CINEMA

Crítica: Esquadrão Suicida

Uma pequena confissão: eu não me importo com spoilers. Por mais que as tais revelações sobre o roteiro estraguem a experiência de assistir um filme ou série pra muita gente, sou da opinião que nada é tão legal quanto me contam, de modo que não, eu não me importo com spoilers. E não só não me importo como gosto deles o suficiente pra que eu nunca assista alguma coisa (qualquer coisa) sem saber mais ou menos o que esperar. Antes de assistir a Esquadrão Suicida, li infinitas resenhas de vários veículos (nacionais e internacionais, alguns sérios, outros nem tanto) e quase todos concordavam em um ponto: o filme era horrível. Contrariando todas as expectativas, no entanto, fui ao cinema na última quarta-feira e até consegui me divertir, embora também reconheça muitos dos problemas apontados (e alguns mais).

Atenção: O texto contém spoilers! 

Dirigido por David Ayer (também responsável pelo roteiro) e com produção executiva do nosso queridíssimo (só que não) Zack Snyder, Esquadrão Suicida é o terceiro filme do universo estendido da DC e começa após os eventos de Batman vs. Superman – A Origem da Justiça (Zack Snyder, 2016): uma vez sem o Homem de Aço para proteger o mundo e com o Batman desaparecido, a Terra se torna um lugar vulnerável e o governo dos Estados Unidos se preocupa em encontrar uma alternativa que seja, senão uma garantia de sobrevivência, ao menos uma forma eficiente de se defender de possíveis ataques de meta-humanos. É assim que, sem heróis a quem recorrer, Amanda Waller (Viola Davis) sugere que supervilões sob custódia do governo norte-americano sejam recrutados para cumprirem missões praticamente impossíveis para qualquer ser humano e que, num mundo ideal, seriam responsabilidade dos super-heróis – uma ideia que não é comprada de imediato, mas que deixa de encontrar resistência quando fica claro que ninguém possui uma alternativa melhor na manga. Conhecemos, então, os vilões que, a princípio, fariam parte da Força Tarefa X, denominação oficial do grupo: Arlequina (Margot Robbie), Magia (Cara Delevigne), Pistoleiro (Will Smith), Capitão Bumerangue (Jai Courtney), El Diablo (Jay Hernandez), Crocodilo (Adewale Akinnuoye-Agbaje) e Slipknot (Adam Beach), além de Rick Flag (Joel Kinnaman) e Katana (Karen Fukuhara), responsáveis por manter os vilões alinhados com o objetivo de sua missão.

A formação, no entanto, não dura muito tempo: logo nos primeiros minutos do longa, Magia, o espírito de uma bruxa milenar extremamente poderosa que toma o corpo de June Moore, encontra uma maneira de fugir temporariamente do controle de Amanda Waller e liberta seu irmão, um espírito tão poderoso quanto ela própria que a ajuda a recuperar o pleno controle de seus poderes e se transformar na principal vilã de uma história repleta deles. Slipknot (ou Amarra), por sua vez, morre antes de qualquer ação, numa tentativa frustrada de fuga que é imediatamente interrompida pelo dispositivo implantado em seu pescoço – e no de todos os vilões –, o jeitinho que Amanda Waller encontrou para manter o controle da situação. A partir daí, a história se desenvolve alternando memórias dos membros do Esquadrão, a missão para conter Magia e as tentativas do Coringa (Jared Leto) de salvar Arlequina.

Como em qualquer filme “de equipe”, que não é centralizado num único personagem, mas que busca justamente trabalhar o conjunto, Esquadrão Suicida não busca desenvolver todos os seus personagens de forma apropriada, preferindo focar na trajetória individual de Arlequina e Pistoleiro, talvez os dois personagens mais conhecidos pelo público. Ainda que essa seja uma alternativa válida dentro do contexto específico do filme, não deixa de ser uma pena que muitos personagens com histórias pregressas tão interessantes quanto sejam subutilizados dentro da trama, impedindo que o público vá além da apresentação apressada do início do filme (às vezes nem isso) e não conheça verdadeiramente aquelas pessoas, especialmente porque, embora os personagens já sejam velhos conhecidos de muita gente, dentro do novo universo cinematográfico da DC, eles são figuras completamente novas e é fundamental que eles sejam (senão agora, em algum momento) desenvolvidos à altura do próprio potencial, ganhando mais camadas e deixando de ser apenas peças num jogo de destruição, mas figuras verdadeiramente relevantes.

Esquadrão Suicida

Nesse sentido, Katana talvez seja a personagem que senti falta com mais força de um desenvolvimento apropriado: embora não tenha feito parte do Esquadrão nos quadrinhos, Katana é uma mulher com uma história de vida intensa, que viu o marido e o filho serem assassinados pela máfia japonesa e que encontrou nas artes marciais uma forma não apenas de sobreviver, mas vingar aqueles que perdeu e lutar contra o crime. Ela é uma sobrevivente, uma mulher letal que chuta bundas e luta como ninguém, que fez parte de grupos como Renegados e Aves de Rapina, então por que não dar um pouco mais de espaço para que ela conte sua história? É quase como se ter uma mulher chutando bundas fosse o suficiente para construir uma personagem forte, quando todas nós sabemos que não é. Quando não está lutando, Katana chora enquanto conversa com sua espada, que é capaz de aprisionar a alma de suas vítimas e, no filme, possui a alma de seu marido, mas em momento algum alguém se preocupa em contar verdadeiramente essa história ou então tratá-la como algo mais do que a mulher enlouquecida pelo luto.

Isso não significa que mulheres com maior desenvolvimento ou tempo de tela estejam numa situação melhor, e o melhor exemplo disso é a própria Arlequina, talvez a personagem mais emblemática de todo o filme. Como se a sexualização da personagem divulgada nos trailers não fosse suficientemente problemática, o filme acha de bom tom reforçar a ideia de que, para que uma mulher seja sensual, ela precisa fazer isso do ponto de vista masculino, insinuando-se em tempo integral e se colocando em posições que frequentemente beiram o ridículo. Margot Robbie brilha no papel, dá muita porrada, faz graça e mostra que é sim uma mulher forte, contrariando até mesmo o que ela própria disse sobre a personagem em entrevistas recentes. Mas os problemas estão todos lá e não é necessário muito esforço pra ver: a roupa extremamente sexualizada e pouco adequada para o tipo de trabalho que ela precisa cumprir, os closes injustificáveis, as poses pouco naturais e a câmera que frequentemente passeia pelo seu corpo são exemplos claros de como Arlequina é não apenas sexualizada, mas constantemente objetificada na tela.

Além disso, outro problema grave em sua trajetória é a romantização do seu relacionamento com Coringa – uma questão que não é exatamente uma novidade, mas que ainda aparece com uma força assustadora. Muito se falou sobre o Palhaço de Jared Leto que, fora polêmicas de bastidores e o comportamento bastante questionável do ator, foi um dos personagens mais presentes em todo o material de divulgação do longa, dando margem para suposições de que ele, afinal de contas, seria o grande vilão da história. Ao contrário do que era esperado, no entanto, Coringa não só não é o vilão principal como nem chega perto de desempenhar um papel tão relevante quanto em outras produções – o que impossibilita qualquer tipo de comparação –, sendo muito mais uma figura na história da Arlequina do que qualquer outra coisa. Embora muito material do personagem tenha ficado de fora, o que de certa forma justifica sua participação reduzida, é interessante ver o vilão como coadjuvante na história de uma mulher – o que poderia ter sido maravilhoso, não fosse a constante necessidade do filme em retratar a relação dos dois de forma romantizada.

Arlequina

Por mais que fique claro que Arlequina foi torturada por ele e que sua loucura foi uma consequência de todos os abusos que sofreu, o filme não abandona o tom romantizado e transforma situações inteiramente abusivas em cenas que nunca são capazes de passar a real dimensão do problema. Coringa é mostrado como um cara que se importa com Arlequina, que quer tê-la ao seu lado e que passa praticamente o filme inteiro tentando salvá-la. A única cena que faz um contraponto com essa representação é quando, durante uma perseguição, Coringa joga o carro que está dirigindo na água, ignorando o pedido desesperado de Arlequina, que grita que não sabe nadar. O vilão então foge, deixando Arlequina para trás, que é resgatada pelo Batman e, posteriormente, vai parar na prisão. A cena, no entanto, não é forte o suficiente para causar uma impressão realista da situação, sendo apenas uma tentativa mínima diante de um filme inteiro que mostra, incansavelmente, o quanto o Palhaço “se importa” com sua amada.

De todas, no entanto, a cena mais problemática, que mostra com mais clareza a romantização do relacionamento dos dois, é a cena em que Arlequina se joga no tonel de ácido. Ao contrário dos quadrinhos, onde ela é jogada contra sua vontade, no filme, a personagem se joga por “vontade própria”, só para em seguida ser “salva” pelo vilão. É uma cena muito bonita esteticamente, mas muito problemática também, especialmente se considerarmos o público extremamente machista que consome esse tipo de produção. Mesmo se a ideia do diretor fosse mostrar o tamanho da influencia que o Coringa exerce sobre ela – uma influência doentia e muito comum em relacionamentos abusivos – ele também dá margem para interpretações equivocadas, que reforçam uma cultura machista extremamente problemática e, infelizmente, ainda muito forte nesse universo. Já falamos sobre isso em outras ocasiões, mas é sempre importante reforçar que, embora ninguém seja capaz de controlar como o outro interpreta aquilo que é mostrado na tela, a indústria do entretenimento é, sim, responsável por aquilo que cria, de modo que sim, ela precisa tomar cuidado com aquilo que mostra e, principalmente, como mostra. Essa não é a primeira vez que um relacionamento abusivo é retratado de forma romantizada e, muito provavelmente, não será a última, mas é frustrante ver uma oportunidade tão boa de representar a relação entre dois personagens tão icônicos como ela verdadeiramente é ser desperdiçada dessa forma.

Magia

Num contexto diferente, mas igualmente frustrante, temos Magia, a grande vilã do filme. Se a escolha por uma antagonista pode parecer interessante num primeiro momento, que poderia dar espaço para desenvolver diferentes nuances de personagens femininas, no fundo, ela é apenas mais uma escolha vazia que não serve pra nada além de entreter – o que, no final das contas, é bem o objetivo do filme. Tal qual muitos (muitos, muitos, muitos) filmes de super-heróis, que apostam em vilões fracos e com motivações vazias, Magia não foge à regra: ela quer destruir o mundo e todos aqueles que nele vivem para em seguida dominar o… nada? É uma representação que não condiz com uma bruxa tão antiga e poderosa, uma personagem que, sem dúvida alguma, teria uma história muito mais complexa pra contar, mas que pode ser facilmente resumida a um plano de destruição vazio, uma roupa ridícula (porque aparentemente faz muito sentido que uma mulher poderosa use um biquíni e uma saia com uma fenda gigantesca, dã, como não percebemos isso antes) e uma dancinha que não faz o menor sentido. Magia, uma vilã possuída pelo ritmo Ragatanga. Não dá pra ser mais ridículo que isso.

Amanda Waller, por sua vez, consegue ser uma personagem verdadeiramente forte, capaz de qualquer coisa para alcançar seus objetivos e extremamente fria. Mesmo com o pouco desenvolvimento, Viola consegue dar a real dimensão de uma personagem tão ambígua, que não é boa nem ruim, mas extremamente determinada e que faz o que tem que ser feito, quando tem que ser feito. No entanto, dentro desse contexto, é no mínimo estranho que essa mesma mulher seja descuidada o suficiente não só para permitir que Magia fuja do seu controle, mas principalmente para guardar o irmão da mesma dentro de sua própria casa. Qualquer pessoa em sã consciência não guardaria um artefato tão poderoso, que aprisiona a alma de um ser tão poderoso e ameaçador, dentro da própria casa, então porque Amanda, uma mulher treinada e muito, muito foda, cometeria um erro desses? Fora que, no filme, ela não se dá conta em momento algum que foi roubada, mas já parte direto para a ação, o que deixa duas questões: seria Amanda Waller uma mulher tão descuidada ou essa foi apenas uma escolha do diretor, que preferiu deixar a informação subentendida ao invés de colocar todos os pingos nos is?

Amanda Waller

Embora não seja fã de roteiros que se explicam demais, é inegável que um dos maiores problemas de Esquadrão Suicida é justamente o roteiro, que não só apela para o clichê com uma frequência absurda (o que dizer da constante necessidade de mostrar um lado bom dos vilões e criar algum tipo de conexão entre eles?), mas que é por vezes preguiçoso e não consegue trazer respostas plausíveis para os problemas que cria. Por mais que ele consiga estabelecer um começo, meio e fim para a narrativa, e que cumpra o propósito básico a que se propõe (coisa que certos filmes não chegaram nem perto de fazer), ele falha justamente ao construir uma história verdadeiramente coerente e com força digna dos personagens que ajudaram a contá-la. É possível que esse também seja um problema decorrente da montagem, que é bastante problemática e que corrobora para que a história tenha um tom confuso e nenhuma personalidade, mas não deixa de ser também um problema da direção, que prefere apostar em cenas que são esteticamente agradáveis e em ação frequente ao invés de dar um desenvolvimento maior à história.

Dos pontos positivos, vale destacar a trilha sonora que, embora seja por vezes cortada de forma brusca e sem grandes justificativas, é cheia de músicas maravilhosas que ao menos conseguem fazer algum sentido numa produção que busca não se levar a sério demais; e o elenco diverso, que conta com atores negros, brancos, latinos e orientais. Esse é, talvez, um dos primeiros filmes de super-heróis com um elenco tão diverso e com quase tantas mulheres quanto homens, com papéis de importância muito similar (quando não igual), o que é um ponto bastante importante e que pode abrir espaço para que outras produções sigam pelo mesmo caminho. No entanto, não deixa de ser um pouquinho decepcionante pensar que o mesmo filme que traz tanta diversidade, é o mesmo que prefere descartar um personagem nativo-americano logo na largada.

De modo geral, Esquadrão Suicida é um filme esquecível, que não se difere muito de outros do gênero. Ele possui vários problemas e comete erros básicos, embora não mais do que a média dos blockbusters que seguem uma fórmula bastante problemática que precisa ser urgentemente repensada em produções futuras (de preferência, nem tão futuras assim). Mas ele também consegue cumprir seu papel enquanto entretenimento, diverte e empolga na medida, o que não merece ser celebrado, mas ao menos não é uma perda de tempo completa. É definitivamente uma pena que ele não tenha sido o filme que poderia ter sido, um respiro muito bem-vindo para o Universo DC nos cinemas, mas é, sem dúvida um respiro pra muita gente que, assim como eu, ficou traumatizada com o show de horrores de Batman vs. Superman.

Banner Esquadrão Suicida

Posts Relacionados

9 Comentários

  • Responda
    Nay
    8 de agosto de 2016 at 08:53

    Esse é simplesmente o melhor review sobre o filme que eu li ( e eu também li muitos!). Todos esses pontos que você levantou também me incomodaram muito mas o que realmente me fez sair do cinema falando sobre foi a questão da romantiza~]ao do relacionamento abusivo do Coringa e Arlequina. Como você disse, as cenas que demonstram o abuso não chegam nem perto de impactar o suficiente para dar o tom certo a relação dos dois. E PELO AMOR DE DEUS O que foi o Jared Leto??? Ele quase não tem destaque mesmo, ok também gostei disso no contexto da história da Arlequina, mas precisava fazer a gente sentir vergonha alheia a cada vez que aparecia? Achei forçado e caricato….

    • Responda
      Ana Luiza
      10 de agosto de 2016 at 20:54

      HAHAHAHA MUITO OBRIGADA! <3
      E também não gostei muito do Coringa, mas não sei se chega a ser um problema do Jared Leto ou se foi a caracterização, que transformou o personagem completamente e de um jeito horrível. Agora, a romantização é realmente um ponto MUITO problemático, e eu fico chocada que, mesmo que tanto seja dito sobre o assunto, o pessoal que faz esses filmes ainda continua insistindo no erro.

  • Responda
    Gabriela
    8 de agosto de 2016 at 16:22

    Também me pareceu estranho essa facilidade toda da Magia “roubar” seu irmão e seu plano muito maluco de dominação, mas gostei do filme.

    • Responda
      Ana Luiza
      10 de agosto de 2016 at 20:51

      Como entretenimento, também curti pra caramba, mas ele tinha potencial pra ser um filme bem superior.

  • Responda
    Amanda Aragão
    12 de agosto de 2016 at 15:00

    Nossa, mas você deu muita estrela! hahaha!
    Concordo com tudo, menos com a parte sobre BvS, porque acho que foi um filme muito melhor executado, apesar do roteiro. Não só o roteiro de ES é muito preguiçoso, como a edição também parece ter sido feita por uma criança de 6 anos de idade. Uma edição bem feita poderia ter salvado algumas coisas, mas tornou o filme ainda mais raso.

    E, MEUDEUS, o que é a atuação da Cara Delevingne? Sofrível!

    • Responda
      Ana Luiza
      19 de agosto de 2016 at 21:16

      HAHAHAHAHAHAHAHAHAHA eu tenho mais boa vontade com Esquadrão Suicida porque, apesar dele ter muitos defeitos, pelo menos ele não se leva tão a sério que nem BvS, então as coisas ruins normalmente me faziam rir ao invés de revirar os olhos e querer sair correndo do cinema que nem aconteceu com BvS, sabe? (tirando, claro, a questão do relacionamento abusivo e da sexualização, porque aí ninguém é obrigado) Mas é bem isso que você falou: o roteiro é preguiçoso pra caramba e a edição parece ter sido feita por uma criança. Edição salva muita coisa, sem dúvida poderia ter ajudado o filme, mas né hehe

      E A CARA, SEND HELP HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA

  • Responda
    Raquel
    22 de agosto de 2016 at 14:35

    Adorei seu texto. Principalmente porque explicou muito bem o incômodo que eu também tive com essa abordagem do relacionamento Arlequina e Coringa. Até falei disso no podcast do Cinema em Cena em que fui convidada, mas sinto que não consegui me expressar tão bem hehe Valeu!

  • Responda
    OS FILMES QUE ANDEI ASSISTINDO NOS ÚLTIMOS MESES – Starships & Queens
    24 de agosto de 2016 at 07:04

    […] estiverem interessados em ler uma crítica mais ou menos séria, escrevi sobre o filme lá no Valkirias. No entanto, preciso ser sincera e dizer que, embora o filme tenha (vários) problemas, enquanto […]

  • Deixe um Comentário