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This Is Us e o Emmy: por que ver um drama familiar na disputa soa tão diferente em 2017

Maior sucesso recente entre as estreias da tradicional fall season da televisão norte-americana, This Is Us foi recentemente agraciada com dez indicações ao Emmy, incluindo na categoria considerada a mais importante da premiação, a de Melhor Drama. Além de render indicações a sete membros de seu elenco nas categorias de atuação, a série desenvolvida por Dan Fogelman é a primeira da televisão aberta a concorrer a melhor drama desde The Good Wife, em 2011. É um feito bastante significativo, visto que a televisão a cabo, além dos serviços de streaming com sua maior liberdade criativa, menores restrições e menor dependência dos números da audiência americana, têm domínio quase absoluto sobre aquilo que costumamos chamar de “Prestige TV” [em tradução livre, “TV de prestígio”], e são essas produções que vêm dominando o Emmy ano após ano desde o começo da década.

Já faz um bom tempo que estamos vivendo uma época em que a crítica especializada vem chamando de “Peak TV” desde 2015. Naquele ano, Willa Paskin, na Slate, reportou que quase 400 (sim, 400) séries originais estiveram no ar, trazendo histórias que vão de policiais de meia idade resolvendo um crime por semana a super-heróis, de advogados a espiões soviéticos, de prisioneiras a jovens perdidos, com mais uma centena de outras narrativas no meio de tudo isso. Junto com esse pico na produção televisiva, aconteceu outro fenômeno curioso. Se por muito tempo a televisão foi vista como um meio inferior ao cinema, ao qual um artista bem estabelecido não voltaria por opção própria, a qualidade inegável de diversas séries e o fato de o formato permitir que sejam pintados retratos muito mais aprofundados dos personagens ou realidades retratadas vem despertando uma valorização desse meio. Essa valorização permitiu momentos interessantes, como Matthew McConaughey ganhando um Oscar na mesma noite em que estava no ar na HBO por True Detective, ou então atrizes oscarizadas atuando frente a frente diretamente na tela pequena, como Nicole Kidman e Reese Witherspoon em Big Little Lies ou Jessica Lange e Susan Sarandon em Feud. Nesse meio tempo, realizadores consagrados como Baz Luhrmann e as irmãs Wachowski apostaram na Netflix, enquanto Steven Soderbergh foi dirigir no Cinemax.

A televisão já não é mais vista como a prima pobre do cinema, mas como um outro suporte para aspirações artísticas genuínas e para histórias “sérias” (em lugar de um entretenimento simplista e pouco profundo), histórias essas que deram origem ao conceito de “Prestige TV” – ou os seriados bons e sérios. Produções como The Sopranos, Breaking Bad ou a primeira temporada de True Detective deram tão certo que aquilo que as tornava tão diferentes quando surgiram hoje virou uma espécie de fórmula básica a ser repetida por quem tem intenção de ter a própria série de prestígio e colocar alguns Emmys na estante, como argumenta Eric Thurm. É uma fórmula tão poderosa e que arraigou tão rápido em nossas memórias que mesmo quando uma produção como Big Little Lies traz consigo um diretor conceituado, três atrizes indicadas ao Oscar em seu elenco e a HBO como casa, seus tons claros e coloridos e seu foco nas vidas essencialmente comuns de um grupo de mães levaram parte do público a chamá-la de novelesca – o que, lá no outro hemisfério, é o oposto da TV de prestígio, que é preferencialmente bem, bem obscura.

Se olharmos para as indicações a melhor drama no Emmy na última década, salvo algumas exceções (notadamente a sempre presente Downton Abbey – cuja cota de produção britânica primorosa embalada por atuações fenomenais agora é preenchida por The Crown –, mas também Friday Night Lights e em alguma medida The Good Wife), a maior parte é composta por séries que caberiam na maioria dos 13 sinais de que você está assistindo a uma produção “de prestígio”: a estrutura episódica está morta, tudo é escuro (literal e figurativamente), tem um Homem Difícil, tudo em volta é bastante deprimente. É verdade que muitas dessas séries são realmente interessantes e ricas, que Mad Men encheu nossas telas de personagens femininas fantásticas e tinha uma sala de roteiristas com verdadeira paridade de gênero, que The Americans desconstrói em alguma medida a noção tradicional dos papéis da mãe sensível e pai durão, que Homeland deu grande destaque à ideia de que também pode existir uma Mulher Difícil na televisão, que The Handmaid’s Tale é absurdamente necessária. Mas ao olharmos para a última década do Emmy, talvez a impressão mais forte deixada pela lista de produções agraciadas pela premiação é a de que só existe uma maneira de fazer boa televisão, e é por meio da visão essencialmente pessimista do que significa ser humano. E é aí que This Is Us faz toda a diferença.

Atenção: o texto contém apenas alguns spoilers moderados da série, mas um bem significativo sobre o episódio piloto.

Olhando superficialmente, This Is Us não poderia ser mais simples e trivial do que é: um drama familiar cujo único foco verdadeiro são os laços formados entre os membros da família Pearson e aqueles que aos poucos foram entrando em suas narrativas pessoais, além das vidas interiores de todos esses personagens. São personagens cheios de conflitos, é verdade, consigo mesmos e uns com os outros – afinal, do que viveria o drama familiar se não de uma sucessão de conflitos? –, mas Dan Fogelman insiste, semana após semana, que estamos diante de pessoas que erram, mas que são inegavelmente boas e que estão tentando melhorar, que amam genuinamente umas às outras. A ambiguidade moral que permeia a televisão de prestígio não existe realmente aqui, e essa simplesmente não é uma questão. Como então torná-los interessantes?

This Is Us aposta numa estrutura que é incomum nesse tipo de história: a de intercalar o presente da narrativa com inúmeros flashbacks, e as duas partes possuem a mesma importância e espaço de tela. Qualquer personagem bem construído é em parte explicado por quem foi antes dali, por suas experiências passadas, e isso é verdade também no caso dos três irmãos Pearson, Randall, Kate e Kevin (interpretados por Sterling K. Brown, Chrissy Metz e Justin Hartley, respectivamente). A estrutura em flashbacks, que nos permite acompanhá-los quando crianças e adolescentes, enriquece a construção dos conflitos interiores que são destacados na narrativa do presente: o lado overachiever de Randall e seu conflito com a própria identidade, os problemas de Kate com o peso e a falta de confiança que decorre deles, o medo de Kevin de nunca ser bom o suficiente para ser levado a sério, a relação conflituosa de Kevin e Randall ou de grande proximidade entre Kate e Kevin. As revelações via flashback não acontecem de maneira cronológica, no entanto – elas quase sempre servem às narrativas presentes, seguindo a linha de demonstrar o quanto somos moldados por nossas experiências. O fato de descobrirmos aos poucos o passado dos três irmãos e sua relação com os pais (Jack e Rebecca, interpretados por Milo Ventimiglia e Mandy Moore) é tão importante dentro da série quanto ver para onde o futuro deles aponta. Mas do presente surgem grandes revelações sobre o enredo do… passado. Simplesmente sabemos que pessoas morreram, pessoas se casaram, pessoas se mudaram, sabemos para onde elas foram e que é provável que em algum momento sejamos apresentados a esses momentos transformadores, simples assim. Numa época em que vivemos nos escondendo de spoilers, a estrutura adotada por Fogelman desloca em alguma medida o foco do “o que acontece” para o “como acontece”, quase numa reafirmação da frase impossivelmente clichê (mas também inegavelmente verdadeira) sobre o mais importante ser a jornada.

Mais do que se sustentar nos acontecimentos, embora também se utilize de sua cota de cliffhangers, a série aposta em nosso interesse em conhecer melhor seus personagens, que têm uma vida interior riquíssima. Chrissy Metz, uma atriz que foge do padrão de magreza (ou gordo que na verdade é magro) de Hollywood, não foi contratada por acaso – parte da trama de Kate é o fato de ela querer perder peso, porque é óbvio que ela é afetada pelo mesmíssimo padrão que é imposto a todas nós. Mas sua trama vai muito além: sua relutância em iniciar um novo relacionamento e se abrir verdadeiramente a ele, embora também exista no contexto da perda de peso, extrapola esses limites. Não precisamos ter os mesmos motivos que ela para sabermos que a vulnerabilidade é difícil, assim como é difícil fugir dos planos bem desenhados que temos na cabeça ou da solidão confortável dos ritos que estabelecemos com nós mesmos. Já Randall, o filho adotado, o menino negro numa família (e numa comunidade) branca, tem sua trajetória obviamente moldada pela questão racial – porque, afinal, nós vemos raça, e a experiência de Jack e Rebecca em fingir que ela não existe se mostra muito prejudicial para o filho. Não era possível, no caso dele, esconder o processo de adoção; e ele, naturalmente, tinha curiosidade sobre as suas origens. A série explora de uma maneira muito bonita o conflito interno de Randall, que ao mesmo tempo em que sentia curiosidade também carregava a culpa por senti-la quando ele amava seus pais e sabia que era extremamente amado. No meio desses dois, Kevin, o irmão mais dentro dos padrões de sua comunidade, também se torna o personagem naturalmente mais difícil de tornar interessante. É justamente nisso que a série aposta – Kevin, o garoto, entendia por que os irmãos recebiam tanta atenção, mas também era uma criança que precisava de atenção dos pais, que se sentia relegada ao segundo plano, como se ele não tivesse o direito de ter as próprias questões, muito menos chamar a atenção sobre si mesmo. Daí resulta uma relação conflituosa com Randall e de dependência com Kate que ele vai levar para a vida adulta.

Assim como os filhos, Jack e Rebecca são personagens cheios de conflitos, a começar pela própria questão de eles serem pais. Numa interessante inversão de papéis, era sonho de Jack, e não de Rebecca, constituir família; ela na verdade não tinha intenção de ser mãe. Eventualmente Rebecca acaba mudando de opinião e numa ironia do destino engravida de trigêmeos. São filhos pelos quais ela abre mão de seguir sua carreira e os quais fica evidente que ela ama profundamente, mas que às vezes também a exasperam, a deixam exausta. Ao longo da temporada, é por vezes incômodo que Jack seja pintado como uma espécie de superpai (embora ele seja mesmo um ótimo pai), geralmente oposto a Rebecca, para quem tudo parece mais difícil. Mas a verdade é que é mais difícil para ela, não necessariamente porque a maternidade por muito tempo não foi um desejo seu, mas porque é ela quem abdica de aspirações próprias para se dedicar sempre e somente ao lar, enquanto Jack passa boa parte de seus dias longe da casa. Por mais que ela ame a família, ser mãe, esposa e dona de casa não é capaz de suprir todas as suas aspirações, e isso pesa cada vez sobre ela. This Is Us retrata o peso que a maternidade carrega quando ela passa a ser a única ocupação de uma mãe, mesmo quando há muito amor envolvido. O que, aliás, também é verdadeiro quanto ao casamento, que requer dedicação constante e diária. É uma representação muito bonita da vida em família como ela verdadeiramente é, mesmo nas famílias essencialmente felizes, porque ninguém é feliz o tempo todo e é preciso dedicação para manter vivo e saudável um bom relacionamento de qualquer espécie.

Numa série tão focada em seus personagens quanto essa, boa parte do que sustenta as histórias semanais que nela são contadas vem do quão bem sucedido é o elenco para carregá-las e fazer com que o público crie com elas uma conexão. Não por acaso, quatro nomes do elenco fixo, além de mais três atores convidados, receberam indicações ao Emmy. Esse exitoso trabalho coletivo de atuação vem sustentando muito bem todas as nuances existentes nas trajetórias da família Pearson, tão cheia de problemas quanto de um carinho genuíno que é bonito de acompanhar. Se os conflitos na rede de relacionamentos da família são aquilo que move a história semana após semana, no fundo This Is Us é sobre o que faz com que esses personagens passem por essas divergências e sobrevivam a elas: a certeza de que os laços existentes entre eles são mais importantes e mais valiosos do que todas essas questões.

This Is Us é uma série extremamente simples na medida em que trata de sentimentos muito básicos a todos nós, não porque nossas famílias se pareçam com aquela, mas porque todos nós temos nossas próprias versões de uma família ou de uma comunidade. Talvez seu considerável sucesso se deva em parte a essa pontinha de identificação, talvez seja o seu tom essencialmente otimista ao fim do dia, quando ela surgiu em tempos tão estranhos e preocupantes no mundo fora da ficção, talvez seja o fato de não se limitar a somente uma história sobre uma família padrão americana branca de classe média. O tempo vai responder a essa dúvida melhor que eu. Mas o fato é que ela me parece muito com um respiro na corrida pelo prêmio de melhor drama da TV. Ainda estamos vivendo a era da supervalorização da televisão de prestígio obscura e pessimista, é verdade, e existe muito da natureza humana naquilo sobre o que elas estão falando. Mas talvez estejamos voltando à época em que não precisávamos necessariamente de cinismo, pouca iluminação e um sem fim de profundas tristezas sem chance de escapatória, ou de vilanias sem chance de redenção, para fazer boa televisão – pode ser que seja tolo e sentimental, mas para mim também é um alívio. Entre um episódio e outro de The Handmaid’s Tale e do medo que ela suscita, também precisamos de um respiro.

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3 Comentários

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    Clarinha Diniz
    11 de agosto de 2017 at 16:08

    Eu sei o quanto é difícil elencar uma única série pra chamar de a melhor, mas pra mim, com toda a certeza essa é a melhor série dos últimos tempos. Me apaixonei a ponto de querer obrigar todos ao meu redor a assistir. {:

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    Carla
    11 de agosto de 2017 at 19:37

    Adorei e concordo muito, um ponto importante pra mim sobre a série é que ela passa muita verdade e obviamente ela é uma série feita pra ganhar dinheiro mas esse nao parece ser nunca o foco principal, visto que cada episódio tem uma sutileza única, nada parece estar ali aleatoriamente ou para ocupar tempo e espaço. Por fim, é pra mim também esse escape no final do dia, onde pode nos render algumas lágrimas mas sempre nos trás tambem uma boa dose de esperança.

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    Tany
    16 de agosto de 2017 at 13:29

    Me deu uma saudade da série lendo esse texto porque foi exatamente como me senti quando assisti a primeira vez: leve. Chorei em praticamente todos os episódios – e sejamos sinceras, eles fazem propositalmente – mas é uma história muito bonita com a maioria dos personagens cheios de camadas e que te fazem simpatizar com aquela família de uma forma absurda. Mal posso esperar pelas próximas temporadas e é um alívio assistir This Is Us em meio a tanta série pesada.

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