CINEMA

Crítica: X-Men Apocalypse

É difícil falar sobre X-Men: Apocalypse, sem traçar um paralelo com seus antecessores. Responsável por concluir a segunda fase do universo dos mutantes no cinema, o filme chega com a missão de não repetir o fracasso de X-Men: O Confronto Final (Brett Ratner, 2006) e finalizar de forma épica a história que vinha sendo contada até então, trazendo para o universo cinematográfico um de seus maiores e aguardados vilões: Apocalypse (Oscar Isaac).

Essa, no entanto, não é a única missão que o diretor Bryan Singer encontra aqui. Como se a expectativa em torno de um vilão tão poderoso já não fosse suficiente, o filme ainda precisa dar conta de seus vários personagens – sendo alguns inseridos aqui pela primeira vez – e suas trajetórias e dramas particulares, que ao serem explorados, dão sentido ao caminho que cada um percorre dentro da trama, construindo uma nova dinâmica entre eles e alimentando questões que sempre permearam o universo dos mutantes. Qual o papel desses jovens na sociedade? O poder os tornam superiores? Seriam eles responsáveis por aqueles que são, teoricamente, mais fracos?

Ao abraçar tantos desdobramentos, X-Men: Apocalypse transcende o que já foi apresentado e dá um novo passo rumo a um modelo que já vinha sendo trabalhado com mais força em outras franquias sem, no entanto, abrir mão de sua essência. Mas será que ele realmente consegue cumprir tudo aquilo que promete?

Sim e não.

A história começa com um prólogo que apresenta seu vilão-título. Vemos Apocalypse e seus quatro cavaleiros em uma cerimônia grandiosa no Antigo Egito, numa época em que mutantes não eram vistos como aberrações, mas como seres superiores que alçavam o status de deuses. A partir daí, entendemos como Apocalypse continua vivo por gerações, tomando para si habilidades de outros mutantes e tornando-se cada vez mais poderoso até cair em seu sono milenar.

É em 1983, no entanto, que a história realmente se desenvolve. Após os eventos de Dias de Um Futuro Esquecido (Bryan Singer, 2014), Xavier (James McAvoy) passa a focar seu tempo e trabalho na Escola Xavier para Jovens Superdotados, enquanto Mística (Jennifer Lawrence) e Magneto (Michael Fassbender) seguem seus caminhos separadamente – ela, escondendo-se de um mundo que a enxerga como heroína; ele, fugindo de um mundo que sempre o tratou como vilão. Ao despertar e dar início ao seu plano megalomaníaco, Apocalypse entrelaça mais uma vez o caminho dos três sem, necessariamente, aproximá-los, mas talvez afastando-os ainda mais.

Ao contrário de outras grandes franquias que surgiram desde o boom dos filmes de super-heróis, X-Men construiu seu universo na tela de forma muito singular. Sua segunda fase surge justamente para suprir uma necessidade de resgatar suas próprias origens, apresentando personagens ainda inexperientes, meio deslocados, que não sabem muito bem o que estão fazendo na maior parte do tempo e trazem consigo inúmeras questões, algo que sempre esteve presente no universo dos mutantes nos quadrinhos e na televisão. Não é apenas uma forma de renovação – necessária em qualquer grande franquia –, mas uma forma de construir uma conexão forte com o público que encontra nesses jovens algo com o que se identificar. Nesse sentido, o filme acerta ao trazer para o centro da trama os jovens e (ainda) inexperientes Ciclope (Tye Sheridan), Jean Grey (Sophie Turner) e Noturno (Kodi Smit-McPhee), que entre passeios no shopping, idas ao cinema e atos de puro heroísmo, descobrem mais sobre seus poderes mas, principalmente, sobre si mesmos. O destaque, no entanto, fica mesmo com a jovem Jean Grey que, mesmo muito nova, já nos dá um vislumbre perfeito de toda sua força e poder.

X-Men Apocalypse 3

Outro personagem digno de nota é Mercúrio (Evan Peters) que retorna para ajudar os X-Men mais uma vez, mas que também é movido por questões pessoais. A menção sobre seu parentesco com Magneto é feita sem grandes rodeios, o que pode surpreender aqueles que só acompanham a trajetória dos mutantes no cinema, mas essa acaba sendo uma questão mal desenvolvida pela roteiro, que poderia adicionar mais camadas e uma maior carga dramática à trama e, no entanto, fica apenas como uma promessa. Por outro lado, Mercúrio ganha mais importância dentro da história, e sendo um personagem tão querido e carismático, não deixa de ser um ganho enorme vê-lo por mais tempo na tela. Suas cenas empolgam na medida certa (ainda que algumas sejam muito extensas em função dos efeitos especiais, sem necessidade) e dão o alívio que a história precisa para não cair na própria armadilha de se tornar séria demais.

Embora consiga entregar boa parte do que promete, X-Men: Apocalypse está longe de ser um filme perfeito, sendo a maior parte de seus problemas fruto de sua proposta ambiciosa que não encontra tempo suficiente para se concretizar. São muitos acontecimentos, inúmeras informações e várias questões sendo jogadas no colo do espectador que espera assistir uma história épica mas essa história nunca atinge verdadeiramente seu ápice – e aí é decepcionante perceber que depois de dois filmes tão acima da média, o terceiro vem justamente para desequilibrar essa proposta.

O exemplo mais claro disso é o próprio Apocalypse, que começa sua trajetória como um vilão diferente de qualquer coisa apresentada até então e cheio de potencial, para terminar como um vilão bem qualquer coisa, ingênuo e pouco condizente com a proposta de um deus, mas enlouquecido por uma busca vazia de poder. Seu arco, inicialmente tão complexo, termina numa conclusão simples e pouco inspirada, sem grandes consequências além da clássica destruição que já é regra nesse tipo de produção. O mau aproveitamento de vilões não é um problema recente, muito menos um caso isolado, mas não deixa de ser preocupante pensar que, se são esses personagens que colocam a história em movimento, que puxam o gatilho para que tudo comece acontecer, se são eles a ameaça que deveríamos temer, o que acontece se eles não forem convincentes o suficiente? Se nunca são capazes de mostrar verdadeiramente seu potencial?

X-Men Apocalypse 2

Nesse sentido, vale também mencionar os cavaleiros que ajudam Apocalypse em sua busca por poder, em especial Psylocke (Olivia Munn), uma decepção talvez até maior do que o próprio vilão. Se os trailers e as entrevistas construíram a expectativa por uma antagonista digna de nota, completa e complexa como deveria ser, o filme vem provar que a expectativa é mesmo o primeiro passo para a frustração. Psylocke entra muda e sai calada, e seus poderes, que vão muito além do físico, são amplamente ignorados, trazendo para o primeiro plano apenas suas qualidades visíveis. Aliás, o físico parece ser palavra-chave quando falamos da personagem, que pode ser facilmente resumida em caras, bocas e uma roupa que não faz o menor sentido. Enquanto todos os outros ganham roupas dignas da batalha que está por vir, Psylocke usa uma espécie de maiô e algumas tiras de tecido nas pernas que claramente não protegem ninguém. Quem veste um maiô pra lutar no fim do mundo? Isso imediatamente me fez questionar as próprias declarações da atriz sobre ter recusado um papel em Deadpool (Tim Miller, 2016) para dar vida à Psylocke e suas motivações (ela não queria ser a donzela em perigo). Por mais que eu entenda seu argumento, uma donzela em perigo que subverte seu próprio papel me parece uma proposta muito mais interessante do que colocar uma mulher em campo de batalha com um chicote na mão e uma roupa extremamente sexualizada, e já achar que isso é suficiente. Não é. Psylocke acaba se tornando uma figura clássica de uma indústria problemática que ainda trata suas mulheres de forma pouco gentil, acreditando que qualquer passo disfarçado de melhoria já é melhor do que nada. Não é, e nós não vamos aceitar qualquer coisa. Fica o aviso.

Ororo, a Tempestade (Alexandra Shipp) também acaba não recebendo tanta atenção quanto merece sendo a personagem tão complexa e poderosa que é, mas ainda assim conseguimos ter um vislumbre real de quem ela é – da menina pobre que vê em seus poderes uma saída para a sobrevivência até a heroína que muda de lado ao perceber as intenções equivocadas que movem o vilão principal. Ao se juntar aos X-Men, fica a promessa de novas aventuras onde, talvez, tenhamos mais do que um aperitivo do que ela realmente é capaz. Do outro lado, a cota de decepções ficam com Jubileu (Lana Condor), que tem uma participação minúscula, quando poderia ser muito melhor aproveitada, e Mística, que apesar de ganhar mais independência dentro da história e assumir uma posição de liderança, esbarra na má vontade de Jennifer Lawrence em cumprir o seu papel. Ao passar cada vez menos tempo caracterizada, a personagem acaba perdendo muito da sua força e complexidade, além de ser contraditória com a própria essência dos mutantes, que sempre pregaram a tolerância e o amor às diferenças e minorias.

Nesse sentido, é importante pensar também que a mesma Mística que é colocada como líder e teoricamente tratada como uma das personagens centrais da história, também é objetificada pela câmera – um erro clássico que, infelizmente, continua a ser ignorado por grandes produções, em especial no universo dos super-heróis. Em prol do fan service masculino, Mística acaba sendo tratada como mero objeto pela câmera, que corre pelo seu corpo e sexualiza a personagem, uma escolha equivocada do diretor, que além de reforçar a imagem da mulher como mero objeto de apreciação e diminuir seu papel, ainda reforça uma cultura extremamente machista que não precisa de mais incentivo.

No final das contas,  X-Men: Apocalypse consegue cumprir seus objetivos. Aos trancos e barrancos, o filme apresenta novos personagens de forma coerente, cumpre seu papel como entretenimento e abre espaço para a nova fase que vem por aí. Se comparado aos seus antecessores, este talvez seja o filme mais problemático da trilogia e sem dúvida não consegue atingir o potencial que promete, mas isso não significa que ele seja ruim. Fica aí, no entanto, a torcida para uma terceira fase menos problemática, com vilões realmente ameaçadores e mulheres completas & complexas sendo representadas como têm que ser.

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2 Comentários

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    Douglas Vasquez
    7 de junho de 2016 at 09:27

    Resenha brilhante ao apontar o potencial que o vilão/personagens/enredo tem e que não chega a ser realmente cumprido, mas alguns pontos me incomodaram neste texto, como por exemplo, o figurino da Psylocke, que é idêntico ao da personagem nos quadrinhos e que foi uma exigência da própria Olivia Munn ao aceitar o papel; a falta de profundidade em conhecimento no mundo X-Men deixa algumas lacunas e trechos equivocados também.
    Em suma, concordo com o argumento geral da falta de aprofundamento das personagens e na forma que o diretor (que está na franquia desde o início [exceto em ‘O Confronto Final’]) promete desenvolver melhor os personagens e falha ao levar a história dos quadrinhos ao roteiro.

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      Ana Luiza
      7 de junho de 2016 at 12:37

      Então Douglas, de fato o figurino da Psylocke é igual ao que a personagem usa nos quadrinhos, mas isso não quer dizer que ele não seja problemático. Tanto nos quadrinhos, quanto no cinema e na televisão, o universo dos super-heróis tem um histórico bastante problemático de personagens femininas hiper-sexualizadas — seja pela roupa, seja por aparecer em posições pouco naturais (pra dizer o mínimo). Então sim, a roupa pode ser uma referência, mas isso não faz com que ela seja ok.

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