CINEMA

Que Horas Ela Volta? – o lado que ninguém quer ver

Que horas ela volta?

Quando falamos de mulheres no mercado de trabalho, é comum voltarmos nossos olhos para as chamadas “mulheres poderosas” – vulgo, aquelas que conseguiram de alguma forma ultrapassar o teto de vidro* e conseguir algum sucesso no mundo dos homens. Mas essa não é a realidade da maioria da população feminina. Ainda que as mulheres tenham começado a ocupar o espaço público e o mercado de trabalho, persiste a divisão sexual do trabalho que deixa sobre as suas costas também todo o trabalho doméstico. Algumas de fato acumulam as funções, enquanto outras fazem uso do seu privilégio econômico para contratar outras mulheres (em geral, pobres) para se encarregar dessas tarefas. É por isso que nessa semana dedicada ao trabalho, nós precisamos muito falar sobre Que Horas Ela Volta?.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres compões 94,2% do total de trabalhadores domésticos no Brasil, e apenas 36,1% desse grupo possui carteira assinada. O mesmo estudo demonstrou que 17% das mulheres inseridas no mercado de trabalho estão empregadas nesse setor. 59,1% das mulheres trabalhadoras domésticas são negras. Caso ainda houvesse dúvida, esses dados deixam muito claro que o trabalho doméstico é uma questão feminista, uma questão de classe, e também uma questão de raça.

Em Que Horas Ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert, nós acompanhamos a história de Val (Regina Casé), uma mulher nordestina que se mudou para São Paulo em busca de emprego, deixando para trás a filha Jéssica (Camila Márdila) ainda pequena. Em São Paulo, Val trabalha como empregada doméstica para uma família, cria Fabinho (Michel Joealsas), filho do casal para quem trabalha, e mora na casa dos empregadores. Como era muito comum e perfeitamente legal até a aprovação da Emenda Complementar nº 72, de 2013 (conhecida como “PEC das domésticas” e regulamentada em 2015 pela Lei Complementar nº 150, que finalmente garantiram às empregadas domésticas o acesso a direitos trabalhistas básicos), toda essa conjuntura significa que Val trabalhava 24 horas por dia, todos os dias da semana, em uma situação que guarda muitas similaridades com o trabalho realizado em outros tempos pelas mulheres negras escravizadas.

Que Horas Ela Volta? é um filme bom que não foi feito para ser um filme bom, foi feito para ser um filme doloroso, para jogar privilégios na cara e denunciar os preconceitos e o abismo que existe entre classes sociais no Brasil. Ainda que Val seja em algum nível uma figura materna para Fabinho, isso não o impede de explorá-la de várias formas. Com Bárbara (Karine Teles) e Carlos (Lourenço Mutarelli), a situação é ainda mais absurda: eles nem a reconhecem como um ser humano. O casal considera a empregada como um ser tão inferior que eles sequer se dão ao trabalho de conhecer a pessoa que vive sob o seu teto há mais de dez anos. É muito evidente que os dois enxergam a sociedade em camadas, e Val é, para todos os efeitos, inferior, indigna de sentar na mesma mesa que eles, impura. Literalmente impura, se lembrarmos da cena em que Bárbara manda trocar a água da piscina porque Jéssica esteve dentro dela.

Que horas ela volta?

Os patrões se consideram uma casta tão superior que ficam verdadeiramente surpresos ao descobrir que Jéssica pretende prestar vestibular para arquitetura. Eles se incomodam com a postura da moça, que tem consciência de que não é inferior a ninguém e se recura a agir como se fosse. É Jéssica que, quebrando os paradigmas profundamente enraizados na nossa cultura e no imaginário popular, ensina à mãe que ela é um ser humano tão válido quando qualquer outro e tem pleno direito de ocupar espaço no mundo.

Muito além da dominação econômica por si, a opressão de classe, assim como a de raça e a de sexo (opressões estruturais) se fundam sobre ideologias próprias que estão impregnadas não apenas nos sujeitos dominantes, mas também nos sujeitos dominados. Uma grande parte da dominação ocorre porque toda a sociedade está (conscientemente ou não) convicta de que é assim que as coisas são, “todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”. O processo de revolução surge justamente quando os grupos dominados adquirem consciência da dominação e se colocam, assim, em posição de lutar contra. A dificuldade disso tudo vem não só de instituições e grupos opressores determinados a manter seus privilégios, como também de barreiras internas dos grupos oprimidos nascidas de toda uma vida de condicionamento e socialização limitantes, barreiras essas que se manifestam de diversas formas, das mais sutis às mais extremas.

Que Horas Ela Volta? mostra, muito além de uma imagem claríssima da opressão, um quadro lindo dessa tomada de consciência por parte da Val do próprio valor como ser humano. Se, no começo do filme, ela fica horrorizada com o comportamento da filha, a personagem vai aos poucos realizando seus próprios pequenos atos de rebeldia (entrar na piscina, por exemplo), até que finalmente se dá conta que ela é grande demais para aquele quartinho onde esteve confinada todos aqueles anos e vai embora. Levando de volta o presente que deu à Bárbara em seu aniversário, simbolizando toda a dedicação e lealdade que entregou àquela família por tantos anos.

Que horas ela volta?

Ainda que tenha ganho pouco tempo de tela, a vida de Val depois de deixar o emprego na casa dos antigos patrões é mais clara. E é muito significativo que quando Jéssica pergunta o que ela vai fazer a seguir, ela declare que não vai mais trabalhar como empregada doméstica, ela não quer mais viver a desumanização que viveu durante tantos anos. Finalmente reconhecendo sua natureza humana, ela se viu pela primeira vez na posição de escolher o próprio futuro e decidir o que fazer a seguir. Ela continua pobre, mas desenvolve a capacidade de olhar em frente, ter sonhos e desejos, projetar um futuro, e essa é a maior marca do ser humano, o que verdadeiramente nos separa dos animais.

Que Horas Ela Volta? é um filme maravilhoso, complexo e cheio de nuances. Ele se propõe, e consegue, cumprir ao mesmo tempo duas funções muito diferentes: denunciar e exaltar. Já passou da hora de mulheres como Val saírem da invisibilidade e terem sua humanidade e valor plenamente reconhecidos. Ainda temos um longo caminho a trilhar nesse sentido enquanto sociedade, mas essa obra, com toda a repercussão e discussão que gerou, pode ser considerado um pequeno passo na direção certa.


* Do inglês glass ceiling, a expressão é usada para fazer referência à barreira invisível que impede que mulheres e pessoas de outras minorias ocupem cargos elevados.

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