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Stranger Things 2 – Uma temporada totalmente tubular

Stranger Things

Mil novecentos e oitenta e quatro, e estamos de volta à cidade de Hawkins, Indiana, cerca de um ano após os surreais acontecimentos que atormentaram a vida de seletos habitantes da cidade e jogaram por terra seu ceticismo perante criaturas monstruosas e universos paralelos. Previously in Stranger Things, acompanhamos Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) na busca por Will (Noah Schnapp), que desapareceu misteriosamente em uma noite após uma sessão de RPG. O que eles não sabiam é que o monstro antes enfrentado exclusivamente num tabuleiro se tornaria tão real que acabaria envolvendo as pessoas mais próximas e as autoridades locais e do mais alto escalão – porque, em plena Guerra Fria, experimentos laboratoriais que desafiavam leis da física e morais éticas estavam sendo conduzidos por baixo dos panos, o que resultou em Eleven (Millie Bobby Brown), uma menina com poderes telecinéticos que se tornaria uma peça crucial na missão de resgate e também o primeiro indício de uma trama de maior complexidade. Ao final da primeira temporada, vemos que o resgate de Will não foi o desfecho dessa série de coisas estranhas que aconteceram na cidade – ele era só a conclusão do prólogo que narra a ligação do mundo que conhecemos com um mundo deveras Invertido.

Quase um ano depois dos eventos retratados na primeira temporada, descobrimos que as coisas em Hawkins não andam tão tranquilas quanto seus habitantes gostariam. A experiência de Will no Mundo Invertido deixou marcas no garoto, e ele passa por uma série daquilo que sua mãe, Joyce (Winona Ryder), chama de episódios; Will segue vendo coisas estranhas relacionadas àquele mundo, assim como aconteceu no Natal, logo após ter voltado para casa ainda na primeira temporada. Num minuto ele está tentando seguir sua vida da forma mais normal possível, no outro ele se vê transportado de volta para aquele lugar onde viveu suas memórias mais traumáticas. Por conta disso, mensalmente ele é levado pela mãe e pelo detetive Jim Hopper (David Harbour) a encontros com o Dr. Owens (Paul Reiser), novo responsável pelo Laboratório de Hawkins. Lá ele passa por exames clínicos que estudam suas atividades cerebrais sempre que descreve os tais episódios – que o médico insiste serem resultado de estresse pós-traumático, transtorno que, na época, ainda estava começando a ser estudado e era bastante exemplificada pela experiência de soldados na guerra. Embora as visões de Will sejam sempre tratadas como memórias resultantes de seu trauma, não demora muito para descobrirmos que elas na verdade são ameaças muito reais e ainda maiores do que aquilo que havíamos visto anteriormente, encabeçadas por um monstro que literalmente engloba a cidade toda.

O retorno de Will como personagem ativo entre os protagonistas é uma das mais gratas surpresas dessa temporada, além de crucial para colocá-la em movimento, visto que o garoto é a conexão entre os dois mundos, e enquanto a ameaça não é identificada para ser combatida, é Will quem fica na posição delicada de espião para os dois lados. Mas é especialmente complicado para um garoto de treze anos conviver com um trauma sobrenatural enquanto passa pela transição da infância para a adolescência; aquela fase em que o sentimento de deslocamento já é demais para ser lidado mesmo sem você ter se envolvido com monstros, o Mundo Invertido e afins. Noah Schnapp, que até então tinha tido pouco tempo de tela no desenrolar dos eventos da primeira temporada, nos entrega uma atuação fabulosa que transmite para a tela o sofrimento e os sentimentos conflitantes de Will na tentativa de permanecer firme em sua vida. Por isso, parte das ações e reações de Mike, Will, Dustin e Lucas nessa temporada são coerentes com o que estão passando internamente, à parte da missão de lidar com o segredo deles e se preocupar com seus vícios nerds.

Nesse sentido, é especialmente satisfatório perceber o quanto o roteiro da série permite que esses garotos à beira da adolescência tenham sentimentos – algo que não raro em nossa cultura é tratado como “coisa de menina”. Will é claramente um garoto sensível, que sofre com o apelido maldoso – zombie boy – que ganha na escola por causa de suas experiências mais recentes, e que também está passando por um momento de grande fragilidade, o que é sempre retratado como algo nada menos do que natural e esperado. Essa fragilidade cria uma conexão ainda mais forte entre Will e Mike, que, um ano depois, segue sentindo as dores de seu primeiro coração partido com o sumiço de Eleven. Mike continua sendo apresentado como um personagem bastante sensível às dores de seus amigos, e é quem melhor entende o sofrimento de Will, o qual busca amenizar do jeito que pode, afirmando que se o amigo estiver enlouquecendo, então eles enlouquecerão juntos. Mais do que o suspense, o que conquista em Stranger Things é perceber que se monstros gigantescos podem ser derrotados por um grupo de pessoas deveras despreparadas para a missão, isso é possível porque ao final do dia essas pessoas estão sempre juntas.

Esse círculo de apoio criado na série, que parte da família, dos amigos ou da autoridade de Hopper, preenche os espaços necessários no tabuleiro para que o grupo consiga vencer a batalha, ainda que trabalhe com o mínimo. Após ter passado por uma período de desespero com o desaparecimento do filho, Joyce se faz mais superprotetora e presente do que antes, e é a primeira observar os sinais de comportamento estranho de Will em seus desenhos ou visões. Enquanto Dr. Owens tenta convencê-los que o trauma de Will é natural, Joyce é a primeira a desconfiar que há algo acontecendo na mente do seu filho que significa mais do que memórias traumáticas. Hopper, por outro lado, entra investigando plantações de abóboras apodrecidas, supostamente por briga de vizinhos, mas que ele reconhece ser mais do que isso pelo que viu no Mundo Invertido. Tudo enquanto tenta manter Eleven em regime fechado numa cabana remota, acreditando que o faz é para o próprio bem e proteção da garota. Hopper assume, de uma maneira bastante torta, o papel de pai que lhe foi revogado quando sua filhinha Sarah faleceu, e Eleven encontra nele alguma segurança depois de ter sido privada dos cuidados da própria mãe e ter vivido por anos com um homem que chamou de pai, mas que a tratava primordialmente como um rato de laboratório. Ambos são terríveis no quesito diálogo, mas no fundo sabem que existe uma boa intenção da parte do outro e tentam fazer sua dinâmica funcionar, e esse é um dos pontos de destaque entre a relação dos personagens em Stranger Things 2. É um reforço constante de um valor básico, porém essencial – o da importância da comunidade, ainda que aqueles que costumam ser deixados de lado precisem formar uma alternativa e própria. Curiosamente, essa ideia de comunhão foi uma parte essencial da divulgação da série lá em seus primórdios.

Talvez o que exista de mais fascinante quando pensamos em Stranger Things é o quão orgânico seu sucesso parece ser, já que ele cresceu exponencialmente menos com publicidade e divulgação pesada do que pelo próprio boca-a-boca que a série ganhou nas redes sociais. Além da presença da estrela dos anos 80, Winona Ryder, não havia atrativos óbvios em seu elenco razoavelmente desconhecido. Foram suas muitas referências às produções oitentistas, aliadas a uma história e personagens genuinamente cativantes no estilo mais pipoca de entretenimento, que abriram tão rapidamente um espaço imenso para a série na conversa sobre a cultura pop. Para dar o exemplo, a temporada começa na época do Halloween e que que fantasias Will, Mike, Lucas e Dustin poderiam escolher senão a de Ghostbusters? A referência é perfeita por ser contemporânea, na medida do gosto dos garotos e algo que eles podem fazer juntos ainda que suas personalidades sejam diferentes. Ironicamente, foi justamente o hype tão grande que ela viveu – culminando em muitas indicações aos prêmios mais importantes da televisão – que gerou dúvidas sobre a segunda temporada. Seriam os irmãos Matt e Ross Duffer capazes de fazer um raio cair duas vezes no mesmo lugar?

Eles sem dúvida correram atrás desse objetivo. Quando a segunda temporada tem início, já estávamos familiarizados com a ambientação e os personagens, então havia tempo para introduzir novas facetas da adolescência norte-americana através de Max (Sadie Sink) e Billy (Dacre Montgomery), por exemplo, e de expandir o pano de fundo delineado na temporada anterior. Ainda assim, a estrutura geral da nova temporada é muito parecida com a da anterior. Embora agora as tramas se entrelacem mais, as crianças, os adolescentes e os adultos vivem histórias mais ou menos isoladas até os episódios finais, quando a simples união de basicamente todos os personagens em um único ambiente e em busca de um único objetivo torna as coisas imediatamente mais emocionantes. São momentos que mais uma vez se sustentam em elementos semelhantes àqueles que vimos anteriormente, como a validação do conhecimento nerd das crianças, responsáveis por propor visões alternativas – e coerentes – sobre a situação. Mesmo depois de apenas uma temporada a série já consegue ser autorreferente, e as cenas em que ouvimos citações a Dungeons & Dragons ou o som inconfundível de “Should I Stay or Should I Go” são extremamente satisfatórios. Mesmo que muito do sucesso inicial de Stranger Things tenha se baseado na nostalgia a nas referências a outras produções icônicas, a partir do momento em que se estabeleceu como uma parte da cultura pop dos novos anos 10, a série passou a ter uma mitologia muito própria.

Parte essencial dessa mitologia é Barb (Shannon Purser), que praticamente nem chegou a ser uma personagem – mais do que tudo, ela era uma ferramenta de roteiro para desenvolver Nancy (Natalia Dyer). Talvez porque grande parte do público se identifique mais com a amiga deixada de lado nas festinhas do que com a que namora o aluno mais popular da escola, Barb acabou virando um fenômeno inesperado, que gerou desde incontáveis fanarts e textões, até uma surpreendente indicação ao Emmy para sua intérprete. A “Justiça para Barb” tão pedida nas redes sociais finalmente é feita – num bom exemplo de fanservice talvez desnecessário –, mas o mais importante é que mais uma vez Barb é o centro do arco que move Nancy como personagem e a inclui no enredo relacionado ao Mundo Invertido. Afinal, se sua melhor amiga não tivesse sido arrastada e morta pelo Demogorgon, Nancy poderia ter permanecido na ignorância desses mistérios como o resto das famílias das crianças.

Talvez um dos aspectos mais interessantes a respeito de Nancy é que, ainda que estivesse envolvida em um triângulo amoroso clichê, seu verdadeiro enredo sempre foi ir atrás da verdade sobre o desaparecimento da amiga, e isso se mantém na segunda temporada, que explora os efeitos da perda e das mentiras que ela precisa contar sobre o que sabe. Por isso, é uma pena que a condução de sua trama – levar a verdade sobre o que acontece no Laboratório de Hawkins junto com Jonathan (Charlie Heaton) e um jornalista que tem certeza de que a verdade está lá fora – seja a mais fraca. O que vemos são dois personagens completamente desconectados do contexto geral, numa viagem que parece ter servido basicamente para o casal, óbvio desde o começo, acontecer – o que vem e vai com zero tensão. É uma oportunidade perdida de desenvolver Nancy (a única personagem feminina no núcleo adolescente, que conta com três garotos) para além do que já havíamos visto anteriormente. Muito diferente é o tratamento dado à outra ponta do triângulo amoroso – e provavelmente o maior sucesso dessa temporada: Steve.

Em diversos momentos de O Universo de Stranger Things, a série sobre os bastidores disponibilizada pela Netflix junto com a segunda temporada, os irmãos Duffer comentam que começaram a delinear seus personagens baseando-se sempre em estereótipos comuns das produções dos anos oitenta. Era só conforme os roteiros se desenvolviam e os dois conheciam melhor seu elenco que os personagens iam mudando e ganhando personalidades mais sólidas. Nesse sentido, Steve era uma clara mistura de Atleta Popular com (semi-)Bad Boy. Desde o final da temporada anterior, no entanto, ele dava indícios de que não se adequava totalmente à construção estereotipada (assim como a própria Nancy).

Eventualmente deixado por Nancy, Steve teoricamente não tem mais espaço na trama da série. Só que ninguém queria mandá-lo embora, e o papel que ele ganhou em consequência disso se tornou o maior fenômeno da temporada. Steve passa de namorado popular a namorado chutado que dá conselhos amorosos (muito ruins) a Dustin enquanto revive seu taco de baseball especial e suas habilidades de algoz do Demogorgon. Nada disso se compara, no entanto, ao fato de ele acabar se transformando, muito inesperadamente, em babá de um grupo de crianças que querem muito arriscar suas vidas – o que ele está disposto a não deixar acontecer. O carisma de Joe Keery e os diálogos engraçadinhos sobre spray de cabelo de Farrah Fawcett certamente ajudam a explicar por que Steve virou um fenômeno tão grande, mas talvez o principal motivo seja simplesmente o inesperado da situação. É um desenvolvimento que dificilmente alguém esperaria, passando longe de qualquer clichê, e que poderia dar bem errado – Steve poderia, por exemplo, ter se tornado aquele ex-namorado inconformado e controlador que faz de tudo para recuperar o coração da amada das formas mais problemáticas possíveis reforçando o estereótipo, mas acaba quebrando-o quando escolhe respeitar o rumo do seu relacionamento e se tornar uma figura protetora (quase) madura – mas que deu muito certo.

Se Steve foi um exemplo de surpresa que funcionou, a trama dada a Eleven representa um risco cujo resultado foi pelo caminho contrário, culminando em um episódio no mínimo divisivo – e bastante mal recebido. É com “The Lost Sister”, o famigerado episódio 7, que os Duffer fazem sua jogada mais arriscada. Se o começo da temporada é um pouco arrastado e se sustenta mais pelo carinho que a essa altura já desenvolvemos pelos personagens, no momento em que chega ao fim “The Spy”, o sexto episódio, já estamos no auge do suspense e as coisas estranhas que acontecem em Hawkins já têm nossa completa atenção. É um ponto estranho, portanto, para se parar a ação em Indiana durante uma hora e dedicar um episódio inteiro ao primeiro contato entre Eleven e um grupo de personagens que nunca vimos e de quem nunca tínhamos ouvido falar antes; personagens que apareceram na primeiríssima cena da temporada e não foram retomados até a reta final num timing totalmente deslocado.

À beira da adolescência, mantida por um ano quase como uma prisioneira – para a própria segurança – por Hopper, excluída da convivência com os amigos e de qualquer tipo de vida normal, Eleven tem seu momento de rebelião ao fugir em busca da mãe perdida. É uma movimentação importante para que não só o público, mas também a própria personagem possa finalmente aprender mais sobre sua identidade, seu nome, sua história. “Eleven” não é um nome, afinal, e sim uma etiqueta que faz dela um mero experimento científico, assim como suas memórias do laboratório não são uma origem, mas uma história de horror. Assim, um episódio como “The Lost Sister”, que oferece à garota uma resposta sobre o que aconteceu com sua mãe e a oportunidade de se reconectar com sua antiga e esquecida “colega” de experimento – Kali (Linnea Berthelsen), ou Eight –, é um convite para que possamos entendê-la melhor.

Somos expostos a verdades essenciais sobre Eleven, como fato de ela ser capaz de matar, e fazê-lo para proteger aqueles que ama – mas não por vingança. O episódio não funciona, no entanto, porque nada disso soa realmente novo. Quando Eleven recebe um convite para ficar em definitivo com Kali e seu grupo de amigos punks em Chicago, não há nenhuma dúvida real de que aquilo será apenas temporário. Afinal, estamos falando de pessoas que imediatamente riem de seu cabelo, de suas roupas e de tudo o que ela é em essência, parecendo mais interessados em torná-la uma arma do que em qualquer outra coisa. É verdade que para dois pontos específicos o episódio serviu: primeiro para relevar que Dr. Brenner (Matthew Modine) ainda está vivo (e pode voltar para reforçar a trama do laboratório nas temporadas posteriores); e segundo para Kali ensinar a Eleven como ela pode canalizar seus poderes com uma força maior (o que, realmente, é importantíssimo dois episódios adiante). Mas é claro que Eleven volta para Hawkins no final – porque é lá que estão as pessoas que a aceitaram e a ensinaram o que significava, em todos os sentidos, a palavra “amigo”.

O que fica de triste quando Eleven deixa o grupo de Kali para trás é que, como apontou Constancy Grady na Vox, “The Lost Sister” é “o único episódio na temporada em que duas personagens femininas têm a oportunidade de construir um relacionamento significativo entre elas”. Como Grady aponta, parece existir uma regra em Stranger Things que dita que só pode existir uma personagem feminina por grupo etário. Embora os Duffer tenham introduzido mais uma garota no grupo das crianças, Max não avança em quase nada a conversa. Junto com Billy, ela não parece ter saído do plano dos estereótipos, sendo a menina legal, que aparece em Hawkins com certo ar de mistério e um skate debaixo do braço, revela-se ser aquela que quebrou o recorde dos meninos no videogame e… não vai muito além disso. Max chama a atenção dos garotos por ter os mesmos gostos e conseguir ser melhor do que eles em vários dos seus hobbies, mas a forma como os garotos a convidam para se unir a eles consiste em colocá-la numa posição inferior – talvez pela falta de tato adolescente, talvez por pura prepotência. Ela se introduz ao grupo quebrando a primeira impressão de ser uma garota durona. Pelo contrário, Max leva na esportiva a falta de jeito de Dustin e Lucas, tenta se conectar com Mike e se inteirar da história de Eleven. Inúmeras vezes, no entanto, ela é deixada do lado de fora do Clube de Audiovisual e se ressente por isso. Além disso, a curiosidade por saber um pouco sobre pano de fundo de sua história individual – os motivos pela qual ela se mudou para Hawkins, por que sua relação com Billy é tão conturbada – é palpável, mas entregue a migalhas ao longo da temporada e não são exatamente esclarecedoras, mas abrem espaço para especulação, para quem tiver o interesse.

Também não ajuda que, assim como Eleven, pareça ser necessário aos Duffer imediatamente incluir Max num plot romântico, o que quer dizer que não há uma personagem feminina na série que exista fora de suas interações com homens, ou garotos, nem mesmo na tenra idade de treze anos – o que provavelmente diz mais sobre a escassez delas do que sobre a existência de algum aspecto intrinsecamente problemático em qualquer desses relacionamentos ou triângulos amorosos. Ao mesmo tempo em que Max entra no meio da amizade de Lucas e Dustin, ambos interessados por ela, ela também acaba sendo alvo de rivalidade por Eleven, que, privada da convivência dos meninos, quando vê outra menina no lugar dela é tomada por ciúmes – uma reação que em essência não busca retroceder as representações de sororidade, é apenas inerente à natureza humana. A afeição de Mike por Eleven é recíproca e sobreviveu aos 353 dias que eles passaram distantes; a sintonia de Max e Lucas falou mais alto e foi selada com um beijo no baile de inverno (bastante avacalhado no roteiro por má-fé dos Duffer). Logo, Eleven não se ressente de Max por causa de Mike mais do que pelo sentimento de pertencimento que ela não tem mais desde que fora trancafiada por Hopper; e é isso que torna a falta do aperto de mão entre elas tão incômoda.

Contudo, apesar de todas as questões problemáticas em relação à posição das personagens femininas na trama, Stranger Things consegue – propositalmente ou não – subverter alguns tropos vez por outra, e surpreende por isso também. É o caso de Bob Newby (superhero) (Sean Astin), o novo namorado de Joyce. Bob aparece com seu jeitinho uncool de ser; um cara tão bacana e sem malícia que chega a causar suspeitas. Mesmo alheio à verdadeira versão do passado que assombra a família de Joyce, ele assume o papel de companheiro para todas as horas, tentando inclusive melhorar o espírito de Will quando todos os outros tentam colocá-lo sob a redoma. Bob, no entanto, não consegue ficar alheio à verdade por muito tempo – quando as suas habilidades de lógica se fazem necessárias, Joyce e os outros não tem opção a não ser revelar a ele com quem eles estão realmente lidando. Na sequência dos eventos, ele acaba indo para o Laboratório de Hawkins quando Will precisa de assistência, junto a Joyce, Mike e Hopper, e quando o exército de mini-Demogorgons toma o lugar em meio a um lockdown, Bob faz jus à sua alcunha de super-herói, ganha a torcida do público, e morre na praia. Trata-se de um clichê revoltante, mas a cena causa um impacto infalível. Joyce, até então passiva perante os efeitos do Mind Flyer em Will, é finalmente tomada pela determinação de fazer alguma coisa e vingar a morte de Bob.

No calor da maratona, a sensação que temos é que Stranger Things nos entrega muitas novidades entusiásticas e ao término de cada episódio, “wow” é a única reação possível. Todavia, quando a maré se acalma em Hawkins, e as crianças voltam a ter o baile do inverno como a única preocupação, o juízo nos faz perceber que a série, na verdade, não é essa Coca-Cola toda. O fenômeno Stranger Things é movido mais pela repercussão do público do que pela originalidade da trama em si, mas isso não é ruim e não a torna menos importante na grade das séries em andamento. Até agora, a série conseguiu sustentar bem sua história, e deixar o público entretido por cerca de dez horas, cumprindo um dos maiores objetivos do serviço de streaming que a produz. No entanto, a dica que é deixada nos últimos minutos da season finale é que a trama com o Mundo Invertido vai continuar, o que nos leva a especular se os Duffer conseguirão segurar o interesse do público com sua receita ou se a enredo que move Stranger Things vai ficar saturado. A terceira temporada tem seu lançamento agendado apenas para 2019 e considerando esse intervalo, podemos apenas torcer que a sequência seja como as anteriores: totalmente tubulares.

Crítica escrita em parceria por Fernanda e Yuu

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