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Supergirl: Quando uma garota salva o dia

Como quase qualquer criança nascida na década de 90 (e talvez um pouco antes disso também), boa parte da minha infância foi gasta na frente da tv. Cavaleiros do Zodíaco, Guerreiras Mágicas de Rayearth, Caverna do Dragão, Power Rangers, Cavalo de Fogo, Pokémon, Digimon, Dragon Ball e, mais tarde, Meninas Superpoderosas e Três Espiãs Demais. Esses eram alguns dos meus desenhos favoritos nessa época, desenhos que, não por acaso, abriram espaço para outros que surgiram mais tarde (Naruto, X-Men: Evolution, etc, etc), e posteriormente para todo esse universo da cultura pop que, sim, hoje eu levo a sério demais.

Foi uma época muito gostosa da minha vida, que sempre me traz lembranças maravilhosas e que moldou muito dos meus gostos, que me ensinou (e continua ensinando) muito sobre a vida, o amor, amizades e escolhas e, de certa forma, me transformou na pessoa que sou hoje. Quer dizer, se hoje eu estou aqui, estudando audiovisual, dedicando tanto tempo para pensar e entender melhor esse universo, e escrevendo para um site de cultura pop, é só porque, lá atrás, o olho da pequena Ana já brilhava só de ouvir falar em tudo isso.

Mas eu também lembro de, mesmo muito novinha, me sentir desconfortável quando saía para brincar com meus amigos e precisava escolher alguma personagem para me representar. Ao contrário dos meninos, que sempre tiveram muitas opções à disposição, pra mim (e para todas as minhas amigas), restavam as personagens secundárias que, na maioria das vezes, ou eram a donzela em perigo (e/ou interesse amoroso do protagonista), ou eram tão irrelevantes que não fazia muita diferença estarem ali, e já que brincar de algum desenho com protagonista feminina estava sempre fora de questão, não tinha muito para onde correr. Por mais que eu nutrisse um carinho enorme por várias dessas personagens, eu queria poder ser a dona da minha história. Eu não queria ser o interesse amoroso de alguém, eu queria que alguém fosse o meu interesse amoroso. Eu não queria ser a donzela em perigo, eu queria salvar a donzela (donzelo?) em perigo. Eu não queria ser a amiga que só está lá para ajudar o personagem principal a salvar o dia, eu queria ter um amigo ou amiga que me ajudasse a salvar o dia. Eu queria ser a personagem que chuta bundas e que é admirada por todos, mas raramente tinha a oportunidade de ser essa pessoa porque eu era, bem, uma menina.

Lembrei de tudo isso porque recentemente comecei a assistir Supergirl, uma série que se propõe a trazer justamente uma super-heroína para o centro de um universo que ainda é dominado pelo público masculino. Nela, acompanhamos a vida de Kara Zor-El (Melissa Benoist), uma jovem alienígena que foi enviada para a Terra por seus pais momentos antes da destruição do planeta Krypton, para ajudar a cuidar de seu primo Kal-El, o Super-Homem (que, nessa época, ainda era só um bebê). No entanto, a nave de Kara vai parar na Zona Fantasma, onde fica presa por vários anos antes de se livrar e finalmente conseguir chegar ao seu destino. O problema é que, quando chega na Terra, seu primo já é um adulto que usa seus poderes para salvar o mundo nas horas vagas e não precisa mais de sua ajuda. Kara, então, é adotada por um casal de cientistas e passa a viver como qualquer ser humano. Isso, claro, até alguns anos mais tarde, quando precisa usar seus poderes para impedir um acidente aéreo e salvar a vida de sua irmã, Alex (Chyler Leigh), e de mais uma centena de pessoas. A partir daí, sua vida muda drasticamente e ela passa a viver duplamente como Kara Danvers e Supergirl.

Por mais que seja tão poderosa quanto seu primo famoso, Kara não tem a menor intenção de sair por aí usando seus poderes para salvar o dia. Ela quer salvar o mundo e quer fazer a diferença, mas pretende fazer isso através do seu trabalho e não dos seus poderes, e aí ela se transforma num maravilhoso clichê da mulher de vinte e poucos anos (ou nem tão poucos assim) da nossa geração, que sonha grande e sonha alto, mas que ao mesmo tempo tropeça nas próprias expectativas e não sabe muito bem como fazer tudo isso – e, nesse sentido, fica muito fácil se identificar com ela.

Kara é uma personagem adorável, divertida e empolgada, que bate o pé quando não é levada a sério e que não admite que digam que ela não é capaz só porque é mulher. Ela se torna Supergirl porque se dá conta de que pode fazer a diferença e, mesmo que já exista um herói mais famoso salvando pessoas por aí, aquela é a sua história e ela pode escrevê-la como quiser. Ela sabe que não é a heroína que as pessoas esperam, mas sabe também que pode se tornar essa pessoa e faz o melhor que pode tentando chegar lá. Ela não precisa que ninguém lute suas batalhas e, mesmo quando erra, reconhece que seus erros são uma parte importante do aprendizado e que é muito melhor errar tentando acertar do que ser definida pela vitória dos outros.

A série acerta ao construir a personagem de forma quase independente, sem se apoiar na figura do Super-Homem embora respeite a relação que existe entre os dois, uma decisão que a distancia do estereótipo das super-heroínas que são concebidas como uma versão feminina de heróis já existentes. Na primeira temporada, Clark está presente, seja num flashback ou numa mensagem piscando na tela de um computador, mas em momento algum assume o protagonismo da trama – o que não significa que Kara siga seu caminho sozinha, muito pelo contrário. A diferença é que as pessoas estão ali para ajudá-la a seguir seu caminho, e não o contrário, e isso, por si só, já faz uma diferença enorme. Além disso, embora a segunda temporada já tenha confirmado a participação oficial do Super-Homem (o que, particularmente me deixou bastante apreensiva no início), a ideia não é que ele assuma o protagonismo de uma história que, afinal de contas, não é dele, mas que seja um suporte para que Kara cumpra sua missão e tenha uma conexão com seu passado em Krypton.

Alex e Kara - Supergirl

Outro ponto importante é que existe uma preocupação da série em entregar não só uma única personagem feminina complexa, mas uma gama delas – mocinhas, vilãs, donas de impérios, alienígenas, humanas e super badass – que são trabalhadas de forma independente e também em conjunto com a protagonista. As relações entre todas essas mulheres são construídas de forma bastante delicada, mostrando algo que o cinema e a televisão constantemente se recusam a enxergar: a complexidade das relações femininas.

Ainda que não tenha sido criada nem seja produzida exclusivamente por uma mulher, Supergirl conta com o dedo de Ali Adler em ambas as funções, uma produtora e escritora americana que também assina o roteiro de alguns episódios da série, além da diretora Lexi Alexander, que já dirigiu episódios de Arrow e é famosa por discutir abertamente questões de gênero e diversidade. Embora seja muito pouco se comparado à quantidade de homens envolvidos em grandes produções televisivas e cinematográficas (inclusive dentro de Supergirl, o que não deixa de ser contraditório), faz uma diferença enorme ter duas mulheres em posições tão fundamentais, pensando um projeto que busca justamente trazer a história de tantas mulheres para o centro da questão.

Não por acaso, uma das maiores queixas sobre a série é a constante necessidade de se bater na tecla do girl power, por assim dizer – uma queixa que, não por acaso, vem exclusivamente do público masculino. Uma super-heroína incomoda muita gente e incomoda justamente porque mostra um lado que, para alguém numa posição de privilégio, é muito difícil enxergar. De repente, não estamos mais vendo a história de um cara determinado a salvar o mundo, conversando sobre seus dramas, contando com a ajuda de seus amigos, dando muita porrada e salvando a donzela em perigo, mas sim a história de uma moça determinada a salvar o mundo, conversando sobre seus dramas, contando com a ajuda de seus amigos, dando muita porrada e salvando a vida de um donzelo em perigo. Viu? É disso que estamos falando.

Isso não quer dizer que Supergirl seja uma série livre de problemas, muito pelo contrário. Sua primeira temporada, por exemplo, falha ao trazer uma única personagem negra, uma mulher que, embora cheia de nuances, não é suficiente dentro de uma produção tão grande. Da mesma forma, a escolha de um casting exclusivamente composto por mulheres dentro de padrões estéticos impostos socialmente é uma questão bastante problemática, assim como a falta de representação LGBT e de outras minorias também é uma falha igualmente grave. A segunda temporada, muito provavelmente, trará alguns avanços nesse sentido com a confirmação da introdução de novas personagens, mas é importante que a série continue sempre preocupada em trazer cada vez mais mulheres para comporem esse time.

Supergirl 3

Embora seja uma série muito nova e que ainda esteja muito longe de ser perfeita, Supergirl não deixa de ser um passo importante (além de um respiro muito bem-vindo) para mulheres dentro de um universo tão machista, que mostra, acima de tudo, que lugar de mulher é, sim, onde ela quiser – seja como agente de uma organização secreta, seja como uma super-heroína, seja como a dona de um império midiático ou a presidente dos Estados Unidos –, e dá margem para que outras produções sigam pelo mesmo caminho.

Em seu episódio piloto, ao ver Kara na tv como Supergirl, uma mulher diz que agora sua filha vai ter alguém em quem se inspirar, o que mostra, mais uma vez, a importância da série no mundo em que vivemos. Supergirl é a série que eu gostaria de ter assistido quando era mais nova, que entrega uma super-heroína pra homem nenhum botar defeito, uma mulher que poderia me representar numa brincadeira qualquer sem que eu me sentisse desconfortável, e que me inspiraria de muitas formas, e fico feliz que meninas mais novas que eu possam viver num mundo em que ela exista. You go, Kara Danvers!

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2 Comentários

  • Responda
    Stephanie Fernandes
    13 de outubro de 2016 at 13:10

    Supergirl também errou ao tentar acrescentar um romance meia-boca com o Jimmy Olsen – já tem tanta coisa acontecendo na série, tanto enredo e drama pra fazer malabarismo, e ainda queriam fazer a gente engolir aquele casalzinho sem sal (e principalmente sem química) que eram Kara e Jimmy. Palmas para a CW, que logo no primeiro episódio da segunda temporada, já deu um pé na bunda nesse high school drama [arrancou o band-aid, rasgou a página e partiu pra outra em dez minutos, foi tão lindo, posso ou não ter comemorado gritando]. Palmas também pelo jeito que eles colocaram o Super-Homem na série, sem distribuir biscoitos pra ele, e focando no relacionamento que ele tem com a Kara.
    A segunda temporada promete – promete melhorar muita coisa, e promete muita coisa, mal posso esperar por mais episódios <3

    • Responda
      Ana Luiza
      13 de outubro de 2016 at 20:40

      Sim! Fiquei muito feliz que tiraram essa parte porque, de fato, a Kara tem muito com o que lidar e um romance agora não teria nenhum espaço, fosse com quem fosse (com Jimmy Olsen então, piorou!). E MEU DEUS, SIM, O SUPER-HOMEM! Uma das coisas que eu mais tinha medo era que ele pudesse, de alguma forma, tirar um pouco do protagonismo da Kara e isso definitivamente não aconteceu. Fiquei bem feliz com esse primeiro episódio como um todo e espero que a série continue por esse caminho <3

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