LITERATURA TV

Sailor Moon: uma história de representatividade e sororidade

Se você foi criança no início dos anos 1990, não deve ter passado ileso pelo boom dos animes exibidos na televisão brasileira, capitaneado pela extinta Rede Manchete. Por meio dessa emissora, muitas crianças tiveram seu primeiro contato com os desenhos animados japoneses, popularmente conhecidos por animes. Eu fui uma dessas crianças, diga-se de passagem, e era capaz de ficar horas inteiras assistindo Cavaleiros do Zodíaco e Shurato, mas meus olhos brilhavam mesmo quando era a vez de Sailor Moon.

Sailor Moon, cujo título original no Japão é Pretty Soldier Sailor Moon, teve sua história de origem nos mangás, os quadrinhos japoneses. Escrito e ilustrado por Naoko Takeuchi entre os anos de 1992 e 1997, Sailor Moon foi o título a dar nova força e popularização ao gênero magical girl – que é o termo utilizado para categorizar obras de anime e mangá onde há jovens personagens femininas com poderes mágicos – sendo responsável por revitalizar o gênero que até então carecia de títulos inovadores. A partir de Sailor Moon e seu sucesso de público e crítica, outras histórias de mesmo gênero foram surgindo, tais como Guerreiras Mágicas de Rayearth, de autoria do grupo feminino CLAMP, e Fushigi Yûgi, da mangaká Yuu Watase.

A premissa da história é bem simples. Usagi Tsukino (Serena, na versão brasileira) é uma jovem de catorze anos, um pouco bobinha, chorona e comilona, que leva a vida normal de uma adolescente japonesa: vai à escola (ok, chega atrasada à escola), sofre por amores platônicos e mora com seus pais e irmão caçula. Porém, toda essa vida simples muda de um dia para o outro quando, a caminho da escola, Usagi salva uma gatinha preta que estava sendo maltratada por um grupo de garotos. A gatinha resgatada, que tem o símbolo de uma lua crescente na testa, se chama Luna e revela a Usagi que ela está destinada a ser Sailor Moon, a guerreira do amor e da justiça responsável por proteger a Terra das forças do mal. Por sorte, Usagi não tem que enfrentar as forças do mal sozinha, e no decorrer da história ela encontra outras garotas com o mesmo destino e poderes mágicos diversos. A inovação no enredo elaborado por Naoko Takeuchi reside exatamente nesse ponto: Sailor Moon foi um mangá pioneiro ao criar o conceito de um grupo exclusivo de garotas capaz de combater inimigos sem a ajuda de uma figura masculina. Ok, nós temos o Tuxedo Mask, mas seu papel é muito mais o de dar suporte emocional do que salvar as garotas (coisa de que elas, definitivamente, não precisam). Naoko Takeuchi uniu em sua obra o gênero magical girl com o super sentai – gênero em que o foco da história é justamente um grupo de heróis predestinados – transformando Sailor Moon na primeira série a combinar os dois e focar no desenvolvimento das garotas enquanto amigas e equipe.

Mas o que, você me pergunta, tem de tão especial em uma equipe de guerreiras formada apenas por garotas?

2016-04-30-2

Se você consome cultura pop regularmente, em qualquer forma que seja, deve ter notado que equipes exclusivamente femininas não eram (e ainda não são) comuns. Podia-se mesclar garotos e garotas, mas até então não havia nada como Sailor Moon. Além do grupo feminino, cada uma das personagens possui características, sonhos e poderes próprios, criando um tom de diversidade na série capaz de acolher as mais diferentes meninas (e meninos) que estivessem acompanhando a história, em forma de mangá ou anime. Temos meninas baixas, altas, loiras, morenas, ruivas, de cabelos azuis e cor de rosa. Meninas fofinhas, meninas femininas, meninas tomboy. Meninas que gostam de meninas, meninos que se transformam em meninas, meninas que só gostam delas mesmas, meninas transgêneros. Meninas que sonham em se casar, meninas que sonham em ser médicas, meninas que sonham em ser popstars. O nível de diversidade em Sailor Moon é incrivelmente progressivo para a época em que a história foi escrita, empoderando meninas para que elas pudessem ser quem quisessem. A mensagem maior em Sailor Moon é justamente essa: independente do que você seja, de quem você seja, seu futuro é seu para pegar e fazer o que quiser com ele.

Em um primeiro momento Sailor Moon passaria facilmente como “mais uma história para garotas”, com seu enredo de amizade e coragem (que é um ótimo enredo, não me entenda errado), mas se você olhar mais de perto irá perceber que as diferentes personalidades apresentadas são complexas e até mesmo seus vilões são trabalhados de forma coerente e diversa. Esse tipo de representação em Sailor Moon foi um dos motivos pelos quais a série se tornou um ponto tão marcante na história do anime e do mangá. Em uma recente série de documentários lançado pela Vice chamado American Obsessions, há um capítulo especialmente dedicado à Sailor Moon que explica como o anime ajudou crianças norte-americanas que passavam por questões de identidade, gênero e aceitação. Com personagens tão diversos quanto a existência humana, Sailor Moon conseguiu trazer conforto para um grupo de crianças que até então não entendia o que se passava com elas. Mesmo que as versões exibidas no país tenham trabalhado para tentar esconder a orientação sexual de alguns personagens mascarando o romance para que parecesse com uma relação familiar (olha que ideia! E, o pior: o mesmo aconteceu no Brasil), Sailor Moon, muito provavelmente, foi o primeiro contato que muitas crianças tiveram com casais do mesmo sexo. Eu mesma, por exemplo, não me lembro de ter notado algo do tipo em outras produções onde tais relacionamentos fossem parte do cânone como acontece em Sailor Moon.

2016-04-30

Outros pontos que fazem de Sailor Moon uma obra tão importante são o feminismo e a sororidade presentes em seu roteiro. Desde o início, quando o primeiro grupo de cinco sailors senshi se formam, vemos como as meninas se ajudam e sempre estão lá quando uma precisa da outra. Não tem isso de competição, de briguinha (além daquelas saudáveis discussões entre amigas, óbvio), de intriga. Todas são amigas, todas se apoiam e cuidam umas das outras. E isso é lindo de se ver por que nem sempre as mídias pop conseguem, ou querem, representar a amizade feminina de uma maneira positiva e preferem colocar personagens mulheres para competirem umas com as outras (e, geralmente, para competirem umas com as outras por causa de um cara). Sailor Moon ensina sua audiência desde o início que amizade entre mulheres é possível e é a melhor possível, basta deixar de acreditar nos padrões impostos pela mídia. O quão raro é encontrar histórias inteiramente de mulheres feitas para mulheres? O quão raro é encontrar histórias em que representatividade importa, que amor é amor independente de gênero e orientação sexual? O quão raro é encontrar histórias em que a amizade feminina é real e repleta de amor genuíno?

Com 20 anos de sua primeira transmissão no Brasil completos no dia 29 de abril, Sailor Moon continua uma história atual e empoderadora para meninas. Em uma embalagem bonita e atraente, o enredo desenvolvido por Naoko Takeuchi em cinco anos de mangá – além das temporadas do anime, live action e musicais –  mostrou que o girl power e a amizade verdadeira entre garotas é real e algo do qual se orgulhar.

Posts Relacionados

18 Comentários

  • Responda
    Couth
    2 de Maio de 2016 at 11:17

    Amo Sailor Moon! Reli o mangá depois de adulta, e amei trinta mil vezes mais. Também sempre achei maravilhosa a inclusão e a diversidade dele, e lembro de ter ficado tipo uau omg meninas podem namorar? quando assisti pela primeira vez enquanto menina! Especialmente por eu ser de Aquário e ser a Sailor Urano hahahah

    Aliás, vamos ser amigas, por favor?

    Beijos

    • Responda
      Thay
      2 de Maio de 2016 at 12:07

      Reli o mangá depois de adulta e fica realmente ainda mais incrível! Dá pra notar tanto discurso empoderador que a gente não entende completamente quando mais nova, é lindo. E Sailor Urano é puro poder, ADORO! E CLARO, vamos ser amigas, vou amar! <33

  • Responda
    Maria
    3 de Maio de 2016 at 11:47

    Comecei a ler o mangá no começo do ano e desanimei pelas adversidades da vida né (mas um dia termino, juro!) e pude perceber tudo isso. Um outro anime que deixa isso muito claro (exceto a questão da sexualidade e identidade de gênero) é Mahou Shoujo Madoka★Magica (a versão de 12 episódios). Embora haja uma certa intriga, não é por causa de macho, e sim por um motivo super válido que não vou revelar, hehehe.

    Enfim. Ótimo texto. Sailor Moon realmente é um mangá que vale a pena ser lido, de mulher para mulher.

    • Responda
      Thay
      3 de Maio de 2016 at 13:27

      Termine sim, Maria! Sailor Moon é uma história incrível, merece muito ser lida e guardada no coração. Ainda não assisti Mahou Shoujo Madoka★Magica, mas já li alguma coisa sobre e realmente tem muito de Sailor Moon na história – o que não é uma crítica, mas mostra que eles beberam da fonte certa. ;D

  • Responda
    Giulia
    3 de Maio de 2016 at 18:38

    Nunca li o mangá de Sailor Moon mas amo o anime! Lembro de ficar acordada sábado até 1AM – super transgressora – para esperar o Sailor Moon Stars começar no Cartoon.
    Os mangás/animes sempre uma preocupação maior sobre as minorias que os demais desenhos como, por exemplo, sempre ter um casal gay. <3

    Seu post me deixou com vontade de rever tudo 🙂

    Beijos,
    Giulia | http://www.1livro1filme.com.br

    • Responda
      Thay
      3 de Maio de 2016 at 19:14

      Oi Giulia! Se você tiver a oportunidade, leia o mangá! Algumas coisas são diferentes do anime clássico, mas a essência é a mesma. E você tem razão, os animes e mangás costumam ser muito mais inclusivos do que os outros tipos de animação, e isso vem de anos. Sabe que até eu estou pensando em rever as temporadas clássicas? Tem o reboot correndo agora, Sailor Moon Crystal, mas os antigos episódios tem gostinho de nostalgia. <3

      • Responda
        Giulia
        5 de Maio de 2016 at 10:55

        Não sabia que tava rolando reboot!
        Sim, os antigos tem gostinho de nostalgia, estou com muita vontade de revê-los ou ler os mangás 🙂

        • Responda
          Thay
          5 de Maio de 2016 at 11:03

          Dá uma procurada no Crunchyroll, você assiste online e de graça, com legendas em português. Essa versão, inclusive, é bem mais fiel ao mangá, acho que vai gostar! <3

  • Responda
    yasnaya
    5 de Maio de 2016 at 09:53

    Ahhh que aquecidinha no coração ♥
    Que post lindo.
    Só por causa disso vou desenhar hehehe matar um pouco da saudade!!
    Nem enxergava isso tudo sabe, até porque faz tanto tempo que assistia e era uma kid, mas voltarei pela interwebs e vou assistir de novo ebaaaaaaaa
    Grande texto, vou compartilhar pela vida.

    • Responda
      Thay
      5 de Maio de 2016 at 10:12

      Obrigada, Yasnaya! <3
      Confesso que só fui perceber todas essas nuances da história depois de grandinha, quando li o mangá pela primeira vez e revi o anime. WOW! E você desenha? Adoraria ver! *-*

  • Responda
    Fernanda Abarca
    15 de Maio de 2016 at 19:48

    Nossa! Quando criança eu assisti apenas o anime clássico, e depois de adulta re-assisti, pude ler o mangá, além de estar acompanhando o reebot. Sailor Saturn é a minha favorita, pois é fisicamente a mais fraca do grupo, porém com um poder mágico descomunal que em situações extremas ultrapassa o poder de Sailor Moon!!! Hoje em dia, mais acordada para a questão da representatividade, sinto falta de uma salior negra (Pluto não é negra, ok? Como eu já ouvi), de uma sailor que usasse óculos e de uma gordinha. Mas admito que para a época, a tia Naoko foi muito, mas muito cuidadosa com a representatividade do elenco

    • Responda
      Thay
      15 de Maio de 2016 at 20:20

      Você tem razão, Fernanda! Em algumas fontes já vi informações sobre a Pluto (que é a minha favorita por sinal) ter descendência armênia por conta da pela escura (isso aparece principalmente em algumas ilustrações dos artbooks oficiais), mas nunca vi nenhum pronunciamento por parte da tia Naoko. No mangá a Ami usa óculos às vezes, e o Mamoru também, mas entendo o que você quer dizer sobre a representatividade, seria legal ter uma diversidade maior, mas pela época tia Naoko foi, de fato, bem cuidadosa com sua criação. <3

  • Responda
    Fernanda Abarca
    15 de Maio de 2016 at 20:18

    Ah! Acabei esquecendo de mencionar no comentário anterior, mas outra coisa inovadora em Sailo Moon é o conceito de família. As únicas que possuem famílias tradicionais, com pai e mãe (e eventualmente irmãos) são a Usagui, a Chibiusa e a Minako. Makoto mora sozinha, Ami mora com a mãe que é divorciada do pai, Rei é orfã e mora com o avô, Haruka e Michiru são um casal lésbico e moram juntas e que posteriormente adotam Hotaru como filha e Setsuna, a mais velha do grupo, que no cânone é descrita como uma mulher de aparentes 30 anos (aparentes, já que ela é praticamente imortal) não têm a pretensão de filhos e acaba sendo “madrinha” de Hotaru e Chibiusa 🙂

    • Responda
      Thay
      15 de Maio de 2016 at 20:24

      Esse é um ponto que eu adoro na construção do enredo em Sailor Moon. Além dos diversos tipos de personalidades e características, também temos diferentes configurações familiares e nenhuma delas é tida como a “certa” ou “ideal”. É aquela velha história, amor é amor, e pronto! Ah, por isso adoro tanto Sailor Moon. <33

  • Responda
    Nathalia Munhoz
    26 de julho de 2016 at 11:09

    Quando falam de Sailor Moon o coraçãozinho bate mais forte! <3 Acho que foi uma das minhas primeiras paixões de infância. Nunca li os mangás, mas assisti várias vezes o anime e tenho todas as temporadas no computador. Ontem mesmo terminei de assistir a nova série, Sailor Moon Crystal, e gostei bastante também. Achei que ficou com uma pegada mais adulta. Até a Chibiusa tá legal nessa temporada nova, e eu sempre achei ela bem chatinha e pentelha, haha. O que eu gosto em Sailor Moon é que todas elas precisam umas das outras, e ressaltam as qualidades umas das outras, valorizando o que elas tem de melhor. Sempre quis ter um grupo de amigas assim como as da Usagi <3

    • Responda
      Thay
      26 de julho de 2016 at 12:13

      Se tiver a oportunidade, leia o mangá! Crystal foi embasado no mangá e, por isso, realmente é uma história mais adulta e madura. Como fã tenho um carinho imenso por todas as versões: o anime clássico, por ter me apresentado a essa história incrível, ao mangá, que é maravilhoso por si só, e o reboot, por trazer novamente aquela sensação deliciosa que é assistir um episódio de Sailor Moon. <3
      E, nossa, tem razão, o grupo de amigas da Usagi é fantástico, né? Isso sim é um squad fabuloso!

  • Responda
    adriana
    18 de agosto de 2016 at 15:41

    Eu adoro sailor moon ,desde o primeiro EP olha que quando passou eu não era mas nenhuma criança. Ver a serena e a rei brigando, E SE amando daquele jeito era incrível . sem falar no amor de serena e darien sonhava com um amor igual que enfrenta tudo e todos ,afinal e o que nós todas quer um amor verdadeiro . afinal amor e amigas verdadeiras e tudo o que desejamos.

    • Responda
      Thay
      18 de agosto de 2016 at 17:45

      Relationship goals, de fato!

    Deixe um Comentário