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Crítica: The Crown, família em primeiro lugar

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. A frase de abertura de Anna Kariênina, clássico de Liev Tolstói, se encaixaria facilmente, também, com o início da segunda temporada de The Crown, premiada série da Netflix. Com um mar revolto, raios e trovões, a cena que abre a temporada soa como um presságio do período tumultuado que os dez episódios do segundo ano da série nos apresentaria, uma miríade de tensões e crises econômicas, políticas e, principalmente, pessoais.

Aviso: este texto contém spoilers!

O ano é 1957 e ainda que a Rainha Elizabeth II (Claire Foy) tenha, evidentemente, aprendido a navegar em tais águas turbulentas – lembranças e ensinamentos de seus primeiros anos de reinado –, a monarca precisa usar de toda a sua experiência e diplomacia para enfrentar os eventos que se aproximam. O mundo está em constante evolução, e uma instituição tão antiga quanto a monarquia precisa se reinventar para voltar a ser relevante e a rainha, a pessoa de maior importância na família real britânica, precisa encontrar uma maneira de se aproximar de seus súditos e deixar um pouco da imagem de impenetrável para trás. Uma série de rupturas entre o mundo antigo e o novo tomariam forma no final da década de 1950, uma delas, inclusive, relacionada ao fim do controle britânico no Egito, o que aconteceu após sete décadas de domínio.

Os britânicos ocuparam o Egito em 1882 de maneira a assegurar uma posição estratégica e econômica no continente africano. Tal estratégia envolvia o Canal de Suez, inaugurado em 1869, um importante ponto de passagem entre os oceanos orientais e o Mar Mediterrâneo. Outro ponto de relevância e responsável por manter o Império Britânico no país por mais de sete décadas se refere à grande produção de algodão vinda do Egito – o que se relaciona diretamente com o fato da indústria têxtil inglesa ser, à época, uma das mais modernas de todo o mundo. A perda do Canal de Suez é apenas a primeira de uma série de crises com as quais Elizabeth precisará lidar, visto que seu Primeiro Ministro na ocasião, Anthony Eden (Jeremy Northam), decide que apenas uma guerra trará o poder imperial de volta, mesmo que isso resulte em uma desastrosa operação e nenhum resultado prático para a permanência do Império Britânico no Egito. Enquanto isso, Philip, o Duque de Edimburgo (Matt Smith), se prepara para uma longa viagem e continua o mesmo inconsequente que conhecemos na estreia da série em 2016.

Philip, o duque de excessos

A segunda temporada de The Crown investe um tempo considerável reconstruindo a figura de Philip, talvez com a intenção de fazê-lo mais apresentável para a audiência, mas o resultado não ocorre como o esperado: não é fácil simpatizar com a figura do Duque de Edimburgo, ainda mais quando todas as suas ações parecem correr na contramão daquilo que se espera do marido da rainha. Os excessos de Philip não são novidade, e ainda que tenha se mostrado disposto a fazer o casamento com Elizabeth prosperar, a sensação que fica é a de que Philip continua ressentido de sua posição inferior em relação à esposa, oferecendo seu comprometimento ao casamento em troca de um título importante na corte. Elizabeth sabe que divórcio não é uma opção para ela enquanto rainha e líder da Igreja Anglicana e acaba por ceder ao pedido do marido, nomeando-o Príncipe do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, em fevereiro de 1957.

Isso, no entanto, não apaga a recorrente suspeita de adultério por parte de Philip, seja quando Elizabeth encontra no meio das coisas do marido a fotografia de uma bela bailarina, ou quando a foto de um homem misterioso, muito parecido com Philip, sai nos jornais britânicos ao lado de uma reportagem perigosa. O enredo de The Crown nunca deixa claro se tais traições ocorreram ou não, mas é praticamente impossível simpatizar com o duque ou aceitar o longo tempo de tela que ele recebe nessa segunda temporada. É sabido que a Coroa não é composta apenas pela figura de Elizabeth II, mas de todos aqueles que a rodeiam, porém as tramas envolvendo Philip são, facilmente, as menos simpáticas – e é triste notar como The Crown, que tem o poder de contar a história da rainha mais longeva da história britânica, acabe se voltando para a trama de um homem um tanto mesquinho e esnobe, no lugar de focar em uma mulher que tem sobre os ombros a pressão de ser a rainha de um império que está implodindo, líder de uma Igreja e ainda mãe do futuro rei.

O duque parece esquecer que ele sabia desde o princípio como seria o casamento com Elizabeth. O pai da rainha, o Rei George VI (Jared Harris), antes de morrer, disse que Elizabeth seria o trabalho de Philip, mas o duque age continuamente como se não soubesse qual era o acordo desde o começo. The Crown nos leva para a infância de Philip durante o episódio Paterfamilias” a fim de fazer a audiência compreender melhor a pessoa que ele se transformou, mas tudo o que consegue é nos fazer perguntar quando aquele jovem se tornou o homem que conhecemos como Duque de Edimburgo. O jovem Philip – interpretado por Finn Elliot – não teve uma infância fácil: sua família estava diretamente envolvida com o nazismo, sua mãe sofria de alguma grave doença e sua irmã favorita, esposa de um componente do exército de Hitler, faleceu em um acidente de avião. Tudo o que restou a Philip, culpado pela morte da irmã pelo pai, foi sua escola, a Gordonstoun. O duque se refere à escola, um tipo de colégio interno para meninos, como um lugar que o fortaleceu e moldou, então quando chega o momento do Príncipe Charles (Julian Baring) frequentar a escola, é para lá que Philip decide mandá-lo, contrariando o desejo de Elizabeth de enviar o filho para Eton, uma escola mais adequada para o tipo de educação que a monarca tem em mente para o futuro rei da Inglaterra.

É desconcertante notar como Philip coloca altas expectativas na estadia de Charles em Gordonstoun, principalmente quando os dois, à mesma idade, eram tão diferentes um do outro em questão de temperamento e situação familiar. Ainda que Philip tenha sofrido absurdamente pela morte da família e ter sido renegado pelo pai, Charles precisa lidar com a pressão de ser o primeiro na linha de sucessão ao trono britânico, o que causa, entre seus colegas, todo tipo de piada e abuso. Ao projetar suas expectativas em Philip, matriculando-o em Gordonstoun e fazendo o menino passar pelos piores cinco anos de sua vida – nas palavras do real Príncipe Charles –, o duque comete o erro de acreditar que Charles seja a mesma pessoa que ele; ainda que pai e filho, os dois não poderiam ser mais diferentes um do outro. A trajetória de Philip quando jovem é triste, sem dúvidas, e regada a muito drama em The Crown, mas nada justifica a pessoa que ele se transformou e muito menos a maneira como lida com os filhos. Impor ao filho determinada maneira de ver, lidar e reagir ao mundo nunca se mostrou uma das atitudes mais acertadas entre plebeus, que dirá entre a realeza e suas normas e protocolos rígidos. Charles é descrito em The Crown como uma criança sensível e é desesperador vê-lo tentar andar pelo mesmo caminho do pai. Ainda que Paterfamilias” seja um episódio memorável e intenso, com seu desenrolar e trama bem amarrada, permanece difícil nutrir qualquer sentimento que não seja enfado quando Philip aparece em tela.

Se o casamento com Elizabeth chega ao ponto de colapsar, muito se deve a falta de diálogo entre a rainha e o duque – da parte dela, por simplesmente aceitar fechar os olhos para o que quer que Philip faça em seus momentos longe do castelo, cansada das possíveis humilhações; e da parte dele, por entender que sua esposa o afastou de seu convívio. Embora o primeiro episódio da segunda temporada se inicie com uma discussão acalorada entre o casal, é apenas ao final do décimo que os dois conseguem colocar o relacionamento em pratos limpos. Posto que as desculpas de Philip não pareçam as mais coerentes, Elizabeth o aceita, mas, permanece difícil saber, no entanto, se quem o recebeu de volta foi a esposa, a mãe ou a rainha com um dever e objetivo: manter as aparências em um mundo de cobranças.

Margaret, a desventurada princesa

Em meio a episódios repletos da presença de Philip, crises econômicas e matrimoniais, a Princesa Margaret (Vanessa Kirby) não recebe tanto tempo de tela quanto seria adequado. Quase como a ovelha negra da família, Margaret é uma figura interessante por sua personalidade forte e pulsante, quase o negativo de sua irmã, Elizabeth. Gelo corre pelas veias da rainha quando necessário, mas Margaret nunca se reprime ou deixa de se permitir. Ainda sofrendo pelo fim do relacionamento com o Capitão Peter Townsend (Ben Miles) – o casamento entre os dois foi proibido pela Coroa, visto que Townsend era divorciado e Margaret precisaria abrir mão de seu título e privilégios para poder se unir a ele, o que ela não faz –, a princesa permanece à deriva em um mar de bebidas alcoólicas e muitos cigarros.

Impedida de levar adiante o relacionamento com o homem que ama, Margaret não perde a oportunidade de relembrar o fato à Elizabeth – a rainha, ainda que saiba que comprometeu a felicidade da irmã com a negativa, parece aceitar os ataques de Margaret com altivez visto que, como líder da Igreja Anglicana, estava de mãos atadas diante a tradição. A princesa, enquanto isso, recebe uma carta do Capitão Peter Townsend informando-a de que, em breve, se casará. Margaret sente-se devastada e, em certo grau, humilhada pela rápida recuperação do capitão e não aceita muito bem o fato de que ele encontrou a felicidade antes dela. Orgulhosa, Margaret tenta embarcar no primeiro relacionamento que aparece em sua frente com a ideia de anunciar um possível casamentos antes de Townsend.

O que decorre dessa empreitada é um noivado relâmpago com Billy Wallace (Tom Durant-Pritchard), antigo amigo da princesa. Muito mais por conveniência do que por amor, Margaret aceita se casar com ele para dar algum tipo de resposta ao Capitão Townsend, mas o noivado, que mal teve tempo de ser anunciado, é logo cancelado quando Billy se envolve em uma noite de bebedeira e um duelo, para desgosto da princesa. Cansada do meio em que circula – nobres em excesso, títulos e terras que não querem dizer coisa alguma sobre qualquer um – Margaret pede que sua nova dama de companhia, Elizabeth Cavendish (Catherine Bailey), a apresente a pessoas normais, que vivem sem o estigma de estarem ligadas à tradições e protocolos. Caindo aos pedaços, Margaret sente que precisa de um pouco de ar puro e afastamento de todas as rígidas tradições da Coroa – a sequência que mostra a princesa escancarando o quanto soa falso posar para fotografias com o tema “princesa encantada” talvez seja a epítome de tudo o que a monarquia representa para quem não faz parte dela, um mundo posado e ensaiado para parecer incrível quando, por baixo das pinceladas de verniz, as faces alegres começam a rachar.

E é assim que Margaret se sente, sufocada por um mundo de aparências que a aprisiona e impede de viver por inteiro ao mesmo tempo em que a banha de privilégios. Ao ouvir uma dramática música de Ella Fitzgerald enquanto destrói seu quarto, Margaret sente que não há por onde fugir. Nesse contexto de depressão e desesperança, a princesa decide comparecer ao jantar oferecido por Cavendish e é nessa ocasião, cercada por pessoas que não sabem muito como se comportar diante dela (ou que simplesmente não se importam), que ela conhece Tony Armstrong-Jones (Matthew Goode), um fotógrafo petulante que, enquanto demonstra saber como deve agir na presença da realeza, não poderia se importar menos com a posição da princesa no mundo. Em uma troca de impressões sobre a vida, o universo e tudo o mais, é evidente o quanto Margaret se encanta por Tony e seu aparente desdém por tudo o que envolve a família real britânica.

O relacionamento entre Margaret e Tony não demora a se desenrolar, e entre sessões de fotografias e passeios de moto pelas ruas de Londres, o novo casal é tudo o que a imprensa inglesa desejava para alavancar as vendas de jornais. Seja ao publicar a fotografia em que a princesa dá a entender que está nua, seja aparecendo nas manchetes por sua glamourosa vida de jet-set. Muito antes da Princesa Diana, era Margaret quem estampava as capas dos jornais e publicações voltadas para fofoca, com sua vida controversa – para os padrões da realeza britânica, pelo menos – e relacionamentos amorosos. Sua ligação com Tony renderia um casamento luxuoso na Abadia de Westminster que, nas palavras da própria Margaret, ofuscaria a cerimônia da irmã. Enquanto isso, Tony parece percorrer com relativa suavidade todo o frenesi que envolve um casamento real além de ter um objetivo diferente em mente ao se casar com Margaret.

Filho do primeiro casamento de sua mãe, Lady Rose (Anna Chancellor) devido ao casamento com um nobre, Tony sempre se sentiu o menos prestigiado em sua família. Lady Rose parece dar muito mais atenção – e amor – ao filho de linhagem nobre do que ao filho do casamento fracassado – e Tony sabe disso. Ao se encaminhar para a Abadia de Westminster, Tony, ao lado da mãe, mostra-se orgulhoso de tudo o que conquistou; Lady Rose, por sua vez, não demonstra estar muito impressionada e espera que o filho não tenha feito tudo aquilo por ela. Como tal atitude refletirá no casamento com Margaret, somente o tempo irá dizer. A união de dois mundos tão diferentes – o moderno e empolgante universo artístico de Tony, e o antigo e repleto de tradições de Margaret – pode ser a epítome da perfeição, ou o desastre completo. Para Margaret, nunca há dois pesos e duas medidas em qualquer que seja o assunto. Embora Elizabeth tenha, em alguma medida, tentado argumentar com a irmã a respeito do enlace com Tony – seria essa a melhor das ideias? –, Margaret diz que se casará com o fotógrafo nem que essa seja a última coisa que faça. A rainha, que detém o conhecimento dos relacionamentos sexuais de Tony, poderia ter mencionado qualquer uma das aventuras do fotógrafo, mas prefere o silêncio em prol, talvez, da possibilidade da irmã ser feliz.

Elizabeth, a rainha solitária

O silêncio e a solidão, de fato, parecem ser as marcas de Elizabeth nessa segunda temporada, que mesmo que seja a parte mais importante da família, o peso sobre quem a Coroa repousa, não recebe tantas tramas importantes quanto em seu ano de estreia. Há de se concordar que a primeira temporada praticamente impecável de The Crown deixaria altas expectativas para os episódios que viriam, mas esperava mais da Elizabeth de Claire Foy – principalmente quando, na terceira temporada, com o avançar da idade da rainha, a atriz será substituída por Olivia Colman. Isso não é demérito da interpretação de Claire Foy, no entanto, que permanece maravilhosa em todos os seus olhares e gestos régios, mas do peso das tramas e o foco desnecessário em Philip.

A rainha precisa lidar, durante os dez episódios, principalmente com o ego de homens que pensam saber o que estão fazendo. A começar pelo Primeiro Ministro Anthony Eden, que vê na guerra um meio para eclipsar seu antecessor, Winston Churchill (John Lithgow), passando pelo próprio Philip, que não procura meios de conquistar o respeito daqueles que, ele clama, deveriam respeitá-lo, mas encontra um caminho mais curto para ter o que deseja, até chegar no outro Primeiro Ministro, Harold MacMillan (Anton Lesser), que não possui a força necessária para perdurar. Na ocasião em que Lorde Altrincham (John Heffernan) publica uma matéria apontando o ostracismo da monarquia, e os certos e errados a partir de um discurso equivocado, é difícil para Elizabeth aceitar – e lidar – com uma pessoa criticando a maneira como fala e até mesmo o som de sua voz.

Como figura pública, Elizabeth II está sujeita a ser escrutinada pela mídia, a ser julgada e analisada, mas nunca é fácil ver o seu papel ser colocado em xeque quando tudo o que você faz é tentar ser o melhor possível de acordo com a situação e contexto no qual está inserida. O discurso equivocado na fábrica da Jaguar nasceu de uma sucessão de erros e visões antigas de mundo, e a mensagem que fica por meio da matéria escrita por Lorde Altrincham e comentada por todos, é que a instituição monárquica já não é mais a mesma e que precisa se reinventar para permanecer relevante. Um momento que marca de maneira formidável o encontro entre o antigo e o novo, um tema recorrente nessa segunda temporada de The Crown, se dá durante o discurso de Natal, pela primeira vez televisionado. Elizabeth é sincera quanto ao desejo de consertar as coisas que não estão dando certo na monarquia, e aceita algumas das sugestões deixadas por Lorde Altrincham – mesmo que isso a deixe mortificada e até mesmo frustrada. O cabo de guerra em que se encontra a monarquia, uma instituição antiga, e a nova era moderna, dá o tom da cena em que Elizabeth profere o discurso de Natal para as câmeras – e nesse momento podemos acompanhar a força da interpretação de Claire Foy, que passeia sutilmente pelas emoções da rainha, de constrangimento e determinação a resignação. A rainha sabe que dela depende a Coroa, e portanto faz o que é necessário para mantê-la de pé.

Tal sentimento vem de encontro à visita que a “realeza” norte-americana faz à Londres: John F. Kennedy (Michael C. Hall) e sua esposa, Jacqueline (Jodi Balfour), trazem o frescor de novos tempos para um ambiente marcado por formalidades, e enquanto todos caem de amores pela primeira dama norte-americana, Elizabeth sente uma pontada de ciúmes por saber que não carrega o brilho ou magnetismo da Senhora Kennedy; um encanto todo próprio que mesmeriza multidões por onde passa. O encantamento também é visto na passagem do casal norte-americano pelos domínios ingleses, onde todo o protocolo cai por terra quando os convidados do jantar se amontoam no balcão para ver a chegada do casal. Elizabeth não está acostumada com a falta de decoro e não entende o que tem de tão fantástico assim para se ver – pelo menos não até ficar a sós por um momento com Jackie. O que a rainha da Inglaterra vê se parece muito com ela mesma, uma mulher introspectiva que precisa estar em frente aos holofotes, mesmo que isso não lhe seja fácil ou confortável. A Jackie que conversa com Elizabeth, em meio a filhotes de corgi, é uma mulher cansada, quase quebrada, que vive em uma gaiola dourada para que todos possam ver. Enquanto para John F. Kennedy é natural estar no palanque, falando para multidões, o mesmo não é verdadeiro para Jacqueline que precisa colocar um sorriso no rosto como se fosse uma armadura e seguir para a batalha.

Elizabeth consegue se relacionar facilmente com essa Jacqueline frágil e introspectiva, visto que, nas palavras da própria rainha, às vezes, o que ela gostaria é ser invisível. Para Elizabeth, sua irmã Margaret combinaria muito mais com a Coroa do que ela própria. Ainda que na sequência da visita Jackie fale mais do que a língua e fira Elizabeth, as duas figuras são similares no que se refere a lidar com a vida pública. Quando John F. Kennedy é assassinado durante um desfile oficial, Jackie precisa continuar pensando como alguém em frente às câmeras – e Elizabeth compreende a questão de uma maneira que outras pessoas talvez não pudessem fazer. Ela entende que Jackie tem um papel a cumprir, ainda que esteja destruída por dentro, com o coração e a vida em pedaços. E lá da segurança da casa real, ao assistir a primeira dama norte-americana acompanhando o caixão com o conjunto rosa da Chanel ainda marcado com o sangue do marido assassinado, Elizabeth percebe a solidão que é ter uma tarefa difícil como sustentar a Coroa.

Se na primeira temporada Elizabeth encontrava-se solitária pelo novo peso que a Coroa representava, agora The Crown demonstra que é possível sentir-se sozinha mesmo rodeada de pessoas. Sozinha Elizabeth recebe as críticas, e sozinha lida com elas; Philip não parece compreender o que o matrimônio significa enquanto fica flanando como um bon vivant entre festas e encontros que ninguém sabe onde; e é Elizabeth quem precisará lidar com os rumores de traição sem tomar uma atitude precipitada, evitando prejudicar a Coroa e sua imagem. Nessa segunda temporada, The Crown colocou a rainha em espera, fazendo com que coisas acontecessem a ela, mas nunca colocando-a como parte da ação – a não ser quando decidiu voar para Gana com o intuito de impedir que o Presidente Nkrumah (Danny Sapani) estreitasse laços com os russos o que, mesmo assim, foi creditado na série como uma ideia saída do ciúme que Elizabeth sentiu de Jackie. The Crown nos mostrou muito mais de Philip e suas idiossincrasias do que da pessoa que carrega a Coroa, uma falha que poderia ter sido facilmente remediada em pequenos detalhes – como, por exemplo, quando Elizabeth está dando a luz ao seu quarto filho e a câmera voa diretamente para Philip no lugar de focar no rosto da mulher em trabalho de parto. Ainda que permaneça uma série de nível altíssimo, com cenários deslumbrantes e figurinos incríveis, The Crown peca em tirar o foco de Elizabeth, deixando quem sustenta a Coroa – e toda essa história – de lado.

Família

Se tem uma palavra que define a segunda temporada de The Crown, essa palavra é família. Mesmo que o panorama político esteja envolvido na narrativa, e que primeiros ministros apareçam com problemas vez ou outra, e que posicionamentos políticos precisem ser feitos, tudo se resume ao que Elizabeth precisa fazer para preservar a Coroa e, por consequência, sua família. Ao aceitar Philip, ao olhar para o lado quando descobre as aventuras sexuais de Tony, prestes a se casar com Margaret, ou quando permite que seu tio David, Duque de Windsor (Alex Jennings), retorne para a Inglaterra – mesmo que por um breve período de tempo –, é por sua família que o faz. Elizabeth tem uma visão muito mais ampla e verdadeira do que significa a instituição que representa do que qualquer outro membro da família real britânica, e, com isso em mente, a rainha toma as decisões necessárias para mantê-los em segurança.

O interlúdio entre a década de 1950 e 1960 se mostrou repleto de transformações; as tecnologias começam a fazer diferença na vida das pessoas – quando foi que se imaginou que um pronunciamento da rainha em época de Natal seria feito pela televisão? Ou mesmo um casamento real seria transmitido ao vivo? – e a monarquia precisa aceitar e se reinventar para permanecer relevante. E tirando toda a pompa e circunstância, vestidos e jóias deslumbrantes, o que resta para os Windsor ao final do dia? Seus relacionamentos, suas crises, seus rompantes, suas tradições. É como disse Tolstói, é como disse a própria Elizabeth:

“A infelicidade é assim. Basta que algo pior aconteça para perceber que, na verdade, éramos felizes.”

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