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The Bold Type: amigas conversam sobre tudo

Imagine uma série sobre jovens mulheres vivendo em Nova York e trabalhando na redação de uma revista feminina. Já vimos isso mais de uma vez e, exatamente por já termos visto, acreditamos que essa é uma fórmula que tem um bocado de estereótipos pré-fabricados prontos para acontecer – mulheres em situação de constante competição, artimanhas e brigas por conta de empregos e homens; amizades femininas cheias de superficialidade; uma chefe vista como o diabo, infeliz e odiada por todos. Mas esse não é o caso de The Bold Type. Lançada em junho e criada por Sarah Watson, a série está em sua primeira temporada e, até agora, tem cumprido bem a proposta de ser, ao mesmo tempo, divertida e semeadora de questões.

Na história acompanhamos três protagonistas em seus dramas de vida e trabalho em Nova Iorque. Jane (Katie Stevens), Kat (Aisha Dee) e Sutton (Meghann Fahy) são mulheres de vinte e poucos anos que se conheceram no trabalho e se tornaram amigas – grandes amigas, amigas inseparáveis. O local de trabalho em questão é a redação glamourosa da Scarlet, uma revista voltada ao público feminino que é a versão ficcional da Cosmopolitan – e isso não é mera especulação visto que a série é inspirada na experiência pessoal de Joanna Coles, ex-editora da Cosmopolitan. Essa não é uma série que fala de outras coisas e também de trabalho. Em The Bold Type, o trabalho é um dos focos principais da trama e nós temos a chance de acompanhar a relação de três mulheres começando suas carreiras que é, na medida do possível – afinal, não estamos todos trabalhando em uma redação luxuosa –, um bom retrato da relação de altos e baixos de millennials com seus empregos.

Apesar de trabalharem no mesmo lugar e terem todas começado como assistentes, Jane, Kat e Sutton estão vivendo momentos diferentes. No início da série, Jane acaba de ser promovida a repórter da revista, seu emprego dos sonhos; Sutton ainda está pelejando para chegar à tão almejada posição no departamento de moda e Kat já está bem resolvida como diretora do departamento de mídias sociais. É a caricatura perfeita da geração Y de classe média: a idealização do trabalho dos sonhos e da vontade de fazer o que se ama, mas é também os desafios e portas fechadas do mercado de trabalho, os salários menores do que o esperado, a sobrecarga de tarefas, as responsabilidades, a necessidade de ter que fazer também o que não se gosta, quer ou acredita.

Junto às três protagonistas ainda temos Jacqueline (Melora Hardin), a editora chefe da Scarlet. Fugindo da clássica chefe amarga e amplamente detestada a la Miranda Priestly, Jacqueline dirige a revista de forma firme, sim, mas também como – adivinhem só – um ser humano. Embora há quem veja como “forçado” o fato da pessoa mais importante de uma grande revista tirar um pedaço do seu tempo para tratar seus funcionários com alguma consideração, é uma mudança ter uma mulher poderosa (querendo aqui dizer que ela efetivamente é detentora de poder) e bem resolvida na carreira que não é retratada como uma pessoa fria e desprovida de qualquer tipo de sentimento.

Apesar de ter três protagonistas mulheres trabalhando em uma revista feminina dirigida por uma mulher, o universo de The Bold Type não é uma bolha. A série se propõe a comentar algumas questões e plantar reflexões, ainda que não seja especializada em desenvolver os assuntos de forma profunda e detalhada: são pinceladas que se inserem bem no contexto dos episódios e que têm seu mérito, mas não vão muito além disso. Começando pela própria Scarlet: uma revista majoritariamente feita por mulheres e para mulheres que tem todas as suas grandes decisões passadas por um conselho executivo completamente composto por homens; conselho esse que é enfrentado especialmente por Jacqueline e Kat em momentos que, pela amostra de episódios exibidos, serão frequentes na trama.

Além de trazer sua visão de feminismo – inclusive falando de feminismo com todas as letras – The Bold Type também parece disposta a trabalhar outros temas. Nessa primeira etapa da primeira temporada, por exemplo, temos a descoberta da bissexualidade de Kat quando ela se interessa por Adena (Nikohl Boosheri), uma das personagens mais interessantes da produção. Definida como uma fotógrafa muçulmana declaradamente lésbica, Adena tem seu primeiro contato com Kat já batendo em um bom ponto: a imagem de como é ou não é uma pessoa feminista e toda aquela ideia de que esse é um conceito que automaticamente exclui tudo aquilo considerado demasiadamente “feminino”. É também por ela que outra questão importante é abordada, quando somos lembrados de que nem todos têm o privilégio de se impor (ou de fazer um escândalo) sem grandes consequências – não falamos todos do mesmo lugar: raça, religião e nacionalidade ainda fazem a diferença.

Mas não é só Kat que está explorando sua sexualidade na história: esse é outro tema frequente na série, especialmente na trama de Jane. Logo nos primeiros episódios, Jane recebe a tarefa de escrever a coluna de sexo da revista sobre o melhor orgasmo de sua vida. A grande questão, porém, é que Jane nunca teve um orgasmo – o que abre espaço para esse tema, quase um tabu em meio a um círculo que se sente tão confortável em falar sobre sexo. Na tentativa de levar a discussão para fora da série, o canal disponibiliza em seu site (em inglês) esse e outros artigos escritos por Jane para a Scarlet, que ganham forma pelas mãos da sexóloga Shannon Boodram.

Aqui uma coisa marcante sobre a série: é fácil passar batido da existência dos personagens masculinos. Eles existem, é claro. Temos Alex (Matt Ward), o repórter simpático e gente boa que é colega de Jane e apoio para Sutton; Oliver (Stephen Conrad Moore), diretor do departamento de moda da revista; Richard (Sam Page), um dos membros do conselho e fonte de um relacionamento complicado e cheio de questões com Sutton; Ryan (Dan Jeannotte), jornalista de uma outra revista do grupo. Embora todos participem e tenham sua relevância na história, a sensação é a de que nenhum é insubstituível: eles poderiam facilmente ir e vir, sem causar grandes estragos ou perdas inestimáveis para o elenco. O centro é todo das mulheres.

Dito isso, essa é uma série que passa fácil no Teste de Bechdel. Ainda que Kat, Jane e Sutton conversem bastante sobre seus afetos e desafetos, pedindo conselhos de todo tipo e compartilhando suas vidas amorosas e sexuais, suas conversas não são apenas sobre homens. E elas conversam muito. Esse é um dos pontos fortes de The Bold Type: amizades femininas fortes, sinceras e sem as picuinhas e rivalidades típicas de estereótipos televisivos. As três protagonistas são amigas que falam sobre tudo, que se mostram confortáveis e confiantes umas com as outras, que são a rede de apoio, a companhia para o rolê e o ombro para desabafar.

Em muitas cenas, vemos Kat, Jane e Sutton correndo para o closet da redação em busca de um respiro, de conselhos, novidades e desabafos. É um respiro como o que temos na vida, com nossas próprias amigas, seja ele tomando um café, na mesa do bar ou com berros via WhatsApp. É absurdo pensar que um grupo de amigas que levam uma amizade normal e estão sempre lá uma para a outra é algo a ser comemorado quando exibido na TV? É absurdo. Mas é isso mesmo: as telas estão cheias de mulheres em pé de guerra, desconfianças e situações constante de treta. As brigas e confusões são frequentemente um destaque, às vezes com grande foco em cenas de reconciliação como desfecho, todos os elementos necessários para a receita da instabilidade e do drama atribuído às amizades femininas. The Bold Type consegue construir uma amizade simples entre três amigas que se gostam e se ajudam. E que têm suas desavenças e discordâncias, também importantes para deixar as amizades mais identificáveis e próximas da realidade, sem serem foco de um gigantesco espetáculo.

As credenciais de The Bold Type não impressionam. Ainda que a criadora, Sarah Watson, tenha em seu currículo roteiros da incrível e bem sucedida Parenthood, e que o elenco conte com Melora Hardin, que já marcou presença em produções adoradas como The Office e Transparent, a tendência é encarar The Bold Type com um certo receio. Além de não ter um elenco estrelado e cheio de grandes nomes, a série faz parte do catálogo do Freeform, canal a cabo norte-americano que raramente é levado a sério. E isso porque a gente não tem esse hábito de levar a sério séries do Freeform (ou da CW); é muito mais fácil encarar com seriedade e respeito as produções da HBO, da Netflix, da BBC. Um motivo para esse receio? A audiência do Freeform é majoritariamente jovem e feminina. Segundo o site do canal, o público é formado por jovens adultos entre 14 e 34 anos (“entre o primeiro beijo e o primeiro filho”), dos quais mais da metade é de mulheres. Antes do play, é preciso deixar para trás o olhar de que séries “para mocinhas adolescentes” falam sobre nada e não têm nada a acrescentar – um olhar que nem sempre percebemos que existe ou que está incorporado no velho “esse não é o meu tipo de série” quando não sabemos por quê esse não é o nosso tipo de série.

The Bold Type tem potencial. Bem verdade que a série não retrata debates intensos e aprofundados, mas ela convida a pensar. E às vezes o que alguém precisa para pensar é só isso mesmo: uma série leve e divertida, cheia de mulheres apoiando mulheres, com amigas que conversam sobre tudo.

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