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San Junipero não é tão Black Mirror

Não existem finais felizes em Black Mirror. A exceção a essa regra, talvez, seja “San Junipero”, o quarto episódio da terceira temporada. Foi o único episódio cujo final não me deixou angustiada, decepcionada ou indignada.

Atenção: o texto contém spoilers! 

Na verdade, “San Junipero” me deixou surpresa. Surpresa porque, na ficção, é muito difícil que um casal de lésbicas terminem bem (e vivas) – Naomi (Lily Loveless) teve câncer, Callie (Sara Ramírez) foi embora, Piper (Taylor Schilling) sempre vacila com a Alex (Laura Prepon); enfim, casais compostos por duas mulheres acabam tendo destinos meio trágicos na ficção e dificilmente acabam juntas.

Mas, o mais interessante sobre a maneira com a qual Black Mirror tratou o casal formado por Yorkie (Mackenzie Davis) e Kelly (Gugu Mbatha-Raw) é naturalidade com que elas se envolvem. Yorkie é uma jovem inexperiente e virgem que está em San Junipero pela primeira vez, enquanto Kelly, que perdeu seu marido e filha, viveu um monte de relações sem romance durante o tempo que esteve em San Junipero. E, quando elas começam a flertar, nenhuma delas estranha o fato de se sentirem atraídas por uma mulher – ambas já estão bem resolvidas com suas sexualidades.

O dilema vivido pelas personagens é muito maior do que a mera descoberta de suas sexualidades e, mesmo que o casal fosse heterossexual, o roteiro principal ainda se manteria igual. O que é raro quando se trata de personagens gays ou bissexuais, que normalmente têm sua sexualidade como principal característica acerca deles nas narrativas ficcionais.

Mas a questão é que existem pessoas que fogem ao padrão heteronormativo totalmente bem-resolvidas com suas sexualidades, e que existem e vivem histórias e dilemas como todos os outros. E é muito bom ver isso representado em uma série de alcance tão grande quanto é Black Mirror, porque filmes, séries, novelas e livros, enfim, todo conteúdo ficcional acaba por trazer novas questões para a sociedade e para ajudar a desconstruir velhos preconceitos e tabus.

No entanto, ao mesmo tempo que Black Mirror acerta em tratar com naturalidade o relacionamento entre duas mulheres, ela também reforça, de certo modo, o tabu sobre a sexualidade de pessoas idosas. Fisicamente, Yorkie e Kelly se encontram e não há nada de romântico em seu encontro e, apesar de Kelly demonstrar lealdade à parceira, mais tarde ela evidencia que o casamento delas foi só pra ajudar Yorkie a se libertar de seu corpo físico e partir, de vez, para San Junipero. O amor das duas existe, de maneira romântica e sexual, em uma realidade virtual apenas, enquanto no plano “real”, ele não passa de uma relação cortês e afetuosa e não só pela condição física de Yorkie, mas também pela maneira como Kelly, o tempo todo, separa o que vive de San Junipero do que acontece fora de lá.

 

E, pensei bastante sobre o final do episódio. Existem teorias que alegam que Kelly foi criada pelo programa pra permanecer lá com Yorkie. No entanto, por que nunca foi mencionada a possibilidade do programa recriar a família de Kelly? Acredito, por isso, que Kelly realmente escolheu permanecer em San Junipero, à despeito de suas crenças na possibilidade de haver uma vida pra onde ela iria com sua filha e marido. Acho que essa concepção pode querer dizer que Yorkie era algo fugaz em relação ao seu antigo amor (heteronormativo, diga-se de passagem), juntamente com as festas de San Junipero e a juventude eterna na qual Kelly poderia viver.

Apesar de todas as dúvidas que restam sobre Yorkie e Kelly, não se pode negar que “San Junipero” é um episódio que acertou na representatividade de casais homossexuais, mostrando que eles existem e explorando a fundo outras características de suas personalidades que não sua sexualidade e, ainda, dando às duas um final que, à primeira vista, parece feliz.

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