LITERATURA

As histórias de Sherazade e por que ela deve ser reconhecida como uma das personagens mais importantes da literatura

Dentro das minhas perspectivas literárias, As Mil e Uma Noites era só mais um daqueles classicões elencados em listas como “1001 livros para ler antes de morrer” que eu iria ignorar sumariamente. A história começou a mudar quando eu dei de cara com um box novo da história a R$36,00 reais na Amazon e não resisti.

Confesso que depois que ele chegou na minha casa, passado o período de encantamento/felicidade clandestina, eu só o coloquei mesmo na pilha de não lidos e fiquei momentos a fio pensando no que tinha me dado na cabeça para que eu resolvesse comprar As Mil e Uma Noites a essa altura do campeonato. Eu nunca nem tinha me interessado por isso, por que é que promoções fazem essas coisas com a gente? Pois bem.

Calhou que, seguindo aquela máxima de que os livros caem na nossa mão na hora certa, dia desses eu terminei outro livro que estava lendo e resolvi pegar a famigerada coletânea de histórias árabes para ler uma ou duas enquanto esperava uma amiga terminar o livro que ela estava lendo para lermos o próximo juntas. Pois bem. De repente eu estava sentada de madrugada na cama, comendo o livro com arroz e farofa. Em dois dias li 140 noites. É isso que Sherazade faz com as pessoas.

Como tudo começou

O Sultão Shariar, após descobrir a traição de sua mulher, resolveu declarar ódio às mulheres. Matou não só a coitada como decidiu que mataria pelo menos 1000 outras, além de também ter decidido que nunca mais seria traído. Como ele juntou essas duas decisões? Resolvendo se casar cada dia com uma mulher e, então, mandar matá-la no dia seguinte, após a noite de núpcias.

Era uma carnificina completamente inaceitável, mas o povo só conseguia amargar e obedecer às ordens. Sherazade, filha do Gran Vizir de seu sultão (os Gran Vizirs são como os primeiros conselheiros, os braços direitos do rei) decide acabar com essa história. Ela implora para que seu pai a deixe desposar Shariar, prometendo que tem um jeito para acabar com isso. O pai, mesmo morrendo de medo de perder a filha, não consegue não conceder a ela o direito de tomar as rédeas da própria vida e assumir suas escolhas, e então a entrega ao sultão.

Tendo armado um plano com sua irmã Dinazade, ela pede ao novo marido que deixe a irmã dormir no quarto com eles, para que ela possa aproveitar sua última noite de vida com ela. A irmã, por sua vez, pouco antes do amanhecer, acorda Sherazade, lhe pedindo para contar “uma de suas maravilhosas histórias”. Sherazade começa a contar, mas para logo que o sol desponta. E o sultão não a mata, porque quer saber a continuação da história e, portanto, precisa esperar o dia seguinte. É assim que ela ganha a batalha: com sua palavra.

Tá mas… o livro é isso?

Sim, é isso. Uma mulher contando histórias para seu marido e sua irmã. Parece pouco interessante, mas não imaginava que as histórias árabes eram tão ricas, tão cheias de cultura e de detalhes. Cheguei a gargalhar enquanto lia algumas delas porque as confusões são narradas com tanta naturalidade que a gente tem vontade mesmo de rir na cara dos personagens. Ao mesmo tempo dá para se indignar bastante, como sempre acontece quando damos de cara com relatos dessas culturas mais antigas/extremistas. A forma como as coisas acontecem é muito louca: as pessoas matam e mandam matar pelos motivos mais aleatórios possíveis. A forma como as mulheres são tratadas então é de arrepiar os cabelos. Em uma das histórias, o homem esquarteja sua mulher porque acredita ter sido traído por ela, é assim que a banda toca.

Outra coisa que achei bem peculiar na cultura deles é a forma como as histórias contadas tinham um valor absurdo. Sempre que acontecia algo extremamente interessante, eles levavam a pessoa ao sultão para que ela narrasse o acontecimento e ele pudesse registrar em ouro “nos anais da história”. Eles também fazem muita barganha com histórias: em diversos momentos, os personagens, sendo ameaçados, imploram para serem absolvidos caso consigam contar uma história interessante.

Tudo acaba se tornando uma enorme meta-história, já que tudo o que acontece é narrado por Sherazade para Shariar e Dinazade e, dentro dessas narrativas, os personagens vivem e contam muitas outras histórias. São inúmeros desdobramentos.

O que a gente aprende com isso?

Primeiramente, que As Mil e Uma Noites, além de ser um clássico, devia ser levado mais em consideração nas listagens das grandes personagens femininas da história e, por que não?, feministas! Tudo bem que o que encontramos nas páginas é um arsenal de machismo e mulheres sendo mortas à toa, mas não dá para apagar a importância e o empoderamento de Sherazade, ainda mais levando-se em conta que essa história foi escrita/reunida há séculos.

Pensar que já lá pelo século IX foi criada uma personagem que carrega sororidade e coragem no âmago de seu útero e resolve se colocar em situação de sacrifício pela chance de salvar a vida de outras mulheres e parar com aquele ciclo absurdo de mortes, me soa como algo extremamente importante e positivo. Sherazade talvez seja a primeira grande heroína da literatura – e, na minha cabeça, tudo fica mais lindo ainda quando eu penso que ela deteve um déspota e preveniu mais de 1000 mortes de mulheres sem encostar numa espada. Além da lição de feminismo, fica gritando na minha cabeça aquela máxima de que é realmente com palavras que se ganha uma guerra. A arma de Sherazade foram histórias belíssimas que ela contava como ninguém, mesmo enquanto carregava aquele medo absurdo do homem simplesmente desistir de ouvir e mandar matá-la no dia seguinte. Quer saber o que é adrenalina, pergunte a essa mulher. E eu garanto que ela vai ter a maior paciência para te contar.

Ilustração por Raquel Thomé.

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1 Comentário

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    Ana Cristina
    19 de outubro de 2017 at 11:43

    Nossa!!!
    Adorei…
    Parabéns…!

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