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Stella Gibson: a mulher no comando em The Fall

É bem provável que você já tenha ouvido falar de The Fall, minissérie dramática produzida em parceria por canais da Inglaterra e da Irlanda do Norte, BBC Two e RTÉ One respectivamente, e disponível completa para streaming na Netflix. Talvez você já tenha lido por aí, compartilhado no Facebook ou no Twitter, frases icônicas proferidas pela protagonista da trama, Stella Gibson – interpretada pela maravilhosa Gillian Anderson em seu primeiro grande papel na televisão após The X-Files. Talvez você saiba tudo sobre a série, talvez não saiba nada. Mas uma coisa você tem que saber: Stella Gibson é a mulher no comando de tudo em The Fall.

Aviso: este texto contém spoilers!

Em The Fall, acompanhamos a detetive superintendente Stella Gibson buscar o sucesso onde outros falharam: descobrir quem é o serial killer por trás das incontáveis mortes de mulheres na cidade de Belfast, na Irlanda do Norte. O telespectador descobre logo nos primeiros minutos da primeira temporada que o responsável pelas mortes de mulheres – todas de pele clara e longos cabelos castanhos – é Paul Spector (Jamie Doonan), um psicólogo especializado em traumas e pai de família que mantém a aparência de ser o melhor de seu tipo, sempre preocupado com os filhos e os pacientes, mas que guarda um passado sombrio e uma personalidade totalmente diferente daquela que deixa o mundo ver. A partir de então, o que assistimos é um jogo contínuo entre Stella e Paul, um buscando pelo outro enquanto pistas são encontradas e o tempo parece cada vez mais curto, visto que Stella precisa descobrir Paul antes que mais mulheres sejam mortas.

O clima em The Fall é sombrio, sim, e muito se falou à época de seu lançamento sobre a aparente glorificação da violência contra a mulher, mas a série vai muito além disso. É notável, claro, que Paul Spector utiliza-se de uma estética macabra para lidar com os corpos das mulheres que assassina – ele banha seus corpos sem vida, pinta suas unhas e as posiciona para fotografias como se fossem bonecas –, mas The Fall não utiliza essas mulheres apenas como vítimas ou acessórios de cena para o serial killer que é Paul: seus nomes e vidas são sempre lembrados, não são apenas números contabilizados por ele. E a série vai além, buscando na figura de Stella o contraponto perfeito para a misoginia latente no assassino: é Stella, afinal de contas, a responsável por investigar a trilha de corpos deixada por Paul e é Stella, também, a chefe da força-tarefa – criada por ela mesma – para encontrá-lo.

Seria fácil The Fall cair no estereótipo da mulher bem sucedida que tanto vemos nas produções de cinema e televisão ao criar Stella Gibson, porém, de maneira surpreendente, não é o que acontece. Stella é uma mulher em posição de poder em um mundo dominado por homens, mas em momento algum tenta ser “um dos caras”. Ela é uma mulher sexual e feminina, e não tem a menor vergonha disso: veste suas blusas de seda, saias lápis e escarpins como quem veste uma armadura, e vai para a guerra. Stella é bonita e sabe o poder que exerce quando entra em um cômodo, e não tenta se diminuir para se encaixar em seu ambiente de trabalho mudando seu jeito de ser. Ela não deixa que nada nem ninguém a desmereça por ser quem é. É comum ver personagens femininas em posição de poder serem representadas de maneira masculinizada, mas Stella utiliza sua feminilidade também como uma de suas muitas armas – e isso fica evidente quando, em uma coletiva de impressa para atualizar os jornalistas a respeito das investigações, ela pinta suas unhas com um vermelho brilhante apenas para mandar uma mensagem para Paul: eu vejo você.

A sexualidade de Stella também é peça importante para compreender a personagem. Ela sente desejo e vai atrás daquilo que quer, e não sente a menor vergonha disso. Logo nos primeiros episódios ela convida um detetive para visitá-la em seu quarto de hotel e o que seria um choque para muitos é apenas a forma como Stella decide levar sua vida. Ela não deve nada a ninguém e, como uma mulher adulta e completamente dona de si, faz aquilo que deseja e sem pedir desculpas. Stella está hospedada sozinha em um hotel em Belfast, toma uma taça de vinho para relaxar após o expediente, pratica natação todas as manhãs para espairecer antes de ir trabalhar – como qualquer mulher normal faria, sem grandes dramas ou traumas no passado que a motivem a perseguir Paul da maneira implacável que persegue. A personagem não precisa de um segredo antigo para motivá-la a ir atrás do serial killer, Stella apenas faz seu trabalho da melhor forma que consegue, criando empatia imediata com as vítimas de Paul e dedicando-se de maneira integral à investigação.

Stella é competente em seu trabalho e é ela a responsável por ligar Paul a outros assassinatos que, a princípio, pareciam desconexos. É ela quem enxerga o padrão por trás das ações de Paul e é ela quem consegue chamar a atenção do serial killer, instigando-o a segui-la e se revelar. Stella é corajosa e inteligente e, embora às vezes pareça muito fria em determinados momentos, o fato é que ela possui um autocontrole impecável em situações desesperadoras. A personagem vem para subverter aquilo que é esperado – em nossa sociedade, pelo menos – de uma mulher em posição de estresse: Stella não surta ou pede por ajuda e, ao contrário, é ela quem tem o controle da situação, orientando seus subordinados, que não questionam suas ordens como seria de se esperar em uma série que se utilizasse do lugar comum para compor sua personagem – embora alguns deles ainda se ressintam por serem liderados por uma mulher.

Não sabemos muito sobre a vida pessoal de Stella além daquilo que a série se propõe a contar: como detetive convidada a Belfast para ajudar nas investigações, não sabemos sobre a vida que ela deixou em espera lá em Londres, nem como são seus amigos ou sua família. O que importa aqui, na verdade, é a dedicação da detetive ao seu trabalho e à busca por Paul Spector. Novamente poderíamos ter mais um velho clichê da mulher bem sucedida no trabalho e com uma vida pessoal à deriva, mas The Fall não se prende a esse tipo de detalhe para construir sua protagonista. Talvez Stella tenha uma pessoa em Londres, talvez Stella tenha família. Ou talvez Stella não tenha nada disso e está perfeitamente ok com a maneira como sua vida é.

Em um dos episódios, ficamos sabendo que Stella se envolveu com o atual chefe de polícia de Belfast, Jim Burns (John Lynch), no passado e que por isso ele acha que tem algum direito sobre ela – no que ele, obviamente, se engana por completo e ainda recebe uma lição de Stella, que o coloca em seu lugar sem hesitar. Não é não, e ela deixa isso bem claro para Jim. São inúmeros os momentos memoráveis de Stella em The Fall e listá-los já valeria um texto, o que só exemplifica o quanto a personagem é incrível, bem trabalhada e digna de admiração – ainda bem que o Buzzfeed já tem uma lista exatamente sobre isso

Stella é dedicada ao seu trabalho, é forte e destemida, mas também tem seus momentos de vulnerabilidade e confusão, como qualquer pessoa. Ela é intensa, é decidida, é sentimental, é calculista. E não é nada disso. Stella é uma personagem tão completa que qualquer estereótipo pensado sobre ela não é eficaz, não encaixa. Por isso e por conta de toda a sua humanidade, Stella Gibson foi um dos maiores presentes que o mundo das séries recebeu em matéria de personagem feminina; ela não é apenas “forte”, ela é inteira e completamente humana. Sorte nossa poder ter acompanhado a trajetória dessa mulher singular que não cabe em nenhum clichê de gênero e revolve as expectativas ao mostrar a perspectiva feminina em uma série sobre assassinatos e serial killer sem cair no mais do mesmo. The Fall subverte as expectativas de quem acompanha os episódios, criando uma trama intensa e que coloca o comando de tudo nas mãos de uma mulher.

Stella:“A woman, I forget who, once asked a male friend why men felt threatened by women. He replied that they were afraid that women might laugh at them. When she asked a group of women why women felt threatened by men, they said, ‘We are afraid they might kill us'”.

Stella:“Uma mulher, me esqueci quem, uma vez perguntou a um amigo homem por qual motivo homens se sentiam ameaçados por mulheres. Ele respondeu que eles tinham medo de que as mulheres rissem deles. Quando ela perguntou a um grupo de mulheres por que mulheres se sentiam ameaçadas por homens, elas disseram: ‘Nós temos medo de que eles possam nos matar'”.

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