LITERATURA

Rupi Kaur e seus outros jeitos de fazer poesia

Existe toda uma nova geração presente. Uma geração de mulheres que se fortaleceram por ler, ouvir e ver relatos de outras na internet. Toda uma geração de filhas, irmãs e mães que aprenderam a usar a grande world wide web como uma ferramenta para a libertação: dos preconceitos, do machismo, da estrutura patriarcal que a sociedade nos impõe, fazendo com que tenhamos vergonha e medo de falarmos de coisas como nossos processos naturais, como a menstruação, e também de nossos medos, inseguranças e incertezas. Toda uma nova geração de mulheres que se uniram, que formaram uma grande cadeia feminista e que usa as redes sociais para falar de traumas, abusos e experiências traumáticas que antes só eram contadas ao travesseiro. Entre essas mulheres podemos encontrar Rupi Kaur.

Rupi é uma indiana de 24 anos que foi morar no Canadá quando ainda era criança e desde sempre foi pessoa artista: que escreve e desenha. Sendo gente como a gente, tendo crescido com a internet ali ao lado, um dia começou a usar o instagram para postar seus poemas ilustrados. Quando se deu conta, estava com milhares de seguidores.

O sucesso repentino de Rupi não deveria ser nenhuma surpresa pra nós, filhotes da internet. Ainda mais porque ele se deve à arte dela, à capacidade de conseguir poetizar o cotidiano da mulher contemporânea. Os poemas que nos ensinam na escola sempre tiveram voz masculina. Quando falavam de sentimentos, eram sobre o desejo por uma mulher bonita ou a perda de outra, mas eles não descreviam a nossa vida. Nós aprendemos que os verdadeiros poetas são aqueles que têm método, que possuem ritmo e métrica. Por muito tempo, tivemos a visão errônea de que poesia é aquilo que rima e fala de amor. Quando essa nova geração, que cresceu com o boom da internet, vendo a palavra do feminismo finalmente se espalhar, começou a usar as redes sociais, surgiram novos tipos de poesia, e nisso temos os instapoets, poetas de instagram, como Rupi.

A poesia dela, longe de ser estática e fria, é feita de várias formas: tanto através de versos sem rimas quanto de seus fortes e simples desenhos, que permeiam seus poemas, como também com seu corpo, através de projetos fotográficos. Foi numa dessas que, em 2015, o instagram removeu uma foto dela de sua conta por infringir os termos de uso. A foto em questão fazia parte de um ensaio que Rupi fez, com sua irmã, para a faculdade, chamado Period (Menstruação), retratando uma mulher durante seu período menstrual, numa situação normal que já ocorreu a todas nós: uma calça manchada de sangue. Quando isso ocorreu, Rupi disse:

Não vou me desculpar por não alimentar o ego e o orgulho de uma sociedade misógina, que não aceita um pouco de sangue, quando as páginas do instagram estão cheias de fotos e contas com mulheres (muitas menores de idade) que são objetificadas e tratadas como menos do que humanas”.

Nessa época, Rupi já era poetisa, mas passou a ter mais reconhecimento com esse episódio, quando as pessoas se deram conta de que a manifestação artística dela era também uma forma de protesto contra a sociedade patriarcal que não dá liberdade às mulheres para que elas sejam quem são e falem do que quiserem falar.

Recentemente, seus poemas foram publicados pela editora Planeta no livro Outros Jeitos de Usar a Boca (Milk and Honey, no original), e eles causam profunda comoção e fazem muita gente, de várias as partes do mundo, conhecer e seguir essa moça indiana que, apesar da diferença cultural, nos toca lá no fundo. Podemos nos perguntar por que isso acontece, mas a resposta é simples: porque ler Rupi é como ter uma conversa honesta consigo mesma. E também porque estamos tão saturadas de arte que nos sexualiza, que nos coloca estereótipos, que cria mulheres perfeitas como modelos que jamais conseguiremos atingir, que quando vemos uma mulher falando sobre coisas reais, como menstruação, a dor de uma perda e se sentir inferior a todas as pessoas apenas porque existe um padrão no qual não nos encaixamos, isso chama a atenção.

Outros Jeitos de Usar a Boca é cru. É se olhar no espelho verdadeiramente, após anos de traumas, de violências e de silêncios, e perceber que você é mulher, que você pertence a si mesma e que tudo aquilo pelo que você passou faz parte de quem você é. É admitir que não está tudo bem ser abusada, violentada e não poder falar sobre para não ferir a moral e os bons costumes. Admitir que dói ter um pai alcoólatra e que isso não lhe faz menos forte, mas sim humana.

o problema de ter
um pai alcoólatra
é que um pai alcoólatra
não existe
simplesmente
um alcoólatra
que não conseguiria ficar sóbrio
tempo o suficiente para criar os filhos

O livro é dividido em quatro partes: a dor, o amor, a ruptura e, finalmente, a cura. Cada um deles possui poemas que parecem dialogar abertamente com a construção do que é ser mulher no mundo em que vivemos. Na primeira parte, a dor, Rupi colocou talvez os poemas mais fortes de todo o livro, que descrevem estupros, abusos de todos os aspectos e a violência contra a mulher. É muito difícil ler três páginas sequer dessa parte sem sentir todo o peso que é viver num mundo que ainda tenta nos calar e nos subjugar.

o estupro
vai te rasgar
ao meio
mas
não vai ser
o seu fim

Numa linguagem extremamente simples, sem pontuações ou letras maiúsculas, sem nem ao menos rimas, Outros Jeitos de Usar a Boca é um relato de sobrevivência em forma de versos, relato que nos faz abrir os olhos pra muitas violências que vivenciamos e não nos damos conta. Rupi tem dado voz à nova geração de escritoras, que se fortalece e sai dos padrões para encontrar o seu próprio estilo de falar a verdade: ser mulher dói, mas nós sobrevivemos.

todas nós seguimos em frente quando
percebemos como são fortes
e admiráveis as mulheres
à nossa volta

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1 Comentário

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    Maria Celeste Miranda
    6 de junho de 2017 at 00:10

    Excelente relato sobre a vida sofrida das mulheres, essas guerreiras desconhecidas! Vou procurar o livro fiquei com curiosidade e a sua autora, Rupi Kaur apesar de muito nova, veio desmistificar todos os tabus que existem sobre a mulher. Fico com a esperança que sejam os jovens que tragam luz sobre a igualdade e o respeito para toda a humanidade!

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