CINEMA

Crítica: Star Trek – Sem Fronteiras

Quando assisti ao primeiro trailer de Star Trek: Sem Fronteiras, minha reação imediata foi revirar os olhos e pensar que aquele lançamento eu deixaria passar. Eu não era fã da franquia, até então não tinha assistido aos filmes da, agora, nova trilogia, e embora uma das minhas frases favoritas seja origem do cânone de Jornada nas Estrelas, nunca tive muito interesse em explorar a história e seus personagens. Mesmo assim, na última semana, eu me vi sentada numa sala de cinema, abraçada a um balde de pipoca, assistindo ao filme que eu tinha jurado de pé junto que não assistiria de jeito nenhum e curtindo cada segundo da experiência. Como isso foi acontecer?

Atenção: O texto contém spoilers! 

Idealizado por J. J. Abrams, mas dessa vez dirigido por Justin Lin, e com roteiro de Simon Pegg (que também interpreta o engenheiro Scotty na nova trilogia) e Doug Jung, o filme tem início três anos após a tripulação da USS Enterprise sair em uma missão para explorar o Universo que durará cinco anos – a mesma citada ao final do segundo filme da franquia, Star Trek: Além da Escuridão (J.J. Abrams, 2013), e que agora é finalmente posta em prática. O negócio é que, muito diferente das missões apresentadas nos anos anteriores, passar cinco anos no espaço é uma experiência completamente nova para todos os membros da tripulação, com uma dinâmica muito diferente da que tinha sido estabelecida até o momento e com a qual todos já estavam acostumados, e que reserva longos períodos de absoluto tédio. É assim que, aos poucos, a tripulação, que antes convivia em perfeita harmonia, passa a enfrentar sérios problemas de convivência e alguns relacionamentos que pareciam tão sólidos encontram seu ponto final.

No meio de tudo isso, Kirk (Chris Pine), cansado da falta de aventuras e dos conflitos internos entre os membros da tripulação, passa a almejar uma vida longe da liderança da Enterprise e se candidata ao posto de vice-almirante em Yorktown. A ideia é que, após o fim da expedição, ele possa ocupar o cargo, deixando o comando da nave nas mãos de Spock (Zachary Quinto). Entretanto, ao chegar em Yorktown, Spock recebe a triste notícia da morte do Embaixador Spock (Leonard Nimoy) o que, sem saber dos planos de Kirk, faz com que ele decida exercer o papel que antes pertencia ao seu “eu” em uma realidade alternativa, deixando para trás o seu trabalho na equipe. Todos os planos, no entanto, acabam ficando para depois quando, ainda em Yorktown, Kirk recebe o pedido de ajuda de Kalara (Lydia Wilson), que diz ter sido pega enquanto explorava uma nebulosa não mapeada à caminho de Altamid e agora precisa salvar o resto da sua tripulação que está presa no planeta. Assim, Kirk e sua equipe partem em uma nova missão, sem saber que, na realidade, estão sendo atraídos para uma armadilha de Krall (Idris Elba), o grande vilão do filme.

Star Trek 1

Ao contrário de seus antecessores, Star Trek: Sem Fronteiras deixa um pouco de lado a relação entre Kirk e Spock para explorar outros membros da tripulação e a relação que constroem uns com os outros. Em um filme que aborda as diferentes relações entre seus personagens e que fala muito sobre as dificuldades de convivência geradas por uma missão tão longa e a importância do trabalho em equipe acima de tudo, nada mais natural do que mostrar como esses personagens interagem entre si, dando espaço para que todos possam mostrar do que são capazes e crescer à altura do próprio potencial. Isso não significa que os personagens centrais sejam deixados de lado pela narrativa, muito pelo contrário. Eles continuam a ganhar bastante tempo de tela e estão presentes nas ações mais importantes da história, mas dessa vez aparecem acompanhados de personagens que, em qualquer outra circunstância, estariam reservados ao trabalho dentro da Enterprise, e é interessante ver como a relação entre eles se constrói, provando que, mesmo personagens secundários podem desempenhar um papel especial dentro da narrativa. É o caso, por exemplo, de Scott (Simon Pegg), que ao lado de Jaylah (Sofia Boutella), ganha uma importância ainda maior dentro da história, e de Chekov (Anton Yelchin), que ao ficar preso com Kirk e Kalara em Altamid, ganha muito mais tempo de tela – e é realmente uma pena que esse merecido destaque só venha agora, alguns meses após a morte do ator.

Nesse sentido, vale também destacar Uhura (Zoe Saldana), que ao ser pega como refém de Krall, junto com a maior parte dos sobreviventes da Enterprise, tem a chance de mostrar que, além da mulher inteligentíssima e super badass que já conhecemos, é também uma líder exímia, capaz de manter o controle em uma situação de medo e estresse extremo. Ela bate de frente com o vilão, se arrisca para descobrir seus planos malignos e defende com unhas e dentes outros tripulantes da nave. Mesmo quando sua confiança nos companheiros parece ser abalada, Uhura não abandona aquela que, por qualquer outro, seria vista apenas como uma delatora, e sente genuinamente quando a mesma é sacrificada para que o vilão mostre o poder do Abronath – um artefato super-poderoso que promete ajudar Krall a concretizar seu plano.

Star Trek 2

Nesse sentido, no entanto, é importante observar que, embora a trajetória de Uhura seja bastante empoderada, sua jornada conta com a presença de uma mulher que é sacrificada para que o vilão, homem, prove do que é capaz. Embora já tenhamos falado inúmeras vezes do assunto por aqui, é impossível deixar passar batido um artifício tão problemático que continua a ser utilizado, ano após ano, nas mais diversas produções. Além de Syl (Melissa Roxburgh), Kalara também morre com o desenrolar dos acontecimentos e é perturbador pensar que sua morte talvez não seja levada tão em consideração pelo simples fato dela ter sido o gatilho que levou a equipe de Kirk para uma armadilha que culminou na destruição da Enterprise. Mesmo que seus papéis na narrativa sejam muito diferentes, estamos falando de duas mulheres que são introduzidas e utilizadas como plot device até não serem mais necessárias, e o grande problema dessa situação reside, justamente, no fato de que, ao utilizar personagens femininas dessa forma, reforçamos a ideia de que mulheres são o sexo frágil (além de mentirosas, fracas que não sabem lidar com a pressão de um vilão, etc etc) – uma ideia tão problemática por si só que qualquer tipo de reforço se torna um grande desserviço. Não acho que a ideia dos roteiristas tenha sido pregar esse tipo de ideia, muito pelo contrário. Talvez a ideia fosse justamente trazer mais mulheres para uma franquia que, embora apresente um universo tão diverso, ainda é predominantemente masculina, por exemplo. No entanto, sem uma mulher para dar sua perspectiva sobre a história, fica difícil não abrir margem para a propagação de estereótipos problemáticos, mesmo quando essa não é a real intenção.

Ainda nesse sentido, outro bom exemplo é o colar com o qual Spock presenteia Uhura e que, casualmente, também serve como rastreador (creepy as bad word, eu sei). Embora o presente acabe sendo muito útil no contexto do filme, que a ideia de Spock não tenha sido rastrear a moça e que as piadas em torno do mesmo sejam genuinamente engraçadas, me preocupa um pouco que, para além da sala de cinema, a abordagem não sirva para nada além de arrancar boas risadas do público masculino. Mesmo que possa parecer bobagem, num primeiro momento, o filme encontra um gancho para abrir discussão sobre um problema sério e muito real – os relacionamentos abusivos –, mas, infelizmente, esbarra mais uma vez na falta de uma mulher envolvida no processo de criação da história, algo que certamente garantiria uma abordagem divertida, mas que também não deixasse uma oportunidade tão importante passar batido.

Da mesma forma, outro ponto que me incomoda particularmente é a diferenciação na roupa de algumas mulheres da tripulação – Uhura inclusa no pacote. Embora tenha plena consciência de que o traje utilizado no filme faça uma referência àquele utilizado na série clássica, não deixa de ser problemático pensar que, num universo tão igual, onde diferenças são tratadas com tanta naturalidade e questões de gênero não parecem ser uma questão at all, mulheres tenham que usar uma roupa que claramente não faz o menor sentido para o tipo de trabalho que elas exercem. Estamos falando de mulheres que chutam bundas, exploram o Universo, controlam naves espaciais e vivem altas aventuras, muitas vezes em ambientes nunca antes explorados, ou seja, não parece nem um pouco natural que elas prefiram usar minissaia ao invés de uma roupa que de fato seja capaz de protegê-las e que dê mais mobilidade para que elas desempenhem suas funções de maneira adequada.

Se o filme, no entanto, falha ao usar mulheres como plot device e prefere se ater a um figurino bastante problemático, que não serve para nada além de agradar ao olhar do público masculino (o famigerado eye candy) por um lado, por outro, Star Trek: Sem Fronteiras acerta ao nos presentear com personagens verdadeiramente incríveis e dignas de nota. É o caso da almirante Paris (Shohreh Aghdashloo), que embora possua um papel pequeno na trama, consegue transmitir uma imagem bastante positiva, que prova que mulheres podem (e devem!) exercer funções de comando, mesmo (e principalmente) quando estão inseridas num universo predominantemente masculino. Após a posição ter sido desempenhada por homens nos dois filmes anteriores, foi uma agradável surpresa assistir uma mulher ocupar tal cargo – uma surpresa que só não foi melhor porque, como dito anteriormente, sua participação é realmente bem pequena. Seria incrível vê-la ganhar mais tempo de tela numa oportunidade futura, mas isso de forma alguma diminui a importância de seu papel. Se ainda vivemos numa sociedade que trata mulheres ambiciosas ou em posições de liderança como algo ruim, é imprescindível que tenhamos exemplos que batam de frente com essa ideia.

Star Trek 3

Entretanto, é em Jaylah que encontramos a maior surpresa do filme – uma mocinha badass e extremamente inspiradora que, ao contrário do que frequentemente acontece em outras grandes franquias, que insistem em apostar em personagens que não possuem nenhum papel relevante na trama além de servir aos propósitos do personagem principal e desaparecer quando for conveniente, possui uma história própria e motivações particulares. Já em sua primeira aparição, Jaylah mostra que não está para brincadeira, e luta contra vários inimigos enquanto Scotty, fazendo o perfeito papel da donzela em perigo, apenas observa – uma subversão de papéis bastante interessante. Mais tarde, no entanto, descobrimos que, muito além da moça chutadora de bundas que gosta de música, Jaylah também é uma mulher muito machucada, que foi feita refém de Krall e viu sua família sucumbir para que ela pudesse fugir de seu cativeiro com vida. Tudo o que ela mais quer é sair de Altamid, mesmo que isso signifique voltar ao lugar em que viu sua família morrer e enfrentar velhos inimigos.

Talvez por isso seja tão fácil se identificar com a personagem, gostar dela e querer ser como ela. Ainda que possua uma coragem inquestionável, Jaylah também sente medo, tem questões pendentes com aqueles que a prejudicaram no passado e não sabe muito bem até que ponto pode confiar nas pessoas ao seu redor. Mesmo assim, ela enfrenta cada obstáculo que surge em seu caminho e é ao ver sua cara de alívio, quando finalmente se vê saindo daquele planeta, longe de um cenário tão desolador, que nós entendemos o quanto nos envolvemos com ela. Porque o alívio de Jaylah é o alívio de todos nós, e só uma personagem tão bem construída poderia criar uma relação tão forte com espectador tão rapidamente. Nós amamos Jaylah. Nós estamos com Jaylah. Nós queremos mais Jaylah.

Krall, por sua vez, chega como um alívio para todos aqueles que vinham se decepcionando com a sucessão de protagonistas mal construídos em blockbusters. Ainda que, numa rápida comparação com seus antecessores, Krall pareça um pouco inferior – ele quer acabar com a Federação, ao contrário de Nero (Eric Bana), que destrói um planeta inteiro, e de Khan (Benedict Cumberbatch), que ameaça começar uma guerra –, isso não significa que ele seja um vilão ruim, muito pelo contrário. Krall é construído de forma bastante eficiente e consegue transmitir sentimentos como medo e apreensão mesmo quando não está na tela. Além disso, suas motivações não são infundadas e suas ações não são geradas por pura maldade ou sede de poder. Em uma história que fala principalmente sobre união, Krall é o contraponto perfeito, necessário para provar, mais uma vez, que até heróis podem se transformar em grandes vilões.

Star Trek 4

Embora possua outros problemas além dos já citados (onde está Carol Marcus, afinal de contas?), de modo geral, Star Trek: Sem Fronteiras acerta ao trazer um filme que possui tudo aquilo que conquistou e continua a conquistar inúmeros fãs ao redor do mundo, e que continua a nos levar ao cinema lançamento após lançamento: uma história interessante, personagens cativantes, cenas de ação que empolgam e alívios cômicos que aparecem na medida certa, sem nunca ameaçar transformar o filme numa piada de si mesmo. No entanto, o grande diferencial de Star Trek talvez seja o coração que bate com força o tempo inteiro e nos mostra que, mesmo blockbusters são capazes de emocionar e construir histórias que se conectam com o público, seja ele um público fiel e antigo ou aquele que acabou de chegar. Muito disso tem a ver com o fato de que, tanto Simon Pegg quanto Justin Lin, roteirista e diretor, respectivamente, são grandes fãs da saga e o cuidado que eles têm ao contar essa história é percebido em cada pequena ação. Recheado de homenagens e referências (que começa já no próprio poster, uma clara referência ao filme de 1979), a experiência de assistir ao filme se transforma em algo único, que encanta e enche os olhos, mas que, ao mesmo tempo, emociona e é capaz de aquecer até os corações mais gelados.

É impossível não se encantar com a delicadeza com que eles mostraram a homossexualidade de Sulu (John Cho) – tão diferente de tantos filmes que preferem apelar para o sensacionalismo –, com as homenagens feitas à Leonard Nimoy e Anton Yelchin, com a foto da tripulação da Enterprise da série original e todas as referências presentes, que celebram a essência da história justamente no ano em que ela também completa 50 anos, e mostra que o coração dessa mesma história continua batendo com muita força, mesmo tanto tempo depois, seja nos seus personagens que, afinal de contas, são as pessoas que constroem essa história tão, tão especial, seja em toda a equipe que fez o filme acontecer, seja em quem está assistindo do outro lado, ou seja na pessoa que revirou os olhos e jurou de pé junto deixaria esse lançamento passar, só para depois pagar pela própria língua e ficar completamente obcecada por esse universo, pensando seriamente em ignorar os poucos problemas presentes na produção e dar uma nota cinco para o filme porque os sentimentos são os únicos fatos e no meu coração é essa a nota que ele merece.

(No entanto, sou uma pessoa séria escrevendo para um site sério, então deixaremos a razão falar mais alto desta vez)

Vivemos tempos difíceis, onde a intolerância e a falta de amor parecem ser a ordem, e assistir a um filme que vai justamente contra esse discurso é um alívio muito bem-vindo, o respiro que precisamos para voltar a termos esperança e reconhecer que, embora a vida não esteja fácil para ninguém, juntos, somos ainda mais fortes. Star Trek: Sem Fronteiras nos apresenta um mundo onde a diversidade é a regra, nunca a exceção, onde todos convivem em perfeita harmonia independente de suas diferenças e apoiam uns aos outros em busca de um objetivo comum – e eu realmente espero que, muito mais do que uma mera diversão, mais pessoas aprendam a real liçao que essa história tem para nos ensinar. Vida longa e próspera.

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