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The Bold Type: mulher ajuda mulher

Há mais ou menos quatorze anos Regina George, a icônica personagem de Meninas Malvadas (2004, dirigido por Mark Waters), interpretada por Rachel McAdams, recebia em alto e bom som que “you can’t sit with us” [“você não pode sentar com a gente”, em tradução livre]. Anos mais tarde, a frase serviria para dualizar grupos – geralmente femininos –, em uma tentativa ferrenha de provar que o meu, o seu, e o nosso grupo era melhor do que aquele da pessoa do lado. Ou do que a pessoa do lado. Entre usar rosa nas quartas-feiras e uma campanha que buscou ensinar a garotas que you CAN sit with us [você pode sentar com a gente], anos se passaram e com eles vislumbramos, aos poucos, a queda de uma ferramenta narrativa há muito utilizada nas produções para cinema e TV: a de colocar mulher contra mulher. Entre filmes e séries que, a partir de então, enalteceriam a amizade feminina, foi em 2017, na tímida emissora televisiva Freeform, que teríamos uma das melhores novas produções do gênero: The Bold Type.

The Bold Type, que já foi assunto aqui no site de forma bem incisiva, conta a história de três amigas: Jane Sloan (Katie Stevens), Kat Edison (Aisha Dee) e Sutton Brady (Meghann Fahy), e a realidade delas enquanto empregadas de uma revista feminina de grande porte, a Scarlet Magazine. Inspirada pela vida de Joanna Coles – também produtora executiva da série –, ex-editora chefe da revista Cosmopolitan, The Bold Type é o tipo de entretenimento que a TV, e, no fundo, muitos telespectadores, estava precisando.

Atenção: o texto contém spoilers!

A amizade feminina em sua melhor forma

Apreciadores de televisão não falham, e com pouco esforço, reconhecem que a representação da amizade feminina na televisão deixa a desejar tanto quanto peca no assunto. Para mais do que relações de amor e ódio, puxadas de tapetes e insinuadas situações de inveja, The Bold Type traz com Jane, Kat e Sutton uma amizade genuína. A relação das três personagens mostra que elas são amigas, pura e simplesmente. Com muito carinho e momentos descontraídos, assiste-se três millenials matando algo: a ideia de que mulher odeia mulher, e que não se pode confiar em mulheres. Aqui, mulheres apoiam umas às outras, e ouvem, encorajam, enaltecem e, acima de tudo, torcem pela felicidade que não somente a sua. Como qualquer boa amizade, momentos esquisitos e discussões ocorrem, mas essas não são situações tóxicas e exageradas como aquelas que os telespectadores estão acostumados a assistir.

Representação de mulheres que apoiam a evolução de outras mulheres é tão bonito quanto necessário, e em The Bold Type a dose dessa representação não é homeopática, mas muito, muito boa. Além disso, ainda que a série trate e tenha sua considerável fração de plots românticos, ela é intrinsecamente uma série sobre a amizade (e também sobre trabalho). O ponto para a série, nesse quesito, é positivo.

O Anjo veste Prada

Assistir Jacqueline Carlyle (Melora Hardin) e não lembrar imediatamente de Miranda Priestly só serve para demonstrar que a) você não assistiu O Diabo Veste Prada ou b) volte para a alternativa “a”. Jacqueline é igualmente bem vestida, ocupa basicamente a mesma posição que Miranda – a de editora chefe de uma grande revista voltada ao público feminino, e é incrivelmente segura de si mesma. Repete os requisitos de construção de feminilidade de Miranda, mas demonstra uma outra faceta quando comparada com a personagem de Meryl Streep.

Jacqueline trata a revista Scarlet como um grande projeto pessoal que conquistou e teve a cara e a coragem de mudar o foco e lutar, todos os dias, para manter em pé – mesmo que isso signifique bater de frente com homens engravatados e uma situação nada corriqueira para maioria das mulheres aí de fora. Jacqueline, contudo, promove uma ideia diferente de profissional-chefe: a que entende que pessoas que trabalham são humanas, não robôs. Em uma sociedade capitalista, que a ideia de ter e produzir é propagada como ideal a ser buscado, não pouco comum que profissionais de todas as áreas sejam desmerecidos e humilhados por seus superiores. Ao mesmo tempo, doenças relacionadas ao trabalho não param de crescer, e os afastamentos por transtornos mentais têm se tornado cada vez mais longos e comuns, tudo isso na vida real, não na ficção. Quando Jacqueline, mesmo extremamente exigente, compreende que uma de suas “garotas”, dedicadas e esforçadas, está passando por uma má situação, ela a encoraja e busca evidenciar que vai ficar tudo bem, é apenas uma fase, e o necessário é dar um tempo para a mente. A representação toda é tão inverossímil e inacreditável em tempos atuais, que beira a utopia. Ainda assim, é um sopro de ar fresco entre milhares de ambientes de trabalhos, fictícios ou não, que reforçam a ideia de cada um por si, e Beyoncé por todos.

Ademais, Jacqueline traz, no episódio final, uma das mais tocantes reviravoltas da temporada: a revelação de que haveria sido abusada quando mais jovem. Durante a cobertura e produção de uma matéria e campanha de conscientização da revista, o grande rosto por trás da Scarlet confessa, ao mundo, que nem ela e nem as mais poderosas das mulheres está livre de sofrer quaisquer tipo de assédio ou abuso. A trama reforça que a opressão a qual a mulher está submetida é real, e o perigo, iminente.

Temas sólidos, pegada leve

Esteticamente falando, The Bold Type aparenta ser uma série alegre, bubbly [animada] e desinteressante. Engana-se, contudo, quem pensa que é uma série supérflua e rasa. Entre seus tons amarelos e rosados, suas moças sorridentes, bonitas e bem vestidas, há assuntos pertinentes e importantes diluídos em todas as tramas e episódios da série – ainda que conduzidos de forma leve, descontraída e cômica. Em “O Hell No”, Jane busca passar por sua primeira experiência de… orgasmo. Confessando de maneira tímida e envergonhada, beirando o que poderia soar como culpa, Jane tem plena consciência que a realidade de mulheres que nunca tiveram a experiência não é absurda, nem pequena. Estatisticamente falando, 67% das mulheres fingem orgasmos, segundo pesquisa da Cosmopolitan, muitas delas para terminar o ato sexual e não magoar o parceiro; metade das mulheres têm dificuldade em atingir o clímax (pesquisa Mosaico), e brinquedos e estimulação com a mão continuam sendo os maiores responsáveis pelos orgasmos femininos (pesquisa de conhecimento geral né mores). O plot traz para The Bold Type a possibilidade de tocar em um tabu – a da desmotivação dada às mulheres em explorar seus próprios corpos. O episódio abre porta para que Jane procure novas experiências sexuais, principalmente sozinha.

Outra trama interessante tratada pela série diz respeito ao câncer de mama. No decorrer da temporada, ficamos sabendo que Jane perdeu sua mãe devido um câncer de mama. Em determinado episódio, Jane é motivada, a contragosto, a escrever sobre o aumento na procura do mapeamento genético que busca descobrir as chances de ter o câncer ou não. O teste BRCA é um exame que revela as chances de ter a mutação nos genes BRCA 1 e BRCA 2, que são importantes marcadores para a predisposição ao câncer do mama e também ao câncer de ovário. Entre frustração, raiva e aceitação, Jane, mais tarde, aceita fazer o teste e como resultado descobre que possui, de fato, a predisposição a esse tipo de câncer. O assunto é interessante pois além do câncer de mama ser o segundo mais frequente no mundo e o mais comum entre as mulheres, há não muito tempo atrás uma das mais renomadas atrizes do mundo, Angelina Jolie, revelou ter passado por uma série de cirurgias devido ao resultado do teste, que, segundo os médicos, estimava 87% de chances da atriz desenvolver a doença. Jolie que sempre foi, e ainda é, um símbolo de feminilidade optou, proativamente, por dupla mastectomia e a retirada dos ovários e trompas. Entre congratulações e ceticismos, a atriz, que perdeu a mãe para um câncer de mama, foi alvo de diversas críticas, muitas delas envolvidas em conotações machistas, que lamentavam a retirada das mamas pela atriz. Em mês de Outubro Rosa, o assunto é pertinente, e The Bold Type mostrou, à sua maneira, a importância de mulheres decidirem ou ao menos terem um pouco mais de controle sobre suas próprias vidas – ou doenças.

A série trata, também, da dificuldade em que mulheres jovens sentem em introduzirem-se no mundo da política: constantemente desdenhadas entre o meio político, Jane estampa mais um plot interessante que diz muito sobre a realidade da mulher e, em especial, da jovem mulher. Ao tentar posicionar-se em um painel sobre novos rostos na política, Jane é diminuída, silenciada e abafada pela voz de um grande homem pensador – é mansplaining que chama. Entre falar abertamente sobre liberdade sexual, abuso sexual, racismo e preconceito, imigrantes nos Estados Unidos, e algum punhado considerável de temas interessantes, The Bold Type conquista seu lugar ao sol.

Kadena

Mas, talvez, nada estampe melhor o que The Bold Type traz para a televisão do que a relação entre Kat e Adena El Amin (Nikohl Boosheri). Adena é uma “lésbica muçulmana, com muito orgulho!”, artista e fotógrafa de mão cheia, que reside atualmente nos Estados Unidos. Nos episódios iniciais da série, à Kat é dada a missão de veicular na Scarlet algumas das fotos da artista – que de início se opõe veementemente e mais tarde acaba concordando. Kat, por sua vez, é responsável pelas mídias da revista e um tipo de faz-tudo no ambiente de trabalho. As personagens não começam com o pé direito – há incredulidade por parte de Adena –, mas acabam cedendo e tornam-se, aos poucos, mais próximas. Com a proximidade e um sonho sexual na jogada, Kat, até então uma “hétero, com orgulho!“, passa a questionar sua sexualidade. A jovem mulher, filha de pais psicólogos que não encorajam conflito, começa a sentir dentro de si uma dúvida que até então nunca havia sentido. A medida que a temporada avança, as interações entre Adena e Kat aumentam e as duas acabam por tornar-se o melhor plot romântico da série – The Bold Type tem plots românticos mas, convenientemente, eles não são o centro da série.

A relação do ship denominado Kadena é um dos principais motivos que levam The Bold Type a ser uma série interessante. O principal casal da série é protagonizado por uma mulher negra, que está descobrindo a bissexualidade, e uma muçulmana imigrante declaradamente lésbica. Entre os enredos que entrelaçam as duas, Adena é responsável por um dos mais importantes assuntos tratados na série: a situação de imigrantes na atual realidade dos Estados Unidos. Após terem uma noite adorável, Adena e Kat caminham em paz nas ruas de Nova York até que Adena atende uma ligação de sua mãe. Um estranho reage e pergunta “por que não fala em inglês, vadia?”. Kat enfurece-se e responde de volta, uma confusão acontece, a polícia chega, Kat é presa e Adena foge. Mais tarde, quando confrontada do porquê teria fugido, sendo que tem, obviamente, uma opção (lutar contra o preconceito) Adena revela que para uma muçulmana lésbica vivendo na América moderna, suas opções eram muito limitadas – ser deportada, ter seu VISA revogado ou ser proibida de entrar no país (que, mais tarde, realmente acaba por vir a acontecer). Kat ainda é uma mulher negra nos Estados Unidos e, como já vimos, ser negro e ser negro nos Estados Unidos é sinônimo de sofrer as opressões de um racismo estrutural, mas ainda é uma americana, born and raised [nascida e criada]. A realidade para os imigrantes no país se tornou ainda mais complicada e delicada depois da posse presidencial de um xenófobo redneck (só que rico). The Bold Type enfiou não uma, mas as duas mãos em uma ferida muito aberta dos Estados Unidos.

Por fim, é louvável que a série tenha “ido até lá”; até lá significando a coragem de fazer com que duas personagens que representam minorias sejam as grandes estrelas da série e de um romance LGBTQ+. É, inegavelmente, triste que em pleno 2017 a representação de personagens LGBT ainda seja escassa, ficando ainda mais tênue quando se trata personagens que também representam outras minorias pouco ou quase nada representadas na TV. Contudo, a maneira como o relacionamento das duas é tratado na primeira temporada da série é bonito, sensível e não apela, em momento algum, para o queerbaiting ou para a hipersexualização da relação entre duas mulheres. The Bold Type leva pra conta mais alguns (tá, muitos) pontos positivos.

E então?

The Bold Type é uma das melhores séries de 2017. Ela está longe de ser o que chamamos de prestige TV [TV de prestígio, em tradução livre] e dificilmente concorrerá a prêmios que não sejam de voto popular, mas é o que muitos de nós, telespectadores, estávamos precisando. Com uma maneira leve, divertida e emocionante de tocar em muitos assuntos pesados do cotidiano, a série serve como um sopro de ar fresco em momentos de escuridão – social e politicamente falando. De maneira otimista e com toques aspiracionais, The Bold Type vai contra as dezenas taciturnas, sérias e pesadas novidades da televisão, e ainda bem.

Sua primeira temporada foi recheada de pontos positivos. Além de passar no teste de Bechdel em todos os episódios, falar abertamente sobre feminismo e empoderamento da mulher, a série conseguiu pavimentar bem o caminho para uma possível segunda temporada. Abriu e fechou plots na mesma medida e fez com quem assistisse, de uma maneira quase inexplicável, se sentisse investido na história e amizade do trio de garotas. É doce e inverossímil e pesa tanto quanto um sábado livre e bonito – se é isso que você quer ou é isso que você precisa, The Bold Type fará o trabalho.

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