CINEMA LITERATURA TV

Stephen King e a mulher-vítima 

Correndo o risco de se tornar um dos autores mais adaptados de 2017 e já sendo um dos mais prolíficos do mundo, recentemente tem sido desafiador não esbarrar em alguma obra cujas raízes tiveram origem na obscura mente de Stephen King. O escritor está em toda parte, até mesmo nas influências em séries de sucesso, como Stranger Things, que voltou para sua segunda temporada no último dia 27 de outubro.

Para azar do próprio escritor, que não costuma aprovar as adaptações do seu trabalho, nesse ano, três grandes lançamentos mantiveram seu material original como fonte, sendo dois deles produzidos pela Netflix (a série O Nevoeiro, de Christian Torpe e o filme Jogo Perigoso, de Mike Flanagan), sem falar de um dos maiores sucessos de terror do ano, It  – A Coisa, de Andy Muschietti. Mas para além do autor como denominador comum e do gênero de terror/suspense do qual fazem parte, outro fator compartilhado pelas produções podem capturar a atenção do espectador mais atento: todas as protagonistas dessas histórias possuem um histórico de abuso sexual, geralmente cometido por uma figura próxima, seja ele pai ou amigo de infância.

Como se não bastasse serem mulheres sobreviventes de violência sexual, Beverly (Sophia Lillis), Alex (Gus Birney) e Jessie (Carla Guginotambém compartilham entre si a infelicidade das suas narrativas pessoais girarem apenas em torno desse acontecimento. Mesmo em meio à névoas mortais rondando a cidade, palhaços assassinos e tentativas de sobrevivência em cativeiro, as tramas se asseguram de enfatizar que não há muito mais o que explorar na personalidade e no arco dessas heroínas além das suas malfadadas condições de vítimas dos homens que lhes cercam.

Jessie (Carla Gugino)

O principal argumento para a utilização de estupros como formas banais de desenvolvimento narrativo de personagens femininas tem sido de que, além de ser um crime comum contra mulheres num mundo machista, esse tipo de gatilho também poderia servir para fomentar crescimento pessoal por meio da dor, superação, força de vontade e desejo de vingança, numa espécie de Jornada do Herói só para mulheres. Quantas vezes não vimos essa mesma história repetir-se, mudando apenas os cenários e épocas? Game of Thrones tem sido duramente criticada ao longo dos anos pelo seu uso desmedido e injustificável de violência sexual contra as personagens da série, muitas vezes transformando cenas de amor em estupros ou criando do zero esse tipo de plot para protagonistas.

Em Fragmentado, filme de 2017 dirigido por M. Night Shyamalan, a principal carta na manga de Casey (Anya Taylor-Joycontra A Besta é o fato de ter sobrevivido a estupros a infância inteira, como se esses abusos conferissem à ela uma espécie de ‘’extra-força’’. Sobre a alegoria do filme, Nico Lang, do Salon, escreveu: “Getting raped didn’t make me superhuman. It made me feel disgusting and lonely.” [“Ser estuprada não me tornou uma super-heroína. Fez com que eu me sentisse asquerosa e solitária”, em tradução livre].

Voltando a Stephen King e as adaptações de sua obra, é preciso perguntar por que enquanto os homens de suas tramas lidam com temas mais universais, Bev é a única integrante do Loser’s Club a ser assombrada pela cultura do estupro, e as histórias de Jessie e Alex são reduzidas a quem praticou o crime contra elas, além dos famigerados como e por quê. O histórico de abuso de cada uma dessas mulheres serviu como parte de seus desenvolvimento enquanto mulheres, visto que uma delas, inclusive, lidava com a ameaça de maneira recorrente? Por que um dos escritores mais consagrados do mundo parece acreditar que mulheres precisam ter sido abusadas para se tornarem fortes e complexas?

Beverly (Sophia Lillis)

São perguntas que permanecem sem resposta e sem tanto eco quanto deveriam, ainda mais em comparação a outras heroínas de King que também extraem sua resiliência do abuso, como Wendy de O Iluminado e Carrie, de Carrie, A Estranha – esta, inclusive permanece até hoje lembrada como símbolo de poder feminino por muitos. Considerando-se que o próprio Stephen King é também visto como um autor feminista por parte do seu público, talvez o problema seja o gênero no qual suas criações ganham vida, acostumado a fetichizar o sofrimento feminino como forma de entretenimento. No gênero do terror é conhecida a figura da final girl (a “sobrevivente final”). No cinema mainstream, ela é bela, jovem, quase sempre pura, virgem e ingênua. Afinal, qualquer espectador entende que uma moça dessas está sempre em perigo iminente. O mal mora na esquina e pode pegá-la a qualquer momento.

(…) De acordo com Dahlia Grossman-Heinze, ‘O que filmes de terror com uma final girl parecem ter em comum é a ameaça da violência sexual. O assassino não irá apenas assassinar a final girl  –  a ameaça do estupro está lá, também.’” (livre tradução, Tainá Mühringer, no Collant)

Apesar de ser um crime comum, a violência sexual não é a única história a ser contada sobre uma mulher ou a melhor ferramenta de roteiro para desenvolver uma personagem, apenas a mais fácil. Bev, Jessie e Alex merecem um pouco mais de esforço de representatividade e complexidade por parte do “Mestre do Terror”. Todas nós merecemos.

Posts Relacionados

2 Comentários

  • Responda
    Bianca Ferreira
    2 de novembro de 2017 at 15:08

    Eu concordo que tais personagens podem ser desenvolvidas de outras maneiras, mas não vejo a questão da violência sexual como uma forma fácil ou irreal. A cada dia temos mais notícias de violências desse tipo que foram cometidas e que foram silenciadas, exatamente como as personagens das tramas acima. Pergunte a qualquer mulher qual o maior medo delas ao andar sozinha a noite e eu te garanto que a resposta não vai ser “assalto”. Infelizmente, a violência sexual é um filme de terror que temos que protagonizar pela vida toda, mas a imagem de que isso pode ser superado de alguma forma é um dos pontos positivos das histórias do Stephen King, na minha opinião.

    • Responda
      Gabi Machado
      3 de novembro de 2017 at 19:19

      Oi, Bianca, tudo bem? Obrigada por ler!

      Então, eu compreendo que o a violência sexual seja uma ameaça constante na nossa vida, já que eu também sou mulher e também me considero incluída nessa estrutura de opressão patriarcal. No próprio texto cito que o estupro é um crime comum, mas mesmo assim, acredito que não é por isso que a maioria das histórias de terror sobre personagens femininas escritas pelo mesmo autor deva ter a mesma base.
      Não é justo que homens possam ter narrativas, ameaças e desenvolvimentos variados e nós estejamos presas à mesma trama sempre, entende? Ainda mais quando essa trama não é bem desenvolvida, como no caso das personagens que citei no texto. Fica raso e parece sim um recurso preguiçoso, como vemos em tantas outras produções por aí, como Game Of Thrones por exemplo.
      Por ser um tema delicado, precisa antes de mais nada ter uma justificativa para sua existência, se não realmente vira uma ferramenta banalizada e contribui ainda mais pra fetichização da violência contra as mulheres.
      A ideia toda do texto é dizer que podemos ser mais do que vítimas e, uma vez outra, nossas próprias heroínas.
      Obrigada pelo comentário!

    Deixe um Comentário