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Revenge Body e a falácia do corpo magro para pisar nas inimigas

Difícil ser um millennial e não ter pelo menos noção o que o klã Kardashian representa. Em uma porca explicação, digo que é uma família muito unida e também muito ouriçada de maioria feminina que está sempre às voltas com polêmicas e histórias escabrosas que nos fazem questionar até que ponto esse grupo de pessoas vive a realidade ou um grande seriado de comédia, suspense, ação, drama e – quem sabe no futuro? – ficção científica. Não é à toa que as Kardashians se mantém há mais de uma década como celebridades que são famosas por serem famosas, tendo em seu currículo mais de dez realities shows, centenas de produtos licenciados, além de milhões em suas contas bancárias.

Dos já citados mais de dez realities protagonizados e produzidos pelo klã, um chama atenção pela peculiaridade de seu formato. Lançado em 2017 e já renovado para uma segunda temporada, Revenge Body with Khloé Kardashian é o único programa comandado por um dos membros da família que envolve pessoas “comuns” em seu enredo. Trata-se de um reality de emagrecimento que em sua primeira temporada convidou quinze participantes a construírem um “corpo de vingança”.

Segundo a própria Khloé, a ideia do programa surge de sua própria trajetória. Acostumada a lutar contra o peso desde muito nova, a fat and funny sister teve que lidar com as comparações às irmãs – todas magras –, com a rejeição dos garotos e outras pressões externas que quem se vê fora do padrão de beleza já está acostumado a lidar. A Kardashian conta na própria abertura do reality que foi só quando começou a se exercitar e “comer certo” que conseguiu se sentir bem a respeito de si e finaliza dizendo que “um ótimo corpo é a melhor vingança”.

Que ótimo corpo vingativo é esse?

Khloé Kardashian emagreceu e fez disso mais um tijolinho em seu império. Lançou livro, concedeu entrevistas e fez um programa de TV com esse enredo. Claro, o drama da sister (agora ex-) gorda foi real e televisionado. Não é difícil encontrar episódios do Keeping Up With the Kardashians e seus derivados em que suas irmãs e outros membros da família fazem piada com seu peso ou em que ela chora e se minimiza por não corresponder ao padrão de beleza esperado principalmente de uma integrante da elite financeira dos Estados Unidos.

Sim, a felicidade da Kardashian favorita de muitos me faz feliz, mas será que essa realização pessoal realmente significa auto aceitação? Na já analisada abertura do programa, Khloé não fala sobre saúde, não menciona uma vida de movimento e endorfina que alegrou seus dias, fala em um “ótimo corpo” e exibe a barriga chapada para as câmeras. São as formas magras que trazem alegria. A mensagem é que para se amar – e pisar nas inimigas – foi preciso que a sister afinasse a silhueta.

Ser magra por quem e para que?

A cada episódio de Revenge Body são apresentados dois participantes[1] que contam sua história de vida, quase sempre emocionante, e apontam de quem pretendem se vingar com seus novos corpos construídos em doze semanas. Khloé então os encaminha para treinadores de Hollywood, procedimentos estéticos, compras ao lado de personal stylists, cabeleireiros e maquiadores famosos que prometem mudar a vida dos escolhidos dali em diante.

Vale destacar que entre quinze histórias exibidas pelo reality, treze são de mulheres. A variedade étnica e de trajetória dessas participantes é incrível, mas o que pouco varia são seus motivos para a inscrição no programa. São pessoas minimizadas pela sociedade de diferentes formas pelo seu peso e que em quase todos os casos[2] buscam o emagrecimento por questões meramente estéticas.

Suas vinganças são direcionadas a familiares, ex-parceiros, caras que poderiam ser namorados mas acabaram não assumindo o relacionamento e “melhores amigas” magras e praticantes de bullying. Durante os episódios do reality é fácil observar o quanto a realização pessoal dessas mulheres é baseada no outro, mesmo que esse outro seja o mesmo que operou o mal em suas vidas. Mesmo tendo perdido vários quilos durante as semanas de treinamento e procedimentos estéticos, muitas delas expressam grande nervosismo e preocupação no dia de sua grande revelação. O medo é de não estar boa o suficiente e vemos aí que nem mesmo se trata de pisar nas inimigas, é tudo sobre buscar a aprovação do próprio algoz.

É tipo vida real. A menina que quer emagrecer para encerrar o bullying na escola, a mulher que quer extinguir a barriga para dizer “baba, olha o que perdeu” para o ex-namorado, todas nós que lutamos diariamente contra o que está refletido no espelho porque queremos provar sei lá o que para a sociedade. Infelizmente, Revenge Body tem um pouco de mim e de você.

É inegável que o programa é tecnicamente bem construído para levar o público a momentos de emoção. Em alguns dos casos, a relação entre as participantes e seus treinadores parece ultrapassar as horas de suor e representar uma vida de cumplicidade e conforto. A felicidade e guinada de autoconfiança estampada nos rostos dessas mulheres depois dos quilos perdidos, apesar de problemática e talvez momentânea, é bonita de ver. E, em meio a esse rio de emoções, os dias de revelação do novo corpo das participantes que buscavam se “vingar” dos próprios pais são de longe os mais tocantes.

Nesses episódios é possível observar relações familiares marcadas pela opressão advinda de um padrão de beleza que ultrapassa a estética. São pais e mães que, apesar de amarem suas crias, se apropriam do discurso moralizante da magreza – só é gordo quem quer, gordura é sinônimo de preguiça – para ensinar lições a suas filhas. Não é necessário demonizar essas famílias, é clara a tentativa de evitar o sofrimento que essas mulheres, sendo gordas, enfrentariam em contato com o mundo lá fora. O problema é o quanto essas “tentativas” machucam e são capazes de minar a autoestima de qualquer uma.

Revenge Body with Khloé Kardashian expõe – sem querer expor – a problemática da nossa relação com nossos corpos. Mais ainda: cada caso ali retratado pode ser encarado como cenário micro no âmbito privado para uma realidade macro experimentada na vida pública. O corpo de vingança mostra as pressões sistêmicas que nos condicionam a odiar nossas formas, independente de quais sejam, e buscar a aprovação de terceiros a qualquer custo. O formato está bem longe de passar qualquer mensagem de aceitação.


[1] Com exceção do sétimo programa, em que a trajetória de Gabriela é mostrada individualmente.

[2] O único caso que se diferencia é o de Lauren, que afirma durante todo o programa que se inscreveu por questões de saúde.

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1 Comentário

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    Depois Dos Quinze | Compartilhei: revenge body, carro voador e viagens de graça pelo Brasil
    19 de maio de 2017 at 13:51

    […] Katy Perry anuncia nome e data do novo CD 2. Revenge Body e a falácia do corpo magro para pisar nas inimigas 3. Carro voador deve acender a pira olímpica em Tóquio 2020 4. Pessoas criativas ficam mais […]

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