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The Chocolate Challenge e por que ainda precisamos falar sobre blackface

No dia 17 de julho, o Buzzfeed postou um artigo sobre Vika Shapel, uma vlogger, e seu “Chocolate Challenge”, um desafio de maquiagem que consistia, basicamente, em deixar Vika, que é branca, com a pele negra — blackface, pra ser objetiva. O artigo expunha, justamente, o fato de a vlogger ter sido chamada de racista após o desafio. Em sua defesa, Vika disse que não conhecia o conceito de blackface, se desculpou e apagou suas contas nas redes sociais. Até aí, tudo mais ou menos certo. O problema é que os comentários dos leitores do Buzzfeed iam em uma via contrária a de Vika, alegando que hoje em dia tudo é racismo, “mimimi”, que em As Branquelas (2004) houve “whiteface” e já não se pode fazer nada livremente porque problematizam tudo. Posto isso, é interessante explicar o que é blackface e porque ele é tão ofensivo.

Blackface, a representação branca do que é negro e ruim

Originalmente, o blackface era uma prática teatral americana que se valia de pintar de preto os atores brancos para que eles se caracterizassem como negros, seja quando o personagem negro exigia maior qualidade dramática, seja quando o personagem era uma caricatura de negro, em que se exageravam traços físicos e replicavam supostos padrões de comportamento. Assim, as características negras eram transformadas em chacota, em fantasia.

Em 2012, Adelaide era um dos sucessos da Zorra Total. Uma mulher negra periférica que pedia dinheiro no metrô, representada por Rodrigo Sant’Anna e que, vez ou outra, tinha (além do visual) atitudes racistas. Por conta da personagem, o programa foi denunciado várias vezes à Ouvidoria Nacional da Igualdade Racial, e, em sua defesa, afirmou que se tratava de “liberdade de criação”, “cunho humorístico”.

O fato é que até hoje a prática do blackface continua acontecendo sob a justificativa de que é ok pintar-se de negro por conta da liberdade criativa da arte e que nenhum branco (!!!) se importou com o whiteface de As Branquelas. Não posso falar como branca, claro, mas, como mulher, o filme é um tanto sexista e ofensivo, além de recorrer ao lugar comum patético e sem graça da loura burra. Mas, mais do que isso, o argumento do whiteface ser ok, faz parecer que brancos e negros vivem em um patamar de igualdade o que não é, de modo algum, uma verdade. Os brancos ocupam uma posição de superioridade sobre os negros e é por isso (e outros milhões de motivos) que não existe racismo reverso. O whiteface não faz parte de um conjunto de práticas realizadas por uma maioria que tenta diminuir uma minoria. O blackface sim.

As populações negras são repetidamente transformada em escárnio. A aparência vira fantasia, a religião vira bruxaria, a cultura se torna folclore. E, acreditar que o blackface é simplesmente liberdade de criação reforça todas essas práticas, contribuindo para o imaginário de que negros são feios, burros, pobres e que merecem ser alvo de chacota.

Whitewashing, a representação branca do que é bom e negro

De outro lado, temos o whitewashing, termo utilizado para designar a atitude de substituir atores e personagens de outras etnias que não a branca por um personagem branco. Exemplos? Carmen Miranda, a baiana mais famosa do Brasil, Motoko Kusanagi, personagem interpretada por Scarlett Johansson em Ghost In The Shell (2016), Cléopatra. Até mesmo as representações de Jesus são problemáticas visto que Ele nasceu em Belém, território palestino.

Quando se trata de um personagem heroico, sexy ou que tenha qualquer outra característica boa, ele é interpretado por uma pessoa branca, mesmo embora seja de uma etnia diferente. As origens étnicas são fisicamente apagadas, não há chacota, e, além de tudo, não é uma criação que se volta pro humor.

O whitewashing perpetua uma indústria artística que se fecha à representatividade, porque até quando se trata de uma história cujos personagens não são padrão, Hollywood a transforma em padrão. E não é porque não existem atores e atrizes negros, asiáticos ou árabes: é porque não há espaço aberto pra eles nesse cenário que permanece predominantemente branco.

Não é mimimi

A problematização do whitewashing e dos blackfaces que vez ou outra aparecem de maneira mais escancarada, não é “mimimi”. É uma forma de evidenciar o racismo estrutural e contribuir para o seu fim, porque, independente da nuance, da intensidade, ou das palavras sob as quais se esconde, é tudo racismo.

O racismo presente no blackface é o mesmo racismo que mata jovens negros 3x mais do que jovens brancos. É o mesmo racismo que faz com que as jovens negras queiram narizes mais finos, cabelos mais lisos. É o mesmo racismo que choca a sociedade quando é evidenciado em suas maneiras mais extremas por Thaís Araújo e por Maju Coutinho.

Que a gente se indigne da mesma forma com o racismo em todas as suas nuances.

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1 Comentário

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    Suellen
    8 de agosto de 2017 at 00:38

    Não conhecia essa personagem de Zorra Total (sempre achei o programa horrível) mas tomei um susto com a imagem. Só a imagem já choca – todos os estereótipos ruins sobre negros unidos e interpretados com escárnio por um ator branco. É chocante imaginar que algo como “liberdade cultural” foi aceito como justificativa disso.

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