LITERATURA

Só Os Animais Salvam: o que significa ser humano?

Só os animais salvam

Quando pensamos em guerra, dificilmente expandimos esse pensamento para além das perdas de vidas humanas, das cidades destruídas e dos prejuízos econômicos. Poucos são aqueles que olham para além de suas necessidades imediatas enquanto seres humanos para pensar, também, no que acontece com a natureza e os animais que acabam, por uma infelicidade do destino, cruzando o caminho dos conflitos armados propagados pelo homem. A premissa de Só Os Animais Salvam, livro da autora Ceridwen Dovey e publicado pela DarkSide Books no Brasil, é exatamente essa – imaginar como se sentem os animais pegos no meio das guerras, imaginar como eles contariam suas histórias e o que as faz tão especiais.

Guerras, via de regra, são um assunto essencialmente masculino. São milhares os filmes e livros com essa temática, sempre focando no lado mais sangrento dos conflitos e como são sempre homens os mocinhos e os vilões dessas histórias. Às mulheres são reservadas partes menores dessas narrativas, muito embora elas (nós) estejam sempre presentes. Para citar apenas alguns exemplos, estão aí os livros Testament of Youth, da autora britânica Vera Brittain, e A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, da autora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch –  duas produções, a primeira de 1933 e a segunda de 1985, que buscam trazer olhares femininos para uma narrativa sempre tão masculina. Em Testament of Youth, Vera conta, através de suas memórias, as histórias não apenas das mulheres que ficaram enquanto seus familiares se dirigiam para o front, mas também daquelas que se dedicaram ao Corpo Voluntário de Enfermagem, na Primeira Guerra Mundial; em A Guerra Não Tem Rosto de Mulher, Svetlana busca, por meio de seu livro-reportagem, destrinchar as histórias, em grande parte esquecidas, das mulheres soviéticas que estiveram na linha de frente durante a Segunda Guerra Mundial.

As histórias contadas por cada uma dessas mulheres são importantes para devolver as vozes àquelas que participaram de perto de cada um desses conflitos, em maior ou menor grau – e, como diz a própria Svetlana,“tudo que sabemos da guerra conhecemos por uma ‘voz masculina’”. O trabalho realizado por Ceridwen se relaciona de alguma maneira com esse silêncio imposto às mulheres – e a autora decidiu, então, por meio de sua própria voz, imaginar o que sentiriam os animais pegos no meio desses conflitos, narrando através de suas fábulas as vidas e mortes de cada um deles. Ceridwen não pretende, de modo algum, comparar o silêncio imposto às mulheres ao silêncio dos animais, mas busca conscientizar, por intermédio da ficção e das fábulas, como o homem interfere de maneira irreparável nas vidas daqueles que não têm escolha.

“Eles – os humanos, quero dizer – parecem acreditar que o que os separa dos outros animais é sua habilidade de amar, sofrer, sentir culpa, pensar abstratamente et cetera. Estão enganados. O que os separa é seu talento para o masoquismo. É aí que reside seu poder. Ter prazer na dor, tirar forças da privação, isso é ser humano.”

Só Os Animais Salvam é um apanhado de histórias, contos e fábulas que acompanham as narrativas das almas de dez animais mortos em conflitos humanos. Um marisco conta sua curiosa aventura com ares de Na Estrada, de Jack Kerouac, até morrer durante o bombardeio em Pearl Harbor em 1941; em outro capítulo, uma elefante narra a dura viagem que ela e sua manada fizeram em busca de um açude enquanto tentavam passar incólumes pela Guerra Civil de Moçambique em 1987. Cada um dos dez capítulos evoca um período diferente da história em que humanos entraram em guerra, sempre contados pelo ponto de vista da uma alma de um animal diferente.

“Um pensamento cruzou minha mente: por que os humanos escolhiam enxergar tantos animais nos arranjos das estrelas? Quem juntou os primeiros pontos?”

O mais interessante da narrativa de Ceridwen Dovey é que a autora nunca se prende a apenas um estilo no momento de escrever suas histórias. Só Os Animais Salvam tem fábula, carta, e até uma espécie de documentário – nenhuma narrativa é igual à outra e nenhum animal se expressa como outro. As fábulas modernas de Ceridwen surpreendem o leitor principalmente por adicionar em suas tramas figuras conhecidas do público geral – uma das histórias, por exemplo, é protagonizada pela tartaruga de Liev Tolstói enquanto, em outro capítulo, um golfinho fêmea pego no meio do conflito no Iraque escreve uma carta para Sylvia Plath. Esse realismo fantástico acompanhado da delicada narrativa da autora transformam a experiência de ler Só Os Animais Salvam em algo único – é um livro para ser relido de tempos em tempos, uma fábula por vez, a fim de se captar todas as mensagens colocadas nas entrelinhas, nos levando a refletir sobre como nossas ações, enquanto humanos, impacta diretamente nas vidas daqueles que não tomam as decisões.

Entre as histórias mais interessantes escritas por Ceridwen Dovey em seu livro, estão a jornada narrada no Capítulo 6, Alma de Tartaruga, e no Capítulo 7, Alma de Elefante. As duas histórias não poderiam ser mais diferentes uma da outra e, no entanto, foram as que me arrebataram mais facilmente. Mesmo que eu tenha me emocionado com a trajetória de cada animal personificado no livro — seja a gatinha na trincheira na Segunda Guerra Mundial ou o cachorro de um líder nazista — as narrativas da Tartaruga e da Elefante, no entanto, trazem um sentimento completamente novo. A história da Tartaruga talvez seja a mais “feliz” do livro, visto que ela consegue percorrer um mundo de possibilidades e persegue seu sonho inusitado de ser enviada para o espaço – começando a narrativa como companheira de um eremita, a Tartaruga chega inesperadamente na residência dos Tolstói, vive alguns anos com Virginia Woolf, passa um tempo com George Orwell e Tom Stoppard para depois entrar no programa espacial soviético durante a Guerra Fria. Se a fábula tem que trazer uma lição de moral, a Tartaruga nos ensina que não devemos nos sentir pequenos diante dos nossos sonhos, por maiores que eles sejam.

“É, mas você é um mundo por si mesmo, assim como eu”, ela disse. “Somos todos pequenos mundos.”

Se a trajetória da Tartaruga tem um viés positivo, o mesmo não pode ser dito da história da Elefante, que é de partir o coração em pedaços bem pequenos. O conto das elefantes gêmeas em Moçambique talvez seja a história mais bela de todo o livro ao evocar o amor fraternal entre as duas irmãs e entre todas as fêmeas da manada. Muito se diz sobre como os elefantes são animais inteligentes e que guardam muitas semelhanças com os seres humanos, e todo o conto de Eu, o Elefante comprova exatamente esse ponto. A história de uma país preso em uma guerra civil, uma população morrendo de fome e toda a jornada das elefantes é belamente escrita, demonstrando os laços que podem unir os animais tão fortemente quanto seres humanos.

Só Os Animais Salvam é um livro sensível e delicado que diz, sem meias palavras, o quanto nós, seres humanos, precisamos olhar mais ao redor e pensar no mundo como unidade. Nossas ações interferem diretamente nas vidas de milhares de animais e na natureza e, mesmo que tudo isso seja ficção, Ceridwen Dovey cumpre muito bem seu papel de instigar o pensamento do leitor ao fazê-lo enxergar a vida de outra maneira e com mais empatia. As dez histórias são muito bem-vindas ao destrinchar um ponto de vista inesperado sobre nossa espécie, colocando os animais como narradores e donos de si mesmos, seres que raciocinam e chegam a conclusões como qualquer pessoa. O livro proporciona uma leitura emocionante e que cativa, uma narrativa bela e singular que deixa um impacto duradouro em que o lê. No fim das contas, “talvez só os animais possam nos dizer o que é ser humano” e tenham contado com a inspirada narrativa de Ceridwen Dovey para nos fazer entender tudo isso.

O livro foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books. 


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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