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Problematizando Rory Gilmore: o revival

Quando ainda aguardávamos para saber por onde andaria Rory Gilmore (Alexis Bledel) em 2016, antes da estreia do revival de Gilmore Girls: A Year in the Life, fizemos questão de argumentar que a menina dos olhos de Stars Hollow passava longe de ser perfeita, mas que isso era ótimo. Ao contrário, Rory é complexa e, por isso, uma personagem muito humana. Desde lá, o revival veio e se foi e talvez nada nele tenha sido tão polêmico e discutido à exaustão quanto a caracterização da Gilmore mais jovem. Rory Gilmore é um monstro. Rory Gilmore é um desastre. Rory Gilmore nunca se tornou uma adulta. Rory Gilmore é… complicada.

Atenção: este texto contém spoilers de todos os episódios de A Year in the Life.

Antes da chegada do revival, Amy Sherman-Palladino queria que nos perguntássemos para que jornal Rory estaria trabalhando e se ela já tinha um Pulitzer no currículo. O primeiro episódio, “Inverno”, vem para quebrar muitas das expectativas em torno da trajetória da personagem, já que ela não poderia estar mais longe disso. Rory não tem emprego fixo, sua maior realização profissional é a publicação de um artigo na New Yorker – reproduzido no menu do Luke’s – e o que ela está fazendo é trabalhar em um livro de memórias de uma celebridade britânica excêntrica, um trabalho que chega ao fim antes mesmo de começar. Ela termina a série original recém-graduada em Yale e trabalhando como jornalista do então pré-candidato democrata à presidência dos Estados Unidos, Barack Obama (2007, bons tempos), e embora não esteja com a vida inteira no lugar (Logan, interpretado por Matt Czurchy, termina o relacionamento de três anos após Rory rejeitar seu pedido – público – de casamento e seu trabalho, embora interessante, tem data certa para terminar), ver Rory correr atrás de seus sonhos, com um trabalho em seu campo de interesse – jornalismo político – depois de toda a crise pela qual ela passou entre a quinta e a sexta temporada da série, soa um tanto promissor.

revival vem para desiludir um pouco todo mundo que enxergava em Rory um modelo a ser seguido. O ano em que se passa A Year in the Life, na vida da garota Gilmore mais jovem, a deixa se sentindo cada vez mais perdida e incerta quanto ao futuro. Em um único ano, ela perde a proposta do livro, tem sua entrevista com a Condé Nast adiada diversas vezes, joga fora uma pauta porque acha desinteressante e chega completamente despreparada para uma entrevista num site sobre comportamento que ela desprezava completamente, só para ser ela mesma desprezada em seguida. Rory acaba voltando para a casa da mãe em Stars Hollow, mas passa o verão inteiro respondendo que não está de volta para todo mundo que deseja a ela as boas-vindas, como se estar de volta fosse, de algum modo, um atestado de fracasso.

Na vida pessoal, a coisa não parece muito melhor. Rory aparentemente tem um namorado, Paul (Jack Carpenter), tão desinteressante para a família toda que nenhum deles – incluindo a própria Rory – parece lembrar de sua existência. Paul não é um personagem, é uma piada recorrente ao longo dos quatro episódios, de modo que Rory convenientemente esquece de terminar com ele, achando mais fácil simplesmente ter um caso com Logan. O caso é um dos pontos mais complicados de todo o revival: não só Rory está traindo o namorado como, viemos a descobrir mais tarde, Logan também tem uma noiva em algum outro lugar da Europa; uma noiva que nunca ganha um rosto, quiçá a chance de se tornar uma personagem relevante dentro da história. É irônico que, no passado, a própria Rory tenha passado por situações muito similares: primeiro com Dean (Jared Padalecki) e Lindsay (Arielle Kebbel), aos dezenove anos; depois, com o próprio Logan de quem ela não consegue abrir mão. Nada disso, no entanto, faz com que Rory nutra qualquer tipo de empatia em relação a Odette, a noiva que jamais nos é apresentada – Odette não é uma personagem, afinal, é um impedimento. O fato dela não ter um rosto no revival não parece obra do acaso, mas a escolha intencional de uma produção que busca tornar a situação menos grave do que realmente é, passando a mensagem distorcida de que o centro do enredo é o relacionamento de Rory e Logan e o resto são apenas detalhes; como se Paul e Odette não fossem pessoas de verdade, complexas como qualquer ser humano e repletas de sentimentos, que merecem ser tratadas com respeito independente do papel que desempenham na vida de outras pessoas, mas como meros acessórios narrativos.

Novamente, Rory assume o seu lado mais egoísta, alguém totalmente incapaz de pensar em qualquer outra pessoa além de si mesma. É a mesma personagem que, no passado, se envolveu com um homem casado sem nem pensar duas vezes, que nunca foi capaz de reconhecer os próprios privilégios e que sempre se achou superior, embora nem sempre o dissesse com todas as letras. Aos 32 anos, Rory não parece ter aprendido absolutamente nada com suas experiências anteriores. É uma ruptura radical com a adolescente e a jovem adulta que ela fora no passado, e que tanto se esforçava para ser perfeita, correspondendo à expectativa que lhe era, de um jeito ou de outro, imposta. Contudo, em 2016, Rory não é mais a menina dos olhos de Stars Hollow, não é mais a jovem jornalista com uma carreira promissora pela frente, que sonhava em ser como  Christiane Amanpour, e também não é mais a jovem boa demais para todos os caras que passaram pela sua vida: quase dez anos se passaram desde que ela era essa pessoa e dez anos são mais do que suficientes para mudar uma vida inteira.

Seria lindo se não fosse trágico.

Ao longo da série clássica de Gilmore Girls, Rory nos deu provas suficientes de que estava longe da imagem que a desumanizava em tempo integral: como qualquer pessoa formando a própria identidade e com um mundo de possibilidades pela frente, Rory metia os pés pelas mãos, tomava decisões equivocadas e se frustrava com a vida que nem sempre acontecia como ela esperava. Mas isso não a transformava numa pessoa ruim, muito pelo contrário: como a jovem mulher complexa que era, Rory possuía muitas nuances, e nunca se limitava a ser uma coisa só. Ela era a mocinha de sua própria história, a heroína bondosa, inteligente e compreensiva que todos amavam, a moça que tirava as melhores notas, que nunca deu trabalho para os pais e que tinha um futuro promissor inteiro nas mãos, mas ela também que podia ser a vilã na vida de outra pessoa – como acontece, por exemplo, com Lindsay –, a menina mimada que só pensa em si mesma, incapaz de aceitar que a vida não lhe deve favor algum. Ao mesmo tempo, Rory se equilibrava na linha tênue entre ser ela mesma e ser aquilo que era esperado que ela fosse. Diferente de muitas adolescentes que negam veementemente a imagem que é projetada nelas, indo ao extremo oposto, Rory aceitava essa imagem, basicamente aquilo que sua mãe, seus avós, seu pai, Luke (Scott Patterson) e toda a cidade queriam que ela fosse, mesmo quando isso não era exatamente o que ela queria, mesmo quando a própria Rory ameaçava mudar de opinião.

A sexta temporada da série clássica é essencial nesse sentido porque apresenta uma Rory que está muito longe de ser perfeita. Ela rouba um barco, briga com a mãe, abandona a faculdade e é condenada a prestar serviço comunitário, mas é justamente nesse momento que Rory quebra todas as expectativas – dos outros, mas as suas próprias também. Quase dez anos depois, ela ainda precisa lidar com a quebra de expectativas, mas a frustração dessa vez é muito mais sua do que de qualquer outra pessoa. Sua vida deu uma volta de 360º graus: ela rodou o mundo, escreveu artigos, conheceu e se envolveu com muitas pessoas, mas curiosamente volta ao mesmo lugar. Contudo, aos 32 anos, estar de volta ao ponto de partida não é o ideal e Rory sabe disso, assim como todas as pessoas ao seu redor. Embora relute em admitir seu suposto fracasso e tenha profunda dificuldade em lidar com ele, Rory sabe que sua vida está muito distante de ser aquilo que ela esperou que fosse aos 22 anos. A diferença é que, ao invés de tentar amadurecer e evoluir enquanto pessoa, ela continua sendo a mesma Rory imatura e presunçosa de sempre, que acredita que o mundo lhe deve um futuro especial just because.

Com esse e tantos outros erros recorrentes na série, o casal Palladino parece estar subestimando a nossa capacidade de julgamento, devidamente evoluída ao longo dos anos. Não é porque a nossa geração está com dificuldades para se firmar sobre os dois pés no mundo que não sabemos o que está acontecendo nele e não temos uma opinião crítica formada. O que nos traz rapidamente à questão da “gangue dos trinta e poucos” e dos millennials serem utilizados como mais um alívio cômico na série, sendo representados como pessoas que abraçaram o seu fracasso e passam o dia reunidos tomando milkshake. Na verdade, pessoas em sua sã consciência que retornam aos quartos de infância no mínimo passam noites insones pensando em formas de restabelecer a própria vida – o que é exatamente aquilo que Rory faz, mas que na série é mostrado como um comportamento excepcional ao invés de corriqueiro. Embora seja difícil levá-la a sério diante de sua constante negação sobre não estar de volta a Stars Hollow, o que ela realmente quer dizer é que não quer se considerar de volta para não se dar por vencida. Ou seja, em parte, julgar o novo caráter da Rory por essa fala foi uma questão de semântica.

Ter aceitado assumir o comando do Stars Hollow Gazette foi o meio (desesperado) que ela encontrou de ocupar seu tempo de uma maneira que ainda se mantivesse conectada com o jornalismo – ainda que os cidadãos só estejam preocupados no poema de cada estação na primeira página. Quando decide começar a escrever um livro sobre sua relação com a mãe, por sugestão de Jess (Milo Ventimiglia), Rory parece ter encontrado seu verdadeiro projeto. No entanto, embora essa novidade tenha sido positiva para sua perspectiva profissional, a discussão que posteriormente tem com Lorelai (Lauren Graham) por conta da preocupação fundamentada dela em relação à exposição de sua vida, e a reação de Rory em não respeitar o argumento da mãe, levanta questões sobre o egoísmo ainda latente em sua personalidade. É compreensível que Rory se agarre à ideia do livro, já que, em meio a sua grande crise profissional, ela chega de presente, e passa a funcionar como um norte para a personagem. A história das garotas Gilmore pertence às duas, é claro, mas Rory parece nem ao menos ter levado em consideração o fato de que contá-la implicaria inevitavelmente expor sua mãe. Rory não é um monstro por isso, é claro. São tempos desesperados para ela (obviamente na visão de mundo dela, que ainda tem um bom lugar para morar e meios de viajar por aí a torto e a direito). Quem realmente consegue julgá-la com tanta facilidade? Quem abriria mão de um plano que parece tão concreto, real e executável, quando não se tem mais nada? Mas é a incapacidade de Rory de estender o mínimo de empatia à própria mãe, seu quase ultraje diante da exposição do ponto de vista dela, o fato de ela simplesmente não conversar com Lorelai antes de levar o projeto adiante que causa tanto incômodo.

O que vemos em Rory ao longo do revival, e o que incomoda, é a presunção de que ela merece certas coisas simplesmente porque sim. De que ela tem o direito de contar a história das Gilmore porque é uma vida interessante e isso pode ajudá-la a encontrar um caminho. De que ela pode simplesmente aparecer para uma entrevista de emprego completamente despreparada porque a chefe do lugar demonstrou interesse em seu trabalho (certo, muito interesse, se estamos sendo justas). Rory tem todo o direito de acreditar que pode fazer algo melhor do que trabalhar em um site de comportamento – apresentando uma visão bastante conservadora, por sinal, a respeito do que significa ser uma Profissional de Verdade™. Rory também tem todo o direito de achar uma pauta sobre pessoas que ficam em filas para experimentar as novidades das quais todo mundo está falando é desinteressante. Mas a escolha dela de desprezar as duas coisas como inferiores a ela é profundamente incômoda, porque soa como se Rory ainda acreditasse naquela versão dos fatos que lhe venderam quando ela ainda era uma menina, de que ela era especial, boa demais, a mais inteligente, a melhor entre seus pares – e tudo que ela aprendeu com seu infeliz estágio com Mitchum Huntzberger (Gregg Henry) parece, quando assistimos ao revival, não ter servido para absolutamente nada em seu arco narrativo. A Rory adolescente, aquela que conseguiu falar sobre a repavimentação do estacionamento de Chilton de uma maneira tocante e profunda – ou ao menos foi isso que nos garantiu sua professora –, parecia muito mais disposta a tentar, algo que a nova Rory se acha boa demais para fazer.

Rory Gilmore em: uma aula de como não agir em uma entrevista.

Rory Gilmore em: uma aula de como não agir em uma entrevista de emprego.

Ao concluir o revival, fica difícil compreender o que Amy Sherman-Palladino estava tentando fazer com Rory. Em uma entrevista concedida à Vogue, ela declarou que deu à personagem esse rumo complicado porque parecia muito verdadeiro para ela.

“Tive amigos na faculdade que se sustentavam e tinham dois empregos. [As pessoas de trinta e poucos anos] não fazem mais isso. Há um monte de filhos voltando para casa e ficando com os pais depois da faculdade, guardando dinheiro para comprar um apartamento. […] São filhos que têm todos os benefícios – eles tiveram ótima instrução e pais que os apoiaram, mas às vezes acho que apoiaram um pouquinho demais. Às vezes você tem que colocar alguém para fora e dizer ‘Se candidate na Starbucks, querida, não ligo se você tem mestrado. Vá trabalhar, é o que o mundo faz’ (tradução nossa).”

Fica difícil entender se os Palladino escolheram sacrificar a personagem em nome de uma crítica social mal-ajambrada à geração seguinte à sua, ou, porque entre o final da série clássica e o revival se passaram muitos anos, decidiram que a visão do público sobre Rory ainda era extremamente idealizada e queriam apenas dizer que ela é apenas humana e, enquanto humana, comete erros como todos nós. Mas, independente de qual tenha sido a intenção, ainda é um tiro que sai pela culatra, uma tentativa mal costurada de fazer duas coisas e não conseguir, de fato, executar nenhuma de forma coerente. Se somos convidados a entender e sentir simpatia por Rory, uma personagem que deve ser vista como uma humana imperfeita que comete erros e não tem a vida inteira no lugar aos 30 anos de idade, por que transformar em alívio cômico a tal “gangue dos trinta e poucos”, que não tem nenhum motivo real para existir? Por que continuar colocando a personagem nessa espécie de pedestal, como se seus conflitos fossem muito maiores, muito mais complexos do que os sentimentos de uma porção de outras pessoas que se encontram na mesma situação?

Problematizar (ou não problematizar) a Rory Gilmore que vemos em sua aparição mais recente é uma tarefa difícil porque a verdade é que analisar o revival criticamente é uma tarefa complicada e um pouco ingrata. Os Palladino parecem nunca ter aceitado sua saída prematura da série ou a conclusão dada a ela na sétima temporada sem que eles estivessem envolvidos, assim como parecem não ter aceitado a realidade de que quase dez anos se passaram entre o cancelamento de Gilmore Girls e sua chance de revivê-la segundo seus próprios critérios. A impressão que fica, inclusive quando olhamos para além de Rory (para o fato de Lorelai e Luke, por exemplo, simplesmente não terem discutido casamento e filhos ao longo de praticamente uma década inteira), é a de que os Palladino optaram por escrever uma história que não parou no tempo em teoria – porque ele deixou sua marca em todo o elenco, afinal –, mas na prática, sim. A história das Gilmore é deles, é claro, e eles tinham o direito de fazer o que quisessem com ela. Mas a maneira como parecem ter encarado as voltas que a vida às vezes dá nos parece bastante imatura, contrariando as bases em que se apoiava a própria obra. Nesse sentido, chega a ser quase irônico vê-los transformando em piada a suposta imaturidade de uma geração inteira. Provavelmente não por acaso, é ao mostrar as Gilmore lidando com a morte de Richard (Edward Hermann), um ponto do roteiro que foi obrigado a desviar de sejam lá quais eram os planos iniciais dos Palladino para ele, que o revival realmente brilhou. Mas, quando o roteiro falha desde sua origem, fica difícil olhar para Rory de um jeito definitivo .

Rory Gilmore continua sendo a personagem humana e complexa de sempre, mas dez anos depois, talvez ela já não seja mais a mulher com quem nos identificamos tantos anos – ou nem tantos assim – atrás; a menina que nos inspirava de uma forma profunda como apenas personagens muito bem construídas e coerentes dentro de sua própria trajetória conseguem fazer. Para o bem e para o mal, Rory Gilmore cresceu, tornou-se uma mulher que está muito distante daquilo que imaginamos, mas isso não a transforma automaticamente num monstro. A vida não é uma lâmpada mágica com um gênio pronto para satisfazer todos os nossos desejos, e Rory aprendeu isso da maneira mais difícil. No entanto, ao tratá-la novamente como um floco de neve, Gilmore Girls: A Year in the Life constrói uma visão reducionista de toda uma geração, desconsiderando o fato de que os jovens privilegiados que tiveram uma ótima educação e apoio constante dos pais não são apenas pessoas mimadas que se sentem boas demais para qualquer coisa que não o emprego do sonhos, e que por trás das frustrações existe um mundo inteiro de expectativas e pressões que não existem no vácuo – e enquanto essas questões forem ignoradas, fica difícil imaginar um futuro para Rory que não seja repleto de escuridão e alguns dragões.

Texto escrito em parceria por Ana Luíza, Fernanda e Yuu.

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