CINEMA LITERATURA

Crítica: Como Eu Era Antes de Você

Apesar de não ser uma leitora assídua de romances ou consumir filmes sobre o tema com muita regularidade, quando Como Eu Era Antes de Você, da Jojo Moyes, caiu no meu colo ano passado, parei para ler. Não esperava muita coisa do livro mesmo com as inúmeras resenhas elogiosas porque a história, de maneira geral, não é normalmente o que escolho para ler. Sou uma leitora voraz de fantasia com seus reinos fantásticos e dragões, magia e distopias, então um livro sobre uma acompanhante e seu paciente tetraplégico não é, de fato, algo que eu geralmente escolheria ler.

O livro, como disse, praticamente caiu no meu colo ao vir de brinde em formato digital em uma compra. O adicionei na minha biblioteca do Kobo na época, e foi tudo. Quando soube, ano passado, que o livro em questão seria transformado em filme, resolvi que era um bom momento para arriscar a leitura. A história é cativante logo de início: conhecemos Louisa Clark, no filme interpretada por Emilia Clarke, uma moça britânica de 26 anos que não possui muitas ambições na vida. Para ela tudo estava relativamente bem ao continuar trabalhando em um pequeno café, mantendo um relacionamento com Patrick (Matthew Lewis), indo para casa em cada final de expediente e morando em uma pequena cidade. Quando o café em que trabalha fecha as portas, Louisa decide ir até uma agência de empregos buscar por um novo cargo já que seu salário é importante para manter as contas da família em dia.

Após algumas tentativas infrutíferas em outros trabalhos, Louisa acaba sendo designada para uma entrevista na casa da família Traynor. A vaga em questão é para atuar como acompanhante do tetraplégico Will (Sam Claflin), um homem de 31 anos (35 no livro), inteligente, rico, mal-humorado e completamente sarcástico. Lou, como gosta de ser chamada, logo descobre que o tipo de tetraplegia de Will é definitivo: com lesões nas vértebras C5 e C6, ele sabe que não há cura ou previsão de melhora para sua condição e, por isso, planeja colocar fim em seu sofrimento por meio de um suicídio assistido. Como um homem completamente ativo e independente antes do acidente que o deixou tetraplégico, Will não quer ter sua vida condenada a sempre ser cuidado por outra pessoa.

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E é aí que a tarefa de Louisa torna-se ainda mais importante: Will prometeu seis meses aos seus pais antes de ir para a clínica em que realizará o suicídio assistido, então Lou embarca em uma empreitada para tentar fazer com que ele mude de ideia, fazê-lo ver que, mesmo tetraplégico, pode viver. E é justamente o crescimento da relação entre Lou e Will que faz todo o enredo do livro, e do filme, girar. Em um primeiro momento Will mostra-se bastante aborrecido com a presença de Lou em sua casa visto que a moça, além de ter um estilo peculiar no momento de escolher as combinações de suas roupas, é muito extrovertida e um tanto tagarela, mas aos poucos o relacionamento dos dois passa de implicância para ternura e carinho.

Lou pode até ser considerada por muitos uma manic pixie dream girl, uma personagem feminina sem muito desenvolvimento que entra na vida de um homem apenas para fazê-lo mudar mas eu, pessoalmente, vi uma troca de experiências e crescimento acontecendo em duas vias nesse caso. Louisa pode até ser, sim, uma mulher alegre, esfuziante, adorável, esquisita e com um gosto inusitado para roupas, mas ela ainda é desenvolvida e cresce como personagem no decorrer da trama – algo que não acontece com outras manic pixie dream girls que conhecemos como Summer (Zoey Deschanel), de 500 Dias Com Ela e Claire Colburn (Kirsten Dunst), de Tudo Acontece em ElizabethtownA experiência de cuidar de Will, de se apaixonar por Will, a modifica assim como Will encontra um novo sentido para acordar todas as manhãs por causa de Louisa.

A relação entre Louisa e Will cresce gradualmente, e o filme, roteirizado pela própria Jojo Moyes e dirigido por Thea Sharrock, trabalha de maneira a mostrar isso o melhor possível. Não entendo absolutamente nada a respeito de técnicas de filmagens, construções de cenas e fotografia, mas todo o filme me passou uma sensação deliciosa de familiaridade e aconchego. Do estranhamento das primeiras interações para a intimidade que logo se seguiu entre os dois, foi bonito ver a química entre Clarke e Claflin. Emilia Clarke, inclusive, interpreta uma Louisa jovial e intempestivamente otimista, o que contrasta firmemente com aquilo que vemos em sua Daenerys Targaryen de Game of Thrones, que está sempre séria ou fazendo discursos inflamados. É interessante ver como esse papel mais leve caiu bem nas habilidades da atriz de sobrancelhas expressivas.

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Além do desenvolvimento romântico entre Lou e Will, é impossível não parar para pensar na questão da pessoa em uma cadeira de rodas. Nunca convivi com um tetraplégico ou com alguém que precise de cuidados diários e complexos como Will, mas o que assisti no filme me parece um retrato bem real das dificuldades de pessoas que passam por isso. Claro que, no caso do filme, Will pode contar com absolutamente todo tipo de conforto que o dinheiro pode comprar, mas não deixa de ser um ponto de vista válido observar como tarefas cotidianas, como sair e entrar de um carro, se transformam em um evento. Além de não conseguir se locomover sozinho, de ter que ser carregado, vestido e alimentado, são poucos os locais públicos que estão, de fato, preparados para cadeiras de rodas, o que causa mais um tipo de transtorno na vida de quem precisa se utilizar dela para locomoção.

Ainda pensando a respeito da situação de Will, é difícil falar do livro/ filme e sua trama e não mencionar a questão da eutanásia e suicídio assistido. Li algumas resenhas, nacionais e internacionais, criticando a trama por dar a entender que a vida em uma cadeira de rodas não vale a pena ser vivida. A decisão de Will, para algumas pessoas, dá a noção de que a tetraplegia é o fim da linha – e eu realmente compreendo esses pontos de vista, assim como tento me colocar no lugar de alguém (mesmo que fictício) que opta por encerrar sua vida e entendê-lo também. Como muitas coisas na vida, a opção pelo suicídio assistido é algo completamente pessoal. Da mesma maneira que uma pessoa decide encarar sua condição e continuar, Will, após dois anos como tetraplégico, decidiu que não queria continuar a viver dependendo da ajuda de terceiros. Colocar-se no lugar de alguém, tentar enxergar por sua perspectiva de vida, é um trabalho que sempre tento fazer, mesmo com relação a ficção. Nunca sabemos o que se passa na vida outro, quais demônios sussurram em seus ouvidos, portanto julgar, pra mim, está sempre fora de questão.

Comparando agora o conteúdo presente no livro e o que foi passado para o filme, posso dizer que a adaptação de Como Eu Era Antes de Você foi realmente boa. Algumas falas, inclusive, saíram direto das páginas dos livros para a tela e isso, sem dúvidas, agradará muitos fãs. Porém, um acontecimento traumático da vida de Lou foi simplesmente cortado do filme: seu estupro. Will questiona algumas vezes os motivos pelos quais Lou nunca saiu da pequena cidade em que moram ou porque ela usa roupas tão espalhafatosas e, no filme, ela nunca lhe dá uma resposta. No livro Louisa acaba se abrindo e contando a Will que, quando adolescente, ficou bêbada em uma festa e um grupo de rapazes a estuprou. Como era de se esperar, o estupro mudou Lou para sempre, a fez desistir de ir a uma viagem que havia planejado, preferindo a certeza daquilo que conhecia – a pequena cidade em que morava –, a deixou com problemas de confiança e de relacionamento, e modificou sua maneira de se vestir.

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O estupro é uma parte intrínseca de Lou. Devido ao que aconteceu ela decidiu não se vestir mais como todo mundo, decidiu que era o momento de usar as roupas de que ela verdadeiramente gostava, que isso seria uma expressão de sua personalidade, de quem ela era. Um evento tão traumático como um estupro obviamente refletiria nas escolhas de vida de qualquer pessoa, e retirar isso da história de Lou pode ter sido uma falha do roteiro – ou uma artimanha para fazer com que o filme fosse de classificação livre, quem sabe. Sou terminantemente contra utilizar estupro como simples ferramenta para fazer avançar o roteiro, como aconteceu com Sansa Stark (Sophie Turner) em Game of Thrones, mas no caso de Como Eu Era Antes de Você, me pareceu errado suprir esse acontecimento da vida de Lou simplesmente porque poderia ter sido utilizado para passar uma mensagem.

No livro, Louisa continua se sentindo culpada pelo o que aconteceu a ela assim como boa parte das vítimas reais de estupro se sentem. O ataque impacta, sim, em sua vida e em suas decisões, mas não a define. O estupro é utilizado para explicar algumas questões a respeito de Lou e seu modo de viver, mas não acho que tenha algo de errado nisso. Estupro impacta, sim, nas vidas e decisões de quem o sofre, e ele deveria ser, sim, visto na ficção – mas de maneira apropriada. A sensação que dá é que, para o filme, quiseram ir pelo caminho mais simples e não falar de um assunto tão difícil. No original, inclusive, Will é quem faz Louisa entender que a vítima nunca é culpada – um discurso real e de alcance que teria sido muito bem recebido pelo público do filme. Pareceu-me uma chance perdida de mudar o foco da discussão, de mostrar que as vítimas nunca são as culpadas pelo o que as acontece.

De uma maneira geral o filme é bem construído e conduzido. Os atores convencem em seus papéis, a trama é desenvolvida com delicadeza e sem pressa. A trilha sonora conta com nomes de peso como The 1975 e Imagine Dragons e as músicas se encaixam bem com a trama. Ainda fico pensando na questão que abordei acima, do estupro, e como poderiam ter aproveitado para romper com algumas ideias da cultura pop mas, infelizmente, não foi dessa vez. Como Eu Era Antes de Você é um filme terno que pode, até mesmo, arrancar algumas lágrimas das pessoas mais emotivas. Vale a visita ao cinema? Vale, se você procura uma história bonita e uma diversão despretensiosa.

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2 Comentários

  • Responda
    Ramina Xavier
    24 de junho de 2016 at 09:12

    Também senti falta de um dos clímax da história, o estupro. Seria de um bom senso espetacular, principalmente devido às discussões atuais. De qualquer forma, amei e chorei o livro e o filme incontrolavelmente.

    😉

    • Responda
      Thay
      24 de junho de 2016 at 10:45

      Pois é, eles poderiam ter levantado essa questão de que a vítima nunca é culpada, mas perderam a oportunidade. Estupro, na ficção, geralmente é utilizado como plot device e nesse caso teria feito a diferença para passar uma mensagem diferente.
      Não cheguei a chorar rios, haha, mas me emocionei com o filme – principalmente quando Lou está lendo a carta que Will deixou pra ela. Quando ela levantou e mostrou que estava usando as meias de abelha eu sofri.

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