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Todas as princesas que não fui

Eu sempre era a Pocahontas ou a Jasmin quando se tratava de ser uma princesa da Disney. Elas nem eram as princesas principais, mas eram as mais próximas da minha pele negra clara e da minha realidade de ter sido criança durante os anos 90. Entre as Três Espiãs Demais, eu era a Alex. Meninas Superpoderosas? Docinho. Rebelde? Lupita.

Você pode pensar em mais um monte de coisas que foram sucesso entre as crianças dos anos 90 e eu vou te dizer que, com certeza, eu era uma das personagens na hora de brincar. Éramos três primas lá em casa. Duas delas brancas e eu, preta. Sempre a personagem que sobrava. A que nenhuma delas queria ser. A justificativa? Essas personagens eram as que mais se assemelhavam comigo fisicamente e, quase sempre, só nesse aspecto, porque minha personalidade nunca combinou com a delas.

Eu sempre fui mandona. Espírito de líder, sei lá. Power Ranger vermelho. A Docinho até que tinha a minha marra. O fato é que eu estava mais pra Florzinha, pra Sam ou pra Mia. Mas nunca pude sê-las. Elas não se pareciam comigo. Me sobrava ser a terceira personagem, a que é meio deixada pra lá no trio e, coincidentemente ou não, essas personagens eram as mais próximas de mim. Não pela pele ou pelos traços, mas pelo cabelo escuro que era, quase sempre, a única semelhança.

Eu cresci sem me ver na TV. Porque não havia nos desenhos que eram transmitidos pela rede aberta meninas negras que eram fortes e líderes. Cresci sem ver nas telas meninas que se assemelhavam comigo e, sendo assim, cresci sem entender muito bem quem eu era e porquê era assim, sendo que mais ninguém no mundo mágico da TV parecia ser.

Na época, eu era muito nova para questionar o motivo disso e ingênua demais para conseguir prever os buracos que a falta de heroínas negras causaria na minha autoestima. Eu não tinha ninguém que se parecia comigo para admirar. Ninguém para ser minha referência. Porque, por mais que admirasse a Sam e sua inteligência, eu nunca teria seus cabelos ruivos e olhos verdes. E é claro que isso me influenciou. É claro que isso, somado a outras coisas, doeu tão fundo a ponto de eu desejar ser branca.

Eu tinha uma amiga que era a cara da Branca de Neve. E eu queria ser como ela. Eu assistia aos filmes da Disney todo final de semana e meu sonho era me parecer com uma de suas princesas. Eu só fui ouvir que me parecia com uma princesa da Disney no ano passado, quando foram divulgadas as primeiras imagens de Moana e, mesmo aos 22 anos, me parecer com uma delas foi reconfortante.

Eu queria ser a cara de uma princesa da Disney porque elas são uma parte do imaginário social que constitui os padrões de beleza. E todas nós, em algum momento de nossas vidas, queremos atingir esse padrão. O problema é que esse padrão, que já é bastante cruel para todas as mulheres, consegue ser ainda pior para mulheres negras.

Quais eram nossas referências quando crianças? Pocahontas era uma índia norte-americana. Jade era uma princesa árabe. Nenhuma delas era realmente uma de nós. Nos adequávamos a elas porque era o que nos restava. E é horrível crescer sabendo que nenhuma das princesas que você admira se parece realmente com você. Vocês não têm nada em comum. Bela, Aurora, Cinderela e Branca de Neve, as verdadeiras estrelas dos anos 90 da Disney, eram tão distantes de mim quanto Mulan. Eu não me encaixava no padrão da Disney e, com o passar dos anos, eu descobriria que não me encaixava em nenhum dos padrões.

Pra quem não viveu na pele, pode parecer pouca coisa não ter nenhuma personagem que você admira que se pareça com você. Mas é que não é só isso. Não era só nos desenhos animados. Filmes, comerciais de televisão, novelas, séries, anúncios, outdoors, enfim. Eu não estava em lugar nenhum. Eu não existia no conteúdo que consumia. Eu não estava nas maquiagens que comprava. Eu não estava em lugar nenhum. E o fato de eu não existir nesses lugares, me fez negar minha existência por muitos anos.

Cresci insegura com a aparência. Me achava horrível. Alisava os cachos. Dizia que era índia, não negra. Não atraía nenhum dos caras no colegial, mas na rua, nos ônibus, era chamada de “morena gostosa” por homens mais velhos que eu não tinha coragem de encarar nos olhos. Eu não me entendia. Eu não me aceitava. Eu não queria ser a morena gostosa, eu queria ser a menina ruiva que estava na capa da Capricho.

Mas eu nunca fui. Nem princesa, nem capa de revista, nem cara do anúncio da TV.

Atualmente, existem mais mulheres e meninas negras na mídia. E, lendo os comentários sobre esse aparecimento, vejo muitas pessoas considerando ridícula a existência dessa suposta “cota para negros”. Só que eu saí do cinema emocionada com Estrelas Além do Tempo. Arrepiada, chorando, agradecendo ao universo por existirem mulheres como elas que tinham tanto em comum comigo. Moana? Que incrível! Líder sem príncipe. História de princesa sem romance.

As pessoas que já são representadas na mídia não fazem ideia do quanto representatividade importa. A ideia de que existe uma referência, uma pessoa parecida com você digna da sua admiração, é demais. Esquenta o coração, porque se enxergar em outra pessoa e ver o quanto ela é incrível, é um jeito de reconhecer nosso próprio valor. Acho que sei onde estavam as heroínas dos anos 90. Provavelmente soterradas sob séculos de uma sociedade racista que nunca deixou, de fato, os grilhões da escravatura desaparecem.

Eu queria ter crescido com inspirações como Moana. Queria ter tido mais orgulho de mim, da minha aparência, do meu corpo, da minha pele. Hoje, escondo e conserto com certo atraso as marcas que o mundo podia ter me poupado de ter. E é um desafio.

Espero que não seja para as próximas meninas negras.


Julho é o mês da celebração da luta e da resistência da mulher negra. Marcadamente, o dia 25, representa o Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha. Durante todo o mês, núcleos e coletivos articulam entre si, campanhas de cultura, identidade e empoderamento dessas mulheres. Participam da ação: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, Valkirias, Momentum Saga, Nó de Oito, Ideias em Roxo, Preta, Nerd & Burning Hell e o Prosa Livre

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2 Comentários

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    Vinícius
    17 de julho de 2017 at 22:26

    Não gostei muito de Moana… Apropriação cultural tão problemática quanto Pocahontas. A gente acha que a Disney vai aprender depois da enxurrada de críticas, mas vai lá e faz a mesma coisa… :/
    Acho que esse vídeo descreve bem:
    https://youtu.be/2ARX0-AylFI

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    Camila
    29 de julho de 2017 at 18:20

    Ah, eu sempre fui fã da Esmeralda de O corcunda de Notre Dame, adorava quando diziam que ela parecia comigo por causa da pele escura e olhos claros. Eu achava as outras princesas meio tontas, até a minha queridinha Ariel (desculpa Ariel).
    Mas faltava representação sim, além do lance token minority. Magina eu que cresci no começo dos anos 90.

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