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The Good Wife – Pelo direito de recomeçar

Alicia Florrick (Julianna Margulies) é a “boa esposa” que dá título à série finalizada em 2016 após sete temporadas de sucesso. O último episódio foi ao ar na televisão estadunidense em maio do ano passado, mas todas as temporadas estão disponíveis na Netflix. Em uma conversa recente, tentando defender o fechamento do seriado com uma amiga, percebi que, de fato, para os padrões de uma série dramática do prime time, The Good Wife era desviante. A protagonista é uma mulher branca de classe alta, heterossexual e casada, ou seja, privilegiada e dentro da norma. O desvio, entretanto, não está aí. Está nas escolhas narrativas feitas durante as sete temporadas.

O enredo da série é baseado em vários escândalos sexuais envolvendo políticos, de Bill Clinton a Eliot Spitzer, e procura explorar a afetação do relacionamento dessas pessoas pelas traições quando levadas à público e as consequências geradas nas vidas dessas famílias. O que temos contato, na maioria das vezes, é uma parte ínfima, a parte pública, visível, construída por assessorias e marketing político. O argumento da série é revelar o que está escondido, como aquelas pessoas estavam se sentindo, o que não transparece, o que está se passando na cabeça dessas esposas traídas – como elas se sentem?

Aviso: este texto contém spoilers!

Logo no episódio piloto vemos uma cena do casal protagonista de mãos dadas, entrando num ambiente repleto de fotojornalistas, muitos flashes e gritos. É um pronunciamento de Peter Florrick (Chris Noth) renunciando ao cargo de procurador-geral devido ao escândalo no qual se envolveu, entre eles casos extraconjugais e de corrupção, assumindo o erro pela traição, mas negando que tivesse cometido atos ilícitos. Ele se retira do cargo pelo bem do Estado e pede um tempo para restabelecer seu relacionamento com a família, com a esposa e os filhos, além de pedir perdão a Deus e aos eleitores. A jogada política é perfeita: o arrependimento combinado à admissão de culpa fazem Peter se livrar de outras acusações, ganhar o apoio da opinião pública e, inclusive, retomar sua carreira política mais à frente.

Mas tudo isso às custas do seu casamento, pois Alicia está ao seu lado apenas figurativamente e extremamente abalada pelo ocorrido, embora sempre apareça em frente às câmeras resistindo. Ao deixar o púlpito, Peter agarra novamente a mão da esposa e a conduz para os bastidores apenas para, nesse momento, Alicia o esbofetear sem nada dizer. Isso dá a tônica da série: Alicia até pode ser a esposa boazinha que permanece ao lado do marido infiel e cumpre o papel esperado pelos assessores e pelo “manual” da bela, recatada e do lar, mas só na frente das câmeras. Atrás, ela deixa claro sua insatisfação e a sua revolta, toda humilhação pela qual está sendo submetida, silenciosamente, apenas com a expressão e a bofetada.

Na series finale, Peter é governador de Chicago, novamente acusado de corrupção e mais uma vez envolvendo a família no julgamento. Tudo parece perdido, Peter vai para prisão e não há como reverter. Até que, no pré-julgamento, aparece uma chance que Alicia resolve utilizar. Mesmo que isso signifique trair a confiança de Diane (Christine Baranski), uma das advogadas do escritório que a acolhe na primeira temporada, sua parceira e mentora em vários momentos da série, ela escolhe esse caminho, defendendo Peter, que consegue um acordo e aceita a liberdade condicional.

Ainda assim, ele é orientado a renunciar ao cargo de Governador e pede à esposa que o acompanhe. A cena é igualzinha, eles de mãos dadas, ele falando, flashes pipocando, ela parada ao seu lado. Dessa vez, no entanto, quando ele busca a mão dela para deixar o palco, ela já não está mais ali. Ela não só não está mais ao lado do marido, como não o espera, ela não precisa esperar, pois construiu uma vida sem ele, conseguiu ser independente, criar os filhos, ser uma advogada bem-sucedida, abrir seu escritório, fazer amigos, sair e até se envolver com outras pessoas. Ela escolhe ficar ao lado dele, não porque não tem outras opções, mas porque o relacionamento deles é mais antigo e significa mais coisas do que apenas ser marido e esposa. Na realidade, o casamento mesmo já não existe a não ser publicamente. Mas ela apoia Peter porque quer, passa por cima da amizade com Diane e faz o que bem entende. Deixa o palco inclusive porque vê Jason (Jeffrey Dean Morgan), seu interesse amoroso, e quer ir atrás dele. Ela não espera o marido porque sua história já é bem maior do que seu casamento.

Tudo isso não impede que não haja consequências pros atos de Alicia ou que o que ela esteja fazendo seja certo (ou errado). Nos bastidores daquela última cena, quando ela não encontra Jason, Diane aparece e, sem dizer nada, esbofeteia Alicia, exatamente da mesma maneira que a então esposa traída fez no primeiro episódio. Não precisa legenda, nem diálogos longos e reflexivos. A traída agora é Diane e a violência física do tapa deixa claro o quão profundos são os sentimentos da antiga parceira. Elas não são melhores amigas, mas o relacionamento construído é importante, com seus altos e baixos, e a parceria de trabalho é frutífera. Prosseguir naquela linha de atuação para salvar o ex-marido era uma opção que Alicia fez apesar das consequências.

E esse é um dos elementos mais ricos da série: o desenvolvimento de uma personagem feminina ao longo de sete temporadas, com profundidade e várias camadas de sentido. Alicia é completamente apagada pelo marido – poderoso, influente, rico, político – quando a conhecemos do primeiro episódio. Sim, ela está diante de uma situação extremamente complexa, em que a traição é exposta para todo o país, seus filhos e sua vida são esquadrinhados, sua vida, dedicada à casa, a criação dos filhos, ao marido desaparece… e subitamente, ela precisa aprender a viver em uma realidade diferente, voltar a trabalhar porque o dinheiro acabou, construir relacionamentos por si própria, decidir se perdoa ou não Peter. Se tornar independente. E, tragicamente, se tornar muito parecida com o marido que repudiava. Robert King, um dos criadores da série diz “A essência de Alicia Florrick é uma tragédia. É sobre uma mulher que se torna tudo o que ela mais odiava. Se dispôs a ferir alguém da mesma forma que ela foi ferida no início”.

Esse final retoma as escolhas que a personagem faz ao longo do sete anos, evidenciando as dificuldades (dentro do contexto extremamente privilegiado em que Alicia está inserida) de uma mãe que se vê sozinha, com o companheiro preso, tendo de criar os filhos, se sustentar, se reinventar, retomar uma carreira estacionada. E isso tudo está presente na série: Alicia sofre pelo marido, por gostar de uma pessoa que a enganou, traiu e expôs publicamente. Ela supera a história, se envolve com o chefe, se culpa por isso também, redescobre o amor só para perdê-lo tragicamente depois. Se liberta de certo conservadorismo que está presente no início quase em oposição à criação extremamente liberal da mãe, mas continua sendo uma mãe rígida com seus próprios filhos, Zach (Graham Phillips) e Grace (Makenzie Vega). A personagem é “certinha”, faz parte da sua caracterização e personalidade, mas dentro daqueles limites, ela descobre uma mulher corajosa, forte e ambiciosa.

Alicia trabalha, e trabalha muito, para provar para os outros, para a sociedade que a enquadrou como esposa traída e submissa, para o marido e para si mesma, de que é capaz. Ela gosta do trabalho, se valoriza e é mesmo muito boa. E a ambição recém descoberta, aliada a competitividade, a faz buscar ser sócia do escritório de advocacia em que trabalha e depois a abrir o seu próprio escritório, e até a concorrer a um cargo político. Nessa busca pelo poder e pelo reconhecimento, que ela não conhecia mas via através de Peter, ela acaba esbarrando em limites morais e éticos. E algumas vezes escolhe os ultrapassar – ou se omitir.

O esperado seria um drama de uma mulher que escolhe combater tudo que a fez sofrer: a corrupção, a traição, os atos ilícitos ou que estão na fronteira do legal, que age eticamente em sua profissão, que se separa do marido para então se envolver romanticamente com outra pessoa. A vida, entretanto, não é assim. E nem a ficção, nesse caso. Os dilemas apresentados na série estão ali, tornando Alicia simplesmente humana, cheia de defeitos e falhas e construindo uma personagem complexa. Ela continua com o marido inicialmente porque tem esperanças, depois como um favor, porque teme o que a imprensa vai dizer, e como os filhos vão reagir. Depois ela continua simplesmente por interesse, sustentando uma relação que é boa para ambos politicamente. Ela aceita doações de campanha que são ilegais, utiliza métodos questionáveis para ganhar alguns casos, se envolve com dois colegas de trabalho – e esses são só alguns exemplos.

Deveria ser uma história de superação, uma história de uma heroína, mas The Good Wife não é nada disso, e talvez esse seja o trunfo da série, afinal.

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