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Representatividade LGBT em Sailor Moon

Sailor Moon é, sem sombra de dúvidas, minha série de anime e mangá favorita. Não apenas por ter sido a primeira produção japonesa com que tive contato, do alto dos meus sete anos de idade, mas por ser uma história que permaneceu comigo daquele momento até hoje. Naoko Takeuchi, a mente por trás de tudo o que Sailor Moon representa, não apenas colocou uma menina chorona e atrapalhada como a guerreira mais poderosa de todas, como também inovou ao apresentar um grupo inteiramente feminino de super-heroínas. Se fosse apenas isso, já estaríamos no lucro — lá nos idos de 1990! –, mas Naoko foi além e representou a sexualidade de suas heroínas de maneira delicada e verdadeira, sem fugir da realidade e diversidade que encontramos por aí, na vida real.

Talvez, à época, eu não tivesse ideia do quanto significava para outras pessoas se verem representadas em uma mídia animada. Não faço parte de nenhuma das siglas que compõem o LGBT, mas consigo entender, do alto de todos os meus privilégios, o quanto representatividade importa. Como mulher consigo dizer como me fazia falta encontrar uma personagem em quem pudesse me espelhar, portanto não consigo sequer mensurar como é não se ver representado em outros aspectos, principalmente naqueles que tangem a sexualidade — assunto tão tabu em nossa sociedade conservadora. Sair do padrão heteronormativo é rejeitar tudo aquilo que nossa sociedade impõe como o “correto” ou “tradicional”, fazendo com que as pessoas LGBT enfrentem muitos problemas e preconceitos, além de forte opressão por não se adequarem ao que “é esperado”.

Mas isso não acontece em Sailor Moon. Naoko Takeuchi teve o cuidado de inserir heroínas poderosas, chutadoras de bundas e com muito amor pra dar cujos relacionamentos não se prendiam ao padrão heterossexual. No cânone da série temos personagens lésbicas e gays, alguns até são héteros, mas os fãs são livres para shippar o casal que lhes agrada, criando inúmeras possibilidades de casais e nomes mesclados. Sailor Moon é reconhecida como uma série que abraça as diferenças com casais de todos os tipos, e um dos mais amados é formado por Michiru e Haruka, também conhecidas como Sailor Neptune e Sailor Uranus.

Michiru e Haruka aparecem pela primeira vez na terceira temporada do anime, Sailor Moon S, e no Ato 29 do mangá. Elas formam uma dupla misteriosa que não mede esforços para atingir seus objetivos — que, no caso, é impedir que a Sailor da destruição desperte e, bem, destrua o mundo — e isso faz com que as duas batam de frente com Sailor Moon e companhia. Enquanto essa face durona das guerreiras é mostrada, aos poucos vamos descobrindo o quanto uma é apaixonada pela outra — e como isso é lindo de se ver. Embora Michiru e Haruka nunca tenham se beijado no anime ou no mangá — isso aconteceu apenas no musical Sera Myu — é bem claro o tipo de relacionamento que elas têm. Mesmo que algumas versões da série transmitidas por aí tenham tentado apagar o romance entre Michiru e Haruka, trocando a dublagem para fazê-las parecerem primas (!), a fonte original, o mangá, não esconde o quanto elas se amam e fariam de tudo uma pela outra.

Uma das minhas coisas favoritas no mangá sobre o relacionamento de Michiru e Haruka é a maneira como tudo o que as envolve é delicado e verdadeiro, principalmente quando acabam criando uma família junto de Hotaru e Setsuna, Sailor Saturn e Sailor Pluto, respectivamente. Na história do mangá e na fase S do anime, por uma série de acontecimentos, as quatro ficam juntas e formam uma família totalmente fora do que é tido como convencional. Michiru e Haruka são um casal, mas Setsuna e Hotaru também fazem parte dessa família, o que demonstra apenas que não há padrão para o amor ou a felicidade. Enquanto Hotaru, uma criança, aprendeu a chamar Michiru e Setsuna como “mamãe”, Haruka, para ela, é “papai”. E não há nada de errado com isso. Toda a dinâmica dessa nova família é de deixar o coração quentinho e prova, mais uma vez, que amor é amor não importa que tipo de órgão sexual você tem entre as pernas.

Outros personagens que chamam a atenção da comunidade LGBT compõem as Sailor Starlights. O trio de sailors é formado por guerreiras — apenas mulheres podem ser sailors — mas que se transformam em homens quando chegam à Terra em busca da Princesa Kakyuu. Quando Seiya, Taiki e Yaten usam seus poderes para se transformar é possível ver seus corpos masculinos se transformando em femininos, o que se tornou em uma espécie de símbolo para as pessoas transsexuais. Embora as personagens não sejam, de fato, transsexuais, é impossível não enxergar o paralelo com essa comunidade, principalmente quando Usagi e companhia descobrem que os garotos por quem elas tinham uma queda eram, na realidade, mulheres. Em um primeiro momento elas se espantam para depois, com um pouco mais de calma, constatarem que o trio permanece o mesmo de sempre e que não realmente importa se eles são homens ou mulheres, mas as pessoas que elas são.

Ainda falando de Seiya, fica bem visível durante Sailor Moon que a personagem nutre sentimentos românticos por Usagi, assim como pela Princesa Kakyuu. A própria Usagi, inclusive, sente-se atraída por Seiya, da mesma forma como já se sentiu atraída por Haruka — apesar de que o amor da vida dela seja Mamoru. Usagi nunca é caracterizada como bissexual, mas o fandom vê muitas validações de que isso seja parte do cânone por conta das reações da garota durante toda a série como quando, por exemplo, ela decide apenas seguir e admirar a beleza de Rei, a Sailor Mars, no lugar de concluir sua missão ou se deixa envolver — e ser beijada! — por Haruka.

Mas não são apenas as heroínas dessa história pessoas LGBT – Sailor Moon também possui alguns vilões como, por exemplo, Kunzite e Zoisite, generais da Rainha Beryl, que são claramente homossexuais. Enquanto no mangá esses personagens não são gays — e basicamente são destinados a ser o par romântico de uma inner senshi –, no anime, na fase clássica, fica bem claro que eles se amam e se relacionam romanticamente. Se aqui Naoko Taukeuchi corria o risco de cair no clássico perfil dos “gays malvados”, isso não ocorre pelo simples fato de que é esse amor que os une, que os humaniza. Outro vilão que corria o risco de ser um estereótipo mal planejado é o Fish Eye (Olho de Peixe), que também é gay e muito bem desenhado e escrito por Naoko; Fish Eye não sente a menor vergonha de ser quem é e demonstra isso por meio de suas falas e ações, se vestindo da maneira que lhe agrada sem perder dois segundos do dia pensando sobre o que os outros vão achar. Desenhado como homem, Fish Eye poderia até mesmo entrar na categoria crossdresser, já que durante a fase Sailor Moon Super S do anime é possível vê-lo se vestindo com roupas femininas e usando maquiagem, e nada disso é feito, diferente do que se poderia pensar, como alívio cômico.

Por esses e tantos outros motivos, Sailor Moon permanece uma produção atemporal — ao mesmo tempo em que celebra as diferenças, consegue mostrar para jovens de todos os cantos do mundo que amor é amor não importa o quê. Sailor Moon segue espalhando a mensagem do amor e a importância de ser verdadeiro a si mesmo, ensinando, com muita sororidade e amizade, que o que interessa está no coração.

O dia 28 de junho é o Dia Internacional do Orgulho LGBT. Nessa mesma data, em 1969, lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e drag queens se uniram contra as batidas policiais que ocorriam com frequência no bar Stonewall-Inn, em Nova York. O episódio marcou a história do movimento LGBT, que continua lutando por direitos e visibilidade. Em homenagem à data, durante o mês de junho, portais nerds feministas se juntaram em uma ação coletiva para discutir de temas pertinentes à data e à cultura pop, trazendo análises, resenhas, entrevistas e críticas que tragam novas e instigantes reflexões e visões. São eles: Collant Sem Decote, Delirium Nerd, Valkirias, Momentum Saga, Nó de Oito, Ideias em Roxo, Preta, Nerd & Burning Hell, Séries por Elas, e o Prosa Livre.

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