LITERATURA

A (R)evolução das Mulheres e a cultura do estupro

Publicado no Brasil pelo selo Plataforma 21, parte da V&R Editoras, A (R)evolução das Mulheres foi escrito por Mindy McGinnis e não é um young adult comum. Embora tenha todos os elementos que consagraram outros títulos do mesmo nicho – uma protagonista interessante, romance adolescente e personagens cativantes –, qualquer similaridade com outros livros para por aí. O que poderia ser apenas mais uma história para adolescentes com uma trama sobre ensino médio, namoros e bailes de formatura, adquire um peso muito maior quando a autora insere em sua narrativa temas como a cultura do estupro e a violência contra a mulher.

Atenção: esse livro pode conter gatilhos como estupro, violência contra a mulher, slut-shaming e crueldade animal.

O livro tem início três anos após o assassinato da irmã mais velha de Alex Craft, Anna. O suspeito do crime nunca foi preso e Anna leva no peito a sensação de impotência e revolta constante, além da vontade de fazer algo a respeito da situação. Alex é uma menina forte, reclusa e introspectiva. Alex sabe como matar uma pessoa e não se sente mal por isso. A adolescente aceita como sua a missão de velar pela memória da irmã e decide que, por suas próprias mãos, atacará qualquer predador sexual que se puser em seu caminho, dizendo em alto e bom som todos os seus crimes e usando aquilo que conhece de melhor para fazê-lo: a linguagem da violência.

A cola que unia a família de Alex era Anna, e após a morte da irmã, ela não vê muito sentido na vida além de concluir sua vingança. Nesse âmbito, tudo o que Alex conhece da vida são seus treinos de força, suas corridas na floresta, e a ida e volta do colégio. A jovem cumpre com todas as suas obrigações, é a aluna número um e voluntária em um abrigo para animais abandonados, mas não vê um futuro onde faça faculdade e saia da pequena cidade em que vive. É comum que os moradores da cidade, seus vizinhos e colegas, olhem para Alex e vejam apenas sua irmã morta – é o que acontece quando Efepê, a filha do pastor, e Alex começam a dar os primeiros passos desajeitados de uma nova amizade. É o mesmo que acontece, também, quando Jack Fisher, o cara mais popular e invejado do colégio, percebe Alex como um ser individual – antes de prestar atenção na menina, tudo o que ele sabia sobre Alex Craft relacionava-se com o assassinato brutal de sua irmã mais velha, mas as coisas começam a mudar quando ele realmente a vê.

“A pessoa atrás do volante é seu amigo. A pessoa que tocou você é o primo da sua melhor amiga, trabalha com o seu pai, é alguém em quem todo mundo confia, e ninguém vai acreditar em você. Mas eu vou acreditar em você.” 

Em uma cidade pequena como a em que o trio vive, é perfeitamente comum que todo mundo se conheça e saiba sobre as vidas uns dos outros, então logo fica evidente que ninguém sabe muito sobre Alex Craft e seu desejo de vingança. Fica claro, logo de início, que Alex não se encaixa no padrão da adolescente comum, e isso se deve, principalmente, ao assassinato violento de sua irmã mais velha, a letargia em que sua mãe mergulhou e a ausência do pai que as mantém enviando cheques de pensão. Alex não cresceu em uma família de comercial de margarina e sabe disso; diferente de Efepê, que tem em seus pais figuras presentes, compreensivas e amorosas, Alex só tem a si mesma para contar – pelo menos até que Efepê e Jack começam a derrubar suas barreiras tão bem construídas e adentrem no forte que Alex ergueu com tanto cuidado, fazendo-a ver que há coisas pelas quais lutar do lado de fora de toda sua raiva e determinação.

Quando comecei a ler A (R)evolução das Mulheres, confesso que esperava encontrar algo como retratado no seriado Dexter, estrelado por Michael C. Hall e exibido pelo canal Showtime: na trama, baseada na série literária de mesmo nome escrita por Jeff Lindsay, Dexter Morgan é um serial killer com um código de conduta que mata criminosos que a polícia de Miami não consegue prender. Pela sinopse de A (R)evolução das Mulheres havia ficado com a impressão de que Alex, uma adolescente, caçaria estupradores e atuaria como uma espécie de justiceira. O que encontrei no livro, no entanto, foi um retrato muito real e dolorido de como a cultura do estupro, a misoginia, o machismo e o sexismo é intrínseco à nossa sociedade e como esses abusos e estereótipos tiram a humanidade das mulheres e as marca para sempre.

Alex não é uma psicopata ou sociopata – algo que ela mesma questiona durante a narrativa de A (R)evolução das Mulheres quando pensa em seu desejo de matar – ela só sente demais. Sente pela morte brutal da irmã, que tinha a vida inteira pela frente; sente por todas as meninas que são abusadas, estupradas e violentadas; sente por não poder fazer mais por cada uma delas. O sentimento de vingança nasce da impotência que Alex sente ao encarar a realidade de nossa sociedade patriarcal onde mulheres são vistas como meros objetos de prazer, coisas que homens podem tomar quando bem entenderem e jogar fora quando estiverem satisfeitos. Em tempos de acusações contra grandes figurões de Hollywood e o fato de que nem o dinheiro e nem a fama é capaz de proteger mulheres de sofrerem abusos, A (R)evolução das Mulheres surge como um livro necessário, dolorosamente necessário, e feito para um público que se conscientiza mais a cada dia a respeito da cultura do estupro em que vivemos.

“Mas ‘meninos são assim mesmo’, é nossa expressão preferida e que serve de desculpa para tanta coisa, ao passo que para falar do gênero oposto, só dizemos ‘mulheres…’, com um tom de desdém e acompanhado de um revirar de olhos.” 

Embora o livro tenha como pano de fundo uma pequena cidade no interior dos Estados Unidos, aqui no nosso país as coisas não são muito diferentes e as estatísticas estão aí para provar. De acordo com levantamento do IPEA, realizado com base em estudos de 2011, 70% das vítimas de estupro, no Brasil, são crianças e adolescentes. A proporção de ocorrências com mais de um agressor aumenta quando a vítima é adolescente – estupros coletivos – e cai quando a vítima é criança, e em torno de 15% dos estupros registrados no país envolveram dois ou mais agressores. A agressão marca a vítima tanto física quanto psicologicamente: ainda acordo com a pesquisa do IPEA, a formação da autoestima fica seriamente comprometida em crianças e adolescentes vítimas de estupro visto que seu fortalecimento, que deveria acontecer nessa faixa etária, é quebrado por conta do trauma devastador, o que pode comprometer relacionamentos sociais pelo resto de suas vidas. Dados ainda mais desoladores dão conta que apenas 10% dos casos de estupro chegam ao conhecimento da polícia, que desse total de registros, 70% são de vítimas crianças e adolescentes. Conforme o IPEA divulgou, também 70% dos estupros acontecem dentro dos lares, visto que os agressores são parentes, amigos, namorados das vítimas.

Em A (R)evolução das Mulheres, Alex surge como uma espécie de anti-heroína que fará o leitor colocar na balança todas as suas ações, as melhores e bondosas e as completamente questionáveis. Uma menina que cuida de filhotes de gatinhos com todo o amor do mundo também é capaz de matar em nome da irmã; uma menina que toma para si a tarefa de fazer justiça é a mesma que apaga as pichações maldosas sobre suas colegas que aparecem nos banheiros do colégio. Alex é uma protagonista visceral e todas as questões que ela tem a respeito da sociedade em que vivemos podem ser facilmente as minhas ou as suas questões. Até que ponto é legítimo agir como juiz e executor da sentença?

Embora a autora Mindy McGinnis faça um ótimo trabalho ao trazer para a discussão temas relevantes e retratados com pouca honestidade em outras mídias, como a cultura do estupro e o slut-shaming, ela se perde em alguns pontos importantes da trama, principalmente quando começa a desenvolver o romance entre dois dos personagens principais ou quando retrata os estupradores como viciados e drogados – como as estatísticas do IPEA apontam para o caso brasileiro, sabe-se que muitas vezes esses agressores estão mais próximos do que podemos imaginar e não são sempre o cara desconhecido no beco escuro. Por outro lado, McGinnis consegue ser muito bem sucedida ao tratar de temas pesados com uma narrativa relativamente leve e de fácil leitura aliada a uma escrita que prende a atenção e te deixa sempre querendo virar a próxima página. A autora construiu para A (R)evolução das Mulheres personagens completos que sofrem, sentem, choram a perda e tentam retomar o controle da própria vida, mesmo que isso seja muito difícil depois de passar por um grande trauma. O leitor consegue sentir toda a dor de Alex e sua vontade de fazer justiça, acompanha o crescimento pessoal de Efepê enquanto torce por ela e entende a culpa que acompanha Jack todo os dias.

Dói ler A (R)evolução das Mulheres pois, mesmo no âmbito da ficção, toda vez que uma mulher é agredida, também é comigo e com todas as outras. Em diferentes escalas, é verdade, mas não deixa de ser um fardo que todas conhecemos. O livro aborda vivências que temos todos os dias, em maior ou menor grau; diz como uma menina pode ser dopada em uma festa e perder todos os sentidos. Conta como uma outra pode ser taxada de vadia só por gostar de fazer sexo. Mostra como o patriarcado é tão presente e nos amarra com tanta força que julgamos outra mulher só por ela usar decote. Mindy McGinnis, por meio de sua protagonista forte e intensa, nos mostra as consequências trágicas da cultura do estupro. No original, o livro recebeu o título de The Female of the Species, talvez inspirado pelo célebre poema de Rudyard Kipling publicado em 1911: “for the female of the species is more deadly than the male” [a fêmea da espécie é mais letal do que o macho]. E Alex Craft está aí para provar.

O exemplar foi enviado como cortesia pela V&R Editoras.


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