LITERATURA

Crítica: Harry Potter e a Criança Amaldiçoada

Hoje é dia 31 de outubro, conhecido internacionalmente como o “Dia das Bruxas”, e nada mais justo do que falarmos sobre a saga mágica que fez tantas pessoas se apaixonarem por leitura, ou pelo mundo da fantasia, o refúgio para o qual muitos de nós íamos quando queríamos escapar um pouco da realidade. O mundo que a escritora J.K Rowling criou e que se perpetua como uma das melhores sagas de fantasia há 19 anos. O incrível mundo de Harry Potter.

Eu me lembro que quando terminei de ler Harry Potter e as Relíquias da Morte, em 2006, início da minha adolescência, fiquei acabada porque nunca mais teria a oportunidade de me perder por aquele mundo mágico. Embora ainda estivessme acontecendo as adaptações cinematográficas, os apaixonados por leitura sabem que nada é mais gostoso do que você imaginar em sua mente todos aqueles detalhes descritos nos livros. É o seu momento com a sua imaginação, é deslumbrante.

Mas eis que, 10 anos depois, temos uma nova história de Harry Potter para conhecermos. Desde 30 de julho deste ano está em cartaz em Londres a peça Harry Potter and the Cursed Child (Harry Potter e a Criança Amaldiçoada), um espetáculo de Jack Thorne, com roteiro escrito por ele com base em uma história original assinada por Thorne, Rowling e John Tiffany. Felizmente, para aqueles que não moram na Inglaterra, o roteiro da peça virou um livro que chega ao Brasil oficialmente hoje, no Dia das Bruxas. É sobre ele que vamos falar neste texto.

Para aprofundar a análise, o texto terá alguns spoilers. Depois não digam que eu não avisei!

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Harry Potter (Jamie Parker), Albus (Sam Clemmet) e Gina (Poppy Miller)

O livro Harry Potter e a Criança Amaldiçoada tem como protagonista Albus Severus Potter, segundo filho de Harry e Gina (o primeiro é o James Potter e a caçula é Lily Potter). Albus carrega nas costas um legado que ele nunca pediu para suportar: o de ser filho de uns dos bruxos mais famosos e poderosos do universo. Depois da Batalha de Hogwarts, a fama de Potter só aumentou, principalmente porque ele assumiu um alto cargo no Ministério da Magia, e Albus simplesmente acha que não se encaixa nesta família.

Por conta disso, pai e filho não possuem um bom relacionamento, e é em torno desse conturbado vínculo que a história vai se desenvolvendo, onde Harry tenta entender a paternidade, uma vez que ele não teve nenhum exemplo no qual se basear, e Albus tenta descobrir seu lugar na família Potter.

As incertezas de Albus começam a chamar atenção já no seu primeiro dia em Hogwarts, quando o Chapéu Seletor anuncia que o filho de Harry Potter fará parte da Sonserina. O adolescente é rodeado de olhares surpresos, que só aumentam a raiva de Albus por ser um Potter. Além disso, ele se torna amigo de Scorpius Malfoy (sim, o filho de Draco), que carrega uma péssima fama: o de ser filho de Voldemort, o de ser uma criança amaldiçoada.

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Os atores Alex Price e Sam Clemmett na peça britância, como Scorpius e Albus, respectivamente

Embora seja um Malfoy, Scorpius é extrovertido e um personagem muito interessante. Ele vive com a dor da perda, com o peso dos olhares acusadores, mas mesmo assim tenta aproveitar a vida o máximo que consegue. Já Albus é mimado e se força ao máximo para ser um adolescente rebelde. Chega a ser desanimador ter que falar algo ruim de algum livro de Harry Potter, mas o fato de A Criança Amaldiçoada não ter sido escrito em sua íntegra por J.K Rowling não foi algo muito positivo.

A grande aventura de Albus e Scorpius começa quando Amos Diggory, pai de Cedrico Diggory (lembram?), descobre que Harry apreendeu um Vira-Tempo. Desesperado de saudades do filho que morreu precocemente no Torneio Tribruxo (em Harry Potter e o Cálice de Fogo), Amos bate na porta de Harry, acompanhado de sua sobrinha Delphini, e implora para que Potter lhe empreste o artefato mágico para mudar o destino de Cedrico. Entretanto, mexer com o tempo sempre foi algo muito perigoso (a não ser que você seja Hermione Granger, né?), e Harry recusa o pedido.

Enquanto esta conversa acontece, Albus estava escondido na escada ouvindo, e Delphini acaba o encontrando e dramatizando ainda mais a situação de Amos. Indignado com o pai, Albus convence Scorpius a roubar o Vira-Tempo de dentro do Ministério da Magia, e, quando a missão é bem sucedida, eles começam a viajar pelo tempo.

Resumindo a história: os meninos viajam no tempo três vezes, pois nas duas primeiras eles alteram o presente e, sempre que voltam, alguém próximo a eles não existe ou simplesmente a vida que eles conhecem está completamente alterada. Por exemplo: em uma das viagens, eles conseguem fazer com que Hermione e Rony não se casem; consequentemente, Rose não existe. Em um outro momento, suas ações acabam transformando Cedrico Diggory em um Comensal da Morte, e as consequências são terríveis.

Sinceramente, essas milhões de reviravoltas no tempo acabam sendo um pouco desnecessárias, pois apenas uma delas fez com que eu me sentisse realmente em um livro da saga Harry Potter, pois foi focada na astúcia de dois personagens brilhantes da saga.

Na terceira volta no tempo, apenas Scorpius retorna ao passado, e ele se depara com um mundo dominado por Voldemort. Em Hogwarts, ele se choca ao encontrar Snape (MELHOR MOMENTO DO LIVRO EVER) ainda vivo e lecionando. O pequeno Malfoy explica toda a situação para o professor, que acredita no menino no momento em que ele cita Lily e o amor que Snape nunca deixou de sentir por ela.

Rony (Paul Thornley), Hermione (Noma Dumezweni) e Rose (Cherelle Skeete)

Rony (Paul Thornley), Hermione (Noma Dumezweni) e Rose (Cherelle Skeete)

Para tentar resolver a situação, Snape leva Scorpius para encontrar Hermione e Rony, os dois rebeldes mais procurados pelo mundo mágico. Quando Granger entende a situação, ela e Snape elaboram um plano para que Scorpius consiga fazer tudo voltar ao normal. Ver a astúcia de Hermione em ação foi um dos momentos mais nostálgicos do livro, afinal, não é ela o cérebro da saga?

E quando a gente acha que tudo vai ficar bem, eis que surge o maior problema do livro. Lembram da Delphini Diggory que eu falei no início do texto? Pois é. ELA É FILHA DO VOLDEMORT, e claro, não é uma Diggory. Ela influenciou Albus a fazer toda aquela confusão pois queria trazer novamente o império do pai de volta, mas quando viu seus planos arruinados, decidiu resolver a situação ela mesma.

No final das contas, todo mundo volta para o passado, no exato momento em que Voldemort mata os pais de Harry em Godric’s Hollow, para garantir que a história se repita. O capítulo foca no desespero de Delphi em conhecer o pai, afinal, ela cresceu sozinha – pois Voldemort estava morto e a mãe em Azkaban – e com um grande poder que ela não entende e uma profecia que a rondava desde a infância. O outro grande ponto foi ver o Harry adulto assistir a morte dos pais, momento que sempre o assombrou e teve tanta influência no seu crescimento. Obviamente que tudo ia se resolver e o presente ia volta a ser como todos conheciam.

Eu não sei se eu que criei muita expectativa para essa história, mas o oitavo livro não parece uma continuação da saga, uma vez que não temos um destaque muito grande para o trio principal da série, Harry, Rony e Hermione. Embora tenha sido interessante conhecer novos personagens, acredito que a essência de Harry Potter são as aventuras dos três e como eles conseguem permanecer unidos enquanto o mundo desmorona.

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Hermione Granger (Emma Watson), Harry Potter (Daniel Radcliffe) e Rony Weasley (Rupert Grint)

Outro ponto: eu senti falta do desenvolvimento de duas novas personagens, Rose e Delphini. Por ser filha de Rony e Hermione, Rose deveria ter tido mais destaque na história. Ela possui muitas características da mãe que não foram exploradas. Acho que de alguma forma ela deveria ter feito essas viagens com Albus e Scorpius. Onde já se viu o filho de Harry e Hermione não serem melhores amigos? Tudo bem, pode soar um pouco clichê, mas certos direcionamentos não deveriam ser mudados.

Por fim, Delphini é a grande vilã do livro e apareceu poucas vezes na história. A personagem tinha tudo para ser mais poderosa que o pai, uma vez que ela era filha de Voldemort e Bellatrix Lestrange, ou seja, os dois seres humanos, se é que dá para chamá-los assim, mais malignos do mundo bruxo. As condições de crescimento de Delphi a fizeram extremamente amarga e má, e não há nada melhor do que termos um vilão de alto nível em qualquer história.

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada acabou sendo um pouco decepcionante, pois chega às mãos de qualquer fã com muita expectativa, mas no final das contas, acaba sendo um pouco desnecessário por não trazer um sentido de continuidade da saga. Mas, se você é muito fã de Harry Potter, não deixe de ler! Embora haja algumas falhas, ter relido nomes e diálogos envolvendo Dumbledore e Snape, por exemplo, me fez voltar a adolescência, naqueles milhões de momentos que me isolava do mundo para conhecer mais sobre o incrível mundo de Harry Potter.

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1 Comentário

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    Letícia Costa
    7 de Fevereiro de 2017 at 12:31

    Me senti exatamente igual lendo o oitavo livro. Criei muitas expectativas que não se concretizaram no livro. Estava ansiosa por uma continuação real da história em relação ao trio Harry, Rony e Hermione. Acho que o formato do livro também influenciou na minha não aceitação, porque era maravilhoso nos livros da série a riqueza de detalhes que neste livro por ser em formato de peça, deixaram a desejar. Sinceramente fiquei desapontada. Se trouxerem essa peça para o Brasil vou pensar seriamente se irei ou não assistir.

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