CINEMA

O quarto de Jack, socialização e a desumanização da mulher

Hoje, 25 de novembro, é o Dia Nacional pela Não-Violência Contra a Mulher. Como todos os dias dedicados a algum grupo oprimido, essa data também tem uma história triste por trás. O dia 25 de novembro foi escolhido para representar essa luta em 1999, pela Organização das Nações Unidas, em homenagem às irmãs Pátria, Minerva e Maria Teresa, conhecidas como “Las Mariposas”, brutalmente assassinadas pelo ditador dominicano Rafael Leônidas Trujillo, em 1960.

No mundo inteiro, até hoje, nós somos diariamente abusadas, agredidas, violentadas, fora e dentro das nossas próprias casas. Milhões de meninas sofrem mutilação genital todos os dias, uma mulher é estuprada a cada 11 minutos no Brasil, mais da metade das mulheres no mundo já sofreram assédio sexual no local de trabalho. Um pequeno compilado da violência contra a mulher em números precisos (e assustadores) pode ser encontrado aqui.

Tudo isso acontece porque nós não somos ainda vistas como seres humanos. Nós somos qualquer outra coisa, sub-humanas, objetos que a vontade masculina pode subjugar e usar como bem entender. É isso que acontece em O Quarto de Jack.

O filme, adaptado do livro Quarto, de Emma Donoghue, que rendeu vários prêmios de melhor atriz para Brie Larson, intérprete da personagem principal Joy Newsome, é contado a partir da perspectiva de Jack (Jacob Tremblay). Jack é o filho de cinco anos de Joy, que nasceu em cativeiro fruto dos estupros recorrentes sofridos por sua mãe ao longo de anos.

O Quarto de Jack

A história de O Quarto de Jack representa muito bem a questão da objetificação da mulher. Simplesmente porque tem vontade, Old Nick (Sean Bridgers) se acha no direito de sequestrar Joy e mantê-la presa por anos em um quarto minúsculo sem contato nenhum com o mundo exterior. Porque ele pode, ele rouba a identidade e a vida dela sem um pingo de remorso e sem pensar duas vezes.

As pessoas têm o costume de chamar homens como Old Nick de doentes. Homens que mantêm mulheres presas, homens que sequestram, homens que estupram, homens pedófilos. Esses homens não são doentes, eles só levam um pouco mais além uma mentalidade que é socialmente aceita e amplamente difundida. Uma mentalidade que está, sim, dentro de todos os homens, porque é a partir disso que a sociedade se estrutura, é esse o princípio da socialização masculina: homens estão no seu direito de existir e fazer o que bem entenderem.

“Assim também, o mais medíocre dos homens julga-se um semideus diante das mulheres.” (Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo)

Essa mentalidade está aí nos comerciais de televisão que nos colocam seminuas como enfeite e objeto de comentários masculinos, está aí na bad word ografia que nos torna brinquedos sexuais masculinos, está aí na prostituição que permite que homens comprem nossos corpos e façam deles o que bem quiserem. Está aí também na socialização feminina, que nos ensina a estar sempre quietas e belas e obedientes, a sorrir e aceitar os “elogios” de estranhos na rua e ser simpáticas e dóceis, porque esse é o nosso papel (de objetos). Isso é ser mulher.

A violência contra a mulher é algo que está firmemente enraizado nas estruturas mais básicas da sociedade e nas nossas próprias criações, tanto femininas quanto masculinas.

Na parte seguinte do filme, depois que Joy traça um plano de fuga e consegue junto com Jack libertar os dois da prisão, começa uma saga completamente nova para Joy. Como reaprender a viver em um mundo que não é mais seguro como parecia? Como retomar o curso de uma vida que foi bruscamente interrompida, alterada, e agora não existe mais? Como aprender a conviver com todas as cicatrizes e lidar com um filho que é a lembrança eterna de tudo o que aconteceu?

O Quarto de Jack

São questões verdadeiras que fazem referência a todas as mulheres que já sofreram abuso e violência. Durante todos os anos de horror, a preocupação da personagem era manter a si e ao filho vivos, era resistir até o dia seguinte, encarar a violência normalizada no meio dos acontecimentos que formavam a rotina e tentar ao máximo afastar a consciência do que está acontecendo com ela– aquilo era sua vida, era o que ela tinha. A partir do momento que tudo isso acaba enquanto realidade material, vem a tarefa tão difícil quanto de assimilar tudo o que aconteceu, tudo o que aconteceu com ela – toda a raiva, toda a dor, toda a tristeza.

Não dá para desviver o que já aconteceu, não dá para escolher não ser mulher, não dá para prever a próxima coisa terrível que vai acontecer com uma de nós. E é por isso que o dia de hoje existe.

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Sites envolvidos nessa campanha:

Durante os 16 dias de ativismo, sites envoltos pelo #feminismonerd, se propuseram a discutir as problemáticas em torno da representação de mulheres como uma matriz que reitera os discursos de violência e ódio, quanto veículos que visibilizam a discussão. Sabemos que, apenas a exposição e discussões possibilitam o combate direto, a resolução e identificação do problema. Como reitera a escritora e teórica feminista Audre Lorde: “é preciso transformar o silêncio em linguagem e ação.”

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