CINEMA

Shippando Reylo e a reafirmação de tropes românticas tóxicas

Quando assistimos ou lemos qualquer produto que nos é entregue pela cultura pop, ou até por produções clássicas, é inevitável não cair na tentação de torcer por determinados personagens ou acontecimentos. Isso se intensifica quando há um casal envolvido, claro. O mundo em que fomos criados e no qual desenvolvemos nossas relações diariamente nos molda para buscarmos um par romântico em cada situação e momento. Não encontrar alguém para passar o resto da vida junto só pode ter um interpretação possível: fracasso. Por isso, não é surpresa que projetamos esses desejos despertados em nós para manter o status quo nos produtos que consumimos.

Os chamados ships (denominação derivada de “relationship”, relação em inglês) são o que movem grande parte dos fandom nos tumblrs e twitters internet afora. Os debates são apaixonados, intensos e, por vezes, irracionais. Defender o OTP (one true paring) acaba se tornando quase que um hobby, uma maneira de expressar seus gostos e identificações, além do desejo por uma trama rica, complexa e que apresente elementos instigantes e repletos de drama. Todo produto midiático que se preste precisa ter um bom ship.

Com a franquia Star Wars não seria diferente. Seu histórico e contribuições para a cultura pop e para a sociedade dispensam apresentações, afinal, toda uma geração cresceu e formou seu caráter tendo como referência Darth Vader, Luke, Han e Leia e a luta entre o lado sombrio e luminoso da Força. Os ships são também parte essencial desse universo: Anakin e Padmé, Han e Leia e, mais recentemente, com o lançamento da nova trilogia, Rey e Finn, Finn e Poe, Poe e Rey, e Kylo Ren e Rey.

Esse último tem dado o que falar com a chegada do Episódio VII aos cinemas, em dezembro de 2017. Os Últimos Jedi dá sequência a trajetória do novo trio iniciada em O Despertar da Força, responsável por introduzir um relacionamento deveras interessante entre Rey (Daisy Ridley) e o alter ego de Ben Solo, Kylo Ren (Adam Driver). Com cenas que “prepararam o terreno” para o que estava por vir em Os Últimos Jedi, o Episódio VI despertou uma legião de shippers para Reylo.

Na história comandada pelo diretor Rian Johnson, o apelo pelo casal praticamente triplicou visto que temos uma trama baseada não apenas na jornada de Rey em busca de um Luke Skywalker (Mark Hamill) aposentado, mas também da necessidade de descobrir seu lugar no mundo e na guerra que está lutando para que, assim, possa seguir adiante, completando sua jornada do herói. E é neste momento que seu destino é irreparavelmente amarrado ao de Kylo Ren, que também luta contra sentimentos e emoções turbulentas após assassinar o próprio pai.

Luz versus escuro. Heroína versus vilão. Bem versus mal. O tão famigerado equilíbrio da Força se reflete, de forma poética até, na relação entre Kylo e Rey, que encontram no outro um ponto de apoio em um momento crítico de suas vidas. “Os oposto se atraem” é, possivelmente, o maior clichê sob qual um romance é sedimentado na cultura pop. E o que pode ser melhor do que os representantes de duas forças contrárias, que lutam há anos em uma guerra que já deixou um rastro inigualável de destruição por toda a galáxia, desenvolverem uma relação baseada nisso, certo? Nem tanto.

Na mesma velocidade e proporção que a internet se tornou um local povoado por Reylos shippers também vieram aqueles que problematizam a construção romântica que envolve os personagens. Pois seria, afinal, Reylo abusivo?

Um dos primeiros contatos entre os dois acontece em uma cena em que Kylo tortura Rey para obter informações sobre a Resistência. A cena, vista por muitos como intensa e cheia de tensão sexual, reflete um momento de dominação de um homem sobre uma mulher, que está em uma posição de vulnerabilidade extrema. O diretor do longa, J. J. Abrams teria até, supostamente, confirmado a impressão de um fã de que a cena conteria um subtexto de abuso sexual, denominado como “mind rape.

Os Últimos Jedi acertou especialmente no desenvolvimento de Kylo não apenas como vilão, mas também como personagem, ao humanizar sua jornada e motivações, lhe atribuindo uma backstory cheia de camadas e artifícios morais e emocionais complexos. Com isso, a ligação dele com Rey ganhou força e mais espaço na telona, o que implicou, inclusive, no surgimento de um romance explícito entre os dois ao colocar Rey como o pivô das revelações entre Ben Solo e Luke, e como ponto de suporte para Kylo e vice-versa.

Se no primeiro filme Rey estava diante de Kylo confusa e vulnerável fisicamente, na sequência da trilogia essa fragilidade se apresenta de forma emocional. Após a morte de Han (Harrison Ford), com Finn (John Boyega) em coma, ela parte em busca do herói que acredita ser a única esperança da Resistência, mas também a única esperança para si; alguém que pode lhe dar respostas e ajudar a entender o que é essa força que não estava antes lá, mas agora domina todas as suas ações. Quando tudo o que ela encontra é um beco sem saída, o roteiro a leva para a única pessoa que é capaz de compreender o que ela está passando e vivenciando.

Kylo é um personagem cheio de nuances, com um espectro que varia do tom mais escuro até beirar a cor mais clara, para se dizer o mínimo. E ninguém está desmerecendo sua trajetória cheia de figuras controvérsias e formadores de caráter ausentes e tão problemáticas quanto a pessoa que ele se tornou. Contudo, como na reflexão publicada acerca do ship pelo site Nebulla, “Kylo não quer alguém com quem dividir a vida, ele quer uma companheira que lhe forneça afirmação, amor na forma de validação da sua superioridade perante os outros” e isso se reflete na forma como ele cerceia Rey de sua rede de suporte, se aproveita de sua dúvida quanto a sua importância como pessoa e Jedi dentro da guerra para isolá-la daqueles que um dia a acolheram, tentando convencê-la que a única saída é se aliar a ele e tonar-se sua parceira na jornada de destruição do sistema Jedi que domina as relações do Império (os fins podem ser admiráveis, os meios nem tanto).

Sem falar que em toda essa história, para aqueles que possuem o mínimo de conhecimento sobre relacionamentos abusivos (veja também: 15 sinais que ajudam a definir um relacionamento abusivo), uma olhada em apenas uma das cenas já faz uma sirene vermelha soar na cabeça. São usadas táticas que fazem Rey acreditar que não é querida, que sua presença não interfere na Resistência, e que a distanciam de seu melhor amigo, Finn, e a jogam diretamente na presença de alguém que afirma que sua existência não é nada, a não ser para ele.

O que nos leva ao próximo passo dessa relação, que consiste na construção de uma ligação entre dois personagens ideologicamente diferentes que pelas mais diversas razões encontram um no outro uma forma de validação e apoio. Exceto que, neste caso, a trama se desenvolve de forma quase que unilateral, centrando Rey sob a ótica de salvadora de Kylo. O amor cura tudo, não é? Com ele, qualquer um pode alcançar a redenção, especialmente se for o amor romântico. Kylo irá mudar por Rey, irá buscar ser alguém melhor, que não sai por aí cometendo genocídios, matando os próprios familiares ou sentindo inveja da Força que habita outras pessoas. Não importa se ele tentou matá-la no passado, ou aos seus amigos incontáveis vezes, se ela escolher permanecer ao seu lado, com amor suficiente, será possível recolocá-lo de volta nos trilhos e equilibrar suas ações desmedidas, violentas e perigosas.

São impressões como essa, repetidas incansáveis vezes, que criam um padrão que grita que se há amor, tudo pode ser resolvido, qualquer um pode ser salvo. Pior: ajuda, na maioria das vezes, a abafar atitudes simbólicas, violentas e tóxicas travestindo-as como cuidado, preocupação e amor. Claro que no caso de Reylo ainda estamos a um ato do derradeiro final e, com astúcia e jogo de cintura, o relacionamento dos dois pode subverter o estigma de relacionamento abusivo, além de dar novos significados e desdobramentos para a “redenção de um homem através do amor de uma mulher”. Especialmente levando em consideração a escolha feita por Rey no ponto de virada final da trama do longa.

Nesse caso, teremos que aguardar para ver qual será o caminho a ser traçado pela franquia. Mas, enquanto isso, é interessante refletir sobre o que foi trilhado pelos dois personagens, quando colocados juntos, até agora. Somos moldados a responder a certos estímulos antes mesmo de termos consciência de que somos seres sociais, induzidos a consumir sem refletir o que nos está sendo posto à mesa, por isso é importante buscar pontos de vista divergentes sobre um determinado assunto e visualizar uma situação de forma macro.

Gostar e apreciar determinados produtos é o objetivo da maioria das pessoas quando decidem sentar em uma sala de cinema por duas horas ou ler um livro em uma tarde ensolarada de domingo. Entretanto, a questão é que gostar de algo não deveria, necessariamente, implicar que você não está consciente das questões problemáticas reproduzidas em determinada trama. Felizmente é possível problematizar e se divertir com o objeto da reflexão ao mesmo tempo; esses itens ainda não se tornaram excludentes.

E já que estamos aqui, que tal parar para pensar um pouco sobre como uma Rey, ao final do Episódio IX, sem um interesse romântico endgame subverteria, também, alguns paradigmas?

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