LITERATURA

Cinco filhas solteiras sem grandes fortunas: entendendo a Sra. Bennet

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro em posse de uma grande fortuna deve estar à procura de uma esposa – ou ao menos é isso que a Sra. Bennet quer nos fazer acreditar do começo ao fim de Orgulho e Preconceito. Ironicamente, são as moças solteiras, especialmente aquelas sem posse de grandes fortunas, que estão à procura de um marido. Algumas o fazem de maneira mais espalhafatosa, como Lydia e Kitty Bennet, outras com aspirações românticas, como Elizabeth e Jane Bennet, outras ainda de maneira quieta e contida, como Charlotte Lucas. Nenhuma dessas jovens moças solteiras, no entanto, é mais dedicada à saga matrimonial do que a matriarca Bennet, cujo primeiro diálogo no romance é justamente sobre a chegada de Bingley a Netherfield – “um homem solteiro com grande fortuna; quatro ou cinco mil por ano. Que coisa boa para nossas meninas!

O narrador bem humorado empregado por Jane Austen é talvez uma das características mais marcantes de sua obra, e dele poucos personagens escapam. Suas alfinetadas à Sra. Bennet, por exemplo, são constantes, e é nas seguintes palavras que elas nos é apresentada:

“Ela era uma mulher de compreensão pobre, pouca informação e temperamento incerto. Quando descontente, gostava de se imaginar nervosa. A ocupação de sua vida era casar as filhas; seu consolo eram as visitas e novidades.”

A Sra. Bennet era, portanto, uma mulher simplória e dada a dramaticidades, cuja única preocupação era com o estado civil de suas filhas. Se Lydia era a filha mais parecida com ela, aos olhos da Sra. Bennet era Jane – e sua beleza notável – seu maior trunfo, pois as possibilidades de arranjar um bom casamento para ela seriam imensas; enquanto isso, jovens mulheres como sua vizinha Charlotte Lucas podiam ser muito agradáveis, mas em primeiro lugar, para ela, seriam sempre moças sem atrativos – em teoria, nenhuma grande competição para sua Jane, mas ela ainda assim não perdia a chance de reafirmar o quanto era triste que Charlotte fosse tão simples. “Eu não gosto de me gabar de minha própria filha”, diz a Sra. Bennet, só para passar o livro inteiro se gabando do quanto Jane era bonita e do quanto todos concordavam com essa afirmação. Para além de sua personalidade presunçosa e cheia de vaidade, a Sra. Bennet era incrivelmente intrometida nas vidas de suas filhas e sua única preocupação parecia ser sua ascensão social, independentemente do custo pessoal que fosse cobrado delas para isso. O ridículo, pedante e subserviente Sr. Collins parece-lhe imediatamente perfeito para Elizabeth; o estado causado em seus “pobres nervos” pelo sumiço de Lydia com Wickham – que poderia manchar a reputação da família toda – sofre uma milagrosa e imediata recuperação quando descobre que eles estão casados, independente dos problemas de caráter dele; ao saber do interesse em Elizabeth por parte de Darcy, um homem que ela desprezara o romance inteiro por causa da atitude prepotente, logo o considera o genro dos sonhos: “Oh, minha querida Lizzy! como você vai ser rica e notável! Quanto dinheiro, quantas joias, quantas carruagens você terá! […] Um homem tão encantador! – tão bonito! tão alto!”.

Sra. Bennet dando uma lição rápida sobre como agarrar seu próprio homem solteiro em posse de uma grande fortuna. Provavelmente.

Não por acaso, os excessos e comportamentos da mãe são uma constante fonte de vergonha para Elizabeth e seu espírito crítico, e ela se preocupa em cortar as divagações da Sra. Bennet pela raiz quando diante de estranhos, como naquela famosa cena em que se pergunta quem teria sido “o primeiro a descobrir a eficácia da poesia para afastar o amor”. A ligação de Elizabeth com o pai é mais próxima, e a recíproca também é verdadeira; embora ele esteja se divertindo às custas dos dramas da esposa, não há dúvida de que para ele existe um fundo de verdade quando diz que Lizzy tinha algo a mais que as irmãs, embora todas fossem “bobas e ignorantes como as outras garotas”. É verdade que é também o pai que a libera de qualquer compromisso futuro com Collins, alegando de maneira bem humorada que, se a Sra. Bennet nunca mais falaria com a filha se ela não aceitasse o pedido de casamento, ele, por sua vez, faria o mesmo, mas se ela aceitasse. O Sr. Bennet era, como é descrito pela primeira vez, uma mistura de “humor sarcástico, reserva e caprichos”. Sua disposição bem humorada fora transmitida à própria Elizabeth, que “tinha uma disposição vívida e divertida, que se deleitava com qualquer coisa ridícula” e que ri de si mesma, da mãe, de Collins ou de Darcy com o mesmo ânimo.

A disposição sempre pronta para fazer troça e ao mesmo tempo distante e reservada do Sr. Bennet, no entanto, não pode ser vista sem o olhar crítico que é aplicado aos exageros de sua esposa. Se é evidente que Jane Austen escrevia histórias sobre amor, também é claro que ela fazia reconhecimento, descrição e crítica da sociedade da época – ou ao menos aquela parte que ela conhecia, a da Inglaterra rural e a das pessoas de classe alta. Para além de Bingleys e Darcys, pairava uma sombra sobre Longbourn, e ela tinha nome composto: primogenitura masculina e regime de morgadio (ou entail)1. Para garantir que uma propriedade se mantivesse sempre na família, era possível garantir legalmente que ela nunca seria dividida ou partilhada, e sim passada em sua totalidade sempre para um único herdeiro. A primogenitura masculina garantia que a herança cabia ao primeiro filho homem ou, na ausência deste, o homem mais próximo (o que, na verdade, não afetava apenas as filhas mulheres, mas também os filhos que não fossem os primogênitos; eles, no entanto, podiam buscar carreiras alternativas). Em teoria, mulheres podiam herdar propriedade, mas isso raramente acontecia. Quando uma mulher casava, afinal, ela adotava o nome e, para todos os efeitos, a família do marido. Ela era uma extensão dele.

Longbourn, a casa dos Bennet, estava sob esse regime e, na ocasião da morte do Sr. Bennet, passaria para o Sr. Collins, de quem a família não era próxima. Nesse caso, a Sra. Bennet e suas filhas, se permanecessem solteiras, teriam de viver com 5 mil libras para… sempre. No começo do século XIX, muito antes das duas grandes guerras que abriram o mercado de trabalho para as mulheres de um jeito nunca antes visto, as ocupações possíveis para uma mulher de classe média para cima eram extremamente limitadas2; o casamento não era a única maneira de uma mulher ganhar dinheiro (por mais estranho que isso soe), mas era quase isso. O evento que coloca a trama de Razão e Sensibilidade em movimento era o grande pesadelo da Sra. Bennet: o Sr. Dashwood é obrigado a deixar toda a sua herança e propriedade para o filho mais velho, que não sente nenhuma culpa ao deixar suas três meias-irmãs à própria sorte com a mãe delas (e uma herança de sete mil libras para o resto da vida, o que não é tão dramático quanto parece).

“A Mrs. Bennet, a Miss Bennet, a Miss Bennet, a Miss Bennet and a Miss Bennet, Sir”.

É claro que a Sra. Bennet estava preocupada com ascensão social e em mostrar-se para a vizinhança. Nenhuma de suas filhas realmente precisava viver em um casarão como Netherfield ou muito menos Pemberley – na verdade, a própria Longbourn, muito mais modesta em relação às outras duas, já era um luxo. Mas a possibilidade do despejo e de serem abandonadas à própria sorte – porque elas sabiam que não poderiam contar com Collins – era muito verdadeira para todas elas, e aquele contexto de classe alta era o único que conheciam. Era dali que elas experienciavam o mundo e sentiam o que sentiam, temiam o que temiam. Um futuro incerto e meio obscuro: era isso que significava ser mãe de cinco filhas solteiras e muitos recursos naquela Inglaterra, especialmente quando não se tinha também um filho homem com o qual contar.

As Dashwood sobrevivem, têm uma herança e fazem um lar para si mesmas? Sim. A situação poderia ser infinitamente pior? Claro que poderia. Sejamos honestas: estamos falando de pessoas com ótima posição social, e havia milhões de outras pessoas realmente pobres na Inglaterra do século XIX. Mas ninguém acharia fácil ou agradável a perspectiva de ver a própria vida mudar do vinho para a água e, o pior, sem grandes possibilidades de voltar aos trilhos de maneira independente. Elas ainda precisariam sair em busca de um bom casamento, e para isso havia dezenas de regras e convenções sociais que as obrigariam a continuar frequentando os eventos da sociedade e se preocupando na imagem que projetavam em cada uma dessas ocasiões. A “inferioridade” de berço, como nos lembra habilmente o Sr. Darcy, podia ser um grande impedimento para um noivado. Embora a Sra. Bennet não entendesse exatamente como o morgadio funcionava, sua incredulidade em encarar um futuro em que a casa e seus rendimentos seria tomada de suas filhas – todas elas – se faz presente diversas vezes.

Enquanto cabem à Sra. Bennet todos os olhares enviesados por sua tolice, seu alpinismo social, sua vaidade e sua intromissão, ao Sr. Bennet a condenação parece ser mais branda, mas, como aponta Barbara K. Seeber, ele não escapou da pena de Jane Austen – e nem deveria. Morgadio, primogenitura, nada disso concernia a ele diretamente, já que, enquanto estivesse vivo, a propriedade estaria segura em suas mãos. Mas e o que dizer de seu completo distanciamento em relação ao futuro que esperava suas filhas? “A ‘filosofia’ do Sr. Bennet”, diz Seeber, “consiste em se ‘contentar em rir’ de sua esposa e filhas, ‘desfrutando da cena’ e até mesmo forjando cenas que aumentassem seu divertimento”. Para além de seu afastamento da família, seria dele, enquanto arrendatário da propriedade, a responsabilidade de gerenciar as finanças provenientes dela. No próprio texto de Jane Austen é destacada sua negligência em relação às questões financeiras e que ele poderia ter se preocupado em deixar em melhor situação sua esposa e filhas na ocasião de sua morte, e essa negligência é eventualmente percebida por ele mesmo, e desde o começo por Elizabeth.

As críticas reservadas à Sra. e ao Sr. Bennet são tanto para o que ambos representavam individualmente na vida e na trajetória de suas filhas quanto para o que eram enquanto um casal. Jane Austen não questionava a instituição do casamento em si, mas um sistema que o tornava praticamente obrigatório e a única alternativa para moças sem meios, o que dava origem a uniões construídas sobre bases pouco sólidas, como o puro interesse econômico. Mas mas não era só isso: um casamento como o dos Bennet, em que não havia nenhuma ligação em um nível intelectual ou sentimental mais profundo, é abertamente criticado, e uma união que não considerasse o aspecto econômico da coisa – como o de Lydia com Wickham – é percebida como igualmente tola. Ao mesmo tempo em que as heroínas de Jane Austen rejeitavam o casamento por conveniência, não é por acaso que todas terminam suas respectivas histórias em posições financeiras confortáveis (ou muito mais que isso), porque essa era, sim, uma preocupação prática importante. Uma personagem como Charlotte Lucas, por exemplo, desafia abertamente a visão de mundo de Elizabeth, que expõe sua incredulidade na escolha da amiga, e seu casamento não nos parece nada mais do que desolador. Mas Jane Austen também nos faz compreender que a posição de Charlotte era difícil:

“[…] os meninos [da família Lucas] se viram livres de sua apreensão de que Charlotte morresse solteirona. Charlotte, por sua vez, estava toleravelmente serena. […] O Sr. Collins sem dúvida não era nem sensato nem agradável; sua companhia era aborrecida, e sua ligação a ela deveria ser imaginária. Mas, ainda assim, ele seria seu marido. Sem estimar muito os homens ou o matrimônio, o casamento sempre fora seu objetivo; era a única provisão para moças solteiras de boa educação e pequena fortuna, e, por mais incerto que fosse quanto a oferecer felicidade, certamente era a mais agradável forma de evitar a pobreza.”

E, de fato, assim o era. É verdade que Sra. Bennet possui ares de caricatura e que suas ambições não eram de maneira alguma apenas impedir que as filhas passassem por qualquer tipo de necessidade – ela certamente gostaria de ser melhor e mais importante do que seus vizinhos e de frequentar casarões como Netherfield ou Pemberley como se fosse quase a dona da casa. Ainda assim: o que significava ser mãe de cinco mulheres solteiras sem dotes gordos e sem perspectivas financeiras significativas em plenos séculos XVIII e XIX? Certamente fazia parte da mistura um estado de preocupação constante, preocupação da qual um pai mais responsável e que carregasse dentro de si mais afeto por sua prole do que o Sr. Bennet compartilharia, ainda que nada disso fosse afetá-lo diretamente.

Seria ótimo, mas ninguém realmente precisa morar em qualquer versão dessa casa, né?

Embora chame a atenção o comportamento vergonhoso da Sra. Bennet, bem como sua falta de consideração sobre o tipo de vida que suas filhas levariam depois de proclamado o “eu aceito”, suas preocupações não eram infundadas, assim como a “ocupação de sua vida” era, quando olhada a fundo, muito séria, mesmo que as motivações de sua exagerada dedicação a ela nem sempre o fossem, mesmo que sua própria inconveniência pudesse na verdade impedir que seu objetivo se concretizasse para as garotas Bennet. Mas a incerteza que vinha dos vislumbres de um futuro sem herança, sem trabalho e sem independência era parte de sua situação, e foi assim que descobri que, naquele contexto e guardadas as devidas proporções, era possível entender a Sra. Bennet.


Notas:

1. A questão, como tudo que envolve o Direito, é bem mais complicada; é possível ler mais sobre isso no artigo de Luanne Bethke Redmond, “Land Law and Love”.
2. O artigo de Adriana Sales Zardini, “O universo feminino nas obras de Jane Austen”, explica as divisões de classe e também explora a posição social das mulheres que pertencessem à gentry (classe média, mas logo abaixo da nobreza), como a maior parte das heroínas de Austen.

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1 Comentário

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    Suellen
    15 de maio de 2017 at 19:10

    Uma ótima matéria!

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