizer ‘nós, homens brancos’”.

Aviso: esse texto contém spoilers, inclusive sobre o episódio final.

Muito da jornada de Peggy Olson tem a ver com forjar um espaço para si mesma num meio que não estava acostumado a trabalhar com mulheres em posição de igualdade. Elas eram as secretárias, chamadas sempre de “as garotas”, a “sua garota”, o que praticamente retirava o aspecto profissional daquela transação de trabalho por dinheiro, mas não eram as pessoas tomando decisões ou fazendo o trabalho essencial no escritório. Peggy começa sua carreira de redatora na metade da primeira temporada, depois de uma fala espontaneamente inspirada dita a Freddy Rumsen (Joel Murray), um dos muitos homens da agência. Como as figuras femininas oficiais do escritório, as secretárias da Sterling Cooper eram frequentemente chamadas para ter opiniões orgânicas sobre os produtos considerados femininos com os quais os criativos teriam de trabalhar. Peggy estava lá apenas para testar batons, mas numa mistura de inspiração, talento inato e sorte, inicia uma carreira (quase como o próprio Don).

Freddy desperta – ou talvez apenas incite – em Peggy a ambição que irá conduzi-la pelos próximos seis anos da série, nove anos da vida de seus personagens. Sua ascensão profissional acontece ao mesmo tempo em que sua vida pessoal toma rumos inesperados e infelizes. Peggy é tão desinformada que descobre estar grávida logo antes de o bebê nascer, numa gravidez que conseguiu esconder simplesmente porque não tinha a menor ideia do que estava acontecendo. Ela é jovem, solteira, precisa trabalhar para o próprio sustento e o pai de seu bebê é um executivo recém-casado com quem ela teve um caso sem que ele jamais prometesse que deixaria a esposa, coisa que ele nunca faria, e ela sabia, e que ela nunca pediria também. Peggy tem o bebê e Peggy não fica com o bebê.

Não é que Peggy necessariamente não quisesse ser mãe. Muitos anos mais tarde, quando procurava um apartamento para morar com seu então namorado Abe Drexler (Charlie Hofheimer), jornalista socialmente consciente e ativista, ela é convencida por ele a se mudar para um prédio meio decrépito quando ele diz que queria criar seus filhos num bairro com mais variedade de gente. Peggy fica radiante ao mesmo tempo que tenta fingir que não  está acontecendo nada demais – e Elisabeth Moss brilha como de costume – ao ouvir aquelas palavras, ao saber que Abe já imaginava aquele tipo de futuro ao lado dela. Mas a experiência de engravidar tão jovem, mal se estabelecendo, de um homem péssimo, de ter que levar aquela gravidez até o final e de escolher abrir mão da criança marca Peggy para sempre. É a Don que ela recorre quando finalmente descobre o que estava acontecendo, e é Don quem diz a ela que aquilo nunca tinha acontecido, que ela ficaria surpresa com o quanto nada daquilo tinha acontecido.

Só que o conselho de Don não é verdadeiro para ele, e muito menos para ela. O passado é inescapável, deixa marcas indeléveis. Boa parte da segunda temporada da série é, para Peggy, uma busca de aceitação e perdão pelo acontecido, e é quando o roteiro enfoca sua criação católica e a força que ela ainda tinha dentro da personagem, por mais distanciada que pudesse estar da religião. Peggy eventualmente segue em frente, é verdade, mas a lembrança de que aquilo aconteceu vive com ela para sempre. Somos lembrados disso em cenas tão fugazes quanto significativas, como quando uma criança desconhecida nos corredores da agência a abraça, deixando-a completamente sem reação e sem jeito, ou quando Peggy desenvolve uma inesperada amizade com um pequeno vizinho que quer usar sua televisão – logo nos momentos mais solitários da vida dela.

Às vezes Peggy tem alguns vislumbres do que ela poderia ter sido, mas não foi. “The Rejected”, um dos meus episódios preferidos, é um desses vislumbres. É nele que Pete Campbell (Vincent Kartheiser), o pai de seu filho, descobre que a esposa está grávida, gravidez que o casal Campbell tentava há anos. É uma notícia que o deixa sorrindo pelos cantos, que anuncia a todos os colegas e motivo de muitas congratulações ao redor do escritório. Obviamente a notícia chega aos ouvidos de Peggy. A essa altura de sua vida, ela já não estava mais interessada em Pete e muitas coisas tinham mudado para ela: adotara um visual mais maduro, deixando seus vestidos de menina e os cabelos presos num rabo de cavalo para trás, tinha uma sala própria e conquistava cada vez mais confiança no próprio trabalho.

É nesse mesmo episódio que Peggy conhece Abe, começa a frequentar festas ligadas ao movimento da contracultura que tanto marcou a década de 1960 e conhece todo um novo grupo de pessoas que não poderiam ser mais diferentes de todos aqueles homens engravatados que àquela altura ainda andavam pelos corredores da agência. Mas a notícia de que Pete teria um filho, um filho que de fato assumiria como seu e que o enchia de felicidade genuína (independentemente do que ele viria a ser como pai) a abala. A abala porque ela poderia ter sido aquela pessoa, mas não foi e também não seria. A abala porque relembra os momentos e decisões difíceis que precisou tomar. A abala porque para ele foi mais fácil seguir em frente.

Mas Peggy também conseguiu tocar a vida, e a série não nos deixa esquecer. Numa de suas cenas mais sutilmente bonitas, Peggy, cercada por seu novo grupo de amigos que iam direção a sabe-se lá onde, mas que parecia empolgante, espera o elevador do lado de fora das portas de vidro da agência. Do lado de dentro, está Pete e todos os outros homens cinzas e sorridentes em seus ternos. Com o peso da revelação da gravidez ainda pairando sobre os dois, Peggy e Pete trocam um olhar e um sorriso. O elevador chega e Peggy vai embora. Está tudo bem. No A.V. Club, Noel Murray resume bem a cena:

“A grande imagem – com um belo enquadramento e trilha sonora – tem Pete parado na sala de espera com seus novos clientes, se sentindo bem relacionado e bem sucedido, enquanto Peggy espera do lado de fora das portas de vidro do escritório com Joyce e seus amigos da contracultura. A ironia é clara: quem são os verdadeiros rejeitados aqui? Os executivos conservadores ou as pessoas paradas a alguns metros de distância, atrás do vidro — as pessoas cujos gostos e preocupações vão, como sabemos, definir a década em que estão vivendo?”

Peggy aos poucos constrói para si mesma toda uma nova vida a partir de seu trabalho. Se é sempre lutando com unhas e dentes e precisando se reafirmar de novo e de novo para superar a desconfiança inicial dos clientes quando descobrem que vão trabalhar com uma mulher de menos de trinta anos, o fato é que a carreira de Peggy deslancha. Ela é contratada como redatora pelo próprio Don, em parte pelo prazer de confrontar o colega que não quer Peggy Olson, secretária, trabalhando com um de seus clientes, em parte porque ele realmente acredita no potencial dela. Aos poucos, ela passa de seus muitos “me desculpe” e “Senhor Draper” para simplesmente “Don” e para um tom cada vez mais confiante, seja para pedir um aumento ou uma sala própria, seja para dizer a um cliente que ninguém mais vai achar um jeito de falar sobre feijões de uma maneira bonita e jovial. Quando chega o momento certo, ela até mesmo deixa a sombra de seu até então mentor para trilhar o próprio caminho em outro lugar. E, mais tarde, nas ironias do destino, passa a ser ela mesma a chefe dele.

Ao longo dos dez anos retratados pela série, Peggy Olson namora ou se envolve, com maior ou menor destaque, com uma meia dúzia de homens. Mas é com Don Draper o relacionamento mais importante dela na série. Em uma produção diferente dessa, talvez Don e Peggy tivessem, organicamente ou não, evoluído para outra coisa. Mas o fato é que em Mad Men eles foram mentor e aprendiz, chefe e funcionária (e vice versa), confidentes. É difícil definir o que eles tinham como amizade, muito embora também não seja de maneira alguma uma relação puramente profissional.

“[Don e Peggy] são pessoas que estão ligadas, para o bem e para o mal, para sempre, em um relacionamento que não é sexual, não é parental, não é bem de professor e aluna, nem de mentor e aprendiz, não mais. Eles não são melhores amigos. Eles nem mesmo são sempre colegas de trabalho. […] Pessoas vêm e vão, mesmo as que você deveria amar e que deveriam amá-lo de volta. Peggy e Don são pessoas com problemas de abandono, e o amor não impede o abandono. O estar junto sim. E Peggy e Don? Rapaz, eles estão juntos”. (Margaret Lyons na Vulture).

Don e Peggy funcionam como uma presença constante na vida um do outro, quando não há muitas pessoas que os conhecem a fundo e que ficam. Aquele que é de longe o melhor episódio de Mad Men, “The Suitcase”, é inteiramente construído primeiro no abalo das bases desse relacionamento e depois na solidificação delas. Quando Don conta a Peggy que ele acabara de perder a única pessoa no mundo que realmente o conhecia, ela afirma que aquilo não era verdade. Àquela altura, ainda tinha muito sobre Don que ela não sabia, mas nesse episódio ela é confrontada por uma de suas piores facetas, diante de uma crise de criatividade, e, no fim do dia, ainda está lá, segurando sua mão e não pedindo nada em troca.

Três temporadas mais tarde, veio “The Strategy”, no qual “The Suitcase” é espelhado por meio de uma cena em que é Peggy quem tem uma crise de criatividade, e agora é Don quem precisa ampará-la. Peggy precisa criar uma campanha para uma rede de fast food, e ela deve ser centrada na imagem de uma família, de preferência aquela do subúrbio. O pai que trabalha, a mãe que cuida da casa, os dois filhos. Peggy acabara de completar trinta anos, solteira e sozinha no seu apartamento meia boca ainda não reformado, e aquele aniversário chegara com todo o impacto das expectativas não realizadas para uma jovem mulher. Peggy conta a Don que depois de passar semanas viajando pelo país e conversando com família após família, mãe após mãe, o que passava pela sua cabeça era uma pergunta: o que ela tinha feito de errado? Don não tem realmente respostas pra ela, mas ele a convida para dançar “My Way”, canção de Frank Sinatra que não parava de tocar nas rádios à época. Acima de tudo, eu fiz do meu jeito. Era Frank, mas poderia ser Peggy.

Peggy finalmente entende, pelo menos por ora, onde queria chegar, entende que família não necessariamente significa casamento e filhos, e apresenta sua ideia diante de uma sala ainda predominantemente masculina – algo que ela ainda teria que encarar muitas vezes. Mais tarde, quando a Sterling Cooper vai mudar de escritório, ela é a última pessoa a ficar trabalhando no antigo, junto com o personagem mais espirituoso de Mad Men, Roger Sterling (John Slattery). Eles passam horas batendo papo, bebendo e andando entre o restos mortais do que um dia fora a agência. Roger, sendo Roger, sugere que ela leve para sua nova sala um quadro (real e bem antigo) que pertencera a seu antigo e excêntrico sócio; Roger, sendo Roger, o descreve como “um polvo satisfazendo uma mulher”. Peggy nega, afirmando que ela nunca seria levada a sério com aquilo na parede e que Roger sabia que ela precisava fazer com que os homens se sentissem sempre à vontade quando estavam trabalhando com ela, ao que Roger questiona: quem disse?

Já Bert Cooper mostrava o quadro para quem bem entendesse.

Peggy chega ao escritório novo no dia seguinte com óculos escuros para esconder a ressaca, um cigarro pendurado na boca e uma pose de quem encara o mundo de frente, de igual para igual. Pendurado debaixo do braço dela, está o polvo. Ele desperta alguns olhares. Peggy segue sem um olhar para os lados.

O final reservado a ela, no entanto, não foi esse. Foi, inesperadamente, como uma cena saída de uma comédia romântica. Não faltou quem criticasse a resolução dada a ela: ela abre mão de um cargo de chefia em uma produtora nascente e, logo depois, percebe que provavelmente estivera apaixonada por seu melhor amigo há muito tempo. Mas Peggy, chegando no fim de sua jornada, estava lá, sendo quem sempre foi e seguindo no caminho que almejava: com um nome sólido o suficiente para ser lembrada, escolhendo seguir trabalhando naquilo que a inspirava, ao lado de alguém com quem ela sempre pudera contar.

Mad Men nunca afirmou que o caminho tomado por Peggy era mais válido do que outros, incluindo o do subúrbio, muito menos que ele não significava sacrifícios ou dúvidas profundas, assim como também nunca afirmou que esses questionamentos invalidavam suas escolhas. Mas ela vivia em busca dessa validação, porque sua ambição não era a norma, pelo contrário, e ela sentia e precisava conviver com as pressões externas, e às vezes ela também hesitava e se perguntava o que tinha feito de errado, por que as coisas não aconteciam para ela como para os outros.

Peggy era tão complexa quanto complicada: preenchida por um ressentimento profundo em alguns momentos, com uma personalidade que nem sempre era fácil ou agradável (só que, diferente de Don, ela não era boa em construir uma fachada mais atraente). Mas ela também aprendeu a se defender e se impor, e era obstinada. Mesmo com as dúvidas e tropeços, Peggy Olson foi a melhor personificação do mais famoso lema de Don Draper, aquele que dizia que a melhor coisa a se fazer quando o que estão dizendo não é de nosso agrado é mudar o tema da conversa.

“A questão é… Eu tenho um emprego. Tenho minha própria sala – com meu nome na porta. E tenho uma secretária. Que é você. E não estou com medo de nada disso. […] Não se preocupe comigo. Eu vou fazer tudo o que você quer pra mim. Eu vou ficar bem, Olive. Vou mesmo.”

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3 Comentários

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    Elisa Kobi Ghil
    23 de março de 2017 at 12:48

    As mulheres de Mad Men são maravilhosas, mas a Peggy é minha favorita porque eu comecei a assistir a série durante minha transição de ensino médio pra universide, quando eu tinha acabado de descobrir o feminismo, e Peggy conversava comigo como se estivesse olhando no meu olho.
    Eu me identificava por ser aquela mulher tímida, com rabo de cavalo, que as mulheres riem e os homens não acham atraente, não sabe muito da vida, mas que era inteligente e conseguia se manter nos lugares por isso. Até que ela virou redatora, depois teve um bebê e não assumiu e daí eu percebi que ela não era como as outras mulheres da série.
    Ela foi crescendo de temporada em temporada, mudando o estilo, ficando mais segura e mais próxima de Don – às vezes eu acho que a personalidade deles se espelha. Quando ela começou a negociar o próprio salário, pedir a própria sala, eu fiquei surpresa, por um momento achei até “abusada demais”. Nunca tinha visto uma mulher fazer aquilo. Enquanto a Joan que tinha mais tempo de agência e só acumulava funções – que vinham disfarçados de promoções – não tinha aumento de salário, Peggy não se contentava em ser mais uma na equipe de redatores.
    Daí um dia eu percebi que só achava Peggy muito “pra frente” porque ela era mulher, porque nunca tinha visto uma mulher como ela. Ver Peggy evoluindo de secretária tímida do 1° episódio para a redatora respeitada – e disputada por outras agências – da 7a temporada me fez amadurecer, aprender mais sobre mim e o feminismo e me fez entender mais as outras mulheres.

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    Ana Julia
    26 de março de 2017 at 10:44

    Contempladíssima com essa análise! Que mulher! Que série! Ressalto ainda que aho incrível como vocês conseguem comparar os episódios assim! Eu mesma me perco toda. Acho que Mad men é uma série que merece ser reassistida e refletida novamente. Tão sutil, tão crítica e tão instigante.

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    Katia
    7 de outubro de 2017 at 17:35

    Comecei a assistir a série a pouco tempo e estou na segunda temporada. Sinto como se Peggy estivesse tentando ser outra pessoa. A personagem me parece às vezes deixar seu lado feminino, e com as lágrimas pressas passar pela vida ignorando tudo que possa deixá-la fraca. Tenta se encaixar em um mundo que exige malícia e sacrifícios. Acredito que no fim ela se dará conta disso. Chorar e mostrar-se frágil não quer disser que a pessoa fraca, mas sim humana.

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