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Queen of the South e a resiliência feminina

Alguns anos atrás, seria pouco provável que uma emissora de televisão comprasse a ideia de contar a história de uma mulher no mundo do tráfico de drogas. Alguns anos atrás, seria ainda menos provável que uma emissora de televisão comprasse a ideia de contar a história de uma anti-heroína. Ainda bem que os tempos são (quase) outros e agora podemos ter o prazer de acompanhar uma trama intrincada e ágil a respeito de uma mulher, sua ascensão e queda nesse mundo até então dominado apenas por homens – e não estou me referindo apenas ao tráfico de drogas, mas também ao mundo da televisão. Com Queen of the South chegamos a outro nível no que se refere a contar histórias de mulheres envolvidas com tramas, a princípio, “tão masculinas”.

Aviso: este texto contém spoilers!

Queen of the South começa quase como um conto de fadas, salvo as devidas proporções: era uma vez uma bela moça mexicana que vivia de trocar dólares em sua cidadezinha. Ela abordava estrangeiros e trocava as notas deles, tudo vigiada de perto por seu chefe. Até que em um dia ela se aproxima de um belo gringo loiro, ele a protege do chefe abusador e o resto é história. O belo gringo loiro é El Guero (Jon-Michael Ecker), um dos homens mais confiáveis do cartel de Don Epifanio Vargas (Joaquim de Almeida) e que está ganhando muito dinheiro com a venda de cocaína no México e nos Estados Unidos. A bela mexicana retirada de sua vida de pobreza e que pensa ter encontrado o príncipe encantado é Teresa Mendoza (Alice Braga). El Guero entra na vida de Teresa e, por um momento, a moça se sente segura e protegida por esse homem que a trata com carinho e a veste com todas as melhores roupas que o dinheiro (do tráfico) pode comprar. 

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Teresa Mendoza (Alice Braga) e El Guero (Jon-Michael Ecker)

Mas El Guero está brincando com fogo: ele e seu parceiro, Chino (Jean Paul San Pedro), estão juntos em um esquema que rouba milhões de Don Epifanio e é questão de tempo até que o chefão do cartel descubra toda a trama e decida que a melhor maneira de resolver a questão é matando os dois. Por isso El Guero deixa Teresa avisada, sem contar os detalhes de suas ações para a moça, de que ela deve estar sempre preparada para fugir caso chegue o dia em que ele não retorne para casa. O tempo passa e nada parece acontecer até que Teresa recebe a notícia, por meio de uma ligação, de que El Guero está morto. Dessa maneira a moça deve fugir e encontrar o caderno em que o namorado anotou informações valiosas a respeito de todas as transações do cartel e utilizá-lo para barganhar pela própria vida caso seja preciso. Teresa faz o necessário, correndo contra o tempo e fugindo de Sinaloa, no México, e salvando Brenda Parra (Justina Machado), esposa de Chino, e seu filho, mas não sem antes passar por uma perseguição alucinada e troca de tiros com os homens do cartel. 

Nesse ínterim as duas amigas acabam se separando: Teresa, sozinha no deserto mexicano, e Brenda, escondida com o filho assustado. E é aí que a força das duas personagens aparece. Ambas fazem o que é necessário para permanecerem vivas em um mundo de tráfico, corrupção e medo, até que consigam se reencontrar. Durante sua fuga Teresa acaba esbarrando em um ponto de mulas (pessoas que transportam drogas em seu corpo mediante pagamento ou coação) e acaba caindo na rede de tráfico de drogas de Camila Vargas (Veronica Falcón), esposa de Don Epifanio. Camila não está em bons termos com o marido e pretende ampliar sua rede de tráfico, baseada em Dallas, no estado norte-americano do Texas, e acabar com Don Epifanio no processo. Teresa sente que sua vida chegou ao fim quando descobre com quem está lidando, mas Camila vê na moça um trunfo contra o marido que ainda a procura implacavelmente desde que soube que Teresa e Brenda fugiram do México após o assassinato de seus respectivos parceiros. 

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Brenda Parra (Justina Machado) e seu filho Tony (Adolfo Alvarez)

Li em alguns sites internacionais que a trama de Queen of the South é uma mistura curiosa de ScarfaceNarcos e até Breaking Bad mas eu, na minha humilde posição de mera entusiasta da cultura pop, digo que a série consegue ir muito além das referências. Queen of the South, série da rede norte-americana USA – a mesma de Mr. Robot – é baseada no livro de mesmo título de Arturo Pérez-Reverte. O livro do autor espanhol já foi adaptado em formato de novela com 65 capítulos pela Telemundo dos Estados Unidos e, sob o tútlo de La Reina del Sur, alcançou um considerável sucesso. Sua equivalente em formato de série, Queen of the South, vem conseguindo bons índices de audiência e notas boas nos sites de serimaníacos como o TvShow Time e também no IMDb, e foi renovada para a segunda temporada antes mesmo do season finale da primeira ser exibido. No Brasil a série foi transmitida pelo canal Space e os episódios chegaram aqui quase ao mesmo tempo em que era lançados no exterior.

Pessoalmente, não assisto à muitas séries que lidem com crime em seu significado mais amplo. Geralmente dou preferência para dramas históricos ou fantasias sobrenaturais, então me surpreendi um bocado quando assisti Queen of the South e me peguei verdadeiramente interessada na trama. Além de ter uma história muito bem amarrada, a série é ótima ao colocar três personagens femininas em total evidência e em controle de suas ações. Em um mundo dominado por homens (novamente não estou falando apenas do tráfico de drogas) é sempre reconfortante encontrar personagens femininas bem escritas e com motivações verossímeis, que não são estereotipadas como a donzela em perigo ou a megera mal amada. Em Queen of the South temos mulheres fortes, inteligentes e que não medem esforços para conseguir o que desejam.

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Teresa Mendoza (Alice Braga)

E foi assim que fiquei fascinada pela série. Com a personagem principal, Teresa Mendoza, podemos acompanhar o crescimento de uma mulher que precisa fazer o possível para se manter viva e que só pode contar com seus instintos. Mesmo relacionando-se com El Guero, Teresa não desejava ser parte ativa em nenhum cartel, mas as circunstâncias a colocam em contato direto com esse mundo e ela se vê fazendo o necessário para continuar no jogo. Ao ganhar a confiança de Camila Vargas, Teresa percebe que sua nova realidade também pode ser benéfica para ela mesmo contra todas as probabilidades. A moça é corajosa, inteligente e tenta se manter fiel aos seus conceitos mesmo que esteja imersa em um mundo violento e corrupto. Não é fácil se manter a parte e Teresa precisa aprender a navegar nessa nova correnteza.

Na figura de Camila Vargas temos a impiedosa líder do cartel de Dallas mas que também é mãe e sente saudades de sua filha, Isabela (Sandy Valles), enquanto amarga um casamento que não funciona mais. Camila é a figura da mulher poderosa que não mede esforços para ser a melhor – mesmo que seu tipo de negócio não seja o dos mais corretos. Ela é inteligente, sabe manipular as pessoas para que façam aquilo que deseja e não se deixa abater diante das dificuldades – principalmente quando é seu próprio marido, Epifanio, quem cola as pedras em seu caminho. 

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Camila Vargas (Veronica Falcón)

Brenda, assim como Teresa, teve todo o mundo que conhecia retirado dela com o assassinato de seu marido e precisou fugir do jeito que podia com o filho para longe dos matadores do cartel. No lugar de ficar prostrada chorando a perda do marido e da estabilidade que ele lhe proporcionava, Brenda também vai à luta e encontra meios próprios para conseguir dinheiro – e como estamos falando de uma série sobre tráfico de drogas, é claro que a ideia dela seria relacionada a isso. Brenda começa a vender cocaína por conta própria e arruma dois caras para trabalhar para ela, tentando, inclusive, produzir metanfetamina em um quarto de hotel.

Mesmo que todas as três mulheres não estejam do lado da lei, não podemos negar que todas são empreendedoras e inteligentes e não ficam à mercê do destino, esperando para serem salvas. Embora Teresa tenha recebido ajuda de El Guero no início, quando ele a protege de seu chefe abusador, ao se encontrar sozinha a moça prova que tem força e capacidades suficientes para se reerguer. As mulheres de Queen of the South entram para a recente galeria de personagens femininas poderosas que não pestanejam quando o assunto é sobrevivência. Estão ao lado de Cersei Lanister (Lena Headey) de Game of Thrones, de Claire Underwood (Robin Wright) de House of Cards e de Annalise Keating (Viola Davis) de How to Get Away with Murder. Personagens femininas que fogem dos estereótipos e são aquilo que desejam ser.

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O futuro de Teresa Mendoza (Alice Braga)?

Com relação à primeira temporada, com apenas 13 episódios Queen of the South soube manejar uma trama interessante e instigante, com personagens femininas fortes, carismáticas e inteligentes. Mesmo que a série tenha, sim, derrapado em alguns momentos, o balanço geral de sua temporada de estréia é bastante positivo. Acompanhei com curiosidade e entusiasmo a trajetória de Teresa, sua luta para se manter viva e, ao que tudo indica, a escalada da personagem para se transformar na próxima rainha do tráfico. É interessante parar para pensar em como Teresa cresceu e foi desenvolvida plenamente como personagem com o passar dos episódios, é nítida a mudança de moça apaixonada e amedrontada para uma mulher que se coloca no comando de sua própria vida e decide seu destino sem pestanejar. Ela está se “acostumando”, de alguma maneira, com a violência desse mundo em que está inserida, e isso trará consequências para sua trajetória que, no momento, só podemos imaginar como será.

O que a próxima temporada nos reserva? Camila e Epifánio estão, definitivamente, em pé de guerra e Teresa tem, depois de muito tempo, o controle sobre a própria vida e informações que podem deixar esse jogo ainda mais perigoso. Não há previsão para o retorno de Queen of the South e, até lá, tempo para bolar teorias é o que não vai faltar. Enquanto isso, se você ainda não assistiu a série, fica a dica!

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