MÚSICA

Todos os problemas de Clarice Falcão

O primeiro deles é ser uma mulher falando de amor.

Monomania, seu primeiro álbum, é um disco sobre o amor, que navega de forma lúdica, irônica, divertida e extremamente sincera sobre a estranha experiência que é amar alguém. É uma pena que em 2013 muita gente tenha se apressado em classificar o álbum como um disco fofinho. Sempre duvide das boas intenções de um homem que classifica como fofo o trabalho de uma mulher: não existe nada errado em ser fofo, mas esse é o jeito mais educado que eles têm de dizer que não se importam o suficiente pra ir além do óbvio e que pra uma mulher ser fofo basta.

A mistura de voz, violão, vestidos retrô, franja, coroa de flores e de todos os loucos do mundo eu quis você pode enganar o ouvinte menos atento. Talvez Clarice Falcão seja mesmo fofa e nada mais. No entanto, o que me encantou no trabalho dela foi justamente a subversão dessa expectativa: Em Macaé ela assume um eu-lírico stalker psicótico num delírio de perseguição que termina em cianureto; nessa mesma vibe, Oitavo Andar é um sonho suicida que idealiza a experiência celestial que é dividir o necrotério com a pessoa amada — não é à toa que o título alternativo da música é Uma Canção Sobre Amor. Vale lembrar que monomania, em sua origem, é um termo usado pela psiquiatria para falar de paranoias delirantes, e confio na inteligência da compositora para afirmar que a escolha por ela não foi arbitrária. Clarice canta o amor como um grande delírio e, sim, o faz de forma leve e divertida, mas que vai muito além do fofinho-Clarice-e-Gregório-garotas-e-suas-histórias-de-amor.

Não existe nada errado com histórias de amor, só me parece preguiçoso dizer que elas são fofas e nada mais.

O segundo problema é que Clarice, de novo, escreveu um CD-sobre-uma-pessoa-só. A diferença é que essa pessoa é ela mesma. Ou todas as mulheres que podem existir dentro de si ou de uma mulher qualquer. Problema Meu, seu segundo álbum, é sobre mulheres que enfim se percebem no mundo como suas próprias pessoas e, consequentemente, seus próprios problemas, pro bem e pro mal. Em Eu Sou Problema Meu, ela canta: eu sou problema meu”. HA. Eu também. Não somos todas?

Atenta (e afiada) a respeito da imagem que se construiu a respeito dela, a garota fofinha com seu violão de três acordes, Clarice Falcão chama o estigma pra si  e faz graça dele numa faixa que leva seu próprio nome:

Essa música barata, serve nem pra serenata, não tem nem metáfora e fora que é meio chata. Traz alguma novidade pra essa sua sonoridade que talvez ainda te sobre um pouco de dignidade.

É uma auto-ironia muito gostosa, que pra mim soa mais ou menos como o seu mais sincero foda-se pra expectativa dos outros, uma reação necessária a partir do momento que você decide se assumir como seu próprio problema. Deixe que digam, que pensem, que falem, sabe assim?

Boa contadora de casos que é, Clarice continua compondo como quem conta histórias. Ela mantém o tom lúdico, irônico, divertido e bem sincero de antes, mas as músicas agora são construídas a partir de diferentes experiências e sentimentos. O amor ainda ronda suas letras, mas outras facetas são exploradas: às vezes é ansiedade por uma mensagem que não chega e tudo que passa pela nossa cabeça quando o infeliz não responde, às vezes é a dificuldade de se dizer em voz alta que o amor chegou ao fim. É um disco que abre espaço pro deboche, pro não e pra raiva. A cargo do produtor Kassin, os arranjos são mais encorpados e ganham instrumentos de sopro e sintetizadores, uma coisa meio jazz com ar de fanfarra e flerte com o brega, como na ótima Banho de Piscina, cujo primeiro verso diz: eu quero ver você numa piscina de óleo fervendo”, um sentimento pouco nobre, mas um desejo que às vezes é tão real. Quem nunca?

Em entrevista ao site Tenho Mais Discos Que Amigos, Clarice conta que seu disco anterior era como uma história só contada em diferentes capítulos, ao passo que o novo contém várias histórias de um capítulo só. Isso às vezes gera um problema de interpretação, principalmente com relação ao eu-lírico das canções. Seria mesmo Clarice Falcão a emissora de todos esses discursos? Mulheres frequentemente têm seus trabalhos classificados automaticamente como autobiográficos ou confessionais, como se isso fosse algo ruim. Não é. Não existe nada de errado em usar sua vida como inspiração, em maior ou menor medida (vide o que Amanda Palmer escreveu sobre o Liquidificador da Arte), o problema é que quando mulheres fazem isso, é sempre considerado algo inferior. Outro problema é assumir que toda criação feminina é autobiográfica, como se a gente não pudesse, simplesmente, criar (!).

É por conta dessa mistura de diferentes eu-líricos e quebra de expectativas que meus momentos favoritos do álbum estão na dobradinha entre Deve Ter Sido Eu e Vagabunda. A relação entre as duas músicas é uma coisa da minha cabeça e pode ser que Clarice nem tenha pensado nelas como um paralelo, mas gosto muito dessa fanfic mental que criei da história que começa com ódio entre garotas e termina com as duas tomando um chope juntas.

Toma um chopp comigo, vagabunda
Que eu sei a vagabunda que eu sou
Repara, que conexão profunda
De ter compartilhado um mesmo amor

É complicada essa coisa de ser o seu próprio problema no mundo, principalmente quando se é mulher. É aterrorizante, é solitário, é libertador, é engraçado e é muito bonito também. Clarice canta sobre algumas dessas experiências e mostra que ser problema seu pode ser tudo isso que já disse, mas não precisa ser (adivinha só!) um problema, ainda que a sociedade faça questão de transformar nossas narrativas independentes em uma.

Acredito que a partir do momento que a arte existe no mundo, qualquer que seja a forma, ela passa a ser também de quem a recebe, que fica livre para adicionar seu ponto àquela história. Esse é o meu: com sua ironia, deboche e às vezes até uma raiva mal contida, Problema Meu é um trabalho de resistência. Simples, banal, quase uma resistência afrescalhada das coisas mundanas, mas também real.  Acho que o que me fez gostar tanto dele é a ideia de pertencimento e companhia, uma conexão profunda da experiência compartilhada de ser às vezes efeito colateral de um acidente de trem proposital. Isso é problema nosso, e o resto que vá tomar banho de piscina.

Me liga, Clarice, que eu tô que nem você.

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10 Comentários

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    Laura Máximo
    3 de junho de 2016 at 13:15

    Minha vontade é que o trabalho da Clarice seja BEM autobiográfico mesmo! Na minha cabeça Clarice é minha gêmea idêntica de pensamento e companheira de “raiva mal contida”. Nos meus sonhos ela é a amiga perfeita que tramaria ao meu lado vinganças horríveis envolvendo piscinas de óleo fervendo e me daria o maior apoio nos meus planos de chamar as “inimigas” para um bom papo ou para alertá-las sobre um boy lixo. Seria lindo! Me identifico absurdamente (talvez porque somos escorpianas?).

    Texto maravilhoso, como sempre, Anna!

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      Anna Vitoria
      9 de junho de 2016 at 00:34

      hahahaha meu sonho real é ser amiga íntima de Clarice Falcão, falar mal dos homens com ela e ouvir todas as histórias por trás das músicas. obrigada pelo comentário, Laura, adorei que você gostou <3

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        Thaís
        5 de julho de 2016 at 13:20

        Meu sonho também é ser amiga dela hahahahaha

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    Bruna
    3 de junho de 2016 at 13:33

    Eita que vontade MARAVILHOSA de ouvir essa música toda! E é o que farei 🙂

    Obrigada por isso Anna <3

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    Patthy
    6 de junho de 2016 at 17:30

    “(…) mas gosto muito dessa fanfic mental que criei da história que começa com ódio entre garotas e termina com as duas tomando um chope juntas.” Nossa, MUITO! Gosto de acreditar que a mesma pessoa imaginária que chama a ~ex-rival~ para tomar chopp não ia voltar atrás e bancar a doida perseguidora com a moça. hahaha
    Nunca dei muita bola pra Clarice até escutar esse álbum, achava as músicas dela gostosinhas de ouvir, mas nesse eu prestei atenção de verdade nas letras. “Clarice” (a música) é uma ótima: por todo esse tom “fofo” que a Clarice (a cantora) tem, provavelmente ela escutou coisas desmerecendo as canções dela, por parecer “bobinho” demais.

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      Anna Vitoria
      9 de junho de 2016 at 00:37

      sim, eu acho que ela manda uma banana pros críticos – muito merecida por sinal!

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    Linkagem de Segunda #44 – Sem Formol Não Alisa
    4 de julho de 2016 at 15:53

    […] Todos os problemas de Clarice Falcão, Anna Vitória no Valkírias […]

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    Thaís
    5 de julho de 2016 at 13:18

    Só fui ouvir as músicas da Clarice Falcão nesse ano e comecei pelo álbum novo e me apaixonei. É engraçado que a fanfic mental que você criou sobre as músicas “Deve ter sido eu” e “vagabunda” se aproxima muito da fanfic mental que eu criei ao ouvir o álbum.

    Além do que foi trabalhado no texto, eu diria que essas duas músicas num mesmo cd soa também como um “todo mundo erra, todo mundo pode mudar, todo mundo pode melhorar”. Talvez como um antes e um depois, sabe?

    Gosto bastante da Clarice, inclusive fui num show dela nesse domingo e o que mais me chama atenção nos álbuns é a qualidade das letras, sabe? São letras que parecem pequenas crônicas, só que cantadas e com ritmo. Crônicas com um viés muito forte de ironia, o que dá mais qualidade ao trabalho dela.

    Enfim, amei o texto!

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    Henrique Carvalho
    7 de julho de 2016 at 18:28

    Sou só eu ou mais alguém achou os novos arranjos do Kassin nesse novo ábum HORRÍVEIS????
    Adoro a Clarice. As letras e melodias continuam perfeitas, encantadoras, sarcásticas, sutis, com um humor irônico e refinado tão dela. Mas este álbum está impossível de ouvir com tanto barulho de guitarras e sintetizadores exageradamente altos e com instrumentos fraseando o tempo todo conflitando com a voz. A faixa Marta por exemplo eu só consegui desfrutar quando baixei o volume e abri a letra na tela do computador pra conseguir entender o que estava sendo cantado! Nota 10 pra Clarice, e nota ZERO para os arranjos e mixagens.

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