LITERATURA

A grandiosa teoria unificada da tristeza feminina

Vemos mulheres tristes por toda parte. Essa semana estamos falando sobre mulheres tristes em todos os textos. Conhecemos Elizabeth Wurtzel, representante da Geração Prozac, uma jovem jornalista que passa seus anos universitários convivendo com uma depressão paralisante. Conhecemos Esther Greenwood, a garota que deveria estar vivendo o melhor momento da sua vida, mas não consegue aproveitá-lo por estar presa em uma redoma de vidro que abafa seus sentimentos. Conhecemos as irmãs Lisbon, que uma a uma cometem suicídio observadas à distância pelos moleques da vizinhança.

Nossa cultura é povoada por imagens de mulheres infelizes e trágicas. É sobre elas que trata “A grandiosa teoria unificada da dor feminina”, último ensaio de Exames de Empatia, coletânea da escritora americana Leslie Jamison. No texto, a autora articula duas questões: o problema de fetichizar a dor ao representá-la através da arte versus a importância de validar nossas dores falando sobre elas através da arte e de todo o resto. Não que a tristeza seja monopólio feminino — no século XIX era moda morrer de tristeza (ou de tuberculose, que era basicamente a mesma coisa) –, mas existe, sim, um elemento intrinsecamente feminino nessas representações de infelicidade que conhecemos. Ou vários.

Evidência disso é a dificuldade que tive ao pensar nos homens infelizes e trágicos que povoam nossa cultura. Não é que eles não existam, mas suas dores, na maior parte das vezes, são demonstradas de maneiras diferentes: a violência e a agressividade, por exemplo, funcionam como excelente canal de redirecionamento de frustrações interiores, porque permite que os homens sejam vistos como fortes ainda que sofram. Os garotos tristes são sempre meio afeminados ou vistos como fracos, uma vez que homem não chora.

Já as garotas tristes são fascinantes. A vulnerabilidade que pega tão mal nos homens torna as mulheres mais interessantes, posto que nelas a dor não é fraqueza, mas sim uma coisa do gênero — esse, sim, fraco por natureza. As Virgens Suicidas nunca foi sobre as irmãs Lisbon como é sobre os garotos da vizinhança que se encantaram por essas irmãs misteriosas, confinadas em casa com seus camisolões brancos. Por isso é tão simbólica a imagem de Lux Lisbon em tons pastéis dançando hula-hula no meio do mato: ela é o sonho perfeito da garota bonita, triste e que implora por um resgate. A tristeza delas é aquele quê de mistério da vida adulta que eles estão começando a descobrir e esse contato, mesmo que distante, faz com que eles se sintam mais importantes e interessantes por tabela. No livro de Jeffrey Eugenides quem narra história são os meninos já adultos, e a lembrança das Lisbon se confunde com a lembrança muito particular da sensação deles do que era ser jovem.

A gente chega ao final sem saber por que Cecilia, Lux, Mary, Bonnie e Therese se mataram porque ninguém realmente se importava.

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A dor das mulheres transforma-as em gatinhos, coelhinhos, crepúsculos e deusas sórdidas de cetim vermelho, torna-as pálidas, manchadas de sangue e mortas de fome, abandona-as em campos de extermínio e envia madeixas de seus cabelos para as estrelas. Os homens as colocam nos trens e embaixo de trens. A violência as torna celestiais. A idade as envelhece. Não podemos desviar o olhar. Não podemos parar de imaginar novas maneiras de lhes causar dor.

Enxergo dois problemas na romantização da tristeza feminina — e, consequentemente, dos transtornos psicológicos: o primeiro, também apontado por Leslie Jamison, é o de transformar o sofrimento em uma característica intrinsecamente feminina, usando isso como desculpa para olhar menos para as causas do sofrimento feminino. Tristeza, dor, sofrimento, depressão, ansiedade e afins podem ser causados por inúmeros motivos, e muitos deles não tem nada a ver com gênero — mas, enquanto Rob Gordon se pergunta se ele ouve música porque é triste ou se é triste porque ouve música, fico pensando se somos tristes porque somos mulheres ou se é ser mulher que nos torna tristes.

A famigerada Mística Feminina que está no título do livro de Betty Friedan diz respeito ao que ela chama de problema sem nome que atingia as donas de casa da classe média americana nos anos 50. As mulheres entrevistadas pela autora tinham tudo, elas fizeram tudo certo: foram boas meninas, estudaram, se casaram, tiveram filhos e uma casa no subúrbio cheia de eletrodomésticos da moda, mas mesmo assim lhes faltava algo. Nada resume melhor esse livro do que a imagem de Betty Draper, personagem de Mad Men, deitada no divã tentando colocar em palavras os motivos de sua insatisfação, que eram todos e nenhum ao mesmo tempo. A Mística Feminina inaugurou a segunda onda do movimento feminista nos Estados Unidos ao mostrar que as mulheres estavam infelizes porque o sonho capitalista não é sinônimo de liberdade e direitos iguais.

Em 1963, além de A Mística Feminina, foi publicado nos Estados Unidos A Redoma de Vidro, alguns meses depois do suicídio de sua autora, Sylvia Plath. O livro que conta a história de Esther Greenwood foi fortemente inspirado na vida da autora e fala dessa garota que aparentemente tinha tudo e não era feliz. Junto à narrativa da depressão de Esther — e de Plath — acompanhamos também a narrativa de uma jovem mulher que começa a perceber os efeitos do machismo na sociedade da época e na sua própria vida.

Não quero ser leviana e dizer que um transtorno psicológico complexo como a depressão se reduz ou se limita a uma questão de gênero, mas quero apontar que a depressão pode, também, ser uma questão de gênero. Ignorar isso e tratar a tristeza como uma característica biologicamente feminina é ignorar todas as questões sociais que nos colocam em posições vulneráveis em todos os âmbitos da sociedade. 

Globalmente, o suicídio está entre as principais causas de óbito em mulheres entre 20 e 59 anos de idade, sendo a segunda principal causa de óbito em países de baixa e média renda da região do Pacífico Oeste da OMS. Mundialmente, o comportamento suicida é um problema de saúde pública significativo para meninas e mulheres. Os problemas de saúde mental, particularmente a depressão, são causas importantes de incapacidades em mulheres de todas as idades. Embora estes problemas possam variar de um indivíduo a outro, o baixo status social das mulheres, a elevada carga laboral e a violência são fatores que contribuem para sua ocorrência nesta população. Fonte: Organização Mundial de Saúde

Leslie Jamison coloca Girls como uma série que é produto dessa negação da imagem da mulher triste e tudo de ruim que ela carrega: não pode ser vítima, não pode ser frágil, não pode ser clichê, não pode ser sensível, não pode admitir que dói. Tudo isso é coisa de mulher, eles dizem, e elas não querem ser essas mulheres. Hannah, Marnie, Jessa e Shoshanna não parecem felizes, ainda que neguem suas feridas, e é por isso que a autora as chama de mulheres pós-feridas. Não gosto de Girls porque acho a série cínica, amarga (e meio ridícula) e nunca sei até que ponto essas características são irônicas. Mas, de acordo com a grandiosa teoria unificada da dor feminina, essas garotas são como são porque se recusam a ser simplesmente tristes, já que até isso lhes foi negado. Se essa for a intenção, Lena Dunham tem o meu respeito.

[Elas sabem que] posturas de dor favorecem concepções limitadas e fora de moda da feminilidade. Sua dor tem uma nova linguagem falada em vários dialetos: sarcástico, apático, opaco, sereno, inteligente. Elas se guardam contra aqueles momentos em que o melodrama ou a autopiedade poderiam abrir as costuras cuidadosas de seu intelecto.

Ser mulher nos faz tristes porque ainda nos falta muita coisa, inclusive reconhecimento de nosso sofrimento como algo válido. Esse é mais um espaço que precisamos ocupar. Eis o segundo problema da romantização da tristeza feminina: ao rejeitar a fetichização da dor e todos os problemas que ela traz, corremos o risco de esquecer que, afinal de contas, a dor é real e merece atenção.

“Dor representada ainda é dor, a dor trivial ainda é dor”, diz Leslie Jamison. Ao escrever sobre depressão, medicamentos e seus anos na universidade, Elizabeth Wurtzel fala sobre a doer real que sentiu ao enfrentar um transtorno psicológico. Ao escrever sobre Esther Greenwood, Sylvia Plath falava sobre uma dor tão real que a levou a colocar a cabeça dentro do forno para morrer sufocada. Não conhecemos a causa da morte das irmãs Lisbon, mas sabemos que havia uma dor real por trás dos suicídios, como existe por trás de todos. Em outros ensaios de seu livro, Leslie fala sobre seu coração que fora inúmeras vezes partido, sobre suas feridas físicas — nariz e maxilar quebrados, anorexia, um joelho ralado por cair na rua bêbada de tristeza — e também sobre como ela teve vergonha de escrever sobre seus traumas por acreditar que eles não tinham causa e nem culpado, e por isso não mereciam atenção. As personagens de Girls não passam recibo direto de suas tristezas porque elas não querem ser chamadas de histéricas e nem serem acusadas de querer chamar atenção. Podemos culpá-las?

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A gente recusa a imagem da dor feminina porque nossa sociedade acha ela encantadora de se olhar de longe, mas desprezível para qualquer uma que ousa senti-la. A gente não quer ser vítima ou mártir da própria miséria. Alguns ainda acreditam que se queremos ser vistas como iguais, precisamos então ser tão fortes quanto os homens e homem não chora. O que esse argumento desconsidera é que o problema não está no choro, mas na representação da dor e da tristeza como fraquezas, um problema que também atinge os homens e suas masculinidades forjadas num princípio de brutalidade.

Quando pensamos em falar sobre saúde mental num site sobre cultura — e não comportamento — a ideia era falar sobre transtornos mentais na cultura pop e sobre como a existência de trabalhos assim validam nossas experiências, nossos sentimentos, nossa dor. Foi lendo Fangirl, da Rainbow Rowell, com sua protagonista Cather que se angustia por não saber como existir no mundo, que pude entender melhor aspectos da minha própria ansiedade e como ela afeta o meu convívio com os outros. Quando Jenny Lawson escreve um livro como Alucinadamente Feliz e confessa que às vezes lhe faltam colheres (energia) para seguir com as atividades do dia, sei que não é coisa da minha cabeça. Quando Sylvia Plath fala sobre a figueira de escolhas da vida e sua angústia diante dos frutos preteridos que apodrecem, sinto que não estou sozinha.

Quando eu mesma escrevo sobre todas essas coisas e alguém comenta “eu também!”, vejo que meus sentimentos são importantes. Existem mil e um problemas por trás da representação da tristeza feminina, mas não falar sobre ela ou nos fecharmos diante dela certamente não é a solução. Não queremos ser vítimas, mas recusamos a vergonha, a apatia ou a falsa segurança de um coração fechado. Não somos tristes porque somos mulheres, mas porque somos humanas e experimentamos uma gama variada de emoções e sentimentos. É justo falar sobre eles, sobre todos eles. Nossa resistência é continuar, e escrever, e fazer filmes, e compor músicas e abrir nossos corações como quem diz eu estou aqui, eu estou sentindo, isso é importante. I am, I am, I am.

Vemos mulheres tristes por toda parte, mas não se deixe enganar: elas são muito mais que isso. 

Não deveríamos ter de transformar toda cicatriz numa piada. Não deveríamos ter de ser sagazes, nem voltar atrás, nem nos questionar ao dizer: Essa merda dói.  Não deveríamos ter de negar — sei, sei, a dor é antiga, outras garotas sofreram — para nos defender da antiga litania de acusações: performática, deplorável, impregnada de autopiedade, acumulando mágoas, provocando compaixão. A dor é o que você faz dela. Você tem de encontrar nela algo produtivo. Compreendi meu imperativo orientador da seguinte maneira: continue a sangrar, mas descubra um pouco de amor no sangue.

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3 Comentários

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    bárbara
    22 de setembro de 2016 at 14:58

    esse texto está tão bem escrito que chega a ser difícil comentar. me atrevo só por ser um tema que realmente me interessa e sobre o qual eu penso muito. às vezes me pergunto se estetizar a dor não é uma maneira de aliviá-la, muito mais do que de gerá-la. digo isso porque tenho um carinho especial por determinadas escritoras (virginia woolf, sylvia plath, alfonsina storni, alejandra pizarnik) que descobri terem se matado. dá aquele receio de tocar no assunto, porque são vivências particulares demais para serem generalizadas, mas, ao mesmo tempo, seus fins fatídicos são dados de uma realidade. num contexto em que a cultura é o lugar privilegiado pra se esboçar entendimentos do mundo, não é bonito pensar em como seus sofrimentos foram canalizados e que se esse canalizar da dor em forma de beleza não as salvou pelo menos deixa um legado de experiências compartilhadas?

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    Natália Castro
    26 de outubro de 2016 at 21:06

    As Virgens Suicidas era um dos meus filmes favoritos (junto com Kill Bill), mas não é mais por causa desse artigo. E sinceramente, obrigada! Adorei sua crueldade (sinceridade) ao dizer que “A gente chega ao final sem saber por que Cecilia, Lux, Mary, Bonnie e Therese se mataram porque ninguém realmente se importava.”
    Me dei conta que por mais que esses filmes tenham protagonistas femininas maravilhosas (e no caso desse filme, uma ótima diretora), ainda são mulheres criadas por homens, sendo o menos verossimilhantes possíveis. Acaba sendo um ciclo vicioso, porque essas personagens podem ter sido inspiradas em alguém(ns), mas também vão influenciar diversas meninas, assim como me influenciou. Não bastam contar a história de mulheres, tem que contar historias de mulheres reais (ou o mais reais possíveis), que não tem por fim dar sentido pra vida de um cara.

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    Camila
    24 de julho de 2017 at 11:59

    Eu fiquei deprimida pela primeira vez com 18 anos, e eu tinha o fantasma das Virgens Suicidas, da Garota Interrompida e da Redoma de Vidro sobre mim. Eu não tinha o direito de ficar doente e até os meus pais acharam que era frescura. Depressão séria, dessas reconhecidas, é um negócio pesado demais pra ficar na mão de mocinhas que nem sabem o que estão fazendo.
    Hoje com 32 anos, sem mãe, pai com Alzheimer, família bizarra e um corpo que já não tem essa saúde toda, eu finalmente sou levada a sério, e posso passar o dia todo falando de remédios e problemas em público mesmo, sem que se diga que eu quero chamar atenção. Agora eu sou “forte”.

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