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Superbonita com Karol Conká: o que mudou nas nossas vidas?

Recentemente teve fim a 17ª temporada do Superbonita, produção do canal pago GNT, dessa vez apresentada pela irreverente e extravagante Karol Conká. Seguindo basicamente o mesmo formato dos anos anteriores, o programa manteve como foco os cuidados com a beleza e continuou tendo entrevistas com personalidades da mídia como seu quadro principal. Apesar disso, apenas a escolha da rapper conhecida pelo visual que foge aos padrões Globo, já anunciava que mudanças estavam por vir.

Negra e nascida na periferia de Curitiba, Karol lançou seu primeiro álbum em parceria com uma gravadora em 2013 e desde então emplaca hit atrás de hit. Antes disso, no entanto, Karol disponibilizava músicas soltas no MySpace, e em 2011 já lançava seu primeiro EP, intitulado PROMO. Marcada pelo preconceito de gênero no rap, mãe solteira aos 19 anos e vítima da barra que é ter a pele escura no Brasil – e, pior, no sul do país –, a cantora conquistou um grande público e rompeu até mesmo as barreiras do estilo musical originalmente preto e periférico. Seu som, desde Batuk Freak, seu álbum de estreia, conquistou as casas noturnas e grandes canais de televisão, suscitando contradições com relação à sua produção musical.

O rap de Karol Conká não é de protesto e por isso penetrou tão facilmente nas camadas mais tradicionais na vida social (lê-se Rede Globo). As letras falam basicamente de poder, consumo, uma vida noturna e sexual agitada, aquilo que o povo gosta. Uma fuga tão brusca da realidade periférica e sofrida da grande maioria das mulheres negras do país, faz com que a rapper sofra críticas de parte do público e até mesmo de outras e outros músicos brasileiros. A cantora rebate as opiniões negativas dizendo que sua música tem por objetivo “empoderar” a mulher em condições sociais menos privilegiadas e mostrar para o mundo que pretas e pobres tem valor. Seu discurso em muito se assemelha ao observado no funk ostentação.

Talvez por conversar tanto com parte do público do rap, ter grande apelo com os jovens e mesmo assim apresentar uma música higienizada e consumo-friendly, Karol foi escolhida como a segunda mulher negra a apresentar o Superbonita. Antes dela, o programa já havia sido apresentado pela tradicional primeira negra a fazer tudo quando se fala em TV no Brasil: Taís Araújo. A atriz foi a cara e a voz da produção do canal GNT entre 2006 e 2009, sendo a segunda personalidade a comandar a atração por mais tempo.

Taís e Karol, apesar de negras, representam dois mundos absolutamente diferentes e momentos diversos do Superbonita. Primeiro, há um pulo de quase dez anos entre o comando de uma e da outra no programa. Segundo, Karol Conká não representa somente um belo rosto negro e voz articulada na TV, demonstra uma diferenciação mais profunda das temáticas apresentadas pela atração.

Para começar, na 17ª temporada do Superbonita, o rosto negro de Karol Conká não aparece solitário em um mar de gente branca. Em quase todos os episódios da season – com exceção do 10º – há pelo menos uma pessoa negra participante e com falas. A representatividade preta passa por cantoras, estilistas, médicas e militantes, mostrando um cenário mais diversificado do que o que é geralmente visto na TV.

Tentando atingir um público que se distancia cada vez mais das mídias tradicionais, o programa investe em temáticas pouco exploradas na televisão. Androgenia, pelos e termos do momento como “empoderamento”, “sororidade” e “gênero fluído” são presentes. A temporada é menos focada estritamente na beleza que as anteriores e traz para o debate personalidades que conversam muito com o público jovem e com quem mora na internet, é o caso dos entrevistados Clarice Falcão, Jaloo, Jout Jout e Magá Moura.

São menos carinhas bonitas, e há mais espaço para o que choca e é extravagante. Cabelos coloridos – o da própria Karol é rosa – e com cortes assimétricos, acessórios enormes, convidados com roupas diferentonas. Ao que parece, o programa tenta se inscrever como uma forma de expressão de uma estética alternativa na TV paga em um lugar reservado para falar de beleza.

Apesar da tentativa, olhos mais atentos conseguem ver que o alternativo esconde interesses do capital bem colocados. Quando se fala em brechós e customização, não se deixa de falar em grandes marcas. Os padrões-fora-dos-padrões, mostrados no programa, não são acessíveis e nem se aplicam a todas as realidades. Em alguns episódios, as dicas são tão irreais e pouco aplicáveis que lembram um pouco o quadro de decoração barata, porém caríssima, do Jornal Hoje.

Karol Conká como o rosto do Superbonita é sim um marco de representatividade na televisão, mas não porque as grandes organizações Globo abriram sua mente e hoje integram a militância negra, pobre, gorda e LGBTQIA. Entregar a atração nas mãos da rapper e modernizar o roteiro foi uma medida que serviu aos interesses do capital, em mais uma jogada inteligente do oligopólio de comunicação mais forte do país. Resta a nós questionarmos até que ponto colocar rostos e corpos diferentes na TV paga é medida capaz de operar reais alterações na sociedade.

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3 Comentários

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    Su
    7 de julho de 2017 at 10:57

    nossa, concordo tanto com o texto! conká dificilmente foi escolhida pela representatividade e abertura de mente do canal, e sim porque falar de empoderamento e tudo o mais, hoje, dá audiência.

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    Sáskya Gurgel
    9 de julho de 2017 at 08:55

    Infelizmente as músicas dela que falam da parte social não são as que vendem, e só conheci esse lado dela porque estive presente em um show.

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    Thaís
    10 de julho de 2017 at 17:43

    Mas que mania de achar que tudo o que serve para vender não é “legítimo”. Gente, tudo no mundo desde a criação da propriedade privada tem como objetivo vender. Prefiro mil vezes esse tipo de programa, que “vende” belezas alternativas e fora do padrão, do que deixar isso como subcultura e só chegar na grande mídia a beleza tradicional padronizada Marie Claire de mulher branca, magra e loira. Se o capitalismo está certo é outra história, mas enquanto vivemos nele temos quase a obrigação de gostar quando há uma mudança de paradigma na questão de aparências consideradas aceitáveis para mulheres, depois de tanta opressão finalmente um respiro. Nenhuma mídia vive de fazer caridade, então um grande canal se propor a um programa como esse, com a Carol como apresentadora, é uma baita de uma vitória.

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