LITERATURA

Meu nome é Amanda, o livro da Mandy Candy

Hoje é o lançamento do livro Meu nome é Amanda, da Youtuber Amanda Borges, mais conhecida como Mandy Candy. Mês passado fomos convidadas pela editora Rocco para participar de um bate-papo de divulgação do livro com a Amanda, que veio ao Brasil — Amanda atualmente mora em Hong Kong — para fazer a divulgação do projeto.

Com toda sinceridade, fiquei insegura de ir ao evento — não pelo evento, nem pelo livro, nem pela Amanda em si, mas por não saber como eu voltaria aqui e falaria sobre o assunto, sem desmerecer a experiência individual da Amanda, nem me afastar dos meus posicionamentos político-ideológicos (feminismo é política, sabiam?). Eu poderia simplesmente chegar aqui e tentar contornar a questão, mas achei que seria mais honesto colocar tudo em pratos limpos e começar daqui. Antes que coloquem na minha boca qualquer coisa que eu não falei: Amanda pareceu ser um amor de pessoa e muito alto-astral, mesmo tendo, inegavelmente, passado por muita coisa difícil na vida.

O livro da Amanda vem na onda de uma avalanche de livros de Youtubers que estão sendo lançados pelas editoras. A diferença crucial entre Meu nome é Amanda e todos os outros livros do tipo é que a Amanda é transexual, e conta no livro a história da sua vida desde a infância até o lançamento do canal Mandy Candy (que na época se chamava Mandy para maiores), o que inclui — obviamente — o processo de não se reconhecer no corpo masculino e toda a transição.

Apesar de ter passado por muitos conflitos e experiências dolorosas, a Amanda deixa claro que a vida toda teve muito apoio da família, ao contrário de muitas pessoas que desviam de alguma forma dos padrões sociais de gênero.

O livro começa na infância, contando como ela era diferente dos outros meninos, porque tinha jeito “de menina” e queria ser igual à irmã mais velha. Amanda conta que esse jeito “diferente” era alvo de piadas e comentários cruéis de parentes. Foi só mais perto da puberdade que ela passou a não se reconhecer no próprio corpo e a sofrer violências constantes na escola por causa do jeito “afeminado”. No começo da vida adulta ela tomou conhecimento pela primeira vez da existência de pessoas transexuais, se reconheceu como uma e então começou o processo de transição.

Meu nome é Amanda é, com certeza, uma contribuição muito importante para a humanização de pessoas transexuais, que fazem parte de um grupo notoriamente excluído e socialmente vulnerável. Frequentemente, quando lidamos com questões políticas — o que torna fundamental que abandonemos a visão individualista e coloquemos o foque em questões sociais e coletivas — é fácil esquecer que existem pessoas reais, com sofrimentos reais, de todos os lados.

O que me incomodou no livro, que não é um problema pessoal com a Amanda ou com o livro/caso dela especificamente, e sim com toda a ideia de identidade de gênero, é que deixa de lado todas as violências — tanto abertas quanto aquelas já normalizadas na sociedade — que pessoas nascidas no sexo feminino passam desde o nascimento por virem ao mundo com sistema reprodutor feminino, independente de como se identifiquem.

É claro que um livro, especialmente escrito por alguém que não tem o costume de se expressar por escrito, não é suficiente para retratar a complexidade do que se passa dentro de um ser humano, e não tenho a intenção de menosprezar o sofrimento dos indivíduos que, apesar da socialização, não se enquadram nos padrões de gênero socialmente impostos, mas muitas vezes a impressão que leitura me passou foi a de identificar o “ser mulher” com a performance socialmente considerada como feminina. Essa identificação de gênero como performance é muito complicada, porque inevitavelmente deslegitima a posição de mulheres que não performam feminilidade, mas que nem por isso estão livres de sofrer misoginia e violências relacionadas à sua condição de mulher.

A própria Amanda conta diversas histórias que deixam claro a diferença das violências que ela sofre enquanto trans, daquelas que ela sofre quando é “confundida” com uma mulher não-trans. Mais de uma vez ela se mostra realmente chocada quando passa pela primeira vez por situações que pessoas nascidas do sexo feminino passam constantemente desde o nascimento — e que são tão normalizadas na sociedade que ninguém mais considera tão absurdas assim.

O ponto que eu estou levantando aqui não é uma tentativa de minimizar nem tirar a importância do sofrimento de pessoas trans. Não estamos em uma olimpíada do sofrimento. Mas é importante pensar na imagem completa, e nas consequências de correntes de pensamento para grupos sociais que sofrem violência desde os princípios da civilização, e historicamente veem suas pautas serem preteridas em favor de diversas outras.

Posts Relacionados

2 Comentários

  • Responda
    Rafaela Vi
    1 de agosto de 2016 at 11:18

    Desculpa, caso não tenha entendido bem seu ponto ;D <3
    É difícil explicar o que sinto em apenas em um comentário… vou tentar ser direta.

    Essa questão de "feminilidade" e Mulher trans é algo bem complicado.
    Eu sou uma Mulher trans, eu ODEIO me depilar, queria utilizar o cabelo mais curto, e certos dias não tenho paciência para maquiagem…
    Porém, meu MEDO e Insegurança de acabar sendo confundida com um homem é maior, e acabo me forçando a seguir padrões de “feminilidade”…
    É comum pessoas levantarem esses pontos, principalmente sobre o fato de “deslegitimar Mulheres Cis que não são tão femininas”.

    Porém, imagine que a Transição é como uma Infância e Adolescência para a pessoa Trans.
    A gente comete muitos erros, nós não estamos imunes a pressão da sociedade para se encaixar em esteriótipos, o medo, a ansiedade, a tristeza, depressão…

    Nós temos que implorar para outras pessoas, todos os dia, para reconhecer nossa identidade.
    Não significa desconsiderar o sofrimento de Mulheres Cisgêneras ou forçar uma “feminilidade”….. é que realmente é algo complicado.

    • Responda
      Paloma
      24 de agosto de 2016 at 10:39

      Oi, Rafaela. Eu entendo seu ponto, e minha crítica não é para pessoas trans individualmente, é sobre uma questão mais ampla e a nível coletivo, entende? É mais do que o que um indivíduo ou outro faz ou deixa de fazer, é toda uma ideologia/concepção de gênero que vez por trás.
      Mas muito obrigada por vir aqui apresentar o seu lado. A caixa de comentários está sempre aberta.
      Beijos.

    Deixe uma resposta para Paloma Cancelar Comentário