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The L Word e a Representação Lésbica na Televisão

Quando falamos em lésbicas na televisão qual sua primeira referência? Acredito que vocês, assim como eu, pensam em Orange Is The New Black, Cosima e Delphine em Orphan Black, Callie e Arizona em Grey’s Anatomy. E quando citamos uma série voltada para o mundo lésbico? Não existiu um seriado tão influente, conhecido e amado como The L Word na televisão. A série, que está em projetos iniciais para um reboot nos próximos anos, foi criada por Ilene Chaiken – ficou no ar de 2004 a 2009 no canal Showtime – e contava a história de um grupo de lésbicas residentes de Los Angeles. A descoberta da sexualidade, a aceitação, relacionamentos e as consequências que gostar do mesmo sexo podem trazer para a vida de uma pessoa, tudo isso fazia parte do enredo da série. Beth (Jennifer Beals), Tina Kennard (Laurel Holloman), Alice Pieszecki (Leisha Hailey), Jenny Schecter (Mia Kirshner), Shane McCutcheon (Katherine Moennig), Dana Fairbanks (Erin Daniels), são o pilar da trama e é pela vida de cada uma delas que seremos apresentadas ao mundo lésbico na maior cidade californiana.

Quando The L Word estreou não existia nada parecido na televisão, para mulheres lésbicas ou bissexuais, e seu sucesso foi imediato. Finalmente tínhamos personagens como nós, com problemas que pudéssemos entender e nos identificar, em um programa sendo exibido para o mundo inteiro. Entre tantas histórias contadas durante as seis temporadas existiram assuntos até então polêmicos, que começaram receber a merecida atenção na televisão: relacionamento lésbico inter-racial, depressão severa e pessoas transgêneras, além da própria transição. Sem dúvida, a série revolucionou a forma como lésbicas eram retratadas.

Mas, ao mesmo tempo que portas eram abertas, para esse núcleo esquecido da sociedade, muito ficou de fora ou não foi aprofundado. Óbvio que quando falamos de séries de televisão ou filmes tudo é muito diferente do dia-a-dia, mas nesse caso, como lésbica, posso confirmar que a realidade era – e é – bem diferente. Todas as personagens principais, e grande maioria das coadjuvantes, eram brancas, magras e com uma quantidade decente de dinheiro – uma das cenas recorrentes no seriado era se encontrar para tomar brunch em um café badalado. Seus empregos eram sempre glamourosos: uma das personagens é diretora de uma galeria de arte, outra é uma jornalista com coluna de sucesso, há uma jogadora de tênis, uma produtora de cinema, uma escritora e cabeleireira de um lugar moderninho.

Era difícil realmente se identificar com algumas delas. Na época em que o programa estreou, ainda estava na escola começando a descobrir quem era e do que gostava, ao mesmo tempo em que vivia em uma cidade grande com jeito de interior. A série era completamente diferente da minha realidade e parecia um sonho a ser alcançado. Aquelas mulheres lindas, interessantes, inteligentes e bem sucedidas vivendo romances com outras mulheres sem medo dos julgamentos ou preconceitos era tudo que sonhava. Como muitas meninas dessa época, a série me influenciou e me fez acreditar em uma realidade que não existia, mesmo sabendo que grande parte disso tudo vinha da minha falta de conhecimento e ingenuidade em acreditar que aquilo retratado na televisão era realmente fiel.

Desde os problemas diários, a aceitação, o trabalho, a visão de um casal lésbico com sua filha – falamos de uma cidade que tem uma área moderna o suficiente para, na época, para não haver problema nisso – até mesmo o sexo. Principalmente o sexo. A série sempre foi muito explícita, porém nem sempre profunda, em todos os seus temas – a depressão da Jenny merece um texto à parte – e um dos que mais chamava atenção eram os relacionamentos entre amigas, mas principalmente amorosos e sexuais.

Aviso: este texto contém spoilers!

Quando falamos de The L Word e citamos sexo e relacionamentos, é praticamente impossível deixar de falar de Shane, provavelmente a personagem mais inesquecível e popular da série. Dona da famosa frase “I don’t do relationships” [“Eu não pratico relacionamentos”, em tradução livre], em sua primeira aparição na série a vemos usando a piscina de um casal de amigas para transar com uma mulher, para em cenas seguintes já estar seduzindo outra. Não existia ninguém que não a desejava ou que não queria ser como ela. Shane definiu e influenciou uma quantidade enorme de lésbicas. A famosa heartbreaker que sempre tem várias pessoas ao mesmo tempo, que não namora, que diz não iludir, mas não tem cuidado nenhum com o emocional da outra, que gosta de joguinhos e nada além disso.

Durante seis temporadas e por muitos anos depois, Shane foi o que a maioria das lésbicas queria ser: inatingível, nunca se machuca e conquista todo mundo. Não queria nada sério com ninguém e ao mesmo tempo tinha todas ao seu redor pois seu charme era indiscutível. Shane era o retrato da heteronormatividade em mulheres lésbicas. A influência da personagem moldou a forma como muitas lésbicas começaram a pensar, se comportar e até mesmo se vestir porque todas queriam ser Shane e todas queriam ter o que ela tinha. Parece exagero, mas a influência da personagem foi algo cultural reproduzindo em diversos personagens cujo comportamento era o mesmo: Alex (Laura Prepon) de Orange Is The New Black, Frankie (Ruta Gedmintas) de Lip Service – uma cópia não somente comportamental, mas também em estilo da personagem original –, passando por filmes, sendo o mais recente a personagem Dallas (Erika Linder), de Below Her Mouth.

Todas as personagens têm o mesmo estereótipo de alguém que é irresistível, vai acabar com o seu emocional enquanto se envolve com várias pessoas e as descarta após conseguir o que quer. Além disso, já problematizando, depois da introdução à personagem se transformou na mais recorrente e que ainda tinha o mesmo tipo de romance: lésbicas, geralmente andrógenas, que seduzem jovens até então heterossexuais que praticam feminilidade para dentro de uma relação as deixando, no final, completamente devastadas e arrasadas depois de viver um relacionamento intenso e muitas vezes quase que somente sexual. Com isso, muitas pessoas interpretaram e acreditaram que a população lésbica só é bonita e interessante quando estão transando, principalmente quando o casal está em uma posição de quem é “o homem” e quem é a “mulher” na relação.

Além da Shane, uma personagem que, infelizmente, entra em mais um estereótipo das lésbicas na televisão é Dana Fairbanks. Na entrevista a Entertainment Weekly a criadora Ilene Chelken se recorda da morte de uma das personagens mais queridas e amadas da série com grande arrependimento: “Eu acredito na história. (…) Mas a platéia nunca me perdoou por isso. É a única coisa que mudaria se pudesse voltar e fazer algo diferente”. A morte de Dana foi sentida por todos os fãs. Uma das personagens mais humanas e queridas da série, Dana sempre foi diferente da grande maioria de suas amigas. Por ser única personagem que não lidava bem com sua sexualidade, sentindo vergonha de ser quem era, além de não ser assumida por conta de sua família e a carreira de tenista em ascensão, a jornada de Dana talvez seja a mais verossímil da série, até seu desfecho; Dana, busca a aceitação de si mesma, revelando para o mundo sua sexualidade e sofrendo as consequências, vivendo um amor com outra mulher de maneira pública e lidando com a família.

Acompanhar a personagem ganhar força, ter fé em si mesma, no amor, realmente se entregar em um relacionamento maduro e saudável com outras personagens, principalmente Alice, é emocionante. Dana era humana, uma personagem bem construída, na medida do possível, que se apaixonou por outra personagem que também tinha camadas e por mais que seus problemas fossem apenas seus, eram questões que todas as lésbicas já viveram ou vão viver uma vez na vida. Por isso sua morte foi tão sentida. Dana só foi um exemplo de uma lista de diversas personagens lésbicas em séries de televisão que simplesmente são eliminadas. Assassinatos, suicídios, fatalidades ou como na série, uma doença terminal, fazem os roteiristas as descartarem no momento em que deixam de ser úteis.

Lésbicas são convenientes até certo ponto, mas depois são completamente invisibilizadas, descartadas ou esquecidas por outras tramas mais importantes. No caso de Dana, quando a personagem estava em seu auge, ela simplesmente morreu. A forma de usar a personagem, e descartá-la tão facilmente, foi mais um exemplo de como os roteiristas e produtores não sabiam – e ainda não sabem – como construir personagens lésbicas sem eliminá-las no final. Ainda citando mais exemplos, temos a depressão de Jenny e toda influência que isso causa ao seu redor, ao mesmo tempo em que ela se descobre lésbica e passa pela aceitação e como isso influencia seus relacionamentos amorosos e suas amizades. Temos a trama de Bette e Tina e sua família, a adoção de uma filha, e o processo de mulheres lésbicas sendo mães, entre outros temas que até então não tinham sido falados na televisão mas ainda assim foram pouco explorados na série.

É indiscutível que The L Word influenciou a cultura pop voltada para o meio lésbico e bissexual. Em uma época em que a internet ainda estava em ascensão, onde a representação lésbica na televisão podia ser contada em uma mão, onde não existia destaque para tais personagens em nenhuma trama além de características superficiais, foi uma brisa de ar fresco ver um programa dedicado a uma categoria tão esquecida da sociedade. Independente dos erros, da falta de foco em temas importantes para, às vezes, focar somente na parte sexual ou nos relacionamentos amorosos das personagens, a série revolucionou o mundo lésbico. Influenciando jovens meninas até mulheres bem mais velhas e introduziu, chutando a porta, a nossa voz ao mundo. Deveria ter sido o início de uma nova era, com mais espaços para lésbicas, mas o tema continua sendo secundário e poucos seriados foram criados para explorar esse nicho. Continuávamos e continuamos sendo invisibilizadas, mas resistimos e aos poucos vamos ocupando o nosso lugar ao mundo. A luta é constante e diária dentro e fora dos filmes e da televisão.

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