TV

Sweet/Vicious: sem medo de tomar partido

Jules (Eliza Bennet) é loira, adora cor de rosa, é estudiosa, mora em uma sororidade e só consegue estudar na faculdade porque tem bolsa. Ophelia (Taylor Dearden) tem cabelo verde, mata todas as aulas para fumar maconha, é hacker por diversão e só consegue estudar na faculdade porque os pais têm muito dinheiro. Elas se conhecem por acaso, formam uma amizade inusitada e logo no primeiro episódio cantam juntas “Defying Gravity”.

Ah, é. Elas também são super-heroínas que atacam estupradores.

Sweet/Vicious, série da MTV cuja primeira temporada terminou agora, é minha nova paixão televisiva. Para quem gosta de comparações, é uma mistura de Jessica Jones com Crazyhead (duas outras séries que recomendo muito), mas com um enorme diferencial: apesar de ser uma história de super-heróis, não é uma história de supervilões. Em Sweet/Vicious, ninguém tem superpoderes – a força de Jules é comicamente exagerada, mas a narrativa insiste que é só uma questão de treinamento – e os “vilões” contra os quais elas lutam não são alegorias. A série não se contenta com versões irreais e imaginadas de estupradores, ou com metáforas mágicas e sobrenaturais para estupro – Jules e Ophelia não estão sujeitas ao controle mental de um homem roxo, nem indo atrás de demônios e vampiros com força sobre-humana, elas só são mulheres, jovens, tentando destruir homens, jovens, estupradores.

Sim, parte do atrativo da série é o aspecto fantasioso da vingança: é catártico ver Jules e Ophelia quebrando a cara de estupradores, vestidas de preto, fazendo a ameaça que sempre fazem ao final – “Se você olhar para uma mulher sem o consentimento dela, nós voltaremos”. É catártico como ver filmes ou séries de super-heróis costuma ser catártico, como é catártico ver Jessica Jones (Krysten Ritter) torturar Kilgrave (David Tennant), como é catártico ver Buffy (Sarah Michelle Gellar) matar vampiros, como é catártico ver mulheres com armas e espadas e força nas mãos usando tudo que podem para destruir quem as colocou para baixo por tanto tempo. Em um clima político em que existem discussões na internet sobre se é ou não legítimo bater em nazistas, é satisfatório ver as regras de violência de super-heróis aplicadas a vilões do mundo real – e quase constrangedor que eu me sinta compelida a escrever um parágrafo inteiro de justificativa.

Meu disclaimer do parágrafo combina com uma preocupação da série: a de oferecer avisos de gatilho no início dos episódios. Apesar da série ter o estupro como temática, não são todos os episódios que mostram cenas de violência sexual – em toda sua primeira temporada, contrastando com as cenas bastante gráficas da violência perpetrada pelas heroínas, a série não mostra nenhuma cena de estupro como exibicionismo fetichista, não cai na armadilha de mostrar cenas de agressão sexual no início de todos os episódios como uma série policial faria; e, antes dos episódios em que mostrar o estupro acontecendo é necessário e coerente com a narrativa, um texto declara que o episódio conterá cenas de estupro. Nunca é um choque, uma surpresa, uma forma de deixar o espectador fascinado – e, coerente com a mensagem da narrativa, a série se preocupa realmente com as espectadoras que podem ter sido vítimas de estupro também, fazendo um gesto simples, mas raro, para garantir seu bem-estar.

A coerência narrativa-mídia é forte em Sweet/Vicious. Em vez de depender de imagens gráficas e chocantes ou de diálogos expositivos e entediantes para que os espectadores compreendam o que é ou não estupro – como Law & Order: SVU, outra série cuja temática é a punição contra estupradores, costuma fazer –, Sweet/Vicious mostra as consequências realistas de ser vítima de violência sexual, com as nuances necessárias e os aspectos que costumam ficar escondidos. Porque o que deixei de mencionar até aqui é que Jules, uma das protagonistas, é vítima de estupro: o namorado de sua melhor amiga, um dos seus melhores amigos, a estupra em uma festa da faculdade. E isso é, em teoria, sua história de origem para se tornar uma heroína contra os estupradores, mas não é relegado a essa categoria – o estupro não é uma história drástica do passado de Jules, um acontecimento para ser lembrado quando ela demonstra qualquer emoção ou para servir de ponto de partida para a redenção de seu estuprador (como Buffy, a Caça-Vampiros, uma das minhas séries favoritas, fez nas suas últimas duas temporadas). O estupro marca a vida de Jules porque estupros marcam, e o estupro define muitas ações de Jules porque traumas definem, mas Jules é uma vítima e mais que uma vítima – não porque ela é excepcionalmente forte e resiliente, mas porque todas as vítimas são mais que uma vítima, porque todas as vítimas são pessoas.

Na noite do estupro, Jules estava bêbada, Jules foi de bom grado deitar na cama de seu estuprador, Jules estava vestida com uma roupa justa e decotada, Jules tinha postado fotos com legendas provocantes na internet. Jules não conta para a melhor amiga ou para ninguém sobre o estupro porque tem medo de não acreditarem nela, porque viu, como todas vimos, denúncias de estupro serem desmerecidas por qualquer um desses fatores; porque, depois de ser estuprada, ela vai a uma emergência fazer um exame, porque ela tenta denunciar, porque o que ela ouve em resposta é que seu estuprador tem poder, ela não tem, e que talvez, quem sabe, ela esteja inventando essa história por ciúmes, por vergonha, para melhorar sua imagem. Jules ouve, como todas já ouvimos, que a verdade, o fato, o que aconteceu com ela, o que a traumatiza e muda sua relação com o mundo, é uma mentira, uma desculpa – e Jules sabe, como todas sabemos, que esse argumento não tem valor algum, que de forma alguma ser estuprada te dá qualquer peso ou ganho social.

O sétimo episódio da temporada é o que nos mostra realmente o que aconteceu com Jules. Até então, conhecemos o trauma, vemos seu estuprador como o vilão que é, entendemos quem Jules é por causa e além do estupro. No sétimo episódio, no entanto, vemos uma longa sequência de flashback mostrando em detalhes o ocorrido. A decisão da série de só mostrar como as coisas eram antes e o que aconteceu para mudá-las depois de já conhecermos bem Jules é um dos pontos altos da narrativa, exatamente porque a humaniza antes de torná-la uma estatística, e porque vilaniza seu estuprador antes de humanizá-lo – é uma decisão clara de tomar partido, o que poucas séries ou filmes têm coragem de fazer (ou interesse em fazer, no caso de muitas séries criadas por homens; vale destacar que Sweet/Vicious é criada por uma mulher, Jennifer Kaytin Robinson). No sétimo episódio, descobrimos que o estuprador (que tem, sim, um nome, que eu – tomando partido também – opto por não nomear) era amigo de Jules, amigo próximo, o namorado que ela adorava que namorasse sua melhor amiga, alguém em quem ela confiava cegamente; ver as interações amigáveis e carinhosas dele, sabendo o que vem depois, é devastador, e é um choque eficiente, um choque que lembra aos espectadores que o estuprador não costuma ser o homem estranho no beco escuro, e sim o amigo, o namorado, o homem em quem você confia.

Ao longo da série, vemos Jules no grupo de apoio para vítimas de estupro, Jules batendo em homens estupradores e protegendo mulheres estupradas, Jules tentando entrar em um relacionamento e temendo a intimidade, Jules buscando justiça pelos meios legais e recebendo humilhação e dor e vergonha no lugar. Jules se torna uma super-heroína não porque um trauma a mudou inteiramente, ou porque não sabe lidar com a dor e se vinga do mundo, mas porque sabe – sabe mesmo, factualmente sabe, vive e conhece as estatísticas e passou por isso tudo na pele – que não há justiça para mulheres no caminho em que querem que mulheres procurem justiça, só há mais dor, mais violência, mais silêncio.

Há muito mais a falar sobre Sweet/Vicious: a amizade entre Ophelia e Jules; Harris (Brandon Mychal Smith), o melhor amigo de Ophelia, e sua investigação sobre violência policial no campus; o choque emocional de Kennedy (Aisha Dee), a melhor amiga de Jules, namorada do estuprador; os romances entre Jules e Tyler (Nick Fink) e Ophelia e Evan (Stephen Friedrich); o assassinato que acontece no primeiro episódio e serve como motivador para parte da trama; o medo constante de que Jules e Ophelia sejam descobertas pelo que fazem. A série é complexa e completa e dá pano para manga para várias discussões, porque seus personagens são complexos e completos e vão muito além das categorias a eles aplicadas. Mas, enquanto ainda é raro ver séries abordarem a questão do estupro com tanta nuance e, especialmente, sem ter medo de tomar mesmo o partido da vítima, sem se esconder atrás de uma falsa neutralidade, é nisso que vou me focar e é essa mensagem que, também sem medo de tomar partido, vamos amplificar.

Posts Relacionados

Comentários

Deixe um Comentário