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The Sinner e os sete pecados capitais

Uma das várias estreias da Netflix neste ano, The Sinner chamou nossa atenção: suspense de qualidade baseado em um livro de uma autora, Petra Hammesfahr, protagonizado por uma mulher. Finalizada dia 20 de setembro nos EUA, a comoção causada pela série tem a ver com a maneira pela qual a história é contada: em casos de assassinato, normalmente queremos saber quem matou (whodunnit). Em The Sinner, logo no piloto já sabemos quem matou (e como também, numa cena explícita e chocante). O que vamos descobrir ao longo de oito episódios é o porquê do assassinato (whydunnit).

Atenção: este texto contém spoilers!

Cora (Jessica Biel) é uma mulher casada, mãe de um garotinho pequeno, que trabalha numa empresa de ar-condicionados/climatização da família do marido. Tem uma vida extraordinariamente normal, sai para trabalhar, volta com o marido, ceia com os sogros, mora na casa ao lado deles. Aos fins de semana, vai para uma “praia” na beirada de um lago. Tudo parece perfeitamente normal. Mas para observadoras mais atentas, algumas coisas estão fora de lugar (a despeito do impulso de organização/arrumação de Cora).

Ela parece anestesiada diante da vida, mas é boa esposa, nora e mãe. Quando reclama com o marido de jantar todas as noites com os sogros, é rapidamente persuadida. Só parece se importar com o passeio à praia e com o bem-estar do filho. Descobrimos que ela toma calmantes para conseguir dormir, pois tem pesadelos, e para ter relações sexuais com o marido. Cora mantém uma fachada de normalidade, mas esconde segredos e traumas profundos que compõe o quebra-cabeça da morte de um aparente desconhecido que ela não consegue justificar.

Ao longo da narrativa, percebemos uma grande influência da religião na criação de Cora. Além da associação com pecado no título (sinner significa pecador/a), a protagonista esfaqueia sete vezes sua vítima, lembrando os sete pecados capitais. Numa livre associação, vamos falar dos sete pecados os relacionando a alguns personagens e momentos da série.

1. Gula – Tia Margaret

Na simbologia religiosa esse pecado está ligado ao exagero em relação à comida ou bebida, à satisfação de vontades e à cobiça. A série é contada intercalando momentos presentes e flahsbacks da infância, adolescência e juventude de Cora. Numa dessas inserções do passado, ela ganha uma barra de chocolate de tia Margaret (Rebecca Wisocky), que lhe diz para comer o doce antes que a mãe da pequena Cora o encontre, e a menina o guarda em um baú, onde vemos outros “tesouros” escondidos, longe do alcance da mãe repressora. Mas a mãe descobre, repreende Cora e culpa a piora no quadro da irmã – que nasceu doente – a esse desvio. Mais tarde, Cora desenterra a barra de chocolate e come tudo de uma vez, numa atitude de desafio à mãe e à doença de sua irmã. 

A casa em que vive tia Margaret é o oposto onde Cora foi criado – soturna e cheia de lembranças dolorosas –, e a fotografia da série (que merece destaque) é precisa ao mostrar uma sala ampla, cheia de luz, cores e quadros. A própria Margaret é muito diferente da irmã; ela parece mais feliz, tem coisas para “resolver na cidade” e diz “rezar do seu jeito”. O que a tia representa na vida de Cora é quase o chocolate que lhe foi proibido pela mãe: uma vida mais saborosa, divertida e com experiências infinitamente mais ricas. E ela anseia por isso, tem fome de mais.

2. Avareza – Mãe

Elizabeth Lacey (Enid Graham) é a mãe de Cora e Phoebe (Nadia Alexander). Sua relação com a fé é marcada pela culpa, pelo pecado e pela penitência. Seu jeito de enxergar o mundo é através da distorção da religião, responsabilizando a filha, a si mesma e ao marido, pela melhora ou piora da doença de Phoebe. A avareza é um pecado que diz da acumulação obsessiva de dinheiro, de bens, coisas materiais, ao ponto da idolatria, de ter por tão somente ter. Elizabeth é acumuladora de mágoas, crenças e ressentimentos, além de idolatrar – no pior sentido – um Deus que é vingativo e punitivo. Muitos dos traumas de Cora, que tenta satisfazer as expectativas irreais da mãe e se frustra quando não consegue, são explicados pela dinâmica abusiva e repressora da casa.

3. Preguiça – Pai/Marido

O pecado da preguiça fala da inatividade e passividade diante da vida. O arco narrativo do pai é bem pequeno e sem grandes reviravoltas; ele aparece como uma resistência fraca à mãe, sem conseguir se fazer ouvir nem proteger as crianças. Passa anos dormindo no quarto com a filha, até que obriga a esposa a deixar Phoebe dividir o quarto com Cora. Por fim, escolhe manter um caso extraconjugal com a vizinha, a saída menos trabalhosa para um casamento cheio de problemas.

O marido de Cora parece seguir o mesmo padrão acomodado do sogro, até o assassinato. Depois do choque em que ele não atende as ligações da penitenciária e não sabe o que fazer, Mason (Christopher Abbott) decide investigar por conta própria o passado de Cora para entender as motivações do crime. É uma mudança frutífera de um marido autocentrado que se sente traído pela esposa, por não conhecer partes da vida dela, a um companheiro que decide apoiá-la.

4. Inveja – Irmã

Phoebe, ao contrário de Cora, mente sem remorsos para a mãe, é curiosa e deseja tudo que lhe é negado mas, devido à doença e a superproteção, não pode fazer. As irmãs têm uma relação de cumplicidade, fazem planos e se apoiam, mas Phoebe acaba vivendo através de Cora. E o que poderia ser uma relação saudável acaba virando outra relação abusiva, de controle e inveja por parte da irmã caçula. Ela se ressente das oportunidades que Cora tem, desde poder sair para trabalhar e até poder se envolver romanticamente com outra pessoa.

A série aborda a questão do incesto, numa cena desconfortável e dolorosa em que Phoebe pede à irmã para fingir que é o namorado e mostrar o que ele faz com ela quando estão juntos. É uma maneira de problematizar o consentimento:

“In the scene, Cora looks like she enters into the activity with full consent, but she has been the subject of ongoing emotional abuse for so long she no longer can refuse her sister. Cora is healthy in body, but in mind and spirit, she is the creature that her mother and now sister has made her.”

“Na cena, Cora parece embarcar na proposta da irmã com total consentimento, mas ela tem sido sujeito de abusos emocionais durante tanto tempo que não consegue recusar o pedido da irmã. Cora é saudável no corpo, mas na mente e no espírito ela é a criatura que a mãe e agora a irmã fizeram dela.”

5. Ira – Cora

Em um momento, Cora vai nadar no lago e ultrapassa uma barreira de segurança. Ali, uma barreira psicológica também é ultrapassada. Ela fica submersa, no silêncio do lago durante bastante tempo até Mason chamá-la. O gatilho que a leva a cometer o assassinato é uma música do passado de Frankie Belmont (Eric Todd) juntamente com o que ele está fazendo no momento: beijando uma garota. O que nos leva a especular: o crime tem a ver com algum tipo de abuso sexual no passado de Cora?

O ódio dela é tão profundo, sedimentado em meses de tortura psicológica, como descobrimos nos últimos episódios, que a reação ao ouvir a música e ver Frankie (de quem ela não se lembra) são demais e a levam a um surto. Algo se quebra dentro dela, e a mente passa a se lembrar de pequenos fragmentos do passado, sempre rápidos e difusos, mas perturbadores.

Antes de saber o que aconteceu, só temos acesso a essa parte do crime: a raiva incontida, descontrolada e intensa, a ira que acaba em assassinato. O pecado da ira “pode ou não gerar sentimento de vingança. (…) A ira torna a pessoa furiosa e descontrolada com o desejo de destruir aquilo que provocou sua ira”. Frankie é essa pessoa que Cora quer destruir, que lhe machucou tanto que a única possibilidade de redenção é a morte (ou pelo menos, é nisso que acreditamos até o capítulo sete).

6. Luxúria – Detetive

O detetive Harry Ambrose (Bill Pullman) é o único que parece se importar com o motivo. Todos parecem satisfeitos com a confissão imediata de Cora, menos ele, um personagem misterioso e também cheio de segredos. É aficionado por plantas, mantém uma relação de dominação/submissão com uma garçonete enquanto tenta salvar seu casamento, mora de favor na casa do colega detetive e desenvolve uma obsessão pelo caso que o afeta diretamente. A relação entre Harry e Cora é inclusive questionada por outra policial do caso, que aponta os problemas éticos de se envolver com uma investigada. Cora, no começo desconfiada, cria uma relação de confiança com Ambrose e passa a acreditar que ele é o único que pode salvá-la.

O pecado da luxúria é o relacionado à sexualidade, sempre um tabu para a Igreja Católica. Práticas consideradas desviantes como o masoquismo do detetive, então, carregam uma condenação extra não só da religião como da própria sociedade. Essa faceta de sua personalidade permanece em segredo, num espelho do passado de Cora, e não entendemos muito bem como ele conheceu Sharon (Meredith Holzman), por que ele a segue e como a relação vai ficando cada vez mais extrema – a ponto de Sharon não querer mais continuar.

Essa escalada nas práticas sexuais acompanha a escalada da investigação, e Ambrose parece correr para Sharon quando não encontra as respostas para solucionar o crime, que salvará não só Cora, mas a ele mesmo, uma alma perdida e perturbada.

7. Orgulho – Pai de Frankie

O último mistério da série é revelado no último episódio: quem é o mascarado que manteve Cora presa em um quarto com papel de parede durante meses, sofrendo torturas psicológicas e injeções de heroína a ponto de destruir seus braços? É o pai de Frankie (Christopher Innvar). Frankie, após surtar com os eventos traumatizantes da noite em que Cora desaparece e é o fio para solucionar o crime, liga para o pai que resolve da maneira mais louca e improvável que poderíamos imaginar.

O pecado do orgulho, também chamado de vaidade ou soberba, fala da arrogância, do sentir-se superior e humilhar os outros. Todo o processo pelo qual ele submete Cora, tem uma única finalidade: fazê-la se esquecer do envolvimento do filho na morte da irmã. Em vez de assumir o acidente, pois ela não morreu diretamente por culpa de Frankie, o pai não admite uma reputação manchada e acode o filho, destruindo a vida de uma pessoa inocente no processo.

Uma pecadora entre pecadores

O risco de séries como The Sinner, que se propõe a contar os motivos de crimes e não quem os cometeu, é cair nessa armadilha: prometer demais. Big Little Lies, do mesmo gênero, consegue se sair melhor na proposta. The Sinner tem qualidades, bons cliffhangers, boa fotografia e direção de câmera, o uso de flashbacks e um enredo intrigante. Por outro lado, a personagem principal não é lá das mais carismáticas – nenhum dos personagens é, o roteiro nem sempre é o mais afiado, alguns episódios têm o ritmo mais arrastado e no final, a sensação é de que Frankie foi o escolhido do destino, o pecador morto numa expiação dos pecados de vários outros pecadores, mas não necessariamente o pior deles. 

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