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Sobre amizades e recomeços: Grace and Frankie

É muito difícil ver produções, tanto filmes quanto séries, que tratam da terceira idade de modo leve, com humor, sem aquele peso de que todo idoso tem que ser sábio e já ter vivido tudo o que podia e devia. Idosos ainda são pessoas e pessoas estão a todo momento crescendo, mudando de ideia, experimentando coisas novas. Grace and Frankie traz isso. Suas personagens poderiam ter 20 anos, ou 40 anos, mas na verdade elas já têm mais de 60.  Nenhum estereótipo da velhice as limitam, pelo contrário. Limite é uma palavra inexistente no vocabulário de Grace and Frankie, pois aqui tudo é possível e nunca é tarde demais para mudar e querer coisas novas.

Sair da “zona de conforto” é bem difícil, seja para jovens ou para pessoas mais velhas. Ser obrigada a começar de novo, reinventar novas tradições, novos hábitos, novas formas de viver é sofrido, é desgastante. Recomeços normalmente são forçados; nunca parte da própria vontade, pois é algo que é exigido, é algo que é preciso. Na linha do tempo que normalmente traçamos, temos a liberdade de nos reinventar, de começar tudo de novo desde o começo enquanto somos jovens. É na juventude que possuímos o direito de não saber como será o amanhã, é quando temos a liberdade de rejeitar o que nos é dado e inventar novas maneiras, novas tradições, novos estilos de vida. Depois de certo tempo, toda mudança fica mais desgastante e nos acomodamos mais facilmente. Isso é um clichê. Mas é tão mais fácil explicar a vida por clichês.

A série – produção recente da Netflix, já possui duas temporadas e foi renovada para a terceira, que sai em 2017 –, conta a história de Grace Hanson (Jane Fonda) e Frankie Bergstein (Lily Tomlin), que se conhecem há décadas, pois seus maridos são sócios em um escritório de advocacia. A proximidade, no entanto, nunca evoluiu para uma amizade, pelo contrário, Grace nunca foi muito fã de Frankie e vice-versa. Seus estilos são completamente diferentes, suas filosofias são opostas, assim como suas maneiras de ser e suas expectativas com a vida. A convivência das duas começava e terminava em obrigações sociais e algumas férias na casa de praia que seus maridos compraram em conjunto. E foi assim por mais de duas décadas, até que em um jantar com os dois casais, Robert Hanson (Martin Sheen) e Sol Bergstein (Sam Waterson) revelam às suas esposas que os dois mantém um caso amoroso por anos e decidiram contar e pedir o divórcio, pois querem aproveitar os últimos anos de vida estando oficialmente juntos.

Pode parecer que a série começa com um fim, o fim de dois casamentos, mas não: a série começa exatamente com um recomeço, pois é também o início de uma nova amizade, e uma amizade totalmente inesperada. Grace e Frankie perdem os maridos, mas ganham, na outra, uma amiga. Com todas as diferenças que as separam, tanto Grace quanto Frankie saem de seus lares e escolhem a casa de praia como refúgio, onde encontram o consolo e a chance de começar de novo.

Ironicamente, são as personagens mais velhas que sabem lidar melhor com os conflitos e mudanças em vez dos mais jovens. Os filhos dos dois casamentos, ao saber da notícia, se veem muito mais perdidos do que seus pais e, rapidamente – e talvez de forma egoísta –, se colocam no centro do problema. Uma das coisas mais legais da série é que ela nunca cai nos clichês que poderia cair. Nem Grace, nem Frankie vão se adaptar à nova vida segundo o que seus filhos acham melhor, elas vão criar algo novo, procurar outras formas de lidar com a perda e com a necessidade de se reinventar.

Sem medo de tocar em assuntos que são tabus, as duas novas melhores-amigas se ajudam a superar e a lidar com o fim do casamento e com os novos desafios. O arco de crescimento de Grace talvez é o mais significativo. Diferentemente de Frankie, Grace não tinha um casamento feliz. Focada no trabalho, ela construiu uma empresa de cosméticos na qual também era a garota-propaganda. No início da série, Grace acaba de ceder seu lugar como CEO para sua filha, Brianna (June Diane Raphael) e se prepara para a aposentadoria. Ela possui uma história semelhante à de muitas outras mulheres: casada muito jovem, dedicada ao marido e aos filhos e sem oportunidades para ser outra coisa. A partir da convivência com Frankie, Grace vai aos poucos percebendo que não precisa se limitar para encaixar em qualquer padrão e se permite experimentar, a ter novas experiências, desde chás alucinógenos ao sexo casual. Muito dos estereótipos atribuídos às mulheres de terceira idade são desconstruídos por Grace. Ela mostra que nunca é tarde para conhecer seu corpo, a conhecer pessoas novas – ou retomar relações passadas –, nunca é tarde para começar a amar, nem para sofrer.

Grace and Frankie

Frankie tinha outra relação com o marido, dificultando até para ele o divórcio. Ela e Sol, além de serem esposa e marido, eram amigos e é por causa da amizade que a separação se torna mais dolorosa. Adepta de um estilo de vida mais libertário, Frankie fala abertamente sobre drogas, sexo, masturbação, assuntos que Grace rejeita em um primeiro contato, mas aos poucos as duas conseguem estabelecer uma convivência mais tranquila. Frankie produz seu próprio lubrificante e incentiva Grace a explorar sua sexualidade enquanto Grace ajuda Frankie a superar Sol e a perceber que, às vezes, a distância de uma pessoa que se ama pode ser positiva.

Apesar do nome, Grace and Frankie vai além da relação das duas protagonistas. Na primeira temporada, se abrem várias tramas que envolvem os filhos, além da nova vida de Sol e Robert, que depois de 20 anos de traição e segredos, podem ser um casal abertamente. É importante também pensar que, apesar de ser positivo a presença de um casal gay da terceira idade, nada justifica o fato de que eles mentiram por duas décadas para suas esposas e que, mesmo eles sendo personagens pertencentes à comunidade LGBTQA, ainda são homens e ainda estão sob a lógica de mundo machista, sendo eles também vítimas do patriarcado. Por isso que o final da segunda temporada é bastante significativo. Sem revelar spoilers, Grace e Frankie, que ainda estavam sendo influenciadas pelos dramas dos outros e magoadas com os ex-maridos, decidem seguir juntas, apenas as duas, em sua nova empreitada. Os filhos já adultos e capazes de resolverem os próprios problemas, Sol e Robert juntos, casados e felizes e as duas amigas mais unidas e fortes, sem medo do futuro e de recomeços.

É bom não esquecer que todas essas descobertas, desafios, superações acontecem com pessoas de mais de 60 anos. A série não tem medo de colocar personagens da terceira idade em situações desafiadoras e que exigem desgaste emocional e físico. Grace e Frankie enfrentam obstáculos que pessoas de 20, 30 ou 40 anos também enfrentam e mostram que a juventude é muito menos anos vividos, e muito mais o jeito que se encara a vida. E mostra também que mesmo quando a situação está bem ruim, fica tudo mais fácil quando se está do lado de uma amiga.

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