CINEMA

Crítica: Capitão América Guerra Civil

Imaginem um universo onde super-heróis existam de verdade e onde super-vilões coloquem a vida de todos em risco. Imaginem também que esses heróis façam todo o trabalho sem qualquer tipo de supervisão ou controle. Por fim, imaginem que determinada missão saia completamente de controle, resultando na morte de muitas pessoas inocentes. Agora, pense rápido: se não existe qualquer tipo de regulamentação, se não existe nenhuma forma de monitorar o trabalho desses heróis, como garantir que uma tragédia como essa não se repita?

É a partir dessa questão que Capitão América: Guerra Civil se constrói, abrindo espaço para uma discussão ética, política e moral sobre a atividade dos super-heróis, seus deveres e responsabilidades – uma questão que permeia todo o arco de Guerra Civil nos quadrinhos de Mark Millar e Steve McNiven, e no romance adaptado por Stuart Moore.

Dirigido pelos irmãos Anthony e Joe Russo (também diretores de Capitão América: Soldado Invernal), o filme não deixa de lado a premissa trabalhada nas histórias em quadrinhos e no livro, porém tem que suprimir os inúmeros desdobramentos (e personagens) da trama original para que tudo caiba perfeitamente em 140 minutos de exibição. O trabalho deve ter sido árduo, mas o resultado final não poderia ser melhor: Capitão América: Guerra Civil é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes do gênero ao conseguir reunir uma trama interessante, personagens singulares e cenas extremamente bem pensadas.

Se na literatura o conflito entre Capitão América e Homem de Ferro é gerado a partir das diferenças ideológicas dos dois personagens e construído primordialmente em torno das consequências de seus atos, no filme esse é apenas o gatilho para que a história se desenvolva, trazendo para o centro da questão dois personagens que não teriam tanto destaque numa adaptação 100% fiel: Bucky Barnes, o Soldado Invernal; e T’Challa, o Pantera Negra – e aí é bacana perceber como esse universo se constrói de forma quase independente no cinema. Os elementos continuam ali, mas aparecem sob uma perspectiva diferente, que às vezes funciona, às vezes não.

O filme tem início quando, em uma missão na cidade de Lagos, Nigéria, o grupo liderado por Steve Rogers (Chris Evans) está tentando impedir que Ossos Cruzados (Frank Grillo) se aposse de um agente biológico com o intuito de utilizá-lo como arma. No meio da disputa, Wanda (Elizabeth Olsen), a Feiticeira Escarlate, provoca um acidente enquanto tenta proteger o Capitão América de um ataque e mata um grupo de civis. Tal acidente acaba por despertar a preocupação dos governos mundiais com relação a esses seres super poderosos vivendo entre nós e agindo da maneira como acham melhor. A ideia dos governantes é que os heróis assinem o Tratado de Sokóvia, que tem por premissa submetê-los a um pacto de responsabilidade sob o comando da ONU.

Enquanto isso, em um evento no M.I.T. (Massachusetts Institute of Technology), Tony Stark (Robert Downey Jr.) é interpelado por uma mãe que culpa a ele e aos Vingadores pela morte de seu filho durante a luta contra Ultron, em Sokóvia. Bastante balançado com as palavras dessa mãe, Tony acredita que o melhor a ser feito é, de fato, assinar o tratado e submeter todos os heróis a algum tipo de vigilância, mas Steve Rogers não crê que controle seja a melhor maneira de lidar com o problema. Como se não bastasse, outro incidente toma forma na cidade de Viena, Áustria, e coloca fim à vida do rei de Wakanda, o que leva seu filho T’Challa (Chadwick Boseman) a jurar vingança contra o mentor do atentado – que, ao que tudo indica, é Bucky Barnes (Sebastian Stan), o Soldado Invernal.

Em sua última aparição, Bucky estava sob controle da Hidra, mas mesmo assim Steve tem dificuldades em acreditar que seu antigo amigo tenha cometido o atentado. Some-se a isso a descrença de Rogers com relação ao Tratado de Sokóvia e temos uma ruptura entre os Vingadores – ruptura essa que dará o tom urgente do filme, mostrando como essa disputa de pontos de vista e política podem ser fatais para o legado dos Vingadores. De um lado temos Tony Stark e aqueles que acreditam na culpa de Bucky e no Tratado de Sokóvia, do outro lado permanece Steve Rogers e seus aliados, que tentam provar a inocência de Bucky ao mesmo tempo que acreditam que limitar a liberdade dos heróis pode transformá-los em meras ferramentas políticas. Ao mesmo tempo, manipulando os acontecimentos das sombras, ainda temos Zemo (Daniel Brühl), que, com seu plano, pretende implodir os Vingadores de dentro pra fora.

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Capitão América: Guerra Civil tem todos os ingredientes que nos transformaram em fãs de filmes de super-heróis: as cenas incríveis de lutas, a interação entre todos os (vários) heróis, o carisma dos envolvidos e os alívios cômicos. Após 12 filmes, diversos seriados, easter eggs e cenas pós-créditos (isso sem mencionar os quadrinhos), a Marvel soube lidar muito bem com seu universo e costurar todas essas centenas de referências da melhor maneira possível, deixando-nos super empolgados sobre o que vem a seguir. Em Guerra Civil, além da trama a respeito do Tratado de Sokóvia, fomos apresentados a dois novos heróis, e suas entradas não poderiam ter sido mais adequadas. O Pantera Negra e sua Wakanda, lar de heróis e vibranium, e Homem-Aranha (Tom Holland), adolescente, nerd e completamente empolgado com o universo que está descobrindo.

As cenas do jovem Peter Parker, aliás, foram umas das melhores passagens do filme. Em seus poucos minutos de cena (que devem ter sido realmente contados no relógio por conta do acordo entre SONY – detentora dos direitos cinematográficos do cabeça de teia – e a Marvel), pudemos prestigiar a essência tão adorada do personagem dos quadrinhos. O humor, o deslumbre por estar no meio de tanto heróis (simplesmente não tem como esquecer o Hey Captain, big fan!) e suas acrobacias inspiradas deram gosto de ver. A apresentação do Pantera Negra também não fica atrás e chega pra bater na tecla da diversidade. Introduzir um herói negro, vindo de um país tecnologicamente avançado e muito importante para o universo Marvel, é um passo de extrema importância, que pode, inclusive, abrir espaço também para heroínas negras que, infelizmente, ainda são a exceção. Com seu filme solo previsto para 2018, foi incrível ter um vislumbre de todo o seu potencial e vai ser difícil segurar a ansiedade até lá.

Ainda sobre representatividade, outros pontos positivos do filme foram as participações da Feiticeira Escarlate e da Viúva Negra (Scarlett Johansson). Por mais que o foco do filme não esteja em nenhuma das duas (embora todo o sentimento de culpa que Wanda carrega pelo incidente em Lagos pudesse render um paralelo interessante), o tempo de tela das duas foi muito bem aproveitado. As sequências de luta em que elas participam são incríveis e mostram que mulheres sabem sim lutar, sabem muito bem, e aí fica novamente o alô para a diretoria da Marvel: precisamos de filmes solo dessas mulheres pra ontem! Wanda, por exemplo, tem uma trajetória intensa nos quadrinhos e sabemos que carisma para carregar um filme Elizabeth Olsen tem. O mesmo ocorre com Viúva Negra, que além de ser uma personagem complexa, com uma história interessantíssima, foi uma das poucas (senão a única) a manter a cabeça no lugar, sendo fiel àquilo em que acreditava, no meio de tantos nervos alterados por conta da pressão para assinar o tratado.

As lutas exploram belamente as particularidades de cada uma, seja na maneira letal como a Viúva enfrenta seus adversários, seja em toda a força que Wanda traz – uma jovem que parece frágil num primeiro momento e que é frequentemente tratada com certa condescendência por seus colegas, simplesmente mandou Visão (Paul Bettany) comer grama pela raiz e isso, definitivamente, não é pra qualquer um. A trama de Wanda, aliás, mostra um certo nível de empoderamento a partir do momento em que ela toma as rédeas da sua vida e passa a tomar suas próprias decisões, indo em busca daquilo que acredita independentemente do que digam que seja o melhor pra ela.

Esse lado humano dos personagens, aliás, é algo que aparece com bastante força no filme e é incrível perceber que por trás das armaduras e dos super poderes existem seres humanos – complexos, que metem os pés pelas mãos, às vezes ficam cegos tentando defender aquilo em que acreditam e têm várias questões não resolvidas – o que altera toda a perspectiva da história. É por isso que, embora ele trabalhe muito bem a ideia dos lados e coloque de forma coerente dois de seus maiores nomes lutando em frentes opostas, fica difícil torcer para um único time, e é bacana observar que em determinado momento até os heróis percebem isso. Essa humanização não gera exatamente uma identificação, mas é importante porque adiciona mais camadas aos personagens, tornando-os humanos, antes de mais nada, ao invés de meras peças dentro de um jogo.

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Ainda assim, Capitão América: Guerra Civil tem seus problemas. É o caso, por exemplo, da personagem Sharon Carter (Emily VanCamp), que é inserida na história apenas para ajudar o time do Capitão América, dar uns beijos no personagem principal e aí sumir do mapa, como se só estivesse ali pra isso, o que contrapõe muito do seu discurso feito numa cena anterior – e que talvez pudesse ser interpretado como um aviso da própria Marvel sobre suas intenções de trazer mais heroínas para esse universo, mas que, no final das contas, acaba sendo só mais um discurso bonito do que qualquer outra coisa. Sua participação reduzida no filme tem muito a ver com seu trabalho, que não permite que ela tome a frente da disputa entre os dois heróis, mas não deixa de ser incômodo ver uma personagem ganhar espaço só para ajudar o personagem principal e servir de alívio para a história, numa participação praticamente irrelevante. Aliás, a cena do beijo incomoda justamente porque aparece completamente deslocada todos os outros acontecimentos e não acrescenta absolutamente nada na trama. É engraçado ver a cara de Sam (Anthony Mackie) e Bucky? Sem dúvida. Mas existiam milhões de formas de fazer isso, milhões de formas mais interessantes e bem trabalhadas, e, de novo, escolheram justamente aquela que coloca uma mulher como mera coadjuvante que só está ali para ser o interesse amoroso do personagem principal e ajudar quando for necessária.

Nesse sentido, é importante pensar também na participação de Wanda, A Feiticeira Escarlate. Ainda que tenha um papel muito maior e mais relevante dentro da história, seus sentimentos e conflitos internos são praticamente ignorados, mesmo quando ela se torna uma peça chave dentro da discussão. Quer dizer, tudo começou por um erro da personagem e, no entanto, temos apenas um vislumbre de como toda essa carga cai em cima dela. O centro da questão não é a sua culpa, mas a de Tony Stark, que constantemente remói os erros do passado e busca no Tratado de Sokóvia, se não uma forma de se redimir, ao menos de evitar novos desastres. O que faz muito sentido considerando que sim, nossas experiências dizem muito sobre nossas decisões, e nesse sentido é estranho (pra dizer o mínimo) que as questões de Wanda não sejam tratadas com a mesma importância, e sim com uma condescendência ridícula – um ponto que, aliás, reflete diretamente na forma como todos os outros personagens a tratam: como uma criança que não tem noção do que é capaz, que não sabe tomar as próprias decisões e precisa de proteção constante contra si mesma. É por isso que, como dito anteriormente, o momento em que ela toma as rédeas da própria vida e decide o que ela quer, de qual lado ela vai ficar, significa tanto, mesmo que seja muito pouco perto da importância que a personagem deveria ter dentro da trama.

Outro ponto que não chega a ser um incômodo tão grande, mas que não deixa de ser um problema, é o vilão Zemo – que, como vários elementos dos quadrinhos, aparece aqui de uma forma completamente diferente. Já não é a primeira vez que um vilão da Marvel deixa a desejar e provavelmente não será a última, mas não deixa de ser problemático se pensarmos que é a partir das motivações desses personagens que muitas das melhores (e maiores) histórias desse universo são construídas. Por mais que as razões de Zemo fiquem claras e que ele consiga, de certa forma, alcançar seus objetivos, ele não dá conta de segurar toda a grandiosidade de um vilão capaz de colocar Capitão América e Homem de Ferro de frente, e perceber isso é no mínimo decepcionante.

De um modo geral, Capitão América: Guerra Civil é um filme que cumpre seus objetivos, consegue introduzir de forma coerente novos personagens, abre espaço para filmes que virão a seguir e, principalmente, inicia de forma espetacular a terceira fase de seu universo cinematográfico. É um filme que empolga e emociona na medida certa, que entrega bons personagens (ainda que alguns sejam mal aproveitados) e apresenta discussões muito pertinentes. Ele tem problemas, é claro, mas ainda é um dos melhores filmes da Marvel produzidos até aqui.

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Crítica escrita em parceria por Ana Luíza e Thay

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